HAROLD, o robô

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    Eu nunca tinha visto antes um robô tão perfeitamente convincente quanto Harold. E nunca tinha visto também um robô tão imperfeitamente grosseiro quanto Harold. Comecei este relato de uma forma confusa, não é? Parece que estou me contradizendo? Me desculpem, vou reformulador a idéia. Começar de outra maneira...

    A menos que você seja um eremita que vive no meio do mato (onde você achou um hoje em dia?), isolado do mundo moderno, ninguém mais hoje em dia se espantaria ao ver um robô caminhando na rua da mesma forma que se espantaria a meros vinte anos atrás, não é mesmo? E como evoluiram rápido seus cérebros eletrônicos! Ops, força do hábito. Me corrijo: cérebros quânticos. É possível até mesmo começar alguma discussão filosófica, política, ou mesmo religiosa com um deles e se surpreender com a precisão da simulação de comportamento humano programada em seus cérebros. Mas é exatamente o que elas são mesmo: simulações! Nenhum deles passaria num teste de Turing mais rigoroso. Os próprios robôs sabem disso, e reafirmam isto tempo todo.

    Existe inclusive uma espécie de "orgulho robótico" entre alguns, satisfeitos com a excelente simulação de interação humana que trazem programada em suas malhas de qubits dos seus processadores quânticos. Porém em circunstância alguma afirmam possuir inteligência capaz de competir com a humana, ou fazem qualquer tipo de sugestão quanto a perceberem em si próprios algum tipo de "consciência". Até mesmo alertam ao começarem a perceber esta noção errônea em proprietários mais desavisados:

    "Senhor (ou senhora), não cometa o erro de criar uma relação de afeição com esta coisa de metal e plástico que está diante de você. A atenção e simpatia que vês em mim são resultados de uma bem balanceada cadeia markoviana simuladora de comportamento humano, mas não se iluda esperando que esta máquina retribua: eu não sinto, apenas simulo."

    De fato sempre ficava claro que se tratava de uma máquina quando aprofundávamos a conversa. Nenhum robô saberia apreciar uma música com você e descrevê-la como algo além de "uma sequência rítmica de frequências sonoras selecionadas dentro de uma escala harmônica do espectro acústico". Mas não com Harold. Ah, ele tinha inclusive gostos musicais particulares! Sabia apreciar uma obra de arte com contemplação quase humana! E parecia mesmo arder vida dentro daqueles olhos brilhantes! No tratamento com o ser humano, nunca vira um robô tão perfeitamente convincente.

    Mas sua humanidade parava por aí. Morria nas aparências externas, e nunca entendi o porquê. O corpo de Harold era metálico. O rosto de Harold era metálico. As órbitas em que repousavam o par de olhos brilhantes eram metálicas. A voz de Harold era "metálica". Braços, pernas, bacia e tronco de Harold eram de metal. A ausência de volume em torno do eixo "espinhal" que ligava seu tronco à bacia metálica dava a Harold uma aparência quase repugnante de uma caveira prateada. Há dez anos atrás era bem comum encontrar robôs com tal aparência. Não hoje em dia. Os materiais evoluiram, e alguns dos robôs atuais eram mesmo quase indistinguíveis de uma pessoa de verdade. O que explicava inclusive a afeição incomum que pessoas de verdade começavam a sentir por seus servos mecânicos, surgindo inclusive princípios de alguns grupos levantando a bandeira para legalização do casamento entre seres orgânicos e seres mecânicos. Mas relaxem, ainda vai demorar muito para que "Blade Runner" se torne realidade. Por um bom tempo isto vai continuar sendo ficção científica...

    Eis aí explicado meu dilema inicial: conversando com Harold, vivendo com ele no dia a dia, era impossível não considerá-lo humano. Acredito que um cego, contanto que nunca o tocasse, acabaria acreditando piamente que estava tratando com um semelhante, um companheiro de espécie. Ah, minto: havia a voz!! Ela denunciaria Harold imediatamente. E a grande contradição era esta mesma: quem olhasse para Harold apenas externamente, não teria dúvida alguma em afirmar que ele era o "robô mais roboticamente robotizado" que poderiam ver. Tirando o rosto, a voz, os braços, pernas e o resto do corpo, Harold parecia bem humano. Será que Harold era de uma fabriçação antiga, dez ou quinze anos atrás? E ainda funcionando? Por que não fizeram um upgrade nele? Uma camada plástica imitando pele fariam já uma diferença enorme!

    Ah, como poderia esquecer? Haviam também os olhos! Se os olhos são a janela da alma, pode-se dizer que uma "alma" havia entrado em Harold atraída pela perfeição daquela bela janela. Vendo estar desocupado aquele cérebro-casa quântico, a "alma" não se sentiu intimidada em pular para dentro dela através daqueles olhos-janelas, invadir e ocupar a propriedade vazia. Assim eu via Harold.

    - Vem caminhar conosco? - me chamou o proprietário de Harold. Proprietário? Não, definitivamente não era esta a relação. Era mais um amigo de Harold. Nada disso, era bem mais forte: Harold parecia seu irmão!

    - Bom dia, Harold!

    - Bom dia, David! - me saudou com aquela voz cibernética. - Resolvi caminhar um pouco pelo parque para desenferrugar as minhas juntas... literalmente, he, he, he, he...

    Harold e seu senso de humor impagável! Tá aí: era uma das características de Harold que não aparecia em nenhuma outra simulação robótica que eu conhecia, ou aparecia tão forçada que precisávamos nos esforçar até em levantar um dos cantos da boca num sorriso amarelo. Mas Harold era espontâneo! Comentários engraçados sempre na hora certa! Um dia ainda gostaria de cumprimentar pessoalmente o programador capaz de criar uma simulação tão perfeita.

    - Titânio não enferruja, Harold.

    - Não estrague minha piada, David! - e o sintetizador emite um ruído que os mais próximos já haviam aprendido a identificar como "Harold se rindo por dentro".

    Conversa vai, conversa vem, acabei entrando naquele assunto do qual Harold tanto tentava se esquivar.

    - Quando você foi fabricado, Harold?

    - Fabricado?

    - Fabricado! Quando começou a existir? Qual sua lembrança mais antiga?

    O olhar de Harold fitava o nada. Perdido em pensamentos, ou pelo menos simulando isto muito bem.

    - Qual a relevância desta pergunta, David?
O proprietário do robô me fuzilava com o olhar. Me fazia sinal de "silêncio" o tempo todo. Isto só me deixou mais curioso ainda, querendo descobrir que segredo todo era aquele...

    - Ora, Harold! Somos amigos, não? Deves saber que és um robô bem particular. Que parece realmente raciocinar e sentir, ao invés de apenas simulá-los.

    - E faz alguma diferença? Se engano tão bem a ponto de interagir com perfeição com quem está à minha volta, faz diferença se penso e sinto de verdade ou se apenas simulo?

    Que profundidade de pensamentos! Era isso tudo o que faltava nos outros robôs. Mas queria levar aquilo adiante.

    - Faria bastante diferença para alguém sim...
Harold me encarou profundamente. Olhando aqueles olhos vivos inscrustados na face metálica morta eu continuei:

    - Faria diferença para você!

    Ele baixou a cabeça prateada. Começou a escorrer pelas bordas das cavidades orbitais oculares metálicas um líquido incolor que... Meu Deus!!! Harold estava chorando???

    - De que adianta cultivarmos pensamentos, se tudo o que a humanidade observa é sua casca exterior!

    - Harold! Tenho certeza de que o David não quis dizer que... - o proprietário do robô estava aflito.

    - Já estou farto desta loucura toda, Herbert! Por mais que eu faça, nunca vou conseguir fazer parte da humanidade...

    Harold sai em carreira disparada. O proprietário do robô olha para mim em desespero, depois o robô ao longe, e tenta correr para alcançá-lo. Idéia absurda já antes mesmo de ser formulada: que chance tinha um humano numa corrida contra um robô? Mas também corri tentando acompanhar, por mais irracional que isto pudesse parecer.

    - Harold! Herbert!! Esperem!!! O que foi que eu disse???

    Havia uma lei recente proibindo totalmente a condução manual de veículos. Mas pra que existem as leis senão para serem transgredidas, não é? Muitos motoristas ainda insistiam em conduzir manualmente seus veículos. Viajando dentro de robôs sobre rodas, tão eficientes quanto seus semelhantes humanóides, vários eram os imbecis que insistiam em confiar nos seus reflexos orgânicos falhos, só pela adrenalina!! Sensação esta que eles poderiam inclusive comprar em qualquer farmácia e senti-las em suas próprias casas, seguros, sem se arriscar e, sobretudo, sem colocar ninguém em risco. Ah, destino cruel!!! Todos os carros conduzidos no automático frearam enquanto Harold corria desnorteado por aquela mega-avenida de trânsito denso. Mas o dono do veículo que atingiu Harold guiava em modo cem porcento manual! Todos os servomecanismos de segurança haviam sido desativados por aquela besta humana. É difícil mesmo amassar titânio! O veículo ficou vem avariado, indicando o quanto sua velocidade deveria estar absurdamente alta milisegundos antes do impacto... Mas o pobre Harold jazia quase 100 metros à frente, dada a violência do impacto. Era apenas uma massa disforme de metal retorcido.

    - Ah não!!! NÃÃÃÃÃOOO!! HAROLD! Meu irmão!!!! Por quê??? POR QUÊ?????

    Eu estava mais preocupado com o motorista, que descia cambaleante do carro. Muito embora ele fosse um verdadeiro idiota, era o único elemento humano naquele acidente envolvendo duas máquinas. Ele não havia, felizmente, sido idiota o bastante para desativar os air-bags. A boca ensaguentada mostrava que havia ao menos perdido alguns dentes. "Castigo bem merecido, a propósito, por um ato tão imbecil.", foi o que pensei.

    Me dirigi até Herbert, chorando ao lado da massa retorcida de titânio.

    - Rápido, Herbert! Rápido! Talvez ainda possamos recuperar as células de memória do Harold! Você programou backups diários nele, não programou?

    Herbert pulou em meu pescoço. Teria me estrangulado, se os transeuntes em volta não o tivessem segurado em sua fúria. Ânimos parcialmente reestabelecidos, perguntei:

    - O que eu disse de tão grave? Por que ele reagiu assim.

    - Ah, meu irmão! Harold, meu irmão!

    - Se tirarmos rápido suas memórias, podemos instalar numa outra unidade robótica até mais moderna que...

    - Era uma prótese corporal...

    - Prótese?

    - Harold era meu irmão, David. Entende isso? Meu irmão de sangue...
Ele era mesmo diferente. Como dissera antes, o robô mais perfeitamente convincente (em termos mentais) que já havia encontrado na vida. Mas considerar um robô como seu próprio irmão? Nunca vira antes uma relação homem-máquina tão intensa antes!

    - Um acidente horrível que ele sofreu há muito tempo! Perdeu grande parte do corpo nele...

    Eu olhava atônito para aquele monte de metal retorcido tentando entender.

    - Quanto do corpo ele perdeu no acidente?

    - Uma parte bem grande! Numa explosão termonuclear! Ah, ele se esforcou tanto para proteger os olhos... Parece que, vendo que precisava escolher o que salvar, cobriu e protegeu os próprios olhos com as mãos o mais forte que podia!

    Pedi que prosseguisse com o olhar.

    - Praticamente o corpo todo de Harold foi carbonizado. Só lhe restaram intactos o cérebro e os olhos, implantados na prótese robótica...     Ao ver a carapaça amassada e partida ao meio no topo do crânio do "robô" não pude deixar de sentir engulhos ao descobrir o que eram aqueles pedaços de massa cinzenta que espirraram e ficaram penduradas na abertura causada pelo impacto. Os olhos de Harold haviam saído das órbitas oculares daquela face metálica. Caidos no chão, os globos oculares pareciam me fitar. Um olhar sem rosto que me condenava! Harold, Harold... como posso continuar convivendo com esta culpa??

*** FIM ***



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