O Touro de Falaris

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- Não sei se devemos ir sozinhos! Eu tenho medo deles. Eles são estranhos, você não acha? – Dizia Ângela ao seu marido, Jeferson.

 

Os dois conversavam sobre o convite que eles receberam para um almoço na casa ao lado, pertencente aos proprietários do imóvel no qual eles moravam de aluguel, o senhor Paulo Jose e a senhora Lourdes Maria.

 

- Não entendo porque você está com esse receio Ângela, pô, relaxa! Você não está vendo que eles estão querendo apenas manter contato? Como que se estivessem querendo fazer amizade?

 

- Eu sei amor, mas você fala isso porque não foi você quem viu aquela cena horrível! – Disse Ângela se referindo a um fato ocorrido logo na primeira semana em que eles se mudaram para a casa, onde na ocasião, Ângela teve que sair para trabalhar bem cedo, às quatro da madrugada de uma segunda feira, e no momento em que ela estava tirando o seu carro, que ficava guardado na mesma garagem da casa dos proprietários do imóvel, ela pode ver pelo espelho retrovisor que havia duas pessoas a observando pela janela da sala que ficava de frente para a garagem. E o que mais chamou a atenção de Ângela foi o fato de essas duas pessoas estarem usando mascaras bem estranhas, sendo uma com o formato da cabeça de um cachorro com a boca aberta e a outra como formato da cabeça de uma galinha.

 

- Besteira Ângela, isso pode ter sido, tipo, os netos deles que dormiram lá aquele dia e quando ouviram que você estava entrado no quintal quiseram te zoar, isso é normal, é coisa de moleque.
- Mas logo às quatro da manhã! – Esbravejou Ângela - Não, claro que não. Criança faz esses tipos de coisas, mas não ficam acordadas até às quatro da manhã para assustar as pessoas, sem contar que aquelas duas figuras tinham porte de adultos.
- Calma amor, não precisa ficar brava, eu entendo. Mas, vamos fazer o seguinte, vamos lá somente essa vez para não ficar um clima chato, e depois prometo que não pisaremos lá de novo. Talvez o senhor Paulo esteja querendo falar alguma coisa importante sobre a casa ou sobre o aluguel, sei lá. Entende?
- Está bom amor, por esse lado você tem razão.

 

Depois da discussão os dois conversaram um pouco mais sobre outros assuntos e logo dormiram. No dia seguinte, no horário combinado, Jeferson e sua esposa compareceram para o almoço na casa do senhor Paulo e da senhora Lourdes. O senhor Paulo os recebeu cordialmente apresentando a sua casa e, como Jeferson havia desconfiado, o senhor Paulo aproveitou para dizer que ele e sua esposa iriam viajar no inicio da próxima semana, e pediu encarecidamente que Jeferson tomasse conta da casa enquanto eles ficassem fora. Sem titubear, Jeferson concorda em guardar as chaves e tomar conta da casa deles.

 

Após o almoço, Jeferson e Ângela desejaram boa viagem para o casal, receberam uma cópia da chave da residência e foram embora. Quando deixaram a casa Jeferson ironicamente disse:

 

- E ai amor, o que achou? Ainda tem a impressão de que eles são assassinos em série?
- Que isso amor, até que eles são gente boa, sem contar que o rango estava ótimo e eles tinham assuntos legais para conversar.

 

Nos próximos dias Jeferson e Ângela praticamente esqueceram-se da casa ao lado, até que mais uma vez Ângela foi convocada para comparecer cedo ao trabalho, novamente às quatro da manhã. À noite, enquanto ela colocava o relógio para despertar, a lembrança das criaturas mascaradas a espreitando da janela daquela garagem voltou a assombra-la.

 

De madrugada o relógio desperta, apenas Ângela acorda e rapidamente ela realiza seus afazeres. Em seguida, dá um beijo no rosto quente de Jeferson e sai de casa pontualmente às quatro da madrugada. A rua estava deserta e muito escura. Havia poucas casas e era possível escutar latidos de cachorros ao longe. Durante o curto caminho da calçada de sua casa até o portão da casa do senhor Paulo, onde seu carro estava estacionado, novamente ela se lembra das duas figuras que apareceram na janela da sala daquela casa, e imediatamente ela tenta pensar em outra coisa, chegando a ter se arrependido de não ter solicitado a companhia de seu marido nesse curto trajeto.

 

Chegando ao portão de ferro ela gira a chave e entra no quintal, vira-se, e tranca o portão. O quintal está totalmente escuro, então ela caminha em direção à garagem com o auxílio da luz do seu celular. Rapidamente alcança o seu carro, entra, trava as portas e solta um pequeno suspiro de alívio:

 

-Até que em fim, ufa, quase morri!

 

Porém seu alívio dura pouco, pois ela aperta o botão do controle remoto e o portão automático da garagem não se abre. Nessa hora, desesperadamente ela pressiona o botão com mais força, mas nada acontece. O portão eletrônico da garagem simplesmente não responde. O quintal está escuro e mal é possível enxergar um metro na frente dos olhos. A madrugada com nuvens e sem lua corrobora com isso.

 

Ela não quer, mas logo entende que o melhor a se fazer é acender o farol alto do seu carro e descer para ver o que pode estar obstruindo a abertura do portão. Mas ela sente um temor agudo sobre aquele quintal escuro e pouco conhecido, um medo inexplicável. Então, aguarda uns instantes, dá umas pequenas pancadas com o controle remoto no volante do seu carro e em seguida aperta o botão com força, na esperança de essa última tentativa surtir efeito. Nada acontece. Então, ela acende o farol alto, destrava a porta para descer, mas antes ela pega a sua bolsa, que está no seu colo, e a coloca no banco de trás, no entanto, nesse momento ela percebe que sua mão encostou-se a algo estranho. Ela vira a cabeça para olhar o banco de trás e percebe que ali, fazendo companhia para ela e sentados imóveis, estão as duas figuras mascaradas que a espreitou pela janela daquela casa na primeira semana de mudança. O individuo da esquerda usava a mascara do cachorro com a boca aberta, e o da direita usava a mascara da cabeça de galinha, e eles estavam vestidos com uma espécie de roupa azul, bastante folgada.

 

A reação de Ângela foi instantânea, um forte grito de susto, e em seguida puxou a maçaneta da porta do carro, desceu cambaleando e correu até o portão, que para sua infeliz surpresa, constatou que ele estava trancado. Ela mesma o havia feito quando entrou, e para piorar a situação, ela se lembrou de que tinha guardado a chave do portão em sua bolsa, que agora estava no colo das duas criaturas. Ângela permanece parada perto do portão e solta outro grito de desespero quando rapidamente as duas criaturas viram suas cabeças na direção dela. Em seguida, a criatura mascarada com a cabeça de cachorro estica o braço até o painel, desliga o carro e apaga o farol, devolvendo as trevas ao quintal da casa. Ângela novamente não enxerga quase nada, muito menos o carro, porém, ela ainda escuta bem, e com clareza pode ouvir as duas portas de trás do carro se abrindo. Desesperadamente ela solta outro grito e pensa em correr, mas o escuro a impede de fazer isso, e no momento em que ela iria soltar outro grito, só que dessa vez de socorro, ela é desligada por uma forte pancada em sua cabeça. Novamente, o silencio reina sobre a propriedade.                                            

  &&&

Ângela lentamente acorda...

 

Ela se encontra totalmente sem roupas, com as mãos amarradas na frente do seu corpo e deitada de lado em um piso de chão batido, em um local totalmente escuro. Logo em seguida, ela escuta o som de uma porta de madeira se abrindo, e nesse momento, Ângela vê seus dois piores pesadelos adentrando o local, segurando lampiões. A claridade oriunda dos lampiões revela que Ângela está em um dos quatro cantos de um grande cômodo, sem janelas e com apenas uma porta. As paredes do local não possuem adornos e no centro há uma grande estátua de um touro. As duas criaturas caminham lentamente até Ângela, que chorando, diz:

 

- Me soltem, por favor, eu não fiz nada para vocês! Deixem-me ir embora que eu não conto nada para ninguém. Eu nem mesmo vi o rosto de vocês.

 

Como se nada estivessem ouvindo as duas criaturas retiram Ângela violentamente do chão e a levam até o centro da sala, para perto da estatua do touro. Ângela grita e se debate desesperadamente enquanto uma das duas criaturas abre a parte de cima da estatua do touro, deixando uma passagem pela qual Ângela é facilmente colocada, deitada com a barriga para cima. O compartimento é lacrado, soando um cintilante barulho de metal se retorcendo. Ângela fica, então, encerrada no ventre do touro de metal. Ela continua gritando, e seus gritos abafados podem ser escutados pelos únicos orifícios que a estatua possui, sendo um na boca e outros dois nas narinas. Logo em seguida, as duas figuras mascaradas começam a preparar uma fogueira em baixo da barriga da estatua. O barulho e o calor do fogo fazem com que Ângela tenha a noção do que está acontecendo do lado de fora, então, desesperadamente ela grita, enquanto o metal do interior da estátua absorve o calor da fogueira. Sua pele começa a se incomodar com o aquecimento.

 

Em razão do pequeno espaço dentro do touro, ela não pode se virar nem se movimentar, e conforme o interior da estátua vai se esquentando ele solta um fedor terrível, oriundo dos restos de carniça grudados no metal, fazendo com que Ângela, não aguentando a inevitável ânsia, vomite. Ajoelhadas em frente ao touro, as duas criaturas começam a entoar um bizarro canto, enquanto escutam o som dos gritos de Ângela, agora acompanhados ao som da sua pele sendo queimada pelo metal ardendo em brasa na barriga da estatua. Dentro do touro, o terrível medo de morrer, e a dor eram tão grandes que Ângela, não mais aguentando, começa a evacuar e a urinar. Uma densa fumaça começa a sair da boca e das narinas do touro, e o cheiro de pele, cabelos, fezes, sangue, vômito e urina queimando e fervendo na chapa de ferro da barriga do touro começa a tomar conta do local. Os gritos por socorro, agora, dão lugar á intensos gritos de dor. As duas figuras ajoelhadas, continuam com seu canto, como que em um ritual macabro. Quando os gritos de Ângela se acabam, o canto é automaticamente interrompido, porém, aquelas duas pessoas continuam ajoelhadas em frente ao touro de ferro, o observando e inalando a densa fumaça que sai da sua boca e de suas narinas. Um terrível odor. Um verdadeiro incenso de morte.

 


As duas figuras se levantam, retiram as macabras mascaras, apanham os lampiões e deixam o local, trancando a porta. O Comodo agora está iluminado apenas por algumas brasas que ainda ardem na fogueira, e a boca e as narinas do touro continuam a exalar a fumaça oriunda do cadáver queimado de Ângela, preso impiedosamente dentro da estátua.                                           

 

&&&

 

No decorrer do dia, Jeferson sentiu a falta de sua esposa, e após diversas tentativas em vão de se comunicar com ela pelo celular ele decide ligar no trabalho dela, porém, é surpreendido quando o avisam que Ângela ainda não havia chagado para o trabalho. Eram duas horas da tarde. Imediatamente Jeferson retorna para a sua casa e vai conferir a garagem da casa do senhor Paulo. Do portão de ferro ele consegue observar que o carro de Ângela está estacionado lá, então, ele conclui que Ângela deve ter sofrido um assalto seguido de sequestro, ou outra coisa do gênero, no exato momento em que ela saia de sua casa para ir ao trabalho. Então, ele aciona a polícia.                                                 

 

&&&

 

Seis semanas depois, sem encontrar Ângela, Jeferson inicia sua mudança para a casa dos seus pais. Ele pretende ficar por lá até solucionar o caso do desaparecimento da sua esposa, o qual ele acompanha de perto, junto das equipes policiais. Na saída ele devolve as chaves da sua antiga moradia de aluguel para o senhor Paulo, que o conforta dizendo:

 

- Jeferson, boa sorte. Espero que você encontre sua esposa. Estamos torcendo por você nessa busca. Quero que saiba que será um prazer receber vocês dois novamente, caso a casa esteja livre quando tudo for resolvido.

- Muito obrigado senhor Paulo, pode deixar que quando eu encontrar a Ângela, e sei que a encontrarei com vida, teremos o maior prazer em retornar para cá. Se estiver livre é claro.

- Combinado. Boa sorte e Adeus.

 

No dia seguinte, o senhor Paulo colocou uma pequena placa no portão de sua casa, com os seguintes dizeres:
"ALUGO A CASA AO LADO. PARA CASAIS, DE PREFERENCIA, JOVENS E SEM FILHOS. TRATAR AQUI"

 

Fim ...

Será?



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