O delicado sabor das fêmeas fatais (3)

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Com tantos carros velozes, elegantes, valiosos e bonitos na garagem, até hoje não consigo imaginar o porquê de o patrão me ordenar que pegasse justamente o hiper-ônibus e fosse procurar a infame Luana, ou doutora Lisbeth Feijó. A verdade é que na hora eu não pensei coisíssima nenhuma, eu estava mesmo era aturdido com a ordem – e com medo do olhar de Mr. Seth Moore. Era um olhar direto, firme, imperativo, não conhecia ainda a força daquele olhar – saí do quarto em desabalada carreira, prendendo o fôlego. Só fui respirar quando me encontrei no jardim circundando a casa. Dirigi-me à garagem, entrei no hiper-ônibus e zarpei. Em menos de meia hora eu estava no parque. Estacionei o veículo e esperei. Muitos frequentadores do local vieram perguntar onde estava Mr. Seth Moore, eu os informava que viera sozinho, eles me fitavam como se eu fosse o mais vil dos criminosos e seguiam seus caminhos, decepcionados. Menos a doutora Lisbeth Feijó, que antes de me dirigir a palavra deu uma olhada no interior do veículo pondo-se nas pontas dos pés, o pescoço esticado, os olhos ansiosos.

–Você veio me buscar? – indagou-me por fim. Acenei que sim com a cabeça. Sem perda de tempo abri a porta lateral do hiper-ônibus – veja bem, não a porta da cabine, mas a lateral, não queria que ela viajasse ao meu lado, não queria sentir nem o cheiro daquela vaca ordinária – e ela entrou. Sentou-se no banco sob medida para Mr. Seth Moore e ordenou com azedume:

– Vamos logo, o que está esperando?!

A voz da mulher fez soar um monte de campainhas em meu cérebro. Soube de imediato: aquela vagabunda iria me dar dores de cabeça. Era evidente que a fulaninha tinha pesquisado a fundo todo o histórico de vida de Mr. Seth Moore, certamente conhecia o lugar onde ele morava, seu estado civil, o montante de sua riqueza, aquela mulher tinha muitos planos fermentando os miolos. Pus o veículo em movimento e circulei sem destino pela cidade, só me divertindo com os raios de raiva que a doutora me cravava às costas. Quando cheguei à residência, já se passavam das dez horas. Ela desceu furibunda do hiper-ônibus.

– Você não perde por esperar – disse-me, azeda.

Conduzi-a em direção ao quarto de Mr. Seth Moore – antes de adentrá-lo ela parou um instante em frente à porta fechada, arrumou o calção de ginástica, enfiou as mãos atrás das costas, sob a camiseta branca, desprendeu os ganchos do sutiã e o arrancou num gesto rápido. Era um sutiã cor-de-rosa.

– Guarde isso – disse-me, me entregando a peça. Em seguida abriu a porta e fechou-a na minha cara com um estrondo. Ouvi que ela girava a chave na fechadura. Eu fiquei ali, de pé no corredor, o sutiã pendendo de uma das mãos, perplexo. Fiquei um tempão esperando que Mr. Seth Moore me chamasse para qualquer eventualidade (secretamente eu desejava não desgrudar os olhos da excomungada), mas cheguei à conclusão que ficaria plantado no corredor para sempre. Então resolvi transgredir – como tinha uma chave sobressalente do quarto, usei-a, abri a porta com infinita precaução, só uma pequena fresta, o suficiente para introduzir a cabeça, e olhei para a cama. Quase tive um troço ao presenciar a cena grotesca se desenrolando ante meus olhos esbugalhados. Ali estava Mr. Seth Moore peladíssimo, as pernas de tronco de peroba bem abertas e, entre elas, o corpo da doutora Lisbeth Feijó, a cabeça loura enfiada nas virilhas, os braços abertos sobre os quadris monumentais enquanto as mãos seguravam-se em dobras de banha – eu podia ouvir distintamente sua boca pequena sugando com avidez as genitálias de Mr. Seth Moore. O barulho da sucção era bem nítido. Ele tinha o rosto congestionado, os olhos fechados, a boca aberta, as veias do pescoço saltadas. Mr. Seth Moore deliciava-se com as práticas de sexo oral da doutora Lisbeth Feijó, a especialista em obesidade mórbida.

Então tive certeza: aquela lambisgoia com sua técnica sexual iria fazer de Mr. Seth Moore um fantoche. Ela começaria a eliminar os inimigos, iria afastar quem quer que fosse de seu pote de ouro. Estava na cara, eu iria perder o emprego. Peguei uma cadeira e sentei-me no corredor, em frente à porta do quarto, só sairia do meu posto de vigilância para abrir e comer algum alimento enlatado, para fazer minhas necessidades fisiológicas e para dormir algumas horas durante a madrugada em meu quarto no segundo andar. Após dois dias meu celular tocou - era Mr. Seth Moore.

– Pegue uns sacos de lixo e venha aqui – ordenou.

Quando entrei, Mr. Seth Moore estava esparramado na cama, nu como sempre, e ao seu lado sobre um dos colchões havia um amontoado de ossos humanos. Das vísceras – rins, fígado, pulmões, os miúdos, enfim – não havia nem vestígios. Os intestinos também não estavam à vista – não tive dúvidas que estes haviam escoado pelo monstruoso vaso sanitário. Mr. Seth Moore não esperou que eu saísse do estupor ante as imagens macabras, foi logo dizendo:

– Biguá, meu bom rapaz, eu estou comendo literalmente a nossa doutorzinha há três dias.

– Onde está a cabeça? – perguntei bestamente, certamente eu estava tão atônito que o meu cérebro havia momentaneamente degringolado.

Ele me apontou a grande geladeira industrial de quatro portas com controlador digital encostada numa das paredes do quarto, era ali que ele guardava as dezenas de vasilhas com sorvete cremoso de diversos sabores, frutas e outros alimentos perecíveis.

– Guardei a cabeça, a pele e um bocado de carne.

Agora veja só a pergunta que me saiu da boca:

– A carne dela está macia?

Até hoje fico intrigado com a imbecilidade dessa pergunta. Acho que inconscientemente eu pensava que esse pessoal que faz muita ginástica deve ter uma carne duríssima, basta ver esses corpos sarados pra gente pensar em nervos rijos, pele de tamborim, essas coisas de difícil mastigação. Mr. Seth Moore respondeu-me:

– Assim, assim... Macia mesmo não está, mas eu morria de fome. Quem mandou a doutorzinha atiçar meu apetite?

E riu, riu muito, riu tanto que eu também acabei achando aquele dito realmente espirituoso. E o acompanhei no riso. Rimos pelo menos uns quinze minutos. Depois Mr. Seth Moore me disse:

– Quero que você dê um fim nessa ossada.

– Por que os ossos não estão também no refrigerador?

– Estavam lá. Só estou facilitando seu trabalho.

– Sei... O que vou ganhar te ajudando? – perguntei por fim. Para negócios escusos sempre fui uma pessoa um tanto gananciosa. Mr. Seth Moore afastou as pernas para o canto e me mostrou o espaço vazio na cama.

– Senta aí e vamos conversar – ele disse.



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