O delicado sabor das fêmeas fatais (2)

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Foi numa manhã em que passeávamos no parque que ocorreu um fato estranho, para não dizer fatídico. A gente estava andando pela pista de caminhada quando surgiu aparentemente do nada uma louraça curvilínea calçando tênis e meias brancas, vestindo calções azuis e camiseta vermelha, indumentárias próprias para exercícios físicos, uma mulher aí pelos trinta e cinco anos – e mesmo que ela nem tivesse ideia da minha existência, eu a conhecia: tratava-se da famigerada Luana, uma sirigaita que aplicava golpes magistrais no pessoal endinheirado. A mulher caminhou diretamente para nós e plantou-se em frente ao Mr. Seth Moore. Olhou-o da cabeça aos pés, genuinamente impressionada com suas dimensões, depois se apresentou:

– Sou a doutora Lisbeth Feijó, especializada em obesidade mórbida. Não estaria interessado em uma consulta?

Se Mr. Seth Moore lhe pedisse documentos pessoais, diploma de faculdade, registro no Conselho Regional de Medicina, não duvide, ela os teria em falsificação quase perfeita. Mas Mr. Seth Moore, depois de um longo olhar apreciando o corpo da mulher, apenas soltou sua portentosa gargalhada e disse:

– Minha caríssima doutorzinha – ele respondeu –, eu estou mais interessado em contratar uma cozinheira maravilhosa, visto que minha dieta tem se resumido à comida enlatada. A senhora conheceria uma cozinheira disponível 24 horas por dia?

Riu novamente, dessa vez por causa da fingida cara de espanto da mulher – engraçadíssima, diga-se –, deu um tapaço brincalhão no alto da minha cabeça e mostrou-me o hiper-ônibus.

– Vamos Biguá, essa simpática mulherzinha me abriu um apetite desgraçado!

– Sou médica, não uma mulherzinha qualquer – ela disse – e a partir de hoje estarei todas as manhãzinhas aqui no parque, se mudar de ideia a respeito do tratamento, é só me dar um toque. Ah, sim: posso cozinhar, também.

Mr. Seth Moore arreganhou os dentes para a golpista.

– Vou pensar – disse.

Enquanto retornávamos ao veículo, eu encasquetava com aquela revelação a respeito de cozinheiras, eu nunca tinha imaginado que um dia houvesse acontecido o milagre de uma refeição quente, feita na hora, naquela casa tão grande que mais parecia uma mansão dessas que vemos em filmes, principalmente em filmes de terror. Havia lá uma cozinha prodigiosa com geladeiras monstruosas, fogões, armários, formidáveis fornos elétricos, panelas de todos os modelos e tamanhos fulgurando de limpas graças às diaristas habituais, mas nunca vi um grão de arroz, uma réstia de alhos, uma porção de carne seca – exceto vidros e vidros de temperos. Logo, certamente alguma cozinheira já tinha trabalhado na casa. Pensando nisso, sugeri a Mr. Seth Moore que ele podia contratar várias cozinheiras, uma para a manhã, outra para tarde, outra para a noite e outra para a madrugada. Só assim teria alguém cozinhando vinte e quatro horas. Mr. Seth Moore percebeu que, inconscientemente, eu estava fervendo de raiva da golpista. Voltou a rir.

– Tem alguma coisa contra essa mulher, Biguá?

– Ela não presta – eu disse.

Ele sacudiu os ombros monumentais:

– Eu sei disso, garoto – ele retrucou.

Depois que nos acomodamos nos bancos do hiper-ônibus, Mr. Seth Moore mandou que eu dirigisse até a churrascaria Ápis. Não era sempre que ele fazia um pedido como aquele – isso só acontecia em ocasiões especiais, quando queria festejar. Nesse dia específico, não consegui descobrir o que Mr. Seth Moore estava festejando, mas adorei a ideia de não ter que abrir latas de carne de porco e de frutas para o almoço. Eu gostava do ritual de comermos fora. Eu estacionava o hiper-ônibus em frente à churrascaria Ápis com o espírito alegre e a boca cheia d'água ante a perspectiva dos regalos. O local fervilhava de clientes todos os dias e assim que viam o nosso veículo, aplaudiam em regozijo. Os garçons levavam uma mesa dobrável para o interior do hiper-ônibus e a dispunham em frente ao banco especial onde se acomodava Mr. Seth Moore – cobriam-na com uma toalha de linho branco, sempre o linho, Mr. Seth Moore adorava linho, colocavam uma bacia de alumínio e talheres sobre o tampo (para mim, sentado em frente ao volante, serviam uma bandeja com prato, garfo e faca) e depois começava o desfile: cada um dos garçons, em fila indiana, trazia os longos espetos com as carnes assadas cheirando divinamente, carnes de todos os tipos e qualidades, linguiças as mais variadas e os cupins, ah, os cupins! Eu adorava os cupins suculentos, macios, frigindo, soltando fumaça, uma pena que meu estômago se enchia com facilidade. Ao contrário do estômago do Mr. Seth Moore, aquilo sim era um saco furado – mesmo com sua pança imensa, todo mundo ficava se perguntando se o estômago dele não seria como os dos ruminantes, com três ou quatro câmaras para auxiliarem no armazenamento. Só sei que ele ficava ali comendo pachorrentamente por duas ou três horas. É, comendo, sem trégua, durante duas ou três horas. Mas ele não comia como um degenerado, atacando as carnes na bacia como um morto de fome. Não, não e não. Ele comia com fidalguia, com a elegância dos bem-nascidos que aprendem essas coisas de etiqueta ainda nos cueiros, limpando os lábios com as toalhinhas disponíveis no hiper-ônibus às centenas e que serviam, notadamente, para limpar o suor, já que Mr. Seth Moore suava como se estivesse perpetuamente dentro de uma sauna. Nessas ocasiões de churrascadas, ele se dava ao luxo de beber cervejas, às dúzias, sem preferência de marca. Ao fim das comilanças era de sua natureza cair numa tristeza inexplicável, então começava a cantar. Cantava bem, Mr. Seth Moore. Sempre aquelas músicas de ópera. Eu gostava de vê-lo cantar com sua voz de barítono. Então, nessas ocasiões, eu ficava entre triste e feliz. Triste por seu rosto melancólico e feliz porque se deuses como Thor, Atlas, Prometeu, Cronos e outros um dia cantassem na presença de pobres mortais como eu, suas vozes seriam iguais à de Mr. Seth Moore, sem tirar nem pôr – uma voz bonita que só!

Naquele dia, depois da lauta refeição, Mr. Seth Moore pediu que eu dirigisse diretamente para a chácara. Eis um fato inusitado, ir para casa sem passar em frente ao colégio de ensino médio Madre Pia Gioconda. Passar não, estacionar. Que Mr. Seth Moore adorava abrir as portas laterais do hiper-ônibus e ficar olhando os jovens que saíam do colégio para a rua ao fim das aulas. Quando digo jovem, quero dizer garota, nem vem que ele não era chegado nessa de rapaziada. Ele acenava para elas, elas correspondiam com muito bom humor. Achavam-no o mais ridículo dos palhaços galanteadores, chamavam-no de tarado sem vergonha, porco cevado, mas ele não ligava aos insultos. Ou não compreendia. É Muito provável que estivesse bêbado sem aparentar, e assim, com o raciocínio degringolado, não entendesse àquela altura a mais simples expressão da língua portuguesa. Ficávamos ali até que a última aluna do período vespertino tivesse ido embora, então eu acionava os mecanismos que fechavam a porta do hiper-ônibus, ligava o motor e tomava o rumo de casa.

Mas nesse dia específico, o dia em que encontrou com a famigerada doutora Lisbeth Feijó, Mr. Seth Moore quis voltar para a casa sem cobiçar as meninas do colégio. E chorava. Eu dirigia o hiper-ônibus com o coração aos pedaços, ouvindo seu choro lá atrás, esparramado no grande banco do veículo. Era um choro dolorido, às vezes como se fosse um cão uivando para a lua, às vezes como um filhote de animal desmamado à força, um animalzinho assim como um bezerro desejando os úberes da mãe.

Era a primeira vez que ouvia o Mr. Seth Moore chorar. Aquilo era muito esquisito, eu não sabia como agir, não me acudia nenhuma palavra de conforto – se ao menos eu soubesse o que afligia a alma de Mr. Seth Moore! O homem chorou durante a viagem de volta a casa, chorou deitado na sua imensa cama, comeu suas refeições enlatadas chorando, bebeu suas incontáveis garrafas de água mineral num choro só – quando dormiu, o corpo sacudia o excesso de banhas movido pelos soluços. Mr. Seth Moore ficou chorando durante três dias. Nesses três dias não atendeu a nenhum de seus mais de vinte celulares, não participou de nenhuma vídeo-conferência de negócios, não manteve contato via Skype com seus – presumo – sócios. Tomou apenas dois banhos durante esse tempo, para o meu desespero. É que o suor nas pregas de suas banhas transformava as assaduras em feridas infeccionadas numa proporção que eu nunca vira em todo o tempo em que tinha Mr. Seth Moore sob meus cuidados. E mais: as limpezas que eu fazia em suas partes íntimas demoravam uma eternidade e nunca ficavam nos conformes – uma tristeza tudo aquilo.

No quarto dia, assim de repente Mr. Seth Moore parou de chorar. Tomou banho às cinco, às seis e às sete da manhã. Em todas às vezes fiz meticuloso tratamento em suas chagas, sendo que no último banho ele pediu que eu perfumasse o seu corpo com uma colônia azul-índigo forte como o quê, acondicionada num frasco de 1.200 miligramas. Se o frasco estava cheio, vazio ficou. Ajudei-o a vestir uma de suas extraordinárias batas brancas, de linho, ele pediu-me que empilhasse alguns travesseiros de modo que sua postura na cama se assemelhasse à de um homem confortavelmente sentado, então ordenou: – Pegue o hiper-ônibus e vá buscar a doutora Lisbeth Feijó!



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