O Retorno do Monstro

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1

A lua foi tomada por um eclipse... E, dramaticamente, um nevoeiro tomou conta do bosque. Aline Bolton, trajando roupas íntimas, corria atônita pelo bosque, tateando os troncos das árvores. A sua única esperança era seguir bosque adentro na busca por ajuda, pois acreditava fielmente que haveria alguém para ajudá-la em algum lugar daquela imensidão de folhas secas, lama e salgueiros decrépitos. A pobre moça estava sendo perseguida por uma criatura terrível, uma criatura que persistia em seu encalço há algum tempo. As pernas de Aline estremeceram e uma sensação de desespero e angústia tomou-a por completo.

"Por quanto tempo irei fugir?"

"E fugindo do quê? Quem é meu algoz?"

Ela não fazia questão de olhar para trás, pois o medo a impedia de tal ato. Aline tinha conhecimento de que o medo era o sentimento mais alarmante e abominável que um ser humano poderia sentir. De repente, ela ficou imóvel e veio à sensação de Déjà vu. Tudo já acontecera antes — à noite no bosque, a perseguição intensa, e o monstro — Por favor, não, tudo de novo, não — ela gritou. A brisa noturna a atingiu, produzindo-lhe arrepios na espinha. Aline estava paralisada e ciente do que iria acontecer nos próximos segundos — É o fim, vou morrer!

O monstro adiantou-se para atacá-la — suas garras eram abomináveis como lâminas afiadas. O denso nevoeiro a impediu de visualizar a criatura por completo, ela somente via o olhar acinzentado e possessivo do monstro e sentia as grandes garras daquela figura terrificante rasgando seu corpo lentamente. Contudo, ela não sangrava. Ela só sentia dor. — Não, por favor, pare. Não faça isso comigo — gritou Aline, cruzando os braços na frente do corpo no intuito de impedir as garras do monstro de rasgarem seu coração. A dor era insuportável. — Deixe-me em paz, maldito! Por que você voltou? — Ela sentiu as garras perfurarem seu corpo, dilacerando suas vísceras. E tudo escureceu...

Aline despertou em soluços, abraçando seu corpo nu. Foi somente um terrível pesadelo. Novamente aquele pesadelo. Esse monstro deve desaparecer, meditou ela. Um pouco tonta, ela levantou-se, vestiu suas roupas e, pensativa sobre qual seria seu próximo passo, saiu daquele hotel.

2

— Não ver que estou velho de mais para isso. Mesmo se eu quisesse ir ver essa "coisa" que a senhora chama de comédia, não saberia nem me comportar nesse lugar — ponderou Gregório Goulart, levando a garrafa de cerveja aos lábios e tomando um gole. Nos últimos anos sua vida tinha sido um porre, e a culpa disto, na opinião dele, era somente de uma mulher, uma jovem mulher que acabara com sua vida.

— Ah, meu filho, o teatro não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Sou uma mulher já de idade e viúva, então, é compreensível que você, sendo meu único parente, me acompanhe aos eventos públicos. Então, vá se arrumar! Levante a bunda desta cadeira e, pelo menos uma vez na vida, sirva de companhia para sua tia-avó — disse ela com veemência.

Ele torceu um bico, descontente.

Sua tia-avó o fuzilou com o olhar.

— Passe lá em casa a partir das sete.

— Tudo bem.

E sua tia-avó foi embora dizendo — E, pelo amor de Deus, olha essa sujeira toda, antes de passar lá em casa, ajeite está espelunca que você chama de casa.

Um dia, espero ter a possibilidade de sumir pelo mundo sem me preocupar em dizer nada a ninguém, desejou Gregório, levando a garrafa de cerveja aos lábios e tomando mais um gole.

Ao chegarem ao Teatro Municipal, Gregório Goulart acomodou-se no assento ao lado de sua tia-avó e aguardou alguns minutos. Era a primeira vez que ele vinha a um teatro — as pessoas ao redor falavam que seria um monólogo — ele não fazia a menor ideia do que era um monólogo, sentia-se desconfortável naquele ambiente.

De repente, a linda e magnífica atriz entrou em cena e arrancou risos da platéia. Gregório não conseguia sorrir, estava ansioso e tenso, ele percebeu algo de familiar naquela atriz.

Sim, ele conhecia aquele olhar.

— É ela...? — indagou-se num resmungo.

Sua tia-avó fez um sinal para silenciá-lo.

Gregório sossegou, mas continuou a observar a atriz. Havia determinação e a audácia latentes naquele olhar persuasivo para com a plateia. Sim, agora sim, pensou ele. Lembrava-se dela de épocas passadas. Gregório Goulart pensou nas possibilidades que aquele reencontro poderia resultar e viu a oportunidade de mudar de vida surgir diante dos seus olhos. Ao término do espetáculo, ele deixou um bilhete no camarim da atriz.

3

Com vinte e oito anos, Aline Bolton era uma atriz de renome no teatro e nos últimos dois dias estava realmente em apuros. Ela sabia que tudo que era bom durava pouco, mas não precisava ser tão rápido assim. As lembranças de um passado distante voltaram — um monstro adormecido despertou das cinzas como uma fênix avassaladora — não conseguia dormir em paz, pois, ao fechar os olhos, um terrível pesadelo sempre a consumia.

Após passar a noite num hotel qualquer da cidade, Aline decidiu parar de fugir do seu monstro de uma vez por todas. Estava decidida a acabar com aquele jogo de chantagem. Aline compreendeu que fugir, na situação em que se encontrava, era uma idéia estúpida — Ora, isso é patético. Uma tola ameaça fez a grande Aline Bolton correr como um patinho indefeso? — pensou ela.

Claro, ela precisava usar sua inteligência e determinação para virar a mesa, reverter à situação com glamour e classe. Aline não iria permitir que um bilhete medíocre destruísse seu império, então, formulou um plano e telefonou para seu agente e marcou um encontro que iria por fim em toda aquela desventura.

— Desculpe por ter sumido, Davi — disse ao celular — tive que me ausentar, precisava pensar sobre aquela ameaça com cautela, na verdade, tentei fugir, mas só acabei tendo pesadelos terríveis. Não se preocupe, estou pronta para voltar, mas antes preciso que você faça algo por mim. Sabe aquela moça que andou no meu camarim tempos atrás? Aquela mesma que sonhava em trabalhar comigo. Entre em contato com ela, preciso saber se ela é mesmo boa no que faz. E localize aquele maldito, sim, Gregório Goulart, peça para ele ir ao meu apartamento amanhã, não se preocupe, apenas diga que pagarei tudo o que ele pedir!

4

Davi Hollow, agente publicitário e grande amigo de Aline, localizou Gregório Goulart e logo depois entrou em contato com Patrícia Mendes.

Davi estava preocupado com a repercussão dos últimos acontecimentos na vida de Aline. Ele pensou: Pagar tudo que ele pedir? Não acredito que a grande Aline Bolton vai ceder à ameaça daquele imbecil.

Nesse instante, dentro de um táxi, indo para um Cyber Café no centro-oeste da cidade, com o objetivo de se encontrar com Patrícia Mendes, ele se lembrou da terrível noite no camarim.

— Aline, algum problema? — questionou Davi, após o espetáculo.

Aline deu o bilhete a ele, chorando. — Leia isso, Davi. Oh, Deus, o passado voltou para me atormentar. Por quê? Estava indo tudo tão bem. Porque o destino resolveu aprontar comigo agora, Davi? Não, não posso ficar submissa a uma chantagem desse tipo. Mesmo que quisesse pagar, não teria todo esse dinheiro. São tolos aqueles que acham que só porque temos uma vida de fama, vivemos cobertos de dinheiro.

— Isso é chantagem. O tal Gregório além de não saber escrever muito bem, colocou o endereço para que você entre em contato com ele — disse Davi.

— Jamais. Oh, já sei o que vou fazer. Uma atitude desesperada, claro, mas não consigo pensar em outra, sumirei por alguns dias.

Davi, após ler o bilhete, a fitou nos olhos e disse: "Quem é Pámela Lopes?"

— Alguém que deveria está morta, Davi. Mas é evidente que, por crueldade do destino, ela acabou ressurgindo. Pámela Lopes pertenceu a um passado distante dentro da minha vida. Como fui tola, quando jovem. Na busca por meu sonho de ser uma grande atriz, acabei me iludindo por promessas de homens maus e eles apenas me usavam como um objeto qualquer. Compreendes o que estou dizendo?

Davi ficou com o semblante sombrio.

— Negue tudo, Aline. De toda a forma, isso é calunia! Esse homem não pode te ameaçar dessa maneira e ainda pedir essa fortuna.

Aline meneou a cabeça, negativamente.

— Mesmo se eu negar, Davi, já será um alvoroço se Gregório contar essa história para a imprensa. Você sabe como são alguns jornalistas deste país, não é? "Serão urubus na carniça". O maldito quer colocar a boca no trombone, quer dizer ao mundo todo que no passado eu era uma mulher da vida. Meu passado me condena, será realmente terrível para minha carreira se todos souberem do meu passado, com certeza serei estigmatizada. Pensei que esse monstro havia desaparecido, contudo, ele está de volta para me atormentar. Mas eu irei desaparecer, fugirei para longe, onde nem mesmo o maldito Gregório me encontrará.

Aline tirou o bilhete das mãos de Davi, o amassou na forma de uma pequena e horrorosa bolinha e o jogou na lata de lixo do camarim.

Ela saiu correndo do teatro, mas antes de atravessar a porta pôde ouvir os gritos do seu agente publicitário: "Fugir não vai mudar nada! Enfrente seu monstro, Aline!"

Aline pegou um táxi e hospedou-se num hotel, ao leste da cidade; ela pensou que estava segura, mas, mesmo lá, o monstro invadiu seus sonhos e naquele momento ela compreendeu que tentar fugir não mudaria nada.

Davi Hollow estava certo. Aline Bolton não iria permitir que um passado distante derrubasse tudo que ela construiu ao longo dos anos com tanto esforço.

5

Gregório Goulart tinha uma vida sedentária. Com uns 50 anos, tratava-se de um homenzinho gordo e rabugento, de olhos acinzentados, que vivia à custa da tia-avó numa casinha na periferia da cidade. Contudo, quando era mais jovem teve muitas mulheres a seus pés, já que era dono de um cabaré, forjado de Casa Dançante, onde preparou garotas belas e jovens para uma vida de devassidão.

Bons tempos aqueles — pensou ele.

Gregório passava os dias bebendo e tendo relações com muitas garotas — era uma vida de dinheiro fácil, mas a vida de "cafetão" não durou por muito tempo devido a uma linda e esperta garota chamada Pámela. Ela atiçou todas as moças do cabaré contra Gregório — foi um motim arquitetado com maestria. E todas elas foram embora, deixando-o para apodrecer na sarjeta. As palavras de Pámela até hoje estavam esculpidas na memória dele. Enquanto as moças permaneciam ao lado dela, ela dizia: "Nós é que escolhemos o que fazer com o nosso corpo, maldito. Adeus!" Foi o fim. Gregório prometeu vingança e jamais se esqueceu do rosto da mulher que acabara com sua vida.

Pámela Lopes era Aline Bolton. Naquele dia, no Teatro Municipal, ele a reconheceu e agora ela estava comendo na mão dele. Uma hora atrás, o agente publicitário, Davi Hollow, entrou em contato e disse que Aline Bolton pagaria tudo em troca do silêncio. O agente passou o endereço onde seria feito o pagamento e pediu que Gregório fosse sozinho.

Minha vida vai mudar, pensou Gregório.

6

Como combinado, lá estava ele. Gregório Goulart notou que a porta estava aberta e entrou. O apartamento de Aline Bolton era colossal. O interior era ornamentado por móveis exuberantes, lustres extraordinários, quadros de arte e esculturas de acrílico; tudo ali, posicionado em diversos lugares, ostentava um charme peculiar.

— Alguém em casa? Pámela...?

Ele escutou ruídos e andou na direção do barulho. Primeiro o grito de uma mulher e o som de um tiro, seguido da batida de uma porta, e, logo depois, uma empregada desajeitada surgiu na sala de estar. A empregada trajava um uniforme de cor rosa e uma toca espalhafatosa na cabeça, no rosto usava uma maquiagem horrenda e nas mãos carregava um revólver.

— Estou aqui a pedido de sua patroa... — disse ele, tenso, tentando se explicar.

— Sim, meu senhor, eu cansei de ser escrava. Livre-se da pistola — ponderou a empregada sem titubear, entregando-lhe o revólver sujo de sangue.

— Mas o que está acontecendo aqui? — indagou Gregório. Mas a empregada não deu atenção e saiu do apartamento às pressas. Ele continuou segurando o revólver por alguns segundos, atônito. Gregório andou até a porta entreaberta de onde, segundos atrás, os barulhos ecoaram e tentou compreender o que estava acontecendo dentro daquele apartamento.

Atravessou a porta e adentrou num pequeno quarto de hóspede. Havia sangue nos lençóis da cama e um corpo inerte com um buraco de bala na testa.

— Oh, não... Pámela...? — ele choramingou.

Estou perdido! Era a atriz Aline Bolton, assassinada pela própria empregada. E Gregório estava segurando a arma do crime. Ele largou o revólver, agora marcado com suas digitais e tomou uma atitude desesperada. Saiu correndo como um louco, fazendo o possível para não ser visto por ninguém, e desapareceu em meio à multidão na estação de metrô mais próxima. Já tinha ficha na polícia por posse ilegal de arma, mais um delito, sem dúvida, iria para a prisão, então, teria que sumir — desaparecer sem deixar rastros, nada que pudesse incriminá-lo, ninguém deveria saber nem mesmo sua própria tia-avó.

7

Dez minutos mais tarde, tirando a toca espalhafatosa e removendo a maquiagem pesada do rosto, Patrícia Mendes entrou no apartamento novamente e foi até o quarto de hóspede. Aline Bolton ainda estava sobre o efeito da morfina. Patrícia, prudente, começou a limpar a maquiagem mortífera do rosto de Aline.

— Como foi? — indagou Aline, ao acordar.

— Melhor do que a encomenda — disse Patrícia, risonha. — Você certamente daria tudo para ter visto a cara com que ele saiu daqui. Se for um homem esperto temerá a polícia com certeza e sumirá para sempre.

Aline riu. — Ótimo. Como eu imaginei. A cilada só funcionaria se fosse realmente feita por duas atrizes excepcionais. Não quis envolver minha empregada nessa história, ainda bem que você estava disponível. Agradeço sua ajuda. E não se preocupe, não demorarei a depositar o valor que combinamos.

Davi Hollow entrou no quarto de supetão com alguns papéis em mãos. — Espero que tudo tenha ocorrido como vocês planejaram. Tenho que dizer que adorei a ideia, mas fiquei receoso. Que bom que tudo deu certo. E como solicitado... aqui está seu novo nome artístico.

Patrícia Mendes estancou. — Novo nome?

— Sim, agora sou a grande Pámela Lopes. Sim, eu sei, não é um nome tão novo assim, não é? E também, para Gregório, Aline Bolton está morta e assim deve permanecer.

— Entendo — disse Patrícia.

E houve um silêncio rápido.

— Ah, agora me deem licença e me deixem limpar tudo isso — ponderou Aline, fitando os lençóis. — Tanto sangue... Até parece que foi um massacre, não é?

Davi, confiante, sorriu. E nesse instante as duas atrizes riram alto, satisfeitas com aquela bela encenação.

 

FIM



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Comentários   

0 # Amanda 30-11--0001 00:00
Criativo!
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0 # Lucas 30-11--0001 00:00
Interessante! Confesso que não esperava por esse final! Gostei! :lol:
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