Sonhos Lúcidos

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    Se aproximou das bordas daquele prédio, no alto daquela cobertura no vigésimo olhar. Espetáculo vertiginoso!!! As luzes dos carros lá embaixo, a lua no céu, o vento frio. A voz irritantemente sibilada incentivava: "Pula!! Que outra chance você vai ter de descobrir como é a sensação? Faz isso agora!" E ele pulou. Medo? Nenhum! Embora estivesse de coração disparado, ele sabia que nada aconteceria!


    Levantou sobressaltado de sua cama, desperto de mais um daqueles conhecidos sonhos de quedas. "Seu anjo da guarda está em perigo!", era como alguns lhe explicavam tais sonhos. Ele não acreditava nestas coisas... A princípio não conseguiu se mover. Estava no comum estado de catalepsia, quando acordamos sem ter retomado controle total sobre os membros de nossos corpos. Acordamos sem acordar. Nosso cérebro está desperto, mas o resto do nosso corpo ainda não se deu conta disso. Ele esperou com paciência, aguardando que sua mente retomasse controle total sobre seu corpo. Sabia que não adiantava lutar, que isto só dificultaria mais. Tornaria mais dolorida a volta.

    "Foi tão real desta vez!!!"  Ele despertou em êxtase! "Quase tive medo de pular, de tão real que parecia a situação!", anotou em seu diário, registro fiel de experiências que ainda pretendia publicar. Mas ele pulou. Do vigésimo andar de um prédio imaginário. Sentiu a queda em detalhes, o vento em seu corpo na queda, a mínima brisa agitando cada pelo de seu corpo, até chegar o momento... do impacto! Ele até poderia imaginar o salto, a sensação da queda... mas...  o impacto final? Como saber como era, se ele nunca acontecera de verdade ? Que eram registros inexistentes em suas lembranças?

    Sonhos lúcidos! Todos nós lembramos de despertar de sonhos malucos, não é? Que depois fica claro o absurdo da situação, e não conseguimos entender como não percebemos que era um sonho  nos momentos que os sonhamos. E se... despertamos no meio deles? E, plenos de consciência racional, nos descobrimos acordar dentro de um sonho? E se nos descobrimos estar sonhando, e ainda assim continuamos sonhando? Que fazer nestas situações? Ele se decidira: "continuo sonhando!" E tentou ver até onde isto conseguia levar!

    Com a repetição todos os dias (ou seria melhor dizer "todas as noites"?)  ele foi atrás de uma explicação. Sonhos nos quais você SABE que está sonhando? Ah, admirável mundo novo! Num mundo de informaçõpes disponíveis em todos os cantos, ele não teve dificuldade em descobrir que aquilo que sentia era comum, e que já era descrito há milênios! E foi fazendo experiências.

    A princípio tentou interagir com as personagenns à volta, bonecos movidos pela própria mente na tentativa de tornar a experiência aceitável. Falava com elas, discutia... Se surpreendeu a princípio com suas inteligências, sua capacidade de simulação... Pois estava claro agora que elas não existiam! Que eram criações de sua própria mente tentando enganar a si próprio!

    Teve várias amantes imaginárias a princípio. Ou o que ele imaginava serem amantes em sua cabeça, uma vez que ele próprio as criava. Maravilhosas? Óbvio que sim, já que ele mesmo as havia criado! Mas ficou chato, pois ele sabia que era tudo mentira, uma ilusão muito bem feita... mas uma ilusão!! Tinham que ser perfeitas, já que ele próprio as criava dentro de sua cabeça, dentro do cenário elaborado por si próprio para vivenciar suas fantasias. Sonhos lúcidos... Sua vida mudou quando percebeu ser ele mesmo capaz de criar um mundo perfeito dentro do qual poderia viver suas mais doidas experiências!

    Naquela noite ele "despertou" em meio a um sonho real demais, de uma nitidez de detalhes que ele nunca tinha visto! Levantou da cama e se encaminhou para a rua, impressionado pela sua capacidade de criação, pelo impressionante detalhismo capaz de enganar a si próprio!
De pijamas, a luz do sol o aquecia numa sensação bem realista! O povo de bonecos mentais o observava sem nada entender. Era mais um sonho lúcido! Este bem especial, mais "lúcido" do que estava acostumado a presenciar até então. Se encheu de coragem:

    - Estão olhando o quê, seus autômatos mentais, bonecos de minha própria mente?

    Estava se sentindo bem à vontade naquele mundo criado dentro da própria cabeça. Resolveu ousar, como fizera em sonhos lúcidos anteriores.

    - Querem ver algo chocante mesmo? Inesperado?

    No meio da rua, começou a se despir de seu pijama ridículo. Ficou completamente nu em meio aos olhares atônitos de uma população imaginária! O sonho continuava, mais real que nunca! Que tentar agora?

    - Cidadão! - se aproximou uma figura fardada. - Creio que o senhor está passando dos limites...

    Ah, um policial imaginário!!! Ele esperava por isso, ele próprio apresentando para si mesmo suas censuras mentais. Nunca faria isto em situações normais. Mas por que não tentá-lo no próprio sonho? Sabia nunca poder fazer isto na realidade. Mas no imaginário, nenhum desejo era proibido! Queria testar, descobrir até onde poderia levar aquele sonho absurdo! Agarrou o pênis semi-ereto, e berrou:

    - Pega aqui, polícia!!!

    O policial (na verdade, simples representante da guarda municipal) ficou sem reação. Por isto o deixou entrar naquele prédio. E foi assim que ele, totalmente nu, entrou naquele elevador lotado. Todos o observando sem saber como reagir. Foi quando ele começou...

    - Estão olhando o quê? - a certeza de que breve acordaria daquele sonho absurdo o enchia de coragem. - Querem ver um negócio bem legal?

    Sob o olhar espantado da ascensorista, de crianças, de senhoras de idade inconformadas... ele começou a bater uma punheta sob o olhar incrédulo daquela multidão que o fuzilava no elevador lotado! Ele ainda berrou quando a porta se abriu no trigésimo andar do prédio:

    - Estão vendo bem este dedo? - por um breve momento, ele se questionou se não estaria exagerando mesmo sabendo estar vivendo um simples sonho, que só acontecia dentro de sua cabeça. Mas continuou: - Vão todos à merda, seus fantoches imbecis!

    E correu nu pela cobertura do prédio. Algumas pessoas o acompanhavam, percebendo que ele não estava em seu estado normal.

    Ainda gritaram ao vê-lo correndo em direção às beiradas do prédio:

    - Para aí, cara!!! - tentavam correr para segurá-lo. - O que você vai fazer?

    - Eu vou voar, seus idiotas!!! - um senhor ainda quase conseguiu agarrá-lo, mas ele escapou livre, e pulou do alto da cobertura daquele prédio de 30 andares. - Vou voar!!! Hahahahaha!!!

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    Os policiais tentavam afastar os curiosos daquela massa de carne disforme no meio da rua.

    - Alguém pode nos dizer, sem histeria, o que aconteceu aqui de verdade?

    - Exatamente o que já te disseram, delegado! - e um guarda municipal estava do lado dele comprovando tudo. - Ele chegou aqui, começou a xingar todo mundo, tirou a roupa, parecia estar drogado!

    O guarda municipal também começou a dar sua versão.

    - Tentei convencer o cidadão, mas ele estava mesmo bem alterado! Deveria mesmo tentar pará-lo, mas fiquei sem saber como reagir quando vi ele, insano, me mandando "pegar" no negócio dele... A gente não está preparado para essas coisas, sabe? Vacilei, e quando percebi ele já tinha entrado, pelado, naquele elevador lotado...

    Histéricos, os passageiros do elevador falavam ao mesmo tempo:

    - Ele tinha cara de louco, tarado! - berrava uma velhinha.

    - Já estudei distúrbios parecidos. - começou um psicólogo. - Afirmo que não era perigoso...

    - Ele começou a bater uma punheta na frente da minha filha!!! - gritou uma mãe inconformada. - Eu mesmo o teria matado, se ele mesmo não tivesse feito isso...

    Uma massa de carne no meio da rua. Resultado do impacto de um corpo que pulou do trigésimo andar de um prédio. Sonho? Sim, seu último sonho.

    Não o julguem, por favor! Certamente ele não cometeria nenhuma destas barbaridades se soubesse que elas eram reais. Para ele, não passava de mais um sonho lúcido, como tantos outros que sonhara até então. Acreditando ser tudo uma criação sua, representada dentro de um palco existente dentro da própria mente, ele não se importava de cometer tais barbaridades. Que outra oportunidade ele teria de fazer tudo isso? Xingar as pessoas na rua, ficar nu na frente delas, desafiar um segurança a "pegar" no membro dele, bater uma bronha num elevador lotado, e, enfim... pular do trigésimo andar só para sentir a sensação da queda?

    Ele só podia fazer isto dentro de seus sonhos. E os sonhos lúcidos eram vívidos demais, pareciam reais mesmo! Só que... aquele ERA MESMO real. Acostumado com tais sonhos, ele acabou confundindo sonho com realidade, não percebeu que aquele último sonho só era nítido demais porque realmente estava acontecendo! Ele sofria de sonambulismo, não sabia que alguns de seus sonhos lúcidos poderiam não ser sonhos, mas realidade. Tarde demais para descobrir isto...

       

*** FIM ***

 

 



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