O Ritual do Velho Bruxo

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Era um dia normal no cotidiano agitado dos meninos da banda "Cavaleros" O show caminhava a perfeição como todos os últimos estivera. O estadio lotado, um mar de fãs agitados gritando por seus nomes e os acompanhando em cada musica sucesso nacional.
O cansaço dominava os meninos exaustos, que arrancavam energia do nada para tocar hits agitados por três horas seguidas. Já estavam há três meses na estrada, em uma turnê nacional, cruzando o Brasil de norte a sul, promovendo seus primeiro álbum.

Mas nem sempre foi assim a vida desses jovens fenômenos musicais. No inicio da banda os quatro meninos mineiros comeram o pão que o diabo amassou! Conheceram de muito perto a fome e o desprezo, a sensação de serem descriminados e ridicularizados diante de pequenas multidões de pubs.
Jonatã era a principio o baixista, mas diante a saída repentina do vocalista, o único playboyzinho da banda, acabou assumindo os vocais, deixando o baixo para Flávio. Os jornais diziam que a partir deste momento a banda deslanchou, mas os membros sabiam que não era bem assim... Pelo menos Diba, o guitarrista e cabeça da banda.

Quando a banda estava prestes a se acabar, depois de um horrível show em um pub aonde havia mais baratas que gente, Diba ouviu dizer sobre um velho magro que diziam ser bruxo. O velho esquelético podia conceder qualquer desejo a quem fosse em seu encontro e lhe pedisse. As vezes cobrava uma vela aos mortos ou até mesmo um maço de cigarros.
Depois daquele show infeliz, aonde Vantuir, o guitarrista, desmaiou bêbado no meio de uma musica, Diba conseguiu convencer os amigos a procurarem o velho. Jonatã, que era o mais ambicioso, aceitou, sabendo que nada tinha a perder.

Na madrugada escura logo após o show cheio de vaias, Vantuir foi arrastado pelos amigos até o barraco do Velho Magro, que ficava em meio a periferia. Os quatro vagando incandescentes pelas ruas sujas daquele bairro simples, contando com a simples sorte no desejo fenomenal de serem notáveis.
Chegaram por fim ao barraco do Velho Magro. Diba o olhou com respeito e disse aos amigos:
-É aqui! Aqui reside o Velho Magro!
Eles entraram no barraco imundo, o velho estava acordado, meditando no único comodo, rodeado por quinquilharias. Jonatã se aproximou dele, se abaixou e lhe encarou com os olhos. O velho abriu seus olhos fundos e perguntou:
-O que vieram buscar?
Jonatã ainda lhe encarando respondeu:
-Temos uma banda. Uma banda de rock. Eu acho que somos talentosos, no entanto a opinião geral é importante. Queremos que faça com que sejamos famosos. Muito famosos!
O velho sorriu mostrando a boca faltando dentes. Os outros três integrantes se aproximaram dele para ouvi-lo dizer:
-Eu posso fazer, mais preciso de uma coisa para tal ato. Preciso de um cranio humano, um cranio de alguem que morreu a exatos sete anos.
Diba sorriu, o cemitério ficava a poucos metros dali. Olhou para o velho e disse:
-O senhor só precisa disto mesmo? Só precisa disto para um ritual tão grandioso?
O velho esticou a mão magra até a cabeça careca de Diba, a alisou em toda sua extremidade e concluiu:
-Tens um cérebro muito bom... Digo que és o líder da banda, não?
Diba se constrangeu, olhou para Jonatã e tentou explicar:
-Bem, a idéia de montar foi minha, eu sou o baterista, mas o Jonatã é o vocalista e...
O Velho Magro o interrompeu:
-Nem sempre o vocalista é o líder. Líder é aquela pessoa que cuida da organização da banda, da composição das letras e dos arranjos... Você faz isto, não?
Jonatã se aproximou do Velho Magro e confessou:
-Sim, ele faz tudo isto! Ele sempre quer o melhor pra banda, ele nos trouxe aqui, ele faz as letras, ele é o cara, o líder!
O Velho Magro sorriu em seu absurdo e conclui:
-Sim, ele é o líder... Ele ira até o cemitério, buscar o que eu estou pedindo! Se ele fizer isto, assumira o compromisso!

Diba nunca teve medo de nada, estava sempre disposto a sacrifício, e há tempos sua dedicação maior era para com a banda, ele nem questionou, saiu munido de uma lanterna, uma pá e uma sacola. Adentrou no cemitério sem dificuldade alguma. A luz fraca da lanterna vagava pelos túmulos sujos e velhos, na esperança de encontrar um com sete anos de sepulcro. Por fim achou um, sorriu satisfeito e o desenterrou. Pulou dentro da cova aperta e quebrou a tampa do caixão, chegando ao esqueleto. Pegou o cranio descarnado na mão e o jogou no saco, partindo dali feliz da vida pelo feito realizado.

Voltou a casa aonde o Velho Magro estava com seus amigos. Deu-lhe a sacola. O velho a abriu e enfiou a mão. Os dedos longos e finos voltaram recheados com o cranio do defunto. O Velho Magro o avalio e sorriu:
-Sim, este serve! É perfeito!
O Velho Magro se levantou, aproximou-se de uma gaveta velha e dela tirou uma serra.
Serrou então a parte de cima do cranio, sem dificuldade alguma. A parte escolhida ficou em forma de uma cuíca, o Velho sorriu satisfeito e a assoprou, se livrando do pó de osso. A entregou a Diba e ordenou, arrancando um estilete do bolso:
-Coloque nela um tanto do sangue da palma da sua mão. Seus amigos terão de fazer o mesmo!
Diba fez sem pensar duas vezes, o sangue grosso caia dentro da tampa do cranio, Diba passou Flávio, o baixista. Este tirou o sangue da palma de sua mão e passou a cuíca a Vantuir, que também foi fiel ao ritual. Quando a cuíca chegou as mãos de Jonatã, o vocalista, o velho se aproximou dele e segurou sua mão, impedindo que ele fizesse o corte:
-Você canta mal. Preciso do sangue de sua garganta!
O Velho Magro tomou o estilete da mão de Jonatã, o aproximou de seu pescoço e sorriu. O rapaz temeu ser degolado, mas fechou os olhos e confiou. O Velho lhe fez um corte certeiro, com menos de dois centímetros. O sangue quente começou a cair na tampa do cranio. O Velho o levantou aos céus e bradou:
-Posso lhes dar a fama que tanto almejam, mais o preço que lhes cobrarei é um pouco de seus sangue! Todos os anos, vocês viram aqui, munidos de um cranio como este, de alguem morto a sete anos. Farei este mesmo ritual, por sete anos seguidos. Ao fim deles, vocês estarão livres de tal compromisso!
Os amigos concordaram, o Velho Magro então, evocou o espirito do guardião dos mortos, bradando:
-Ó, Umbaô, Rei dos mortos! Bebo este sangue em sua honra, peço que de a esses jovens o talento e a fama que eles tanto almejam! Conceda tal pedido a eles, em prova de minha devoção a ti! Sabes que preciso me alimentar, e que este sangue me será de grande valia, se eles fugirem de tal compromisso, me devore a alma, para que eu me arrependa de concordar com tal compromisso!
O Velho encostou a tampa do cranio no queixo pontiagudo e bebeu todo o sangue dos jovens, sem desperdiçar uma única gota. Os jovens o olharam com pavor, ele após beber tudo, pediu que saíssem, e só voltassem no ano seguinte.
Os quatro saíram assustados, impressionados com o nefasto ocorrido.

Um ano se passou e os meninos extasiados pela fama se esqueceram do encontro como o velho. Ou melhor, nem todos, Diba se lembrava e estava disposto a juntar os amigos e cumprir com o prometido:
-Uma semana inteira de folga antes de começar a turnê por Portugal. -Anunciou Jonatã aos companheiros.
Diba aproveitou a felicidade dos amigos e os lembrou:
-Então temos de ir ao Velho Magro. Não se esqueçam que estamos aqui graças a ele!
Jonatã se aproximou do amigo e disse espantado:
-Não creio que você tenha dado tanta atenção aquela baboseira daquele velho imundo e raquítico!
Diba se alterou:
-Qualé? Demos nosso sangue a ele! Ele profetizou nosso sucesso e hoje estamos aqui!
Jonatã se aproximou mais do amigo e bradou:
-Sim, estamos aqui a nossas próprias custas! Ninguém mais bebera de meu sangue!
Flávio e Vantuir apoiaram Jonatã na decisão, Diba, se sentindo sozinho, levou as mãos até a cabeça e os lembrou:
-Eu fui sozinho até aquele maldito cemitério! Desenterrei o cadáver de um desconhecido e levei maldito cranio dele ao Velho Magro! Nós demos nosso sangue, o ofertamos em troca da fama! Fizemos um pacto ali, de levar nossos sangues pra ele beber uma vez por ano durante sete anos! Depois disto todas as portas que precisávamos se abriu, viramos um fenômeno em vendas e nos tornamos famosos, do nada! Acham conhecidéncia? Acham mesmo que isto tudo foi conhecidéncia?
Vantuir se aproximou do amigo, tragou o cigarro, soutou a fumaça na cara em sua cara e falou:
-Não fode, cara! Este velho não tem poder algum, era um pobre coitado, um miserável... Morava em um barraco em condições precárias, vai ver até esta morto.... Tudo que ta acontecendo com a gente é muito bom, saímos da miséria e nos tornamos ícones, ai vem você com essa merda, disser que tudo isto foi graças a um velho?
Diba procurou não se alterar, se afastou dos amigos prometendo que na noite seguinte iria sozinho ao velho, cumprir com o que lhe prometeu!

Na noite seguinte estava no mesmo cemitério, aos pés de um tumulo, cavando para retirar um cranio. Sentiu uma trovoada forte e viu as nuvem pesadas desabarem sobre a favela, finalmente abriu o tumulo já lamaçada e pegou a cabeça, saindo dali com ela. Devido a imensidão da tempestade e da chuva que mais parecia uma cascata, Diba se sentiu perdido, caiu em meio a uma valeta lamaçada e o medo lhe gelou a espinha. Viu que a grande tempestade arranca as cruzes enfiadas na terra e levava tudo que via pela frente, desesperado, saia em meio ao lamaçal, se aproximando do portão do cemitério. Olhou a rua e a viu alagada, caminhou em desespero até o barraco do velho, com a agua já chegando em sua cintura. Todos fugiam da favela que estava sendo arrasada pelo temporal, Diba finalmente chegou ao barraco do Velho Magro, este agonizava em uma rede. O jovem lhe apertou a mão e disse:
-Lhe trouxe o cranio, vim cumprir com o prometido!
O Velho magro tremulo apertou sua mão e perguntou agonizando:
-Seus amigos... Onde estão seus amigos?
Diba abaixou a cabeça e confessou:
-Eles não vieram, mas aqui estou!
O velho o olhou e indagou:
-Só você não serve...Eu preciso dos quatro... Preciso beber o sangue dos quatro...
Naquele momento o barraco desabou com o impacto da enchorrada, Diba, se afogando com o velho, o puxou dali, nadando até onde viu um alto telhado, la se acomodou com o velho e ouviu as ultimas palavras de seus lábios:
-Eu confiei em vocês... Mas agora eu os amaldiçôo... Voltarei e beberei o sangue de todos vocês, como tinha de ser!!! Nem que para isto, terei que me sujeitar a ser um eterno escravo do deus dos mortos!
O Velho Magro padeceu nos braços de Diba, que tremulo o largou e se desesperou com a promessa lançada.

O telefone do hotel aonde Vantuir estava hospedado tocou. Ele atendeu, era a recepção dizendo que a banda toda o aguardava la no salão de festas, para uma reunião de emergência. Diba não conseguia esconder a aflição, fumava um cigarro atrás do outro, quando todos estavam reunidos ele confessou:
-O Velho Magro esta morto!
Jonatã riu desgraçadamente. Diba o encarou e o ouviu se defender:
-O que é isso, gente? Isso era de se esperar! O coitado estava só a catinga de velho, um maldito decrepito esperando para ser tragado pela terra!
Diba se levantou raivoso, pegou no colarinho do amigo e gritou:
-Ele morreu em meus braços! Disse que havia confiado na gente! Disse que viria e pegaria cada um de nós... Nem que para isto teria de ser escravo do deus dos mortos...
Vantuir e Jonatã riram em sarcasmo. Flávio se aproximou de Diba e o serreou:
-Que isso, meu cumpade? Deixou aquele velho nojento morrer em seus braços?
Os três riram, Diba continuou serio:
-Precisamos achar um jeito dele não nos pegar... Precisamos consultar alguem!
Jonatã colocou os óculos escuros e sugeriu:
-Na boa, cara... Podemos fazer o que você ta falando. Podemos ir na mãe Filomena, aquela velha que tanto benzia a gente quando moleques. Se ela rir da sua cara e ou dizer que este seu medo é besteira, a gente abafa o caso. Combinado?
Diba concordou, e os quatro partiram ao encontro de Filomena, a velha benzedeira.

O carro estacionou em frente a casa rustica da benzedeira. Vantuir desceu primeiro, fumando um cigarro. Tocou o telefone, a velha mesmo sem saber quem era ordenou:
-Entre.
Vantuir apagou o cigarro no muro, olhou serio para os amigos e entrou. A benzedeira tirou os óculos fundos, não acreditando que eram eles:
-Meninos! Que surpresa! Jamais imaginei que viriam me ver depois da fama repentina de vocês!
Jonatã beijou a mão da velha e disse:
-Diba esta com um problema. Viemos pedir para a senhora benze-lo e tirar uma certa obsessão da cabecinha dele!
Diba interveio, entrou no meio dos dois, olhou para a velha benzedeira e clamou:
-Não, dona Filomena. Nos estou com problemas, nós estamos! Fomos amaldiçoado por um bruxo em seu ultimo suspiro, e eles não querem acreditar em mim!
A velha voltou com os óculos no rosto enrugado, se sentando assustada a mesa de madeira. Os quatro se sentaram a sua volta, ela acendeu uma vela ao centro da mesa e jogou cristais de açúcar na vela. Todos juntaram a mão, chamando pelo Velho Magro. Ela pediu que eles permanecessem de olhos fechados, e que não os abrissem por nada.
De repente, a benzedeira entrou em transe, desmaiou sentada. Seu espirito ficou acordado e levantou a cabeça. Ela olhou a porta e o viu, o Velho Magro, escorado do lado de fora da casa, a encarando de cabeça baixa. Filomena saiu de seu corpo e foi até o Velho Magro. Este lhe olhou sem nada dizer. Filomena cheia de coragem lhe perguntou:
-O que quer com meus meninos... Os deixe em paz!
O velho esticou a cabeça aos pés do ouvido dela e cochichou baixo, olhando para Diba, que não resistiu e abriu os olhos, presenciando o encontro espiritual.
Enquanto ouvia o que o Velho Magro lhe dizia, os olhos de Filomena se arregalaram, indignada. Ela o deixou e voltou ao seu corpo. Quando a benzedeira abriu os olhos, de volta a realidade a vela se apagou. Diba a olhava em choque, e ela, em agonia absurda lhes advertiu:
-Ele certamente vira. E pegara um por um de vocês, e não a nada que eu possa fazer para lhes poupar disto. Ele segue as ordens de Umbaô, o senhor dos mortos. Ele me disse que pediu a fama de vocês ao próprio Umbaô, e como vocês não cumpriram a promessa, ele foi levado. No entanto ganhou o direito de vir busca-los, já que o sangue de vocês, seca nas veias mortas dele...
Diba se levantou assustado. Os outros também. A velha benzedeira Filomena, triste pela sorte de seus meninos contou:
-Existe uma única, porem, falível maneira de interromper tal mal. Um de vocês pode ir até o tumulo do Velho Magro, desenterrar seu corpo e queima-lo, em oferenda a Umbaô... Mas creio que já não seja mais possível, pois certamente ele já se ofertou a Umbaô!
Diba saiu dali desajeitado, la fora, levou as mãos a cabeça e demonstrou desespero.

Era tarde da noite quando Diba colocou um litro de gasolina no banco de trás do carro e se preparou para fazer o que a benzedeira mesmo sem esperança recomendou. Os três queriam acompanha-los, mas ele os lembrou:
-Não, ela disse "um de vocês". Eu vou, sei lidar muito bem com isto. Sei que vai dar certo!
Vantuir se aproximou do amigo, não conteve as lagrimas e o abraçou, dizendo a seu ouvido:
-Boa sorte, cara!
Diba dirigiu pelas ruas que já conhecia, rumo ao mesmo cemitério. Parou o carro no mesmo ponto de antes, já que os estragos da enchorrada ainda impediam a passagem. Ele desceu, levando consigo a pá e o litro de gasolina. Correu tentando ganhar o tempo que a benzedeira disse que ele não tinha, adentrou no cemitério, ainda em ruínas pela tempestade, foi até o fim dele, aonde jazia o Velho Magro, sabia que seu tumulo estaria bem evidente, já que ele era muito cultuado pelos moradores da favela. Logo avistou um tumulo isolado, se aproximou e o viu repleto de objetos estranhos e velas, deixados por aqueles que o Velho Magro um dia ajudou com sua magia.
Diba não se fez de rogado, tirou a montoeira de lembranças de cima da terra e cavou em desespero. Com a terra recém coberta, foi fácil encontrar o caixão novo. O abriu em desespero e constatou o que a velha benzedeira tinha previsto: O Velho magro não estava mais lá. Diba sentiu um vulto frio correr por suas costas e se arrepio. Arregalou os olhos e olhou pra traz, la estava o Velho Magro, segurando a pá lhe sorrindo sem vários dos dentes na boca.
O bruxo lhe deu uma pazada na cabeça, Diba caiu dentro do Tumulo do Velho Magro, já desacordado.

A noite corria calma, o rosto machucado de Diba sentiu um liquido escorrer, ardendo seus olhos fechados. O cheiro forte e a umidade fez o jovem bateirista da banda "Cavaleros" acordar. Olhou para cima e viu o Velho Magro, lhe jogar a gasolina que ele havia trazido. O velho então levantou as mãos e o ofertou:
-Ó, Umbaô, Rei dos mortos! Receba este sacrifício em prova de minha devoção a ti e como um pedido de perdão, deste velho tolo que usou seu poder para beneficiar traidores como este que em meu tumulo!
De repente, o corpo de Diba começou a pegar fogo. Ele gritava em desespero, sentindo sua carne queimar por completo. O fogo se levantava acima da boca do tumulo e o Velho Magro ainda clamava palavras descompassadas, Diba gritava tardando a morrer, a carne queimava lentamente e ele tentava se livrar do fogo, puxando com a mão pedaços cozidos de sua face, até se entregar ao fogo que lhe consumiu por completo.
O velho olhou glorioso seu feito. Sorriu mais uma vez e agradeceu Umbaô.

Vantuir ensaiava em seu quarto um solo sombrio para tocar na turnê em Portugal, mesmo sabendo que certamente não chegaria lá, segundo a benzedeira.
Sentiu a presença de alguem entrar em seu quarto. Olhou para ver quem era, era Diba, sentado na poltrona.
Vantuir se aproximou do amigo, que lhe estendeu a mão, lhe dizendo para parar:
-Qualé, cara! Me diz como foi lá! Você queimou o corpo do velho?
Giba começou a tremer na poltrona, como se estivesse sendo eletrocutado em uma cadeira elétrica. Vantuir sentiu um pavor avassalar seu coração e viu, o amigo pegando fogo na poltrona, queimando em desespero, gritando por ajuda. Vantuir não sabia o que fazer, via a carne do amigo cozinhar e fazer bolhas no fogo forte, ele então levou as mãos a cabeça e gritou por socorro, sentiu alguem tocar em seu ombro, era o Velho Magro. Seu coração parecia que ia sair pela boca, o bruxo se aproximou de seu ouvido e falou baixinho:
-Você será o próximo....
Vantuir acordou aos gritos, olhando para a poltrona vazia. Passou as mãos no rosto e se viu ensopado de suor, assim como o resto da cama. Abriu a janela de seu quarto e interfonou para Jonatã, que dormia tranqüilamente, ao lado de um monte de remédios.
Vantuir desligou o telefone e foi até o quarto de Flávio. Flávio estava imóvel, catatônico diante a poltrona de seu quarto. Vantuir entrou e o ouviu dizer:
-Eu o vi queimar... Vi Diba queimar diante meus olhos, clamando por ajuda!!!
Vantuir tremulo então acender um cigarro:
-Eu também. Também vi Diba queimar diante meus olhos! O Velho Magro apareceu também?
Flávio o olhou sem entender:
-Não. O Velho Magro esta morto!
Vantuir conseguiu acender o cigarro e disse descompassado:
-Receio que Diba também esteja. Ele apareceu da mesma forma pra mim, e o Velho Magro também. O velho me disse que eu... Disse que eu seria o próximo!
Flávio o olhou espantado:
-Meu deus, cara! Como que a gente se livra dessa merda
Vantuir se aproximou mais do amigo e disse com pesar:
-Não a como se livrar de uma coisa dessas. A Benzedeira Filomena foi bem clara com relação a isto.

Vantuir caminhou com passos largos em direção a pequena igreja, no bairro onde nasceu. Entrou lá dentro e a viu fazia, se sentou no lugar de costume, aonde sempre sentava junto com seus pais, nas missas que freqüentava quando criança. Ajoelhou e orou baixo, de repente, mesmo com os olhos fechados, sentiu um vento correr a sua volta. Quando os abriu, viu as velas se acenderem sozinhas:
-Acha que pode se esconder aqui? -Era Diba, com o rosto desfigurado devido a horrendas queimaduras.
Vantuir, ao lado do amigo morto, chorando falou:
-Eu não quero morrer, cara!
Diba olhou a grande cruz de mais de cinco metro, aos pés do altar e confessou:
-Eu também não queria... Mas esta alem de nós, ele só quer cumprir com o prometido... Ele esta vindo, Vantuir! Ele esta vindo e esta igreja não ira impedi-lo de entrar e te pegar!
Vantuir congelou com a franqueza do amigo morto.

De repente, sentiu a crus ranger, e desabar com a ponta entre o corredor, ao meio dos bancos. Um frio lhe correu na espinha e ele viu a vidraça colorida da igreja pipocar, e em seguida explodir em milhares e milhares de cacos.
Diba se afastou, dizendo apavorado:
-Ele esta aqui... Ele veio te arrancar a vida!
Vantuir acompanhou com os olhos perplexos o amigo se aproximar de um ser maligno, e se ajoelhar aos seus pés. O ser lhe encarou com desejo e Vantuir conclui:
-Umbaô!
Vantuir então sentiu uma fisgada lhe varar o estomago. Olhou para trás e viu o Velho Magro, armado com um espeto. O Velho Magro arrancou o espeto de suas costas, o aproximou de sua garganta e bradou:
-Umbaô... Deus dos mortos... Eu lhe ofereço a alma deste verme, tão desprezível quanto este ultimo, que agora jaz em seus pés!
Vantuir fechou os olhos, escutou o barulho lhe varar a garganta, e quando o abriu de novo, estava aos pés de Umbaô, olhando seu corpo morto a poucos metros dali.

Flávio acordou Jonatã de seu sono profundo. Jonatã parecia um zumbi, tentando se recompor do forte sono induzido, tentando esquecer do grande problema:
-Jonatã! Ela conseguiu! A Benzedeira Filomena conseguiu uma forma de nos livrar da maldição!Temos que ir ao encontro dela!
-E o Diba? E o Vantuir?
Flávio pensou por um minuto. Fechou os olhos e falou:
-Possivelmente estão mortos...

Sobre a rodovia movimentada, Jonatã dirigia alucinado para chegar até a benzedeira. Flávio que sempre reclamava da alta velocidade, sabia que agora era preciso. Tentava se manter ligado, esperançoso com a solução de Filomena.
Jonatã sentiu um movimento brusco ao fundo do carro, de subto olhou ao retrovisor e viu os dois amigos, Diba e Vantuir. Por pouco não perdeu atenção da rodovia, desviando bruscamente de um caminhão carregado de soja:
-Não há saída para vocês... Eu avisei para cumprirmos com o combinado... Vocês me ignoraram!
Era Diba,lamentando a sorte:
-Não! -Insistiu firme Jonatã.- Flávio e eu ainda temos uma chance! Vamos a benzedeira, ela tem uma solução!
Diba sorriu, indagando:
-Não... Não há solução. Ele esta ali!
Jonatã olhou para o dedo do amigo esticado em direção ao acostamento e nada viu. Diba movimentou lentamente a mão a frente, na pista, então, inesperadamente, o Velho Magro surgiu na rodovia. Por instinto, Jonatã se desviou do velho, entrando na contra mão.
Um caminhão de boi vinha a toda pela rodovia, Jonatã desviou o carro, batendo no meio fio. O carro capotou varias vezes até voltar ao meio da rodovia e ser colhido por outros três veículos em alta velocidade.

Em meio a ferros retorcidos e dores agonizante dos envolvidos no acidente, Jonatã abriu os olhos. Olhou para o lado e viu o amigo Flávio, agonizando, com um ferro atravessado na barriga. Flávio o olhou vomitando sangue, tentando inutilmente tirar o ferro:
-Me ajuda... Me ajuda cara!
Jonatã segurou no ferro e tentou arranca-lo, inutilmente. Ele chorou vendo a sorte do amigo e se conformou:
-Não da... Eu sinto muito!
Flávio agonizava, ficou desacordado por dois segundos, então sentiu alguem lhe soprar na orelha:
-Ainda não pedi para você morrer!
Era o Velho Magro. Flávio abriu os olhos, se recompondo em dor extrema. Olhou ao Velho Magro e implorou:
-Acaba logo! Pelo... Amor de Deus!!!
O velho sorriu. Jonatã tentava sair das ferragens, ignorando a própria dor se livrando dos pedaços do carro que pressionavam.
O Velho Magro, vendo que ele se arrastava longe do veiculo balbuciou:
-Ei, Jonatã! Não quer ver seu amigo morrer?
Flávio agonizava, já pálido. O Velho Magro segurava em seus cabelos e balbuciou:
-Agora só vai faltar um, Umbaô!
De repente, bateu com a cabeça de Flávio no pedaço de ferro que atravessava o banco de passageiro e sua barriga. Flávio ainda consciente, sentiu a teta sangrar. A testa foi levada ao ferro de novo e a cabeça finalmente se abriu. Flávio gritou em desespero, desmaiando em sono profundo na terceira pancada.
Jonatã vendo o amigo morrer, apertou os passos. Correu com seus vários ossos quebrados pela rodovia, ainda muito longe da casa da benzedeira. O Velho Magro gritava ainda segurando a cabeça de Flávio:
-Serás o próximo!

Sobre paços mal sucedidos e dores latejantes, Jonatã finalmente chegou na casa da benzedeira. Lá dentro a encontrou. Ela estava firme, sentada a mesa. Ele se aproximou devagar, respirando fundo. Ela o encarou com os olhos e perguntou:
-Esta pronto para ouvir?
Jonatã balançou a cabeça acenando que sim. Ela então, colocou um estilete sobre a mesa e contou:
-Ele quer beber o sangue de sua garganta, como fez no inicio. Fui ao cemitério e peguei a cabeça de um homem morto a sete anos, como gosta Umbaô. Corte a garganta, no mesmo lugar que antes, coloque na ponta deste cranio e oferte a ele, e ele se saciara de seu sangue. Te deixara em paz, meu menino!
Jonatã sem medo, aproximou a lamina afiada no pescoço, então correu lentamente a lamina no mesmo ponta da garganta que o Velho Magro cortou da ultima vez. Lentamente o sangue caia na cuíca feita do cranio.
De repente, Jonatã sentiu o Velho Magro lhe abraçar pelas costas. O velho sorriu e disse:
-Ei, ele ta cheio de sede! Encha mais!
A lamina então adentrou mais no pescoço de Jonatã, o Velho Magro sorria satisfeito, então, Filomena se aproximou e bradou:
-Larga-te, Velho Imundo! O sangue do menino já foi derramado em oferenda a seu Deus! Divida alguma ele tem contigo! Fiz um trato com Umbaô. Ele não bebera o sangue de um morto
O velho então se afastou desajeitado. Umbaô surgiu em meio a escuridão e lhe esticou a mão. O Velho Magro se desesperou diante a ira de seu deus! Começou então a queimar em agonia, sentindo sua carne como se estivesse viva, cozinhar e se despedaçar em seu rosto. Jonatã caiu desmaiado no chão. A benzedeira o socorreu, até sua vista escurecer.

O sol radiante batia a janela do quarto de um hospital. O paciente com o pescoço enfaixado acordou. Jonatã tentou se levantar mais não conseguia, estava com vários ossos quebrados e engessados. Sorriu glorioso, por estar vivo daquele pesadelo horrível.



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