O Edifício

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I

— Vamos entre logo, não seja medroso! — uma voz de garoto ordena.

— Não sei não, parece esquisito, e se alguma coisa acontecer. — outro garoto responde.

— Não acontecerá nada, eu prometo. Agora, entra logo nessa merda de elevador! Nem funciona mesmo, do que está com medo. Vá agora! — o garoto manda mais uma vez.

— Tudo bem, mas se algo acontecer chame a policia! — o garoto amedrontado disse.

— Claro que chamo, mas não vai acontecer nada. Pode acreditar. — Abrindo e segurando com força a porta do elevador acalmando o amigo amedrontado. — Não vai querer que o resto da galera fique sabendo que você é um cagão, vai?

— Não. Claro que não! Eu posso fazer isso! — O mais medroso tenta parecer destemido.

O garoto adentra no local somente carregando sua lanterna, o outro garoto – o mandão, continuava a segurar a porta para que ele entrasse no velho elevador – o elevador que ficava no trigésimo terceiro andar de um prédio abandonado localizado num beco, em uma escura rua a dois quarteirões de suas casas.

— Viu não tinha nada que temer, não tem nada ai, mas tente apertar alguns botões.

— Você tinha razão não tem nada aqui. — Rindo ele aponta a lanterna procurando painel, ele vê o painel e pressiona alguns botões, mas nada acontece, ele da umas pancadas com a lanterna, mas nada acontece, bate novamente no painel com sua lanterna e depois o ilumina para ver se deu resultado, algo estava errado aquele painel estava estranho, começara a escorrer um líquido gosmento do painel, escorria como se o elevador estivesse chorando.  — Meu Deus! O que é isso tem alguma coisa saindo do painel, parece uma gosma. Que merda é essa! — O garoto passa a mão no painel para conferir o que seus olhos acabaram de ver. — O meu Deus! É s...

Antes que o garoto completasse a frase a porta força para que o outro garoto deixe de segura-la, o garoto não tem forças para manter a porta aberta e a solta.

— Não! O que é isso? Que merda é essa? Cara! Se tá me ouvindo? — O garoto bate desesperado na porta gritando para seu amigo preso no elevador. — Vou chamar por ajuda, eu já volto!

O que ele não sabia é que já era tarde de mais. Assim que o garoto saiu para providenciar ajuda o número 13 acendeu no painel que mostra em qual andar o elevador se encontra. No próximo instante se apaga, e algo começa a sair debaixo da porta, um líquido avermelhado mais precisamente sangue, a palavra que faltara para o garoto preso completar sua frase. O chão de frente para a porta estava agora inundado de sangue em uma cena grotesca e macabra, pareciam ser litros e mais litros de sangue espelhados como água suja em dia de limpeza, lembrava a imagem de um matadouro para carne bovina, onde todo o sangue do animal se espalha com rapidez no chão, tingindo-o imediatamente de um vívido escarlate.

O garoto saiu correndo, desceu todos os treze andares na maior velocidade que conseguia, descia as escadas tropeçando de tão apavorado. Chegou ao beco em poucos instantes pegou sua bicicleta e saiu em disparada rumo à pequena delegacia que se encontrava ali perto.

Chegando a delegacia o garoto joga a bicicleta no chão e entra correndo e gritando:

— Oficial Charlie, oficial Charlie!

— O que foi Jimmy, por que está assim moleque. O que ouve? — Disse o oficial Charlie, parecendo surpreso – aquele era um lugar tranqüilo, muito tranqüilo. Charlie era oficial mais velho da delegacia. O homem alto e forte, sempre atendia aos chamados. Tinha aquele imponente visual cinematográfico de sheriff, com o característico bem aparado bigode, a marca cinzenta na face mostrando onde crescia a barba, o uniforme impecável e seu inseparável chapéu de oficial com a reluzente insígnia da corporação perfeitamente alinhada.

— Oficial, meu amigo ficou preso no elevador do prédio abandonado, o velho prédio que fica no beco, perto do cruzamento da 31 de Outubro com a Principal, nós estávamos explorando o prédio e ele ficou preso.

— Aquele lugar não é diversão, não é brincadeira. Espero que você esteja falando a verdade filho, policia não é brincadeira. — Apanhando o rádio; Charlie possuía um sotaque sulista marcante, seria engraçado se ele não tivesse aquele tamanho todo e um olhar de caçador, todos ficavam intimidados perto dele.

— Não senhor. Ele está mesmo preso! Eu juro! — O garoto repetia apavorado.

— Tudo bem. Atenção todas as patrulhas! — Charlie chamando as patrulhas para uma busca.

— Patrulha 167 na escuta.

— Patrulha 167 está me ouvindo, confirme sua posição. — Charlie procurava no rádio pela patrulha mais próxima para começar as buscas. – somente existiam duas patrulhas naquela delegacia.

— Senhor, aqui é a patrulha 167, estou no quarteirão da Rua Principal. — respondeu a patrulha.

— Dirija-se imediatamente para a 31 de Outubro, vá até o beco próximo ao cruzamento com a Principal e comece uma busca naquele prédio abandonado, o com o número 85 gravado na entrada. Tem um garoto preso lá, supostamente no elevador.

— Entendido senhor. Estou me deslocando imediatamente. A patrulha 167 se diria ao local.

— Senhor. Patrulha 235 na escuta. — respondeu a segunda patrulha.

— Patrulha 235 qual sua posição? — Charlie queria enviar as duas patrulhas ao local antes dele mesmo ir até lá.

— Estou próximo a delegacia. — Respondeu a 235.

— Ok. Dirija-se imediatamente para o prédio abandonado da 31 de Outubro, naquele beco próximo ao cruzamento com a Principal. O número 85. Junte-se a 167 e realize a busca de um garoto preso no elevador.

— Sim senhor. Respondeu a 235.

— Pam. Tome conta da delegacia eu vou me juntar às patrulhas para fazer uma busca. — Disse Charlie à secretária da delegacia que acabara de sair do banheiro.

— Sim, mas o que aconteceu? — Respondeu a secretária com feição de susto.

— Não tenho tempo pra falar agora, mas parece que tem um moleque preso num prédio abandonado. Vamos Jimmy.

— Tudo bem. Me avise quando puder! — exclamou a secretária enquanto Charlie e Jimmy deixavam a delegacia.

A caminho do velho prédio Charlie chamou uma ambulância. Chegando ao prédio os carros das patrulhas já haviam chegado e ouvia-se a ambulância chegando. Charlie desceu do carro pediu a Jimmy que ficasse ali e dirigiu-se ao beco, rapidamente isolou o local passando a faixa amarela em volta da entrada do prédio. – As noticias por ali corriam rapidamente, uma multidão logo estaria parada frente ao local.

Charlie subiu as escadas do prédio juntando-se a busca. Após meia hora de busca os policiais conversavam pelo rádio para encerrar a busca – o garoto havia sumido não havia nenhum sinal dele no prédio.

— Positivo. Nenhum sinal do garoto aqui. — disse um dos policiais.

— Positivo. Aqui também não. — o outro policial respondeu, já sem esperança alguma de encontrar o garoto. — Vamos lacrar o local e encerrar as buscas.

— Positivo. — Charlie falara com um tom de desesperança.

— Positivo. — desligando o rádio.

Ao descerem do velho prédio a multidão já se formara, os pais do garoto sumido estavam lá junto a uma ambulância e alguns curiosos.

— Sinto muito senhora, não encontramos ninguém, eu sinto muito. — O policial falou com um nó na garganta, nunca tinha visto nada parecido, aquela família não teria nem um corpo para velar, era absurdo, o garoto simplesmente desapareceu.

— Não, por favor, não! Pelo amor de Deus! Façam alguma coisa! — A mãe do garoto gritou aos prantos, enquanto seu marido a segurava para que não entrasse no velho e abandonado prédio. — Eu quero entrar! Eu quero procurar! Eu quero meu filho! — Dizia ela, com as lágrimas já gotejando no chão.

— Desculpe-nos senhora, fizemos o que estava ao nosso alcance, mas o prédio está vazio, não há ninguém lá, não há nada lá. — O policial explicou da melhor forma possível, embasbacado pelo fato de que não havia absolutamente nada no prédio, até o elevador estava limpo e sem uso recente aparente.

O oficial Charlie estava muito abalado em todos os anos trabalhando naquela delegacia nunca tinha visto nada parecido. Tentando encontrar alguma explicação lógica nada, nada ocorre aos oficiais. A estória que Jimmy tentava contar era fantasiosa típica de um garoto de 14 anos amedrontado e supersticioso. Charlie declarou que ninguém mais poderia entrar no prédio, lacrou a entrada com madeira e proibiu estritamente a entrada de crianças aventureiras, se algo acontecesse seria de responsabilidade dos pais e não da policia.

A estória que Jimmy contara era absurda, ninguém creditou o fantasioso conto do garoto.

— O prédio é ruim, é assombrado, tem alguma coisa estranha naquele lugar. O elevador parecia ter ganhado vida própria, parecia que ele queria acabar conosco, queria nossas vidas, nossas almas, nosso sangue. Afinal como podia o elevador daquele prédio velho e quebrado estar funcionando? Ele nos queria, ele nos queria! — Jimmy tentou convencer a todos, mas todos estavam convencidos de que foi um acidente. "Acidentes acontecem" era o que todos diziam. Os pais do garoto após algum tempo realizaram uma pequena cerimônia funerária, Jimmy não contara a estória novamente, mas boatos se espalharam e o prédio virou mais uma lenda urbana, um prédio assombrado, um prédio ruim. Todas as crianças passaram a conhecer e temer o lugar.

Cinco anos se passaram desde o incidente no prédio 85 ninguém comenta nada sobre o assunto, mas a lenda em si crescia com o passar do tempo, o mito era conhecido por toda a região, as crianças falavam muito no lugar e muitos tinham a real intenção de ir até lá. O velho prédio abandonado do beco da 31 de Outubro, o número 85 agora era conhecido como um bicho-papão atraindo e destruindo inocentes vitimas.

II

Após certo tempo decorrido do desaparecimento ou morte de um garoto no edifício 85, o prédio se tornara um local irresistível para pré-adolescentes que tinham um espírito aventureiro e adoravam um bom mito de terror urbano. O prédio gritava para os pequenos invasores o explorarem, todos os grupos de crianças entre quatorze e quinze anos tinham a intenção de ir até lá para conferir com seus próprios olhos a maldição do local. Um local possuído pelo mal, um local que se alimentava de suas inocentes vitimas. Todos conheciam o prédio como O Edifício.

— Ei, cara. Tu ouviu falar do O Edifício? — Um garoto conversando com seu pequeno grupo de cinco, todos com treze anos idade, estúpidos o suficiente para ir a um local somente por que é proibido. — Vocês tão a fim de explorar aquela merda lá? Ou as mocinhas tem medinho?

— Cara. Aquela porra é estranha! Não sei seu eu vou não. — Disse um garoto do grupo não muito entusiasmado. — Olhe. Tom, não sei se é boa idéia se o xerife nos pegar lá, vai ferrar pra todo mundo.

— Vamo lá galera! Podemos ir por volta das 06h30min da noite ninguém vai saber! — Disse Tom encorajando o grupo. — Quem tá dentro dessa merda? Greg? Doug? Sam? Frank? — Tom olhou e disse os respectivos nomes de seus amigos, conferindo para ver quem iria.

— To dentro! — Disse Greg.

— Eu também. — Disse Sam.

— Vamo naquela merda! — Disse Frank.

— Beleza, mas vamos com calma, todos com celular, lanterna, baterias extras e... — Disse Doug – o mais cauteloso do grupo. Sendo logo interrompido pelo líder do grupo, Tom.

— Olha só o Doug, organizando uma viagem até as cavernas. Calma cara, é só um prédio podre de tão velho, deve ta caindo aos pedaços. — Tom brincou com a preocupação de Doug fazendo com que o grupo todo risse. — Vamos fazer o seguinte: Pegamos algumas baterias em casa, carregamos os celulares e nos encontramos no beco, dentro de uma hora e meia. — Todos concordaram com Tom e cada um foi para sua respectiva casa.

Passado o tempo combinado entre o grupo, Tom, Greg, Frank e Sam já estavam frente ao beco, só faltava Doug. O grupo já estava impaciente com o atraso de Doug ponderando se talvez ele tivesse dado para trás. Porém quinze minutos passados do horário combinado Doug chega com sua mochila com item de emergência, provocando gargalhadas no grupo.

— Hey Doug! Tá atrasado. E essa mochila ai, tem o que? — Frank rindo de Doug, por sua cautelosa responsabilidade em tudo. Doug sempre foi muito responsável para sua idade; não todo pré-adolescente de treze anos que se preocupa em levar água e algum lanchinho para uma simples exploração a um prédio abandonado.

— Vamo lá então! Vamo quebrar essas madeira e entrar nessa merda ai! — Tom gritou entusiasmado com a exploração, iria adentrar em uma lenda viva um local mítico e misterioso, um lugar que podia te matar, podia lhe comer vivo. Tom segurou firme eu seu taco de baseball e com toda força que tinha quebrou as madeiras que protegiam a entrada do prédio 85. Todos já tinham encostado suas bicicletas e ligado as lanternas. Muito entusiasmados eles correram para dentro do prédio, gritando ao mesmo tempo "O Edifício"!

III

Eles não sabiam com o que estavam lidando, aquele local poderia fornecê-los uma excruciante dor, uma dor que eles jamais esqueceriam uma dor que eles jamais voltariam a sentir.

O boato era de que o prédio 85 sentia o medo que cada um carregava dentro de si e utilizava isso como forma de matar e absorver suas vitimas; outros diziam que o prédio roubava as almas de suas vitimas ou sua energia vital. Alguns adultos também temiam o local, pois o desaparecimento de um garoto foi real, nunca acharam o corpo ou qualquer vestígio do que poderia ter havido ali, os pais do garoto providenciaram uma lapide em memória de seu filho, o qual nunca pode ter um apropriado enterro já que seu corpo nunca fora encontrado. Jimmy o garoto que estava junto do desaparecido quando o incidente aconteceu mudou-se para um campus universitário, mas durante os cinco anos que se sucedeu ele nunca tocara no assunto. Não dizia uma só palavra referente ao mistério do desaparecimento. Jimmy tinha 14 anos quando tudo aconteceu – estavam a explorar o prédio, entraram no elevador e garoto desapareceu desde então.

Agora Jimmy tinha 19 anos e estava longe demais para poder contar para aqueles garotos o que acontecera no prédio. Aquele pequeno grupo de ingênuos garotos querendo provar sua coragem e determinação através de uma fútil brincadeira. Talvez o garoto Jimmy conseguisse mudar os planos dos jovens aventureiros.

Os garotos entraram no prédio abandonado que parecia muito menor do lado de fora. Quando entraram o prédio parecia maior, muito maior; tinha somente uma entrada, uma porta dupla na frente da antiga construção; a fachada pelo lado de fora não tinha mais do que quarenta metros de largura e a lateral não passava de setenta metros de comprimento, sua altura aparentava ser de no máximo dez andares, mas ao entrar a impressão que se tinha era que você estava no lobby de um grande hotel, era um imenso salão principal com grande balcão de frente para a porta, à direita a porta de um escritório provavelmente usado pela gerencia, a esquerda ficava os elevadores e os banheiros e claro, as escadas para possíveis pessoas com fobia de elevadores.

Era realmente gigantesco ou apenas imaginação das crianças? Nenhum adulto reportara esse tipo de visão sobre o prédio, parecia mais ser um efeito mítico em que o prédio se moldava de acordo com imaginação de quem o perseguia. Talvez toda a estória não passasse de um mito que se espalhava boca a boca, um conto que todos conheciam e sentiam medo ao falar sobre.

— Vamos pela a escada! Assim a gente pode vê se tem alguma coisa doida no caminho. — Tom exclamou e todos se dirigiram para as escadas.

— Cara? Tu viu o tamanho desse salão, o prédio parecia tão pequeninho do lado de fora. — Frank estava embasbacado pelo tamanho do salão central; tagarelou sobre isso todo o tempo em que eles subiam as escadas para o primeiro andar.

Subindo as escadas eles passaram pelos primeiros sete andares e não viram nada de ameaçador. Nada ocorria naquele lugar.

— Esse prédio é uma bosta! — Exclamou Frank, chateado com o marasmo do local "mal assombrado".

— É só um prédio velho, caindo aos pedaços, não tem nada nessa merda! — Disse Sam.

— Não vai dizer que vocês vão voltar. Vão amarelar, as mocinhas estão com medo? Puta merda cara! Vamo ver o que nos outros andares! — Tom estava ansioso para mais, ver se haveria um corpo, uma marca, algo que indicasse algum incidente no local.

— Não to com medo, mas não tem nada aqui, essa merda ta vazia. É só! — Frank retrucou a investida de Tom, que tentava encorajar a exploração.

— Você é um bosta mesmo! Ta amarelando. — Tom apontou para Frank e cutucou intimidando-o; ele estava preparado para brigar caso fosse necessário. O instinto aventureiro masculino aos treze para quatorze anos, com um reservatório de testosterona quase transbordando; em pouco tempo estarão cuspindo no chão e falando lixo para as garotas.

— Hey! Tira esse dedo de mim! Otário! — Frank já se posicionara para um possível confronto com Tom.

— Calma. Calma. Porra galera vamos se acalmar. Vamo continuar olhando o prédio, juntos ninguém vai brigar. Certo? — Doug em seu memorável senso de responsabilidade esfria as coisas enquanto Greg e Sam seguravam a futura briga.

— Beleza. — Todos ao mesmo tempo concordaram; havia pelo menos mais dois andares para explorar.

Todas as salas do prédio estavam trancadas ou emperradas, não havia modo algum de entrar sem usar ferramentas apropriadas isso tornava a exploração em um verdadeiro fiasco. Até que a brilhante idéia de tentar usar o elevador; talvez fosse a maior estupidez, afinal como o elevador haverá de funcionar se o prédio fora desativado há décadas atrás, mas crianças não são lá muito espertas; garotos achando com ansiedade para se tornar homens são mais estúpidos ainda a impossibilidade de o elevador não estar mais funcionando não os ocorrera naquele momento.

— Vamo abrir esse elevador ai. Vamo ver o que tem ai. — Tom sugere a estúpida idéia ao grupo, que concorda de imediato.

Tom começa a puxar a porta do elevador até que finalmente cede e abre. Todos iluminam o grande elevador; aqueles com capacidade para mais de 25 pessoas, ao apontarem a luz para dentro do grande vazio do elevador abandonado, tinha algo muito estranho, estava limpo, imaculado do chão ao teto. Tom tomou a frente e entrou. Um por um os botões no painel foram se acendendo sem nenhuma intervenção dos garotos; o painel mostrava treze andares, o mais esquisito era a elegância daquele elevador, até mesmo os cartazes de segurança pareciam ter sido feito a mão com uma caligrafia antiga, lembrando documentos do século XVIII.

As idéias se moldavam na cabeça dos garotos; idéias pacóvias, crianças não se revelam gênios acreditando em edifícios fantasmas e bicho-papão; perambular sozinho em um local desconhecido não é uma idéia, dividir o grupo para cada um explorar um andar poderia apressar a exploração, mas a efeito que poderia ter era desconhecido; se alguém se perdesse como estaria sozinho, apenas com uma lanterna e um celular que não são armas eficientes caso um psicopata morasse no prédio. As possibilidades de algum tipo de entidade maligna estar presente no edifício eram remotas em comparação com a possibilidade de um ser de carne e osso, insano e violento.

Os fantasmas não machucariam pessoas mais do que um louco com faca, então se manter em grupo era a melhor idéia, considerando a idade dos garotos; 13 e 14 anos não são idades de extrema força física ou de inteligência avançada, portando a matemática era simples cinco contra um, mas homens são homens mesmo que ainda crianças.

— Tive uma idéia. Vamos no dividir cada um explora um andar. A gente ta no oitavo e o painel mostra treze, então a gente sobe e cada um explora um. — Tom teve mais uma idéia, a de dividir o grupo para procurar por algo com mais rapidez. Talvez não fosse a melhor coisa a fazer.

— É! Vamo fazer uma coisa de homem de verdade, vamo andar sozinho nessa merda e acabar logo com isso! — Frank, o corajoso aceitou a idéia de imediato.

O cauteloso Doug tentou convencer os amigos de aquela não era a melhor idéia, já que estavam em local desconhecido e poderia ser a casa de algum bandido violento. Os argumentos de adolescente-adulto de Doug não surtiram efeito aparente, a vontade de provar que é homem, um cavalheiro destemido, era grande demais para aqueles garotos; eles não desistiriam por nada.

IV

Tom apertou o botão respectivo ao nono andar; nesse ponto todos estavam dentro do elevador e esperavam que a máquina funcionasse perfeitamente como um passe de mágica. Após apertar o botão eles aguardaram ansiosos e em um único impulso a porta se fechou, o elevador subiu rapidamente ao nono andar, parou a porta se abriu. Os garotos se olharam até que Frank decidiu sair.

— Bom já que ninguém quer. Eu vou. E se eu ver alguma merda, eu telefono. — Disse Frank batendo o punho no peito, fazendo pose de mais corajoso.

Tom apertou o botão para o décimo andar e os garotos restantes desejaram boa sorte e coragem para Frank. Novamente o elevador fechou-se rapidamente e parou, abriu sua porta, estava agora no décimo andar; Greg se prontificou a sair, os garotos o desejaram boa sorte e coragem e Tom apertou o botão respectivo do décimo - primeiro andar. O mesmo aconteceu só que agora Sam saiu; no décimo – segundo Doug saiu. Finalmente no décimo – terceiro Tom saiu, ele estava muito entusiasmado, animado com a possibilidade de encontrar algum monstro ou algo que esclareça a fama do edifício. Fama construída graças ao desaparecimento de um pequeno garoto, assim como ele, assim como os outros, mas talvez fosse melhor deixar esse assunto para trás, ninguém sabia o que realmente acontecera com aquele jovem alem de Jimmy que não mais morava na região. Jimmy pode ter visto algo medonho, algo tão ruim que seus não acreditaram e por isso não quis mais falar sobre o edifício, ou sobre o que acontecera a seu amigo.

— Você é audacioso meu jovem, explorando meu nono andar. — uma voz soou bem ao longe arrepiando Frank da cabeça aos pés.

— Quem. Quem é você? Onde você está? — Frank estava tremendo pensando no que poderia ser aquela ou o que queria. Frank pensava sobre tudo o que ele temia, muitas coisas se passam pela cabeça de alguém que está com medo, o pavor que corre pelo corpo quando se chega perto da morte é um sentimento único.

— Do que tem medo? Caro jovem. Tem medo do escuro? Talvez medo de sangue? Você quer ver seu sangue derramado aqui? — A voz calma e monstruosa brinca com Frank a voz fica mais alta e vigorosa com o passar do tempo. — Hum. Eu vejo agora você tem medo de água, medo de morrer afogado.

— Cala a boca! Não sei do que você ta falando, tem alguém ai querendo nos assustar é só. Nada vai acontecer. — Frank estava tremendo, a luz de sua lanterna ia para cima e para baixo, iluminando o corredor de portas trancadas, um corredor vazio. Frank tentou recompor-se; o que é tragicamente difícil para uma criança naquela situação. Ele aponta sua lanterna para o corredor tentando ver alguma coisa, alguém a qual a voz pertencesse, mas não viu nada.

Frank sentiu uma pontada de desespero quando apontou sua lanterna para o chão e viu água batendo em seus pés. A água não aparentava vir de lugar algum e continuava a subir; Frank tentou contatar alguém usando o telefone celular, mas tinha sinal; os celulares não funcionavam no prédio. O Edifício parecia ter um tratamento especial para seus visitantes. Frank saiu em disparada até o elevador, mas o elevador não mais funcionava, Frank estava preso, não havia nada que pudesse fazer o lugar sentia seu medo crescer, O Edifício queria o sangue do inocente garoto.

Frank apertou desesperadamente o botão para o elevador descer até o andar onde estava, mas nada acontecia, ele correu de um lado para o outro mais todas as portas estavam emperradas não havia nada que ele fosse capaz de fazer. Olhou e apontou a lanterna para as paredes, pequenas rachaduras aos poucos iam aparecendo, era de lá que vinha a água, escorria lentamente das paredes, gotejava do teto e iam subindo seu nível. O coração de Frank disparou quando reparou na altura em que a água se encontrava; estava em seus joelhos, ele salgava a macabra piscina com suas lágrimas de dor. Tentou inutilmente vedar as rachaduras com as palmas de suas mãos, mas as rachaduras só aumentavam fazendo com que a água subisse rapidamente; agora a água estava na altura do peito de Frank que sentia a morte o puxando; ele fechou os olhos e se deixou cair, sem saber nadar afogou-se quase que de imediato.

O elevador que estava no décimo – terceiro andar desce até o nono. Ouves-se o barulho, aporta se abre no andar onde Frank acabara de morrer afogado, não havia água lá, havia somente o corpo de um garoto e sua lanterna jogada próximo a ele. O Edifício mandara seu elevador para recolher sua presa, sua recompensa. Uma ofuscante luz surge de dentro do elevador e em um único impulso o corpo de Frank é arrastado para dentro, rapidamente a porta se fecha. O sangue começa a escorrer por debaixo da porta alagando o nono andar com o que sobrara de Frank, seu sangue espalhou-se lentamente passando por baixo das portas emperradas.

O Edifício alimentava-se de suas vitimas, era isso que mantinha o prédio vivo, o elevador recebia as pessoas lá mortas e o sangue energizava ou renovava a vida do Edifício. Mais do que tudo o prédio tentava mostra que crianças não deveriam mexer com coisas que não podem aquentar ninguém deveria mexer com esse tipo de coisa. As conseqüências não valem a emoção.

No décimo andar Greg vasculhava em busca de algo interessante, mas não havia nada e as portas estavam todas bloqueadas, não podia abri-las, mesmo assim ele ia de uma em uma e tentava forçá-las. No fim do corredor a ultima porta da esquerda parecia entreaberta, uma luz vinha de lá; Greg curioso saiu correndo em direção a ela, ficou de frente para a porta e a observou por alguns instantes, desligou a lanterna e empurrou a porta com a parte de trás da lanterna. Lentamente a porta s abriu como Greg vira a luz estava acessa, lá dentro parecia um quarto comum de hotel; quando Greg entrou sentiu o local balançar e a lâmpada se apagou, ele ligou sua lanterna e tentou ver alguma coisa, apontando a luz para o interruptor Greg tentou acender a lâmpada novamente mais não funcionou, ele correu até a porta, mas a porta estava emperrada. Apontando com desespero a lanterna para o chão da sala, Greg viu o que não queria ele parecia estar em ponte de madeira que balançava de um lado para o outro causando náuseas em Greg; ficou ainda mais aterrorizado ao perceber o despenhadeiro que o aguardava embaixo da ponte, com águas negras em uma feroz correnteza que arrastaria qualquer um para uma morte certa.

Greg não acreditara no que via – como podia existir tal coisa? Tudo parecia um sonho, ele fechou seus olhos a fim de acabar com o transe no qual se encontrava. A sala voltou ao normal, mas no mesmo instante uma fina rachadura começava a descer da parede em frente a ele, indo cada vez mais rápido e a cada instante mais larga a rachadura tocou o chão do quarto e o mesmo começou a se abrir; o buraco ia à direção de Greg. Ele correu e se se encostou à porta emperrada enquanto vagarosamente a rachadura o perseguia. Finalmente o buraco se abrira embaixo de seus pés; nesse momento o suor frio escorria pelo rosto de Greg anunciando sua inevitável morte. Ele sentiu seu corpo ficar mais gelado. Quando buraco se formou por completo, engoliu Greg que caiu num poço sem fundo, depois de alguns minutos de queda livre, finalmente chegou a um fim. O corpo de Greg caiu sobre uma espessa gosma vermelha, que se encontrava no fundo do buraco onde caíra. Levemente o corpo foi afundando deixando apenas a pálida face de Greg a mostra, depois somente os olhos; logo em seguida afundado por completo.

O Elevador sobe até o décimo andar, a porta se abre – o iluminado e devorador voraz elevador foi pegar sua mais recente recompensa –, arrasta Greg do local onde estava – onde está normal novamente, somente uma sala vazia –, a porta se fecha, e novamente tudo o que se vê saindo do elevador era o sangue de sua mais recente vitima.

No décimo – primeiro e décimo – segundo andares Sam e Doug já estavam mortos; e o elevador subira para recolher os corpos, o único que permanecia vivo era Tom no décimo – terceiro andar – ele estava tentando abrir uma das portas que o havia chamado a atenção, pois tinha uma placa metálica mais precisamente prata marcada com números escuros, a placa dizia:

8 + 5 = 13

— Abre porta maldita! Abre sua merda! — Tom gritava enquanto golpeava a porta com todas as forças.

Através do corredor vinha uma chama vindo na direção onde estava Tom, a chama compreendia o corredor inteiro, do chão as paredes até o teto – era como um cano de um lança-chamas gigantesco –, consumindo tudo pelo caminho. Tom acertou mais uma forte pancada na porta que cedeu com o impacto, Tom entrou e fechou à porta de imediato, as chamas atingiram a porta esquentando-a queimando a mão de Tom que segurava a maçaneta, ele caiu para trás derrubando seu taco de baseball no chão espirrando sangue no rosto de Tom.

Tom olhou os arredores da sala; o local estava coberto de sangue havia trinta centímetros e continuava a subir, escorria das paredes e gotejava do teto. A sala treze; era para lá que ia toda a energia, toda vida, a sala estava viva graças ao sangue derramado retirado dos curiosos garotos que invadiram o prédio. Tom via-se praticamente nadando no sangue de seus amigos e de todas as antigas vitimas do faminto edifício. Aflito o garoto Tom se debate no lago vermelho, levantou-se apanhou seu bastão, os sons das pequenas gotas que pingavam do taco de Tom ecoavam pela sala vermelha. Ele golpeou a porta até que seu taco se partiu, usou seus pequenos punhos para bater na porta, deixando as marcas de suas mãos pintadas de escarlate a porta da sala treze; ele batia cada vez mais forte e a adrenalina gerada pelo medo o fazia superar a dor de sua mão queimada, mas a esperança de sair daquele lugar com vida diminuía a medida que a sala se enchia de sangue.

— Ainda falta você para completar o nível! — Uma voz ecoa pela sala – uma medonha e divertida voz –, o Edifício parecia contente com a bem sucedida caçada. — Os seus amigos já se foram, todos eles estão mortos agora, mas ainda resta você. Todos eles. Todos! — A voz continuou.

Finalmente Tom sucumbiu. O número treze se acendeu no elevador que subira para recuperar sua última vitima.

Após dois dias do desaparecimento a policia já encerrara as buscas, nenhum dos garotos jamais fora encontrado; a memória dos aventureiros está apenas na cabeça de seus pais e nas lapides com túmulos vazios no mesmo cemitério onde o amigo de Jimmy fora enterrado; cerimônias conduzidas sem corpos para velar. Segundo a policia o prédio estava vazio como sempre, não havia nem um sinal de arrombamento; fica a cargo da mente das pessoas acreditar se o prédio é mesmo assombrado ou se é somente fruto da fantástica imaginação das crianças.

O Edifício continua lá, em seu mesmo lugar; no escuro beco da rua 31 de Outubro com a Principal, a imaculada placa marcando o número do prédio 85 está no mesmo lugar. Pessoas nascem e morrem todos os dias, alguns acreditam em coisas outros não, alguns passam a acreditar, mas há mistérios que vão permanecer misteriosos até mesmo para quem viu a morte de perto.



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