O QUARTO

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      Este é um conto baseado em fatos reais, onde os nomes dos envolvidos, assim como dos locais onde ocorreram os fatos, foram alterados para evitar identificação e/ou constrangimento.

NOTA DO AUTOR.     

 

 

      Quando o português José Tavares da Silva, desembarcou no Brasil, aos dez dias do mês de janeiro de 1940, com apenas uma mala e um violão, sozinho, e com pouco mais de dezoito anos, não tinha nenhum parente ou amigo aqui para recebê-lo. Vinha tentar a sorte.

      Após comprar um jornal, entrou em um bar, sentou-se e pediu um café. Começou a folhear o jornal na mesa, procurando algum anúncio de quarto para alugar. Encontrou um por um preço bem razoável, na rua da Abolição, no bairro de mesmo nome. Terminou o café, pagou e saiu. Na rua, se informou como chegar àquele endereço.

      Desembarcou do bonde quase em frente ao endereço que queria. Era uma casa grande que alugava um de seus quartos. Não tinha cerca nem muros. O acesso à porta da frente era livre, mas estava fechada. O jovem descansou a mala no chão, encostou o violão na parede. Tirou um lenço do bolso de trás da calça e enxugou o suor da testa. O dia estava muito quente e o céu sem nuvens. Ele vestia terno preto e chapéu. Acostumado ao clima frio de Portugal, não pensou em trazer roupas mais leves, teria que comprar algumas. Bateu várias vezes na porta, mas ninguém atendia. Uma vizinha o acudiu, informando que a proprietária tinha viajado com filha doente e retornariam em uma semana, deixando-a incumbida de mostrar o quarto e cuidar do aluguel.

      O quarto ficava do lado de fora da casa, na parede lateral à esquerda da entrada principal do imóvel. A porta estava aberta e as chaves, na fechadura. Era um aposento espaçoso, tinha apenas uma pia, uma cama de solteiro e um guarda roupas de duas portas. A construção parecia bem antiga, devia ter quase de cem anos. A porta do quarto, que ficava entre duas janelinhas circulares, tinha a parte superior em arco, combinando com as janelas, que se abriam girando em um eixo horizontal, parecendo escotilhas de navio. Não havia banheiro dentro do quarto, ele ficava do lado de fora porém integrado ao corpo da casa. De acordo com as informações da vizinha, era o único da casa e era usado por todos. Era um banheiro pequeno, com apenas um vaso sanitário e um chuveiro sem aquecimento. Ficou sabendo que a proprietária tinha apenas uma filha doente, que só vivia trancada em casa, não trabalhava nem estudava, e também não atendia à porta. Seria um transtorno dividir o banheiro com mais duas pessoas, ainda mais com uma moça problemática, porém, pelo preço, era o que ele podia pagar.

      Depois de informar que o quarto era independente, e que ele podia chegar à qualquer hora, pois não iria incomodar, e orientá-lo a pôr o valor do aluguel em um envelope e enfiar por baixo da porta da frente, ela se afastou sem se despedir. Assim que ela entrou em sua casa, que ficava à direita, colada à parede contrária àquela onde ficava o quarto, uma outra mulher, que morava na casa cuja parede lateral ficava voltada para a entrada do quarto, mas não tinha janelas, se aproximou. Era uma mulher magra, envelhecida, de rosto bem enrugado e uma verruga no nariz, usando um vestido preto, um lenço preto na cabeça e sapato preto fechado. Indiscretamente, olhou o rapaz de cima em baixo e perguntou se ele estava querendo morar ali. Sem esperar resposta, ela continuou: "Aqui mora uma moça doente. Eu tenho muita pena dela. Se o senhor a encontrar, seja gentil – ela sofre muito, está sempre com as mãos machucadas e as unhas sangrando". Ela dizia isso com uma expressão triste no rosto. Seus olhos encheram-se de lágrimas, e ela continuou: "A mãe não é boa com ela, é uma mulher impaciente e intolerante, sempre reclamando da cruz que carrega". José ouvia tudo, sem saber o que dizer.   Assim como a outra vizinha, a mulher se afastou sem se despedir e entrou em sua casa.

      O novo inquilino colocou a mala e seu violão para dentro, fechou o quarto à chave e saiu, com o jornal embaixo do braço para procurar emprego.

      Entrou em um botequim da esquina, sentou-se, pediu outro café. Na seção de empregos do jornal, estavam oferecendo uma vaga de ajudante de Linotipista na Livraria e Editora Silveira, em São Cristóvão, por um período de experiência para aprender o serviço e depois ser efetivado.       Chamou a garçonete, pediu informações sobre onde ficava o bairro de São Cristóvão e como se chegar lá. Pagou a despesa e saiu.

 * * *

      Após uma curta entrevista com o futuro patrão, José foi autorizado a começar na manhã seguinte.

      A primeira noite no quarto passou sem que acontecesse qualquer coisa de extraordinário.

      No serviço, ele conheceu um sujeito chamado Wilson Cunha, que tocava um violão de doze cordas e era líder de um grupo musical chamado Regional do Cunha. Ao saber que José também tocava violão, convidou-o para comparecer aos ensaios do grupo.

      Após o expediente, o novo empregado passou a ensaiar habitualmente com o regional, que era composto do "sete-cordas", do Cunha, um cavaquinho, uma flauta e um pandeiro – e agora teria o violão tradicional de seis cordas do "cachinho de ouro" – como começou a ser chamado no grupo, porque era louro e tinha uma mecha de cabelos sempre caindo na testa. Nos fins de semana, animavam festinhas, o que lhes garantia alguns trocados extras.

      Voltava para o quarto apenas para dormir, quase sempre depois das 23 horas. Porém, uma noite, despertou com pancadas na janela e no guarda-roupa, e viu um vulto, dentro do quarto, levantar o pé de sua cama e largar de certa altura, provocando um baque brusco, no chão. Mas logo o vulto desapareceu. O relógio de cabeceira marcava meia-noite e quinze minutos. Sentiu os pelos dos braços se arrepiarem. Teria sido uma coisa real, ou havia acordado de um pesadelo e ficado, ainda, com aquela impressão ou sensação de que ainda havia alguém no quarto?  Como não aconteceu mais nada depois que já estava bem acordado, acreditou que se tratara de um sonho, e voltou a dormir.

      Na noite seguinte, também depois de meia noite, fortes pancadas na janela e na porta o despertaram. Desta vez eram bem mais fortes e permaneceram mesmo depois de ele estar acordado. O rapaz levantou-se foi até perto da janela e perguntou: "Quem está aí?". Não obteve resposta. Seguiram-se mais quatro batidas na porta. Ele resolveu abrir, mas antes pegou o revólver. Não havia ninguém. Olhou para os dois lados – estava tudo deserto e silencioso. Assim que voltou a fechar a porta, as quatro batidas se repetiram, e ele abriu a porta bruscamente, para ver se surpreendia alguém fugindo. Nada. Nesse instante, um gato pulou do telhado e ele levou um susto enorme, quase chegou a atirar. Procurou se acalmar, respirou fundo algumas vezes e voltou para a cama. Não aconteceu mais nada naquela noite.

      A partir daí, não houve mais uma noite em que não acontecesse alguma coisa. Certa vez, ele acordou de um pulo e sentou-se na cama, depois de ter levado uma bofetada no rosto. Foi até o espelho. Uma das faces ainda estava vermelha e ardendo. Percebeu que, após cada manifestação, tudo ficava em silêncio e não se repetia mais. Porém, a partir dessa noite, passou a ser diferente. Assim que voltou a se deitar, sua cama começou a girar como se alguém a estivesse arrastando por uma das extremidades.

      – Vem me enfrentar de homem para homem, seu filho da puta! – gritou, como se soubesse a quem se dirigir. – Se é que tu és homem ou o que quer que sejas.

      As pancadas no guarda-roupa voltaram, mais fortes, dando a impressão de haver alguém se debatendo lá dentro. As gavetas, numa hora estavam abertas e, em seguida, fechavam bruscamente, como se tivessem levado um chute. Ele resolveu arrastar o móvel para ver se não havia algum buraco na parede ou nas costas do móvel, por onde alguém pudesse passar e mexer no armário e nas gavetas. Mas não havia nada ali. As pancadas no armário se repetiram a noite toda.

      O que poderia estar provocando tudo aquilo. Ele aprendeu que fantasmas não existiam e que tudo podia ser explicado como fenômenos físicos. Será que a física explicaria o que estava acontecendo ali? Seria entendido como energia concentrada, ou coisa assim?

      – Mas como explicar uma bofetada dessas? – falou consigo mesmo.

      Logo em seguida, a janela e a porta, trancadas por dentro, repentinamente, se abriram de supetão, pregando-lhe outro tremendo susto e deixando entrar o vento forte da noite.

      Tais eventos começaram a atormentá-lo a ponto de ele chegar ao trabalho extremamente abatido, com os olhos fundos por já não dormir a vários dias. Passou a cochilar no serviço ou a não comparecer ao trabalho, pois só ia dormir pela manhã e perdia a hora. Às vezes, só depois que o galo de algum vizinho cantava é que os acontecimentos sobrenaturais paravam. Já tinha ouvido dizer que o canto do galo afasta os espíritos.

      Começou a achar estranho nunca encontrar a proprietária e sua filha, nem mesmo na hora de usar o banheiro – é claro que sempre saía muito cedo e voltava muito tarde. A casa estava sempre fechada. O mesmo ocorria com as duas vizinhas, além de não mais tê-las visto, nunca viu luz acesa nas duas casas.

 * * *

      Ao entrar no prédio da empresa, numa sexta-feira, foi avisado, logo na portaria, que se dirigisse ao Departamento de Pessoal. Ao chegar lá, lhe deram um envelope com uma carta de demissão. Estava sendo dispensado pelo patrão antes mesmo de completar o período de experiência.

      No sábado seguinte, ainda foi tocar com o Regional do Cunha em uma festinha no bairro do Engenho de Dentro. Na volta, já passava de 1:30 da madrugada. As ruas estavam totalmente desertas e mal iluminadas. Não se via um automóvel. Os bondes, pelo jeito, não circulavam mais àquela hora. Ele estava em frente à estação de trens do Engenho de Dentro. Dali até a Rua da Abolição não era muito longe para se ir à pé, mas, com o violão nas costas e depois de ter bebido alguns copos de vinho a mais, ficava meio difícil.

      Sempre que saia para voltar muito tarde da noite, José levava o revólver, e isso acontecia desde quando morava em Lisboa. Instintivamente, pôs a mão direita na cintura, onde ficava a arma, apenas para conferir. A caminhada pareceu longa, principalmente pelo silêncio e a monotonia de ouvir apenas o som compassado dos próprios passos.

      Quando chegou à porta de seu quarto, já devia ser quase duas horas da manhã. Foi quando uma coisa o surpreendeu. A porta estava entreaberta, e ele tinha certeza que a havia fechado à chave. Quem poderia estar em seu quarto àquela hora? Será que a dona da casa queria averiguar alguma coisa a respeito dele? Será que havia alguma passagem da casa para o quarto por dentro, que ele ainda não tinha percebido? Já tinha arrastado o guarda-roupa para ver o que havia por trás, e viu que estava tudo normal. "Pode ter usado uma cópia da chave" – pensou. Mas por que ela iria fazer isso tão tarde? Poderia ter feito durante o dia, quando ele estava no trabalho. Ou será a filha doente? Uma jovem na condição dela é capaz de qualquer coisa. Poderia ser sonâmbula. Mas... e se fosse um ladrão?

      José apoiou, com cuidado e sem fazer nenhum barulho, o violão na parede ao lado da porta, tirou o revólver da cintura e tentou, lentamente empurrar a porta com a mão esquerda livre. A porta, que estava apenas entreaberta, não cedia nem um centímetro. Alguma coisa a estava travando por dentro. Talvez tenham encostado algum móvel na porta. Tentou, com um pouco mais de força, usando o ombro. Percebeu que a porta, agora, ia e voltava como se alguém também a empurrasse de dentro para fora. O que podia ser? Não queria ser agressivo a ponto de machucar alguém, caso fosse a dona da casa ou sua filha doente. Então, encostou a boca na abertura da porta e gritou para dentro, não muito alto para não acordar os vizinhos: "Quem está aí? Saia, que eu estou armado". Além de não receber resposta, viu que a porta voltou com força, batendo em sua boca, provocando um sangramento no lábio superior.

      Ele era um sujeito considerado "pavio-curto" pelos amigos, e sua paciência, naquele momento, já havia se esgotado. Tomou distância, e meteu o pé na porta com toda a força.

      Qualquer porta, até um pouco menos frágil do que aquela teria se quebrado ou sido arrancada das dobradiças, mas aquela, surpreendentemente, manteve-se intacta.

      Trincando os dentes de raiva, ele enfiou o cano do revólver pela estreita abertura e atirou para dentro do quarto. Em uma fração de segundo após ouvir o som do tiro do revólver, ocorreu um estrondo, como se tivesse explodido uma banana de dinamite. Foi como se o quarto, ou quem estivesse dentro dele, tivesse revidado, com aquela explosão bem no seu rosto. O deslocamento do ar jogou seu corpo para trás. Caiu de costas no chão, desacordado.

      Despertou pela manhã, com o sol queimando-lhe o rosto. O revólver ainda estava a seu lado. A porta e as duas pequenas janelas circulares estavam totalmente abertas, intactas, porém estranhamente envelhecidas e carcomidas, como se da noite para o dia tivessem envelhecido vários anos.

      Era domingo e, àquela hora, todos, provavelmente, ainda estavam dormindo. Devia ser mais ou menos seis horas da manhã. Seu relógio estava quebrado; não sabia se antes ou após a explosão, ou se foi quebrado na queda que sofreu.

      Levantou-se do chão, bateu a poeira, pegou o revólver e o violão e entrou no quarto. A cama estava sem colchão, completamente apodrecida e destruída por cupins. Da mesma forma o guarda-roupa. Estava com a porta caída, presa apenas pela dobradiça inferior. As gavetas, todas quebradas, demonstravam também que já tinham servido bastante de alimento para cupins. Não estava entendendo nada. O quarto não era mais aquele que viu quando chegou ali, parecia abandonado há vários anos. As paredes, descascadas, tinham enormes marcas de infiltração e umidade. Sua mala, deixada em um canto, ainda não estava desfeita,. Estava do mesmo jeito como quando a deixou para sair e procurar emprego.

      José colocou o revólver na cintura, pegou a mala, pôs o violão nas costas e saiu do quarto. Deixou a porta e as janelas abertas. Parecia que estava despertando de um pesadelo ou ainda estava vivendo um. Dirigiu-se até a entrada principal do casarão e olhou por baixo da porta. O envelope que ele havia deixado, com o valor do aluguel, ainda estava lá. Foi até uma árvore mais próxima e retirou um galho fino, fazendo uma vareta. Passou-a por baixo da porta e conseguiu puxar o envelope. Estava intacto, com todo o dinheiro. Guardou-o no bolso do paletó e saiu caminhando. Foi embora à pé, disposto a parar só quando se cansasse. Assim iria tentando raciocinar a respeito do que havia acontecido ali.

      Ainda não havia se afastado muito, quando passou por ele, um senhor, de idade já bem avançada, que vinha em sentido contrário.

      – Senhor! – chamou-o – O amigo conhece as pessoas que moram aqui? – perguntou, apontando para as três casas.

      – Meu jovem – disse o homem –, essas três casas estão fechadas há mais de vinte anos. Os donos, que moravam aqui, morreram vítimas de gripe Espanhola, que nos atingiu em mil novecentos e dezoito. As casas foram lacradas para evitar contaminação. Agora já não há mais perigo, mas não existem herdeiros e elas já não servem para mais nada, a não ser, para serem demolidas – concluiu, o ancião.

      O rapaz ficou tão chocado que foi se afastando devagar e nem agradeceu a informação. Depois de caminhar cem metros mais ou menos, ele parou e olhou para trás. A porta e as duas pequenas janelas circulares – uma de cada lado –, faziam o quarto parecer o rosto de um defunto, com a boca aberta. As órbitas escuras e profundas.



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Comentários   

0 # Amanda 30-11--0001 00:00
Muito interessante!
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0 # Osler Ericson Kreisler 04-07-2016 02:08
Obrigado, Amanda. Experimente ler "Espíritos Perturbadores"
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