MEU QUERIDO PAPAI

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 Três longos meses, eternos para Clara. Perder o pai não é algo fácil para ninguém, ainda mais quando uma desgraça dessa acontece durante a adolescência, fase de transformações na vida de qualquer pessoa., um periódo em que um caráter pode ser moldado definitivamente. Uma depressão aguda com apenas dezesseis anos, é quase que insuportável. Uma tristeza profunda, que tomava conta de todos os familiares ligados ao falecido, um homem muito querido e admirado.

 Clara não queria mais nada na vida. Seu quarto havia se tornado seu lar, um reino particular, proibido para o resto do mundo. Um lugar onde podia chorar a vontade, distante de olhares curiosos, de consolos que de nada serviam, a não ser para deixar seu coração ainda mais pesado, sufocado pela dor. Suas únicas companheiras eram as recordações tenras de seu pai, que surgiam em sua mente como retratos envelhecidos, daqueles que deixamos jogados em um canto do quarto, completamente esquecidos.

 Ficou presa dentro de casa durante os três meses que se seguiram após a morte do pai. Se excluiu da sociedade, de sua rotina de antigamente, apesar dos protestos da mãe, que dizia para superar seu interminável sofrimento e voltar a ser a garota alegre de antes, capaz de abrir um sorriso nos lábios por qualquer motivo, mesmo os mais simples e banais. Não conseguia. Era como se sua alma houvesse sido levada junto de seu pai, para todo o sempre. Nunca mais seria a mesma, tinha a mais plena certeza disso.

 Sentia saudades de ouvir o barulho da chave indo de encontro a fechadura, seguido de um clique da destranca, que anunciava a chegada de seu amado pai, que vinha carregando em uma das mãos um presente, um doce de padaria, dos preferidos de Clara. Lembrava-se de descer as escadas ansiosa pelo reencontro, atirando-se nos braços do pai, fortes e firmes, sentir sua loção para barba, apreciar seus olhos negros como carvão. Momentos de intensa alegria, que como bem sabia, nunca mais voltariam a acontecer. Tinham ficado em um passado distante, que continuava a existir em seu inconsciente mais profundo e desesperado.

 E assim os dias passavam, imersos em lembranças. Em falsas esperanças também. Clara sonhava todas as noites com seu pai, e nessas abstratas oportunidades de vê-lo, conversava. Falava sobre como estava sendo duro aguentar a cruel realidade que era obrigada a defrontar, em como sentia saudades. No entanto, não era correspondida nessas experiências noturnas. A representação de seu pai apenas lhe encarava, sem nada dizer, como um mero boneco. Não havia sequer um afago carinhoso, um beijo na testa, como costumava fazer antes de colocá-la na cama para dormir. Apenas uma imagem em um sonho, incapaz de reproduzir sentimentos.

 No entanto, em um desses sonhos, as coisas começaram a mudar. Normalmente, Clara se via em seu quarto nesses encontros com o pai. Dessa vez, sua mente construiu um novo palco, um lugar desconhecido, aparentemente no meio do nada. Um campo enorme coberto por grama e algumas runas de pedra, irreconhecíveis em meio a escuridão. Bem no meio da paisagem, estava seu pai, um moreno alto, forte, vestido em seu uniforme de trabalho, um macacão azul de encanador. Exibia uma expressão desesperada, que bradava por si só uma ajuda. Clara aproximou-se de seu pai, e perguntou, um tanto receosa:

- Do que você precisa?

 Seu pai nada disse. Limitou-se apenas a apontar para uma toalha vermelha que estava ao seu lado. Um arranjo feito para alguma espécie de ritual profano. Além da toalha, haviam algumas velas roxas, além do desenho de uma estrela de cinco pontas. Um cachorro estripado completava a cena, que parecia ter sido roubada de um filme de horror. Clara gritou diante de algo tão nefasto, despertando em sua cama, com os olhos arregalados e o corpo coberto de suor.

 A imagem desse pesadelo permaneceu em sua mente durante semanas, lhe intrigando profundamente. O que permanecia vivo em sua cabeça era o ritual, o arranjo diábolico, para o qual seu pai apontava suplicantemente. Aquilo lhe deixou imensamente confusa. Incapaz de controlar sua curiosidade, iniciou buscas pela internet relacionada ao assunto. Encontrou um endereço conhecido por abrigar tais seitas. Resolveu visitá-lo, saindo de casa pela primeira vez em três meses. Disse para a mãe que visitaria algumas amigas. Mentira. Tinha se afastado de suas amizades. Na verdade, tinha fugido do mundo, de toda a realidade que antes entendia como vida.

 Foi até o endereço. Era um lugar nem um pouco agradável. Ficava em um beco fedorento da cidade, oculto de todos, como que para menter em sigilo os segredos proibidos que pudesse ter. Adentrou no local, que apresentava-se demasiadamente apertado, repleto de artefatos sinistros, como crânios humanos e medalhões com símbolos considerados satânicos. Clara desejava estar longe dali, mas a vontade de compreender o sentido de seu pesadelo lhe incentivou a ficar. Além disso, queria poder atender ao pedido de seu pai, mesmo que fose apenas algo criado por sua mente desesperada, ferida pelo sofrimento da perda de alguém que tanto amava.

 Um homem de barba longa e vestes negras lhe atendeu. Não era nem um pouco agradável. Fedia como merda. Clara ignorou o odor desagradável e tratou de questioná-lo. Tinha de saciar sua curiosidade, que lhe atiçava como um inseto incômodo, picando partes do corpo impossíveis de se coçar. Podia simplesmente ter ido embora, mas não o fez. Certas coisas devem ficar em segredo. Certas respostas não devem ser procuradas. Clara não sabia disso, e mesmo que soubesse, teria ignorado. Seu pai lhe induzia a continuar. Virando-se para o estranho homem, disse:

- Tenho algumas dúvidas em relação a um ritual, e creio que esse seja o lugar certo para buscar respostas.

- De que tipo de ritual estamos falando especificamente? - Perguntou o homem, que parecia não escovar os dentes há décadas, tamanha a podridão exalada por sua boca.

- O que exige o sacríficio de um animais. - Disse Clara, sentindo-se nervosa por estar debatendo um assunto tão macabro.

- Existem vários desse tipo. Geralmente são feitos para estabelecer um comunicação com entidades superiores. Para satisfazer desejos impossíveis, digamos. - Disse o homem, coçando sua barba longa e suja. Clara avistou com repulsa um grão de arroz em meio a toda aquela pelugem.

- Qualquer tipo de desejo? - Perguntou Clara, deslumbarada pela possibilidade.

- Qualquer um. - Disse o homem, com uma expressão endiabrada no rosto, que faria qualquer um ter certeza de que estava possuído por algum ser maligno. - Exigem um custo alto, irrisório talvez, para quem quer algo que nunca poderia ter de maneiras normais.

- Só preciso de um sacríficio animal para esse ritual? - Perguntou Clara, pensando em seu pai. Já não havia mais volta. Suas ações no entanto, seriam desastrosas.

- De um sacrifício e de uma boa quantidade de seu sangue. Um copo e meio deve bastar. - Disse o homem, parecendo cada vez mais enlouquecido.

- Certo.- Disse Clara, deixando o local em seguida, sem mais nada dizer.

 Foi durante a madrugada. Clara levantou-se silenciosamente de sua cama, disposta a colocar o seu plano em ação. Apanhou um pano de prato de uma gaveta no ármario da cozinha, e uma faca bem afiada de cima da mesa. Foi até o sofá, onde seu gato dormia tranquilamente, alheio ao perigo que se aproximava. Agarrou o animal pelo pescoço, enfiando a lâmina em seu ventre, fazendo uma quantidade de sangue considerável jorrar no chão. Estendeu o pano de prato encima da poça de sangue, colocando o gato morto por cima de todo o arranjo. Acendeu algumas velas e desenhou uma estrela de cinco pontas um tanto torta. Nunca tinha sido uma boa desenhista. Para sua sorte, ou quem sabe azar, a entidade que tentava invocar não ligava para tais detalhes.

 Proferiu algumas palavras em latim, as quais não compreendia o significado, articulando-as apenas pelo simples fato de que eram necessárias para atrair a entidade capaz de realizar seus desejos mais insanos. Fechou os olhos e abriu um corte profundo em um de seus pulsos, que começou a sangrar descontroladamente. Assim que o líquido vermelho tocou o desenho da estrela de cinco pontas, o ar tornou-se insuportavelmente pesado, como que tomado por algum ser invísivel de presença opressiva. Um cheiro de putrefação se fez sentir, desaparecendo logo em seguida. Clara caiu ao chão inconsciente. Ficou desacordada por horas. Sua mãe lhe encontrou a beira da morte no chão da sala, pálida como cera por conta da quase fatal perda de sangue provocada pela ferida no pulso. Por obra do destino, sobreviveu.

 Passou uma semana no hospital, onde recuperou-se bem do incidente. Era obrigada a passar por sessões cansativas com psicólogos, que questionavam seu interesse por magia negra, ao mesmo tempo em que avaliavam a sua sanidade. Clara respondia aos questionamentos com muita paciência. Já havia assumido o seu momento de loucura, sua fraqueza, que lhe tinha levado a acreditar que teria seu pai de volta. Nada no mundo poderia proporcionar-lhe tal possibilidade. A morte é irreversível. Havia aceitado essa realidade, de uma vez por todas.

 Retornou para casa e decidiu voltar a viver. Resolveu rever seus antigos amigos, matriculou-se novamente na escola, disposta a recuperar o tempo perdido. Guardou o albúm de fotos de seu pai, o mais distante possível de suas mãos. Trataria de esquecê-lo por um tempo, para o seu próprio bem. No entanto, não é assim que a banda toca. Sempre tentamos enterrar o passado, mas ele sempre retorna, de uma maneira ou de outra. Foi assim com Clara. Seu passado bateu em sua porta, literalmente.

 Uma bela tarde de outono. Clara cuidava de terminar os deveres de escola. Estava distraída nessa árdua tarefa, quando ouviu o som da campainha no andar de baixo. Apostava que era uma de suas amigas. Sempre lhe visitavam nas horas mais impróprias. Começou a planejar uma maneira de dispensar quem quer que fosse, quando assustou-se com o berro estridente de sua mãe. Algo estava errado. Seria um ladrão, algum marginal carregado de más intenções? Clara não sabia. Estava amedrontada, mas mesmo assim saiu de seu quarto e desceu as escadas, ignorando o risco que corria.

A vistou sua mãe caída no chão, completamente desacordada. Correu até ela desesperada, parando subitamente com uma expressão de assombro no rosto. Parado na sua frente, estava um moreno alto e forte, vestido de um macacão azul todo manchado de terra. A figura não tinha mais cabelo e um de seus olhos parecia ter sido arrancado de sua órbita, por algum animal esfomeado. Verdade que o homem cheirava como carne podre, sem falar que seu rosto havia desaparecido quase que por inteiro, dando lugar para uma forma disforme, quase irreconhecível. Também não tinha dentes, mas Clara não se importava. Correu ao encontro do cadáver e o abraçou, beijando-o com carinho na face descarnada.

 Encarou o olho restante do pai, que estava dependurado no rosto por um nervo branco, que lembrava uma larva dessas que achamos no meio do lixo. Beijou-o na bochecha, sentindo o gosto de terra fresca adentrar em sua boca. Em seguida disse, com um sorriso luminoso, o qual há muito não se via em suas feições:

- Eu te amo, papai. Estou muito feliz em te ver de novo.

- Eu também. - Disse a coisa, com uma voz sufocada, semelhante a de alguém que grita socorro enquanto se afoga. - Vim para te levar. Você vai morar comigo agora. É um lugar muito agradável. Você vai adorar.

- Não importa para onde vamos. Só quero estar com você. - Disse Clara, segurando a mão da coisa. - Vamos.

- Lá viveremos para todo o sempre. Nunca mais iremos nos separar. - Disse o cadáver, com um sorriso sinistro, meio desajeitado, pois lhe restava apenas metade do lábio.

 Partiram de mãos dadas, para algum lugar qualquer. O fato é que Clara nunca mais foi vista. Desapareceu como fumaça, como se nunca houvesse existido antes. Alguns dizem vê-la perambulando pelas ruas, sozinha, clamando por seu pai. Outros afirmam tê-la visto acompanhada de um cadáver de macacão azul, caminhando sem rumo, como uma alma penada. Lendas urbanas, histórias criadas por mentes imaginativas demais. Não teria a garota enlouquecido e apenas fugido de casa? Não se sabe. Em realidade, ninguém nunca irá descobrir que fim levou Clara. Apenas mais uma pessoa desaparecida e esquecida com a passagem implacável do tempo.

 

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Comentários   

0 # Anne 19-07-2017 22:46
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