A SOMBRA DO DEMÔNIO

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"Acorda, vem ver a lua

Que dorme na noite escura

Que surge tão bela e branca

Derramando doçura

Clara chama silente

Ardendo meu sonhar"

               Heitor Villa Lobos / Dora Vasconcellos

 

Não posso negar que a primeira impressão que tive ao visualizar aquele conjunto habitacional não foi das melhores. O lugar em questão era uma vila de casas simples, modestas para ser mais exato. Não fui em busca de tais acomodações por escolha própria, digamos que as circunstâncias me levaram até ali. Descobri há pouco que minha namorada traria uma nova vida a esse mundo louco. Nunca fui de fugir de minhas responsabilidades, por conta disso, decidimos sair a procura de um espaço para morar. A soma de nossos rendimentos não foi suficiente para obtermos um mínimo de conforto, mas, não deixaríamos de honrar com o compromisso do aluguel.

 

Enquanto caminhava pelo pátio, pude constatar que o local estava vazio, com exceção de uma senhora que varria pacientemente a entrada de sua casa. Ela olhava diretamente em meus olhos, tal atitude me deixou constrangido. Ao perceber meu incômodo, ela meneou a cabeça negativamente, um sinal claro de repreensão. Durante os poucos instantes em que fitei sua expressão, captei traços evidentes de tristeza, mais do que isso, sua fisionomia distante remetia à desesperança fria de um doente terminal. Ela parecia resignada com a própria situação, mas demonstrava insatisfação, ou mesmo pesar, pela minha presença no local.

 

De acordo com as palavras do proprietário da vila, o espaço por mim alugado, dois cômodos mais do que compactos, só havia ficado vago devido ao recente falecimento do antigo inquilino, e que fora muita sorte consegui-lo, pois a oferta de imóveis para locação a baixo custo era algo raro naquela parte da cidade. Não liguei muito para o que ele disse, afinal valorizar o próprio negócio é algo comum e compreensível, e, além disso, o que me importava mesmo era conseguir viver em paz sem depender da ajuda de ninguém.

 

Na mesma tarde nos mudamos, ou melhor, levamos, numa só viagem, nossos poucos pertences na caçamba de uma caminhonete fretada. Lembro do rosto triste da minha mãe quando saí de casa com as roupas na mochila. Ela não se conformava com a minha intransigência.

 

No início da noite já estávamos devidamente instalados. Minha, agora, esposa encontrava-se esparramada na cama espremida entre uma parede e a cômoda. Ela estava exausta. Trabalhara a manhã toda, depois veio a mudança, logo era justo que descansasse um pouco. Eu preferi dar uma volta pelo pátio comunitário. Novamente ninguém circulava pelo local, embora a noite se mostrasse muito bonita e estivéssemos em pleno final de semana. Tive a impressão de que a tristeza exalada pela senhora que vi mais cedo fosse algo a se espalhar por todas as casas da vila. Não os culpo, seria plausível presumir que fossem pessoas sem muitas oportunidades na vida e que preferissem se recolher em casulos, por conta disso.

 

Ao caminhar pela via vazia, percebi que na entrada de todas as casas havia uma espécie de arranjo de plantas secas, não lembro de ter visto algo semelhante em minha própria porta. Confesso que a curiosidade me afetou, então decidi observar com mais atenção uma delas, mesmo correndo o risco de ser surpreendido. Escolhi a última residência. Qual não foi a minha surpresa ao constatar que não havia só o trançado de folhas e caules na entrada da casa, notei, também, símbolos indecifráveis grafados em tinta vermelha no chão, aos pés da porta, além de um rastro do que parecia ser sal grosso.

 

Recuei imediatamente. Talvez os habitantes daquela vila não fossem só desafortunados e tristes, era bem possível que andassem de mãos dadas com a loucura. Decidi voltar para casa. Minha esposa dormia um sono pesado. Tudo bem que estivesse cansada, mas não me lembro de tê-la visto daquela maneira antes. Pensei em acordá-la, mas desisti de minhas intenções, talvez eu estivesse apenas impressionado e não seria correto perturbá-la com as minhas inquietações.

 

Preparei uma xícara de café e postei-me a observar a noite. As portas e janelas permaneciam cerradas. A lua derramava sua presença na via mal iluminada. Não consegui sorver um só gole da bebida, o líquido esfriou sem que eu o tocasse. Diferentemente do que se possa imaginar, as dependências, apesar de pequenas e simples, eram conservadíssimas, além de muito limpas. A essa altura meus olhos vagueavam por cada centímetro do ambiente interno. Perscrutei cada recanto escondido, só então percebi que o assoalho de madeira, ainda que demonstrasse ter sido revestido por uma generosa demão de verniz, exibia profundos sulcos. Encostei o rosto bem rente ao chão no intuito de examiná-lo melhor. Então notei algo ainda mais estranho, senti que um odor pesado, úmido, não sei definir ao certo, era expelido por aquelas tábuas. Estas estavam quentes, a pele do meu rosto formigava ao contato.

 

Sempre tive a percepção de que a madeira, mesmo depois de trabalhada, ainda era capaz de conservar um vestígio da vida que existia na árvore. Da mesma forma que as pessoas que vivem juntas acabam por adquirir características umas das outras, por conta do convívio, seria possível, e até mesmo provável, que os objetos inanimados como casas e móveis, sobretudo os de madeira, conseguissem absorver um pouco das essências dos seres que circulam à sua volta.

 

Seguindo por essa linha de raciocínio, fico me perguntando, como seria a pessoa que habitara essa casa para deixar vestígios tão peculiares impregnados no piso? E as marcas? Como ou por qual motivo teriam surgido? Uma coisa era certa: havia alguma coisa muito estranha naquele ambiente. Sacudi minha esposa, nem sinal de reação, ela estava completamente dominada por um sono absurdo. O que era apenas desconfiança e desconforto acabara por converter-se em incontrolável desespero. Comecei a temer pela minha sanidade e pela integridade daquela que eu amava.

 

O cheiro exalado pela madeira, que até então era discreto, se espalhara como uma praga pelo ar. Era impossível respirar naquele quarto. Eu precisava sair dali. Tomaria a garota nos braços e ganharia as ruas. Com os olhos queimando e com os pulmões em brasa, joguei-a no ombro e caminhei até a porta. Estava inacreditavelmente trancada. A única janela também. Coloquei-a de volta no colchão e investi contra a prancha de madeira. Inútil. Toda a força do meu corpo não fora capaz de proporcionar um leve balançar na peça.

 

Contra todo o meu bom senso, fui invadido pela certeza inabalável de que havia uma manifestação sobrenatural a nos fazer companhia no recinto. O fenômeno, que não se manifestava de forma visível, parecia influenciar no incomum estado inconsciente de minha esposa e, sobretudo, no meu modo de agir. Ele insistia em me dominar e comandar. Minha pele queimava tanto que já não suportava o toque das roupas, fui obrigado a me livrar de todo e qualquer revestimento. Pela primeira vez vi os contornos de uma grande sombra na parede. A mancha escura era adornada por dois imensos círculos claros, parecia um olhar malévolo a me condenar. A silhueta negra se abriu descrevendo o formado de uma imensa boca enfeitada por dentes salientes. A manifestação crescia em minha direção, demonstrava clara intenção de me devorar, senti seu toque e caí.

 

De joelhos no chão, com os olhos quase a saltar pelas órbitas, e com o corpo lavado em suor, gritei. Mas não reconheci a voz que escapava de minha dolorida garganta. Naquele momento, tive a plena convicção de que, seja lá o que fosse aquela sombra, ela acabara de se apossar do meu corpo. O urro por mim projetado ribombou pelas paredes derrubando copos e outros objetos. A dor que sentia era desumana...

 

Olhei para minhas mãos, mas elas haviam mudado. A ardência sem fim impeliu-me a arrancar a própria pele. Conforme os nacos de carne ensangüentada caíam no chão, uma nova epiderme surgia. Crua! Escura como a noite! Revestida por fios espessos e vivos! Capazes de sentir o toque de um suspiro...

 

Já não existia nada que lembrasse minhas antigas formas. O que estava ali, livre no mundo, era algo que não morria com a matéria, apenas se modificava, incorporando de tempos em tempos uma nova casca. A vontade do destino havia nos colocado no mesmo plano para que desfrutássemos dos víveres mundanos como uma só pessoa a partir daquele momento.

 

Portas e janelas já não impunham resistência. O abraço da noite e o toque do luar invadiam sem cerimônias os limites do cômodo escuro. Lamentos em choro. Gritos reprimidos. O cheiro do medo. Inúmeras sensações acariciavam meus sentidos, mas não havia como atender aos apelos que vinham de tão perto. Meu instinto de autopreservação me alertava da proibição à minha presença naquelas casas. Os malditos insistiam em me repelir.

 

Gritei com toda a força dos pulmões, os cães em coro respondiam à minha agonia. A consciência ínfima, que ainda me trazia um resquício de humanidade, lentamente me abandonava, como a chama de uma vela ao sabor de um sopro. A imagem de uma garota desfalecida marcou minha última lembrança, a derradeira lucidez. Nada mais eu vi...

 

Acordei com a luminosidade irritante da manhã. Uma chuva forte caía em pesadas gotas. O dia estava fechado em nuvens, mas ainda assim, as cores diurnas eram portadoras de um estranho desconforto. Minha boca guardava um gosto rançoso e amargo. Manchas secas e castanhas infestavam meu corpo nu. Eu não conseguia largar meus joelhos, permaneci por um bom tempo na mesma posição, abraçando minhas pernas. Protegida pela cobertura de uma ponte, minha presença era vigiada pelos olhos assustados de um indigente. Ele me oferecia o conteúdo de uma lata. Recusei com um balançar de cabeça.

 

Talvez ele não quisesse me alimentar se soubesse quem sou agora. Se tivesse me visto algumas horas antes. Quantos haviam tombado perante minha vontade? Eu não sou nenhum ignorante ou descrente. Tenho plena convicção da monstruosidade que faz morada em minha carne renovada. Não me recordo de nada, e agradeço por isso, mas sei que a origem do sangue estampado em minha pele não me traz nenhum orgulho. Preciso lavar meu corpo nas águas poluídas do riacho e encarar a dura realidade que me espera.

 

Logo as manchetes dirão que o corpo de uma mulher, ou o que sobrou dele, fora encontrado numa pequena casa de vila. Certamente a polícia espalhará os detalhes sobre o principal suspeito. A justiça seguirá no encalço de um homem, mas apenas os vizinhos da infeliz garota serão detentores da verdade inegável: o massacre fora obra de um demônio que só atende aos apelos do próprio instinto, da vocação assassina comandada pela plenitude branca estampada no céu.

 

Posso imaginar a expressão carrancuda da velha senhora dando lugar a um sorriso liberto. Ao mesmo tempo em que aquelas pessoas lamentavam a perda de duas vidas, sim duas vidas, também respiravam aliviadas pela certeza de que o espírito da besta não habitaria mais os limites de sua humilde comunidade. A maldição seria banida para longe, carregada pelo meu corpo como um fardo pesado.

 

Eu nunca mais poderia retornar para aquela cidade. O melhor a fazer seria encontrar um novo covil. Sob o reinado do sol, eu caminharia até meus pés sangrarem, atingindo a maior distância possível. Ao cair da noite, as sombras me esconderão e me darão proteção até o inevitável chamado dos céus. A segunda lua chegaria de qualquer forma, e com ela a ação devastadora do demônio.

 

Tenho pena de mim, por acordar como um amaldiçoado. Lamento pelos habitantes daquela vila, por terem vivido por tanto tempo presos em seu próprio mundo. Rezo pela alma dos desafortunados que cruzarão meu caminho ao anoitecer. Mas, não posso negar que o turbilhão em minha mente é inversamente proporcional à satisfação plena que meu corpo experimenta. Sinto a energia correr em minhas veias, percebo em meus músculos a presença de cada ser ingerido. É perturbador, mas confesso, envolto pela vergonha, que anseio para que o dia passe depressa...

 

Flávio de Souza



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