Caveira

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 PARA GIANE,

QUE DETESTA HISTÓRIAS DE TERROR

 

Era um desafio imposto por ela mesma. Não desistiria assim tão fácil, o medo deveria ser enfrentado custasse o que custasse e apenas bastava uma pequena mostra de coragem para que pudesse seguir sua vida a diante. Os pesadelos já a assombravam por tempo demais.

 

"O medo serve para nos manter vivos, Mary, mas viver com ele não é vida".

 

Levava essas palavras consigo durante todo caminho pelo cemitério, contornando os túmulos rumo a seu objetivo maior. A pá era segurada firmemente e quanto a outra mão enluvada segurava o punhal: um instrumento sofisticado revestido com pequenas pedras vermelhas que contornavam o cabo, a lâmina estava tão limpa que o reflexo da lua crescente era tão nítido que chegava a assustá-la.

 

"Tem que fazer isso sozinha" a voz de Thomas veio em sua mente novamente "Foi você quem começou e é com você que deve terminar".

 

Parou ao chegar no anjo de pedra.

Admirou as asas, a espada de pedra, os olhos sem vida e finalmente os pés que pousavam rusticamente em uma sepultura com um nome que tanto a atormentava em seus sonhos escrito DAVID FOOST.

 

"O que eu faço quando encontrá-lo?"

"Você deve cavar..."

 

E foi o que fez. Fincou a pá no chão com toda a força que conseguiu deixando-se dominar pelo ódio. Havia sido sua culpa. Se não tivesse seguido em frente com aquela loucura seu filho não estaria enterrado sob seus pés agora. Tão novo... Não se enterra um bebê vivo!

Amaldiçoou a si mesma por isso, lembrou-se do medo que teve no dia e dos choros da criança quando os primeiros lances de terra caíram sobre seu pequenino rosto. Chorou naquela hora, mas não pôde parar, estava dominada pelo ressentimento e aquela criança, naquela hora, representava toda uma vida perdida pelos anos.

No dia achara uma boa ideia enterrá-lo na sepultura de uma outra pessoa, havia sido o jeito mais fácil que encontrara para se livrar do corpo e do garoto ao mesmo tempo. Só agora dava-se conta o quão perversa havia sido, do quão longe sua loucura a havia levado. Era isso o que ela era: uma assassina?

Tirou mais um pouco de terra, quase alcançando a quantidade pretendida.

 

"Quero que o olhe nos olhos. Quero que veja o que você fez ao nosso filho!"

 

_ Desculpa, filho... – lágrimas deixavam seus olhos aos montes. Estava quase onde o havia abandonado. – Me perdoa!

 

Cavou mais, suas mãos ganharam feridas e o suor invadia seu corpo como um castigo suave, mas ela não parou. Tinha sido uma boa mãe para seus outros filhos, tinha conseguido criá-los sem nunca ter cogitado a ideia de abandoná-los ou... matá-los. Por que com esse tinha sido diferente? Por que havia o deixado ali daquela forma grotesca? Por quê?

Pensando nisso abandonou definitivamente a ideia do punhal. Não se lembrava mais porque o havia trazido. Não precisava daquilo! Estava indo resgatar seu filho! Seu filho! Riu histericamente, precisava disso mais do que tudo nesse mundo!

 

"Olhe para o que você o fez! Olhe para o que fez ao nosso filho!"

 

Cavou mais, mais, mais. Suas mãos sangravam. Já devia ter alcançado o lugar desejado, mas não estava em condições para pensar em alguma coisa desse tipo. Precisava cavar, precisava pagar pelo que tinha feito ao seu filho, seu único filho! Seu único filho! Seu único filho! Seu único verdadeiro filho!

 

Foi quando parou. A pá tinha atingido alguma coisa sólida e ela sabia o que era. Abandonou o objeto e passou a cavar com as próprias mãos. Seu bebê estava ali! Tirou a terra delicadamente e quando a visão da coisa enterrada ali a atingiu tudo voltou à tona.

 

"Veja o que você fez a ele..."

 

Chorou mais, não pôde parar de chorar.

Ali a sua frente estava o motivo de ter enterrado seu filho, aquilo não era um bebê: era algo grotesco, não humano. Um monstro tão abominável que nenhum ser vivo seria capaz de chamar de filho.

 

"Pegue seu filho no colo, Mary" não era a voz de Thomas dessa vez. Era uma voz que ela tinha ouvido somente no dia de seu parto, uma voz que fazia as portas do inferno e as tormentas da caixa de Pandora se libertarem. "É seu filho, Mary... Seu filho..."

 

A risada, a risada demoníaca. Era essa risada que ela dava agora, uma risada que cortava todo o silêncio do cemitério e despertava seu demônio interior.

 

Continuou observando seu filho com lágrimas nos olhos, e foi quando lembrou-se para quê tinha trago o punhal. Com uma das mãos livres, a outra segurando a lâmina assassina, ela tirou os restos mortais da criatura em seu colo e começou a cantar. Uma canção de ninar velha e confortável que serviu de deixa para que ela se visse perdoada pelo seu pecado, livre dos monstros que a atormentavam...

 

_ Nana, Neném, que a Cuca vai pegar... Papai foi pra roça, mamãe foi passear... Nana, Neném...

 

E foi ainda cantando que sentou-se no berço de morte de seu filho e arrastou a lâmina contra o próprio pescoço. O corpo de seu filho se partia com seu abraço, os vermes que se alimentavam dos restos mortais dele caíam contra o seu corpo misturando-se ao sangue que escorria cada vez mais rápido. A canção agora era cantada sobre engasgos com o próprio sangue, que escorria para seu pulmão. Estava pagando seus pecados.



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Comentários   

+1 # santos big b 30-11--0001 00:00
perturbador!
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