UM DIA EU VOLTO PARA COBRAR

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Dez horas da noite. Júlio começa a arrumar suas coisas para ir para casa. Seu expediente está quase terminando. O outro vigia chega pontualmente as dez e meia para começar seu turno. Júlio então, se despede do companheiro de  trabalho e parte para sua casa.

Júlio morava a seis quadras do seu trabalho, então sempre ia caminhando. As noites eram tranquilas.

Mas justamente esse dia, dois homens escondidos em um beco escuro, aguardavam alguém que pudesse passar por alí. As luzes nos postes iluminavam bem a rua, mas as sombras dominavam aquele beco. Júlio sempre passou por alí, já estava acostumado com o caminho. Sua rotina era a mesma já fazia alguns anos. Morava sozinho, e não tinha ninguém. Era uma pessoa solitária.

Porém haviam dois homens mau intensionados naquele beco onde Júlio estava prestes a passar em frente. Um dos homens segurava uma faca na mão direita. Já o outro tinha um revólver calibre 38 em sua cintura, escondido por baixo da camisa. Os dois atentaram-se ao ouvir passos na rua e se esconderam ainda mais nas sombras. Júlio passou pelo beco sem perceber a presença dos dois ladrões, que surgiram por detrás dele. Júlio não teve reação. Apenas sentiu a ponta da faca pressionada contra suas costas, seguido de ameaças de morte se não desse todo seu dinheiro e o que tinha de valor aos ladrões. Júlio sentiu medo naquela hora, e vagarozamente foi pegando sua carteira, onde ele tinha alguns trocados, para entregar aos dois homens que estavam lhe ameaçando. Júlio pegou a carteira na mão e começou a levantá-la enquanto pedia que os ladrões se acalmassem. Então ouviu um som. O som de algo sendo destroçado, junto aos gritos que foram extremamente curtos às suas costas. Ouviu então o som de corpos caindo. Seu coração disparou. Se perguntava o que havia acontecido alí. Por que os ladrões não faziam mais barulho? Então começou a se virar lentamente. Viu os corpos dos dois homens estraçalhados no chão. E uma mulher parada olhando para os corpos. Ela usava um vestido branco, cheio de manchas vermelhas, provavelmente sangue dos homens. Ela também tinha sangue nas mãos. Júlio ainda não conseguia falar nada, tamanho o seu nervosismo naquela hora. A mulher então começa a olhar para ele. Seus olhos eram negros por completo. Sua pele era meio avermelhada. Júlio também sentiu um cheiro muito forte de enxofre, que emanava da mulher. Ela então caminhou em direção a Júlio, que não conseguia se mexer de tamanho pavor que sentia. Chegou bem próximo a ele e lambeu a lateral de seu rosto. Ele sentiu como se seu rosto fosse queimado. Então a mulher sussurrou em seu ouvido:

-Salvei sua vida miserável... Agora você me deve... Um dia eu volto para cobrar... E se você falar de mim para alguém, eu volto para fazer com você o mesmo que eu fiz com eles. Agora que eu conheço seu gosto e seu cheiro, não tem como fugir de mim.

A mulher então desapareceu na frente de Júlio como se fosse fumaça.

Júlio ficou paralisado por alguns minutos, até que finalmente teve alguma reação. Saiu correndo para casa, trancando todas as portas e janelas, depois se enfiando debaixo do cobertor, sem ao menos tomar um banho, ficou a noite toda acordado pensando na mulher. O que era aquela mulher? Por que ela fez aquilo? Passou a noite toda pensando.

 Ainda naquela noite, Júlio podia ouvir o som das viaturas no local onde estavam os corpos dos ladrões. Nada fez a não ser tentar dormir, ainda que sem sucesso.

No dia seguinte, os jornais mencionavam a morte brutal de dois indivíduos. A polícia investigava o caso. Não havia sinais nos corpos multilados. Ninguém fazia idéia do que teria acontecido com aqueles dois homens.

Júlio tentou levar os dias que se seguiram normalmente, como se nada tivesse acontecido. Mas ainda pensava nas palavras daquela mulher, demônio, ou seja lá o que quer que fosse. Decidiu que não falaria nada do ocorrido com ninguém.

Alguns meses depois, Júlio já não sentia mais todo o medo que se seguiu com ele depois daquela noite. Passou a aproveitar mais a vida,  seguindo o conselho de seus companheiros de trabalho, passou a frequentar barzinhos com eles. Aquilo fazia ele se distanciar dos pensamentos que levavam àquela mulher. Até que certa noite ele conheceu uma mulher. Loira, olhos azuis, corpo bem cuidado. Ela era linda. Seu nome era Jéssica.

Aos poucos, foram se conhecendo, e se curtindo cada vez mais. Um namoro se iniciou daquele relacionamento. Júlio agora era um homem feliz ao lado de Jéssica.

Então, alguns meses depois, resolveram se casar. Foi uma cerimônia simples, com apenas alguns familiares e amigos do casal. Um churrasco para festejar, e depois, partiram os recém-casados para o aeroporto para sua viagem de lua-de-mel. Foram quinze dias maravilhosos. Ao retornar, Júlio olhava o rosto de sua esposa que dormia no avião, e pensava como podia ter tanta sorte de conseguir uma mulher como ela. Nesse instante, veio a lembrança que ele já tinha esquecido a algum tempo. O rosto da mulher daquela noite. Seus olhos negros invadiram seu pensamento. Ainda assim, ele não tinha mais medo, talvéz porque tivesse passado tanto tempo. Mas ele ainda pensava: Será que ela vai mesmo voltar para cobrar alguma coisa de mim?

Chegando finalmente em casa, o casal pode retomar suas rotinas. Meses depois, Júlio ainda teria mais uma ótima surpresa, Jéssica disse que estava grávida. Foi a melhor notícia que Júlio poderia ter. A alegria do casal foi imensa.

Durante toda a gestação, Júlio foi presente. Cada ultrasom era uma novidade. Até que meses depois, nasce o pequeno Paulo, nome que o casal decidira colocar na criança. Mais um churrasco, agora para comemorar o batizado. A alegria era geral. Assim o tempo foi passando e logo Paulo estava fazendo um aninho. Depois da festa, Jéssica começou a arrumar a casa, enquanto Júlio foi colocar o pequeno Paulo para dormir. Assim que o garotinho pegou no sono, Júlio foi ajudar Jéssica. Ambos estavam felizes. Porém, naquela noite, enquanto Júlio tomava seu banho antes de ir dormir, Jéssica trancava o portão e as portas. Foi ver o pequeno Paulo no berço e seu coração gelou, ao ver uma mulher parada de pé ao lado do berço, olhando para a criança.

-Quem é você? Sai de perto do meu filho!!

A mulher olhou Jéssica e sorriu. Seus olhos eram inteiramente negros e sua pele avermelhada.

-Seu filho? Ele é meu...-disse a mulher com a voz baixa, sumindo no ar como fumaça.

Jéssica começou a gritar histericamente. Júlio chegou correndo, enrolado na toalha, perguntando o que tinha acontecido. Ficou horrorizado quando ouviu o que sua esposa disse. A mulher que ele temia que aparecesse, apareceu. E ela ainda disse que o pequeno Paulo era dela. "Um dia eu volto para cobrar", Júlio lembrou das palavras da mulher. Júlio nada disse à sua esposa. Apenas a abraçou, enquanto ela chorava sem parar. Aquela noite o casal não dormiu. Ficaram a noite toda com o pequeno Paulo. E as noites que se seguiram foram iguais. Porém algumas semanas depois, aquela mulher que eles tanto temiam não tinha mais aparecido depois daquela noite. O casal foi aos poucos retomando sua rotina. Então o tempo foi passando, e nunca mais a mulher que cheirava enxofre voltou.

Vinte e dois anos passaram. Paulo agora era um homem já formado. Júlio e Jéssica sentiam orgulho de seu filho. O rapaz era estudioso e trabalhador. Sempre ajudava como podia em casa. Paulo trabalhava de dia em um escritório de estudava de noite. A muito tempo que Júlio não pensava na mulher de olhos negros, assim como Jéssica. Júlio nunca disse uma palavra do que havia acontecido na noite que dois homens tentaram lhe assaltar. Ainda guardava essa lembrança, mas evitava ao máximo pensar no assunto, e com a ajuda do tempo foi ficando cada vez mais facil não pensar na mulher de olhos negros.

Paulo chega em casa um dia todo feliz. Havia conhecido uma garota na faculdade a algum tempo e agora, estavam namorando. Os pais do rapaz também ficaram contentes e imediatamente pediram ao filho que lhes apresentasse a tal garota. Decidiram então, fazer um jantar e convidar a namorada do filho.

A garota se chamava Heloísa. Era muito linda. Longos cabelos negros e sempre muito perfumada. Durante o jantar, Júlio e Jéssica viram que a moça era muito educada, gentil, e que também gostava muito de Paulo. Mas ela morava sozinha. Não tinha ninguém. Sua mãe havia morrido durante seu parto e já fazia muito tempo que ela não via seu pai, mas pretendia voltar a vê-lo em breve, e que levaria Paulo para conhecê-lo. O jantar termina e a jovem moça se despede dos pais do seu namorado e vai até a porta com Paulo, que se despede dos seus pais para levar a namorada para casa.

Os dias que se seguem, Paulo começa a perder dias no trabalho e na faculdade. Já não passa mais tanto tempo em casa. Só pensa em ficar com a namorada. Júlio ainda tenta repreender o filho por conta de sua irresponsabilidade, porém acaba discutindo com o rapaz. Jéssica percebe que o rapaz está assim por causa da namorada. Paulo sai de casa e vai morar com Heloísa. Durante algumas semanas, Júlio e Jéssica ficam sem ver o filho. Então resolvem fazer as pazes, convidando o jovem casal para um outro jantar. Jéssica vai ao apartamento onde seu filho morava com a namorada fazer o convite. Paulo recusa o convite. Jéssica nota que o filho está completamente mudado. Heloísa aparece e conversa com Jéssica. A garota aceita o convite e convence o rapaz a ir jantar com os pais dele.

Durante o jantar, todos permanecem quietos. Paulo visivelmente revoltado por estar alí, mas Heloísa se mostra contente de jantar com os pais de Paulo. Júlio percebe algo que não havia notado antes, talvéz pelo cheiro da comida de sua esposa. Agora com o jantar terminado, o cheiro que ele sentia era inconfundível. O odor de enxofre preenchia a sala de jantar. Jéssica também percebeu o cheiro. Lembrou do dia em que viu uma mulher ao lado do berço de Paulo ainda quando ele era um bebê, e notou que havia na semelhança entre Heloísa e a mulher que ela vira a tantos anos atrás. Jéssica levanta e diz:

-Era você aquela noite ao lado do berço!

-Ora ora... Depois de todo esse tempo enfim você me reconheceu?-disse Heloísa.

Jéssica imediatamente começa a chorar:

-Júlio, foi ela que eu vi ao lado do berço do Paulo aquela noite.

Heloísa então olha fixadamente para Júlio, dizendo:

-Oi Júlio, não se lembra mais de mim? Mesmo eu tendo salvado sua vida? Bom, eu avisei que um dia eu voltaria para te cobrar. Agora o seu filho é meu.-disse Heloísa, agora com os olhos totalmente negros e sua pele toda avermelhada.

Nesse instante Júlio se levanta e fala com a voz trêmula:

-Foi você que matou aqueles dois assaltantes no passado... Paulo sai de perto dela. Ela não é humana.

Heloísa se levanta e com um movimento muito rápido, mata Jéssica usando a faca de jantar. Então parte para cima de Júlio e quebra a maioria dos ossos de seu corpo, enquanto Paulo apenas fica observando sem nenhuma reação. Heloísa crava a faca de jantar no peito de Júlio que começa a agonizar. Júlio ainda consegue ver seu filho dando a mão para Heloísa, e indo embora em direção a um portal para o inferno que se abrira ali. A última coisa que Júlio viu antes de morrer foi seu filho sendo levado pro inferno pela filha do diabo.



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Comentários   

0 # Jessica 03-11-2014 17:10
:cry: :o :-| mt bom!
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