PAI NOSSO

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            Leia essas palavras e tome nota de cada detalhe que preciso lhe passar. Aqui não há paz, nem conforto. Nem Deus e Demônios. Tudo foi uma simples mentira para que nunca mais olhássemos para os cantos escuros do mundo, como um dia a humanidade o fez e pagou um alto preço por isso. Se os anjos existissem, não estariam ao meu lado e se Satanás realmente comandasse um Inferno, eu não teria lugar lá.

            Minha jornada começou em meu apartamento. Era um sábado de manhã quando me levantei da cama. Marcus ainda dormia e acariciei seus cabelos. Fazia nosso café quando recebi um telefonema de minha irmã Stephanie. Particularmente nunca gostei muito dela, mas convenções familiares exigiam que houvesse o mínimo de fino trato entre nós. Aproximamo-nos sutilmente quando ela conheceu seu marido, Raphael, apenas para ela não gostar dele perto de mim, já que nos tornamos amigos, na época. Friamente, mas ainda sim solícita, ela me convidou para o batizado de sua filha pequena da qual os meses não me fizeram tomar o menor conhecimento de sua existência. Crianças sempre me irritaram e nunca fiz questão de tê-las por perto. Ir a uma igreja seria, para mim, o passo que faltava para a minha própria decadência moral.

            Após tortuosos três minutos de conversa ao telefone com ela, eu aceitei ir até lá. Não entendi porque o batismo seria feito de sábado e não dominicalmente, como o de praxe. Stephanie apenas disse que o padre, amigo dela e de seu marido, havia concordado a fazer isso. Não tive espaço para dar um sorriso amarelo para ela, já que nem isso merecia. Uma hora depois, me despedi de Marcus, que ainda dormia profundamente em minha cama, deixando um bilhete que seu café da manhã estava sobre a mesa e que eu não deveria demorar. Fui até o bendito batizado, na esperança que não fosse exigido muito de mim naquele lugar.

            Cheguei lá e encontrei toda a minha família. Poucos me cumprimentaram e o restante estava ocupado demais pajeando a menina que havia nascido poucos dias antes. A missa começou e o Padre falava muito bem. Ele dizia sobre um Cristo que morreu por nós e que amava a todos, fossem como fosse. Mas também dizia que não havia espaço para pecado. Tentei compreender como existia um amor incondicional, mas que não suportasse o erro. Isso não era amor, pensava eu. Era absurdo crer em algo tão insano e que exigisse dinheiro, sacrifícios pessoais e coisas que serviriam apenas para acalentar as almas fracas.

            A missa foi se desenvolvendo até que recebi uma ligação de Marcus. Saí da igreja para atender. Ele falava sobre algo que eu precisava comprar no mercado, mas não tive tempo de ouvir muito, pois vi uma marca de sangue perto da porta, pelo lado de fora, fazendo um caminho longo, mas muito discreto entre alguns arbustos. A princípio eu pensei em chamar a polícia, mas a curiosidade falou mais alto, já que poderia ser um animal morto por outro. A igreja, mesmo eu não acreditando, era um local santo demais para haver atrocidades. Desliguei o telefone e resolvi me incumbir de decifrar aquele mistério que não poderia ser nada.

            Fui seguindo o rastro de sangue que não terminava. Ele dava a volta pela igreja, indo até a porta de trás da igreja. Percebi que havia algo errado e esperava encontra-la trancada, mas não foi isso que houve. Estava semiaberta e sem ter muita certeza, decidi entrar lá. Tinha medo de sair por trás do Padre, mas a porta pela qual entrei tinha uma escadaria abaixo.

            Havia mofo nos degraus de pedra, talhados direto no solo e do teto que descia junto com o caminho, escorria um líquido que parecia água. Pensei duas vezes se valeria a pena descer, mas o cuidado não durou muito. Foi em um ímpeto que desci vagarosamente, pensando no que encontraria ao chegar ao fim. Mesmo que o fim fosse o meu. A porta por trás de mim fechou sozinha, fez um barulho de tranca e ouvi gemidos que pareciam ser de dor, mas a escuridão não me permitia enxergar muito. Apenas uma tênue claridade ao fim da escadaria mostrava que havia uma sala, mas o que eu sentia estava começando me impedir de continuar a descida.

           

            Percebi que eu não tinha alternativa alguma a não ser continuar o caminho para baixo. A claridade era muito fraca e à medida que eu me aproximava dela, os gemidos eram mais baixos. Quando cheguei ao fim da escadaria, vi uma cena da qual nunca me esquecerei. Uma sala de pedras encravadas na paredes onde haviam pessoas distribuídas como em um açougue. Algumas estavam inteiras, mas penduradas por correntes que cravavam por baixo das suas peles. Outras pessoas estavam aos pedaços sobre mesas de pedra e suas vísceras caíam pelo chão, onde haviam objetos grotescos de corte. Eu subi correndo pelas escadarias escuras. A porta estava realmente trancada. Bati, chutei e tentei abri-la à força, mas não tive sucesso. Não tive coragem de descer de novo. Tentei ligar para a polícia, mas lá dentro não havia sinal do celular. Eu tinha que arranjar um jeito de escapar, ainda que fosse dar as costas para qualquer um que ainda estivesse vivo dentro daquele matadouro.

            Comecei a ouvir o mesmo gemido de dor novamente, mas agora era mais alto. Parecia de uma mulher, mas não tinha como ter certeza. Ela implorava por ajuda, mas era nítido que estava muito ferida. Ainda que ela tivesse forças para gritar, com certeza estava esvaindo vida.

            Minha consciência me acusava por não ter coragem de ajudar o próximo e desci novamente as escadas. O cheiro daquela primeira sala me fez vomitar antes mesmo de entrar nela. Vi que ali não havia ninguém vivo, mas se queria salvar aquela pessoa, eu tinha de passar por aquilo. Passei pelos mortos aos prantos, sem ter coragem de olhá-los nos olhos.

            Do outro lado da sala, uma saída. Era um longo corredor e tinham muitas portas de ferro com pequenos vãos ao longo dela. Não conseguia entender como algo tão decrépito poderia estar debaixo de uma igreja e se aquele padre tinha algo haver com aquelas horrendas mortes. Os gemidos que eu ouvira antes de tornaram gritos de terror que não cessavam. Parei e tentei localizar onde ela estava. Não consegui e tive que olhar em cada um dos vãos das portas. Pareciam celas escuras onde quase não havia brilho. Não havia nada em nenhuma delas. Mas era possível sentir um cheiro insuportável de excremento. Ao chegar à última cela, tive a visão mais aterrorizante que eu poderia ver. Eram mulheres humanas nuas, sentadas, amarradas e mortas. Suas cabeças estavam todas pela metade e era possível ver suas arcadas dentárias inferiores, línguas e início das suas gargantas. Do teto, saiam canos enferrujados e das pontas escorriam líquidos viscosos que pareciam ser urina e fezes sobre suas línguas e desciam em direção da garganta. O que não vazava para fora e sujava aqueles corpos frágeis, era absorvido pelo sistema digestivo delas. Eu me apavorei e afastei rapidamente da porta. Chorei compulsivamente, sem saber o que fazer. Sentia minha mente entrando em choque.

            De repente, levei um baque na cabeça.

            Acordei em uma cela totalmente escura, completamente abafada. Sentia meu suor escorrendo pelo rosto e meu corpo estava amolecido pelo calor. Minha cabeça doía muito pelo golpe que havia recebido. Ouvi uma voz a poucos metros de mim, dentro do mesmo ambiente. Reconheci ser a voz do Padre que rezava a missa momentos antes. Mas percebi quase que imediatamente que sua voz estava fraca, quase morta. Ele pedia a Deus constantemente por misericórdia, entre tossidas e cuspes. Algumas vezes sentia que cuspia em mim, mas pensei que fazia isso por não saber que não havia mais alguém perto dele. Perguntei se ele era quem eu pensava e recebi uma afirmativa. Ele dizia que havia seres estranhos que estavam habitando há anos o subsolo da igreja, inclusive havendo um deles que conseguia se passar pelo Padre. Ele continuou dizendo que ouvia conversas dessas criaturas em que falavam quase sempre em línguas estranhas que não era conhecida por homem algum. Eles falaram, desde os anos que se instalaram ali, sob os pés humanos, pouquíssimas vezes em nossa língua, sobre sua casa, que o Padre supunha ser em outra dimensão. Eles falavam nomes como Mathyas, Petros, Yudas. Yezus também era um nome dito constantemente, e o Padre chorava ao dizer que esses nomes eram variações de Mateus, Pedro, Judas e Jesus. Os seres reverenciavam cada um desses nomes e muitos outros mais antigos que a própria humanidade.

            Passados os dias, o Padre me ensinou a não chamar a atenção demais deles e que assim minha morte seria rápida, algo que ele não tinha, já que servia de alimento para eles constantemente. Primeiro foram seus braços, depois suas pernas, assim dizia. Ele faleceu no dia seguinte e eu mesmo nunca o vi sob qualquer luz para que pudesse comprovar suas feridas e seu corpo foi deixado onde perdera a vida. O cheiro estava insuportável e o calor lá dentro deixava tudo ainda mais nojento. Dias depois, ouvi alguns grunhidos que pareciam ser de ratos, o que se confirmou quando senti um mar daqueles pequenos pés passando por cima das minhas pernas. Ouvi a carne podre do Padre ser dilacerada pelos animais e tive de segurar a ânsia que chegava até a minha garganta. A maioria das vezes eu consegui segurar. Mas outras vezes, sujei minhas surradas roupas. Passado algum tempo, eu já não conseguia sequer vomitar, pois não havia mais o que voltar.

            Conforme o tempo passava, pude ouvir as vozes daqueles seres que falavam algo que pudessem ser compreendido muito raramente. Eles diziam que nós, humanos, não poderíamos servir para mais nada além de comida, mas que alguns rituais se faziam necessários, já que fomos criados por eles apenas ara isso. O que explicava porque estavam debaixo da igreja, se valendo da fé alheia. Eles falavam de Yezus como salvador de uma humanidade como se oferece milho para galinhas e assim degolá-las para a janta. Eu ouvia pessoas que eram trazidas pelo falso padre e assim seus gritos ecoavam por cada canto daquele lugar maldito. Eu fiquei dias sem abrir minha boca, ainda que não entendesse porque nenhum deles me vitimava de vez. Talvez eles quisessem apenas me torturar com os gritos das pessoas capturadas, me ensinando uma lição maquiavélica sobre não meter o nariz onde não fosse chamado. Às vezes alguns deles me olhavam pelo vão da porta e via seus olhos grandes que misturava amarelo e vermelho, sem íris.

            Dias depois, quando a fome abatia meu corpo e a certeza do meu fim se aproximava, o silêncio tomou conta. Não havia vozes, gritos ou sussurros. Fiquei horas sem saber do que acontecia fora da minha cela e essa sensação era ainda pior do que imaginar a morte certa. A incerteza destruía minha mente. Eu chorava compulsivamente, pedindo a Deus misericórdia e que todo aquele pesadelo tivesse um fim. De repente, a porta da minha cela se abriu vagarosamente.

            Aliviei-me consciente de que finalmente estava prestes a morrer, mas diferentemente dos monstros que o Padre murmurava para mim, vi uma pequena menina com roupas brancas, cabelos loiros e olhos azuis. A luz de fora da minha cela brilhava por trás dela, o que não me deixava enxergar sua beleza na totalidade. Ela se aproximou de mim e sem dizer uma única palavra, abriu os grilões que me prendiam e passou a mão no meu rosto sujo e machucado. Estendeu a mão e me ajudou a levantar. Havia algo de angelical naquele rosto, uma aura que me acalmava. Eu estava sem forças, mas ela me auxiliou até a saída da cela. Olhei para as mãos dela e vi um furo em cada uma, que atravessava até o outro lado. Seus pés descalços também continham tais ferimentos. Tentei balbuciar algumas palavras, mas não consegui. O terror voltava a tomar conta de mim. Ela me levou até a luz de fora da porta e se recolheu à escuridão da cela. Fechava a porta vagarosamente, mas antes que ela sumisse por completo atrás de todo aquele aço pesado que um humano normal não abriria ou cerraria sozinho, ela sorriu com dentes inumanos tortos e grandes, dizendo “Eu não morro por vocês. Vocês é que morrem por mim todo dia. Tenho fome, mas não hoje... Vá embora antes que eu mude de ideia, pequenino.” E fechou a porta. Ela apontou para trás e, sem pensar duas vezes, saí andando, não por calma, mas por incapacidade de correr, já que minha fome me debilitava.

            Já não havia mais salas decrépitas, morte exalando por cada canto, ou cenas de horror com cadáveres. Tudo estava limpo, cheirando à limpeza. Subi as escadarias e após a porta, vi a luz do sol. Caminhei até meu carro que estava parado no mesmo lugar que deixara muitas semanas atrás. Meu celular estava sem bateria há muito tempo e mesmo que tivesse, duvido que houvesse alguém da polícia que acreditasse em mim. Até mesmo Marcus, que sempre teve a mente tão aberta, me internaria se soubesse do que passei. Percebi que o melhor era manter silêncio, mesmo que isso custasse minha insanidade.

            Deus não existia e Satanás era apenas uma alegoria das nossas próprias culpas e consolações. Eu nunca estive tão convencido disso como estou até hoje.

            Entrei no carro e dei a partido, ainda muito trêmulo, corri pela cidade até bater o carro e quase morrer. Meses na UTI, coma, e fisioterapia não me fizeram esquecer os horrores que experimentei nas mãos de seres que não tem começo. Não há nada capaz de descrever o que é sofrer e ouvir gritos de outras pessoas sofrendo mortes das mais horrendas formas para satisfazer o que há de mais podre neste universo. Nunca mais os vi, mas sonhei dia após com esse reencontro mortal. Chorei todas as noites e implorei aos céus que isso nunca acontecesse.

            Por isso peço para você que lê isso, não busque a verdade divina. Se contente com as migalhas que lhe dão e com as falsas verdades que mostram. Somos ignorantes não por natureza, mas por necessidade. Vi a realidade debaixo daqueles alicerces santos e hoje decido terminar minha vida, para que tal destino que tanto testemunhei, não acontecesse comigo, já que tenho a convicção que eles estão à espreita. Assim, dou fim à minha vida com esses avisos.

            Talvez você não acredite nisso, mas sei o que vi, senti e ouvi. Não somos frutos de mentes divinas ou sequer de uma evolução, mas sim mentes pérfidas que têm fome.

Não fomos criados para viver. Fomos criados para sermos abatidos.

 



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