666 - A Maldição dos Blutrot

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O sol radiava com todo esplendor. Era uma tarde ensolarada, sem nenhuma nuvem no céu; este estava tomado pelo azul característico. Contudo, no horizonte, invisível aos olhos dos homens ao chão, uma nuvem escura aparecia, e se deslocava rapidamente.

À frente da pequena casa de William, havia um carro estacionado, com portas abertas, lotado de malas. No seu interior, Maria Clara arrumava o espaço, para que o quarteto coubesse junto das malas.

Tão logo saiu do carro, gritou, para quem estava dentro da casa:

- Vamos embora, pessoal! Senão vamos chegar tarde!

- Já vamos indo, amor! – gritou Yuri, de dentro da casa

Yuri estava junto de William, de pé, ao lado do sofá da sala da casa. O rapaz era descendente de japonês e tinha o cabelo levemente arrepiado, enquanto William era levemente moreno, com curvas corpóreas mais duras. Era levemente forte, enquanto Yuri era franzino.

- Vamos aproveitar essa viagem, Will! – disse Yuri, no pé do seu ouvido. Seu braço direito passava por trás do pescoço do amigo, repousando em seu ombro – Essa festa em Athros é a mais badalada da região, e você terá a chance de comer a Aninha!

- Não delira, Yuri! – disse William, levemente enrubescido. O rapaz era corajoso, entretanto, se o assunto era mulheres, enrubescia fácil.

- Não perca essa oportunidade, William! – fez uma rápida pausa – A Aninha é muito gostosa, e é muito afim de você!

- Não enxergue situações onde não existe, Yuri! – William se desvencilha de seu amigo, antes de se distanciar do mesmo, caminhando em direção à saída de sua casa – Ana é minha amiga, e nada além disso. E vamos embora, que estamos atrasados!

Ana era uma bela garota. Tinha seus quase vinte anos, um corpo angelical, com curvas perfeitas, seios e nádegas redondos, cabelo longo e alourado, olhos azuis e sempre vestia roupas que deixavam discreto seu corpo. Era ligeiramente tímida, o que atraía ainda mais os homens.

Maria Clara também era uma garota bela, mas não chegava nem um pouco perto da beleza escultural de sua melhor amiga. Namorava Yuri a pouco mais de três anos, e o amava acima de tudo nessa vida.

Ambas as garotas estavam encostadas no carro. Ana havia saído de casa antes de Yuri e William e Maria Clara estava ficando irritada com a demora dos rapazes.

- Esses garotos... – disse, irritada

Ana riu suavemente.

- Acalme-se, Clarinha. Eles devem estar só conversando! - disse

Clarinha aproximou seu corpo perto o suficiente para cochichar no ouvido de sua amiga.

- Cá entre nós, amiga! Aproveita essa viagem para dar em cima do Will!

A frase de Clara sobressaltou o coração de Aninha. O rosto da garota enrubesceu-se, ficando parecida com um tomate.

Gaguejando, respondeu à amiga:

- C...Como a...assim?

- Você não me engana, Aninha. Conhecemo-nos há muitos anos e sei perfeitamente que você é doidinha no seu querido amigo de infância. Aproveite essa festa, chegue nele. É seu desejo, não é?

Ana sentia seu coração bater de tão forma, que parecia que o mesmo saltaria para fora do corpo pela boca. Sentia suas bochechas queimarem, tamanha a vermelhidão.

- E...Eu n...não... – tentou argumentar, contudo, seu nervosismo foi superior, e não conseguiu balbuciar nenhuma frase. Ficou cabisbaixa, sentia-se envergonhada diante a situação.

Clarinha repousou sua mão direita no ombro da amiga, e disse:

- Não se preocupe. Yuri está plantando uma sementinha no peito de Will e, na festa, tanto eu quanto ele lhes ajudaremos. Vai dar tudo certo. Pode apostar!

Ana sentia que ia chorar. Não conseguia encarar esse desejo ardente que sentia no peito, e só conseguia fugir.

A porta da casa de William abriu, saindo o dono da casa e Yuri. William descia as escadas que davam à calçada, enquanto Yuri, parado em frente à porta, se espreguiçava.

- Prontos para a maior festa de suas vidas, a festa onde transaremos até morrermos de cansaço?

Ana enrubesceu-se só de ouvir a palavra "transa". Percebendo a amiga ficar envergonhada, Clara repreendeu:

- Yuri!

- Mas, amor, não é verdade? Essa festa vai ser "A festa das transas", onde poderemos transar com quem, onde e quando quisermos! – disse o rapaz, enquanto caminhava em direção ao carro

- Então, você quer ir à festa para transar com outras garotas? – perguntou Clarinha, frente a frente com seu namorado.

- Eu vou transar só contigo, meu amor! Pode ficar tranquila! – disse Yuri, passando a mão por trás da cintura de sua namorada, apertando-lhe no local. Os dois começaram a se beijar.

Ana preferiu entrar no banco traseiro do carro a ver a cena. Will abriu a porta do motorista, mas não entrou. Chamou a dupla de amigos.

- Ei, Yuri, Clarinha... vamos? Se não, não conseguiremos chegar hoje em Athros!

Percebendo que o casal de namorados não lhe deram atenção, William respirou fundo, meneou negativamente a cabeça e adentrou no carro. Começou a arrumar o veículo para dirigi-lo. Vendo Aninha no banco do carona, disse:

- Esses dois não têm jeito mesmo!

Ana assentiu com a cabeça. Estava em devaneio, imaginando-se na mesma situação, com William.

- Animada pra festa? – perguntou Will.

Ana foi pega de surpresa pela pergunta de Will. Enrubesceu-se. Percebendo a reação de sua amiga, William ficou nervoso e, gaguejando, tentou consertar sua frase.

- E...Eu não quis dizer... que é...

Ana ficou cabisbaixa. Yuri entrou no lado do carona, enquanto Clarinha adentrava no veículo pela porta traseira.

- Vamos? – perguntou Yuri.

Will virou o foco do olhar para frente, enquanto Aninha visualizava a rua. O casal de namorados não percebeu, mas tanto Will quanto Aninha estavam constrangidos.

William ligou o carro e partiu.

Uma gigantesca nuvem cinza tomou conta do céu naquele final do dia. Estava tão nublado que não se conseguia ver o sol se pôr.

A chuva se tornava iminente, trovões rugiam pelos céus da estrada. Athros estava longe, atrás das montanhas ao fundo. A festa seria apenas na tarde do dia seguinte, mas o quarteto queria chegar à cidade o mais cedo possível. Estavam esperando problemas como o que viriam.

William dirigia em uma estrada de curvas acentuadas e se encontrava completamente vazia. Até o horizonte só se viam planícies, antes do rochedo montanhoso que se formava no local.

- E...Essa chuva só nos vai atrapalhar! – disse Ana

- De fato! – respondeu William – Principal-mente para quem está dirigindo!

- Se quiser depois trocar... – disse Clarinha

- Não se preocupe. Não terá necessidade, pelo menos, não agora. Se depois eu estiver cansado, trocaremos! Pode ser?

Clarinha assentiu com a cabeça.

Yuri estava concentrado na máquina fotográfica que portava. Podia não parecer, mas o rapaz era um geek[1].

- Tudo bem contigo, Yuri? – perguntou seu amigo, ao percebê-lo compenetrado

Clarinha, preocupada, debruçou-se no assento de seu namorado e perguntou:

- Aconteceu alguma coisa, Yuri?

- Estou apenas vendo as fotos que tiramos pelo caminho! – respondeu o rapaz

- Tem algo de errado com elas? – perguntou William, antes de voltar o foco do olhar para a estrada e girar o volante, para que o carro adentrasse em uma curva

- Não! – respondeu o amigo – Só não tem nada para fazer!

- Se quiser, troca de lugar com a Aninha e eu te dou um passatempo divertido! – disse Clara, com uma voz provocante

- Opa! Vambora! – brincou Yuri

Will olhou Clarinha pelo retrovisor interno.

- Já está assim, antes mesmo de chegarmos a At...?! – o rapaz continuaria sua frase, contudo, percebeu algo de diferente na pista. Parecia ser um animal ou um humano atravessando rapidamente a pista; Will não viu direito. Viu um vulto, sem silhueta definida atravessando a pista; parecia ser bípede, entretanto, o rapaz não poderia dar certeza. No mesmo instante, girou o volante para a direita. Começou a girá-lo rapidamente, tentando evitar sair da pista. Estava em uma velocidade considerável. Rodou na pista inúmeras vezes e acabou por bater com a parte frontal do carro em uma árvore na beirada da pista, impulsionando todos para frente, pela força da inércia e, em seguida, para trás, em uma força considerável. O carro parou. As cabeças de todos doíam ao serem empurradas para frente e para trás.

- Só me faltava essa... – disse William

- Todo mundo está bem? – perguntou Clarinha

Aninha estava com um pequeno sangramento na cabeça, na parte superior esquerda. Estava com a mão no local e, quando Clara perguntou, meneou positivamente a cabeça.

- Você está sangrando, Aninha? – perguntou, preocupada. Will e Yuri arregalaram os olhos, surpresos.

O quarteto bateu com o carro em uma das diversas árvores à beira da pista em frente a um onipotente prédio. Will estava com o celular no ouvido, tentando se comunicar com alguém. Yuri estava fazendo o mesmo, enquanto Clarinha cuidava do ferimento de Ana.

Um trovão forte clareia o céu rapidamente.

Will caminhou em direção ao carro, enquanto retirava o celular de perto do ouvido. Guardou o aparelho no bolso, enquanto, visivelmente chateado, disse:

- Não tem sinal aqui!

- Estamos muito longe de alguma cidade? – perguntou Clara

Um segundo trovão ribomba no céu.

- Uma ou duas horas daqui, a pé. Contudo – acontece um terceiro trovão – Está prestes a chover!

- E onde ficaremos? – perguntou Ana

- Aqui era um vilarejo antigo. Virou uma cidade-fantasma por ser muito pobre e longe das outras civilizações. Acho que o único prédio que sobreviveu foi este! – William virou o foco do olhar para o prédio. Clara e Ana fizeram o mesmo.

O prédio era uma gigantesca estrutura de tijolos que possuía dois andares, com diversas janelas ocupando a parede frontal. Uma mureta, com um portão frontalmente à porta principal do prédio, delimitava seu espaço. Tinha formato de uma hospedaria antiga, datado possivelmente do fim do século XIX. Era marrom claro e estava mal cuidado.

Percebendo uma aura negativa rodando o local, Ana pergunta:

- T...Tem certeza, Will?

- Ou dormir aí ou no carro! – respondeu Will

Aninha fica em silêncio. Yuri desliga o celular e caminha até o trio.

- E aí? – perguntou Clarinha

Yuri meneia negativamente a cabeça, com ar de desapontamento.

- E agora, o que faremos? – perguntou o rapaz

Will aponta com a cabeça para o prédio abandonado. Yuri vira o corpo para ver o que William apontava. Ao fitar o prédio, perguntou:

- Tem certeza?

- Melhor do que o carro! – respondeu o rapaz

Yuri deu de ombros, e disse:

- Por mim, tudo bem!

Will percebe o primeiro pingo de chuva cair no solo.

- Vamos! – disse. – Está começando a chover!

Will, Clara e Ana viraram em direção ao carro, mas pararam ao ouvir um grito de Yuri, mandando-os esperar. O trio virou o corpo para o rapaz, que, naquele instante, estava com sua máquina fotográfica em punhos.

- Vamos tirar algumas fotos da frente desse prédio tenebroso! – disse

- Yuri, está prestes a chover. Deixe para outra hora!

- É rápido. Não vai demorar. Temos que pegar esse ar tenebroso, dado pela iminente chuva. Vamos!

Will respirou o fundo. Hesitou a princípio; os pingos de chuva começaram a se intensificar, contudo, seu amigo não iria sair do local enquanto não tirasse algumas fotos.

Forçando um sorriso, Will tirou fotos ao lado de Ana e Clara, antes de tirar apenas com sua amiga de infância, Yuri tirar com seu melhor amigo e depois com sua namorada. Pensaram em tirar mais fotos, mas os relâmpagos que caíam durante a sessão de fotografia fizeram William ficar alerta.

- Vamos! Depois tiramos mais fotos, Yuri! Vai começar a chover!

O quarteto pegou suas coisas no carro, trancou o mesmo e partiu para dentro do velho prédio. Will tentou abrir o portão principal, entretanto, um velho cadeado o impossibilitou. Arrombou-o. A chuva começava a cair.

Yuri, Clarinha e Ana adentraram no espaço dentro dos muros do prédio e William colocava o portão no lugar onde se encontrava. Correram em direção à porta principal. A chuva começava a apertar, de forma rápida. Chegaram à porta principal e a abriram. Não estava trancada.

Adentraram no prédio. Não havia nenhuma luz, assim somente a luz da noite incidia dentro do lugar, dando ao mesmo um ar profundamente tenebroso.

Estavam em uma espécie de saguão. Ao fundo, um corredor, que adentrava na escuridão completa antes de conseguirem ver seu fim.

- Tem alguém aí? – perguntou Yuri, em direção ao corredor – Olá!

A única resposta que o rapaz teve foi sua própria voz ecoada pelos cantos escuros daquele prédio.

Ana, Clara e William estavam assentados num velho sofá jogado no canto, no lugar oposto ao balcão. Estavam encharcados, todos os quatro.

- Estou muito molhada! – disse Ana. A garota tremia de frio, de tão encharcada que estava

- Eu falei que era para tirarmos fotos pela manhã, e não agora. Molhamo-nos à toa! – disse William, levemente irritado

Yuri mal prestava atenção nas palavras dos amigos. Virou o foco do olhar ao trio e caminhava em suas direções.

- Parece que não há ninguém aqui! – deu uma pausa, parando de frente a William – O que faremos agora?

- Vamos achar um quarto para dormir! – respondeu o outro rapaz – Estou exausto!

- Está certo! – disse Yuri. O rapaz abaixou-se e começou a mexer em sua mochila, localizada junto da dos demais, no pé do sofá.

- O que está procurando, Yuri? – perguntou Clarinha

Yuri levantou-se, com quatro lanternas em mãos. Jogou em cada um dos seus amigos uma lanterna.

- Lanternas! – disse, enquanto os demais pegavam suas respectivas lanternas – Não há luz neste prédio, então vamos ter que iluminar com as lanternas!

- Não há... luz? – perguntou Aninha, temerosa

- Foi o que eu disse. – disse Yuri – Algum problema quanto a isso?

- Eu odeio escuro!

- Não tem problema. O Will te protege! – disse. Virou as costas para o grupo – Vamos!

Will ficou surpreso com a fala de seu amigo. Ana ficou consternada e enrubesceu-se.

O segundo andar do prédio era tão sinistro quanto o primeiro. Paredes descascando, teto mofado, ar fúnebre, chão rangendo, um corredor gigantesco, com um sem-número de portas laterais e uma ao fundo.

Will, Ana, Clara e Yuri investigavam o corredor do primeiro andar. Havia diversos quartos laterais e, ao fundo do corredor, depois da escada que levava ao andar superior, uma porta, que dava à cozinha. Pensaram em ficar nos primeiros quartos, mas ratos, baratas e aranhas tomavam conta do lugar. Torciam para terem mais sorte no segundo andar. Adentraram ao local. E realmente tiveram. Acharam logo vários quartos limpos, todos na mesma parede da escada.

- Como dividiremos os quartos? – perguntou Yuri, em frente a um dos quartos

- Vamos todos dormir no mesmo quarto! – respondeu Will – É mais seguro assim!

- Ah, não, Will. Pega muito mal dormirmos todos no mesmo quarto! – disse Clara

- Somos amigos há anos, Clarinha, e não tem mais ninguém aqui além da gente! Não tem problema algum quanto a isso e é mais seguro assim. Além do mais – disse – Há duas camas no recinto. Você e Yuri dividem uma cama, Aninha dorme na outra. Eu coloco uma terceira cama no local, e durmo nela.

- Por mim, tudo bem! – disse Yuri, com ar de sacana

Clarinha repreendeu seu namorado, dando-lhe uma cotovela nas costelas.

- Nem pense em besteira!

- Ah... – disse, com ar de desapontamento, mas, sobretudo, de brincadeira

- E vocês? O que acham? – perguntou William, mudando o foco para as garotas

- Por mim, tudo bem! – disse Ana

- Fazer o quê, né? – disse Clarinha, levemente irritada

- Não se preocupa, não, amor – disse Yuri, fungando no pescoço de sua namorada – Eu não vou fazer besteira!

- Se fizer, é um homem morto!

Will ficou constrangido, com medo de sua amiga. Depois, voltou ao normal e disse, sério:

- Eu vou olhar se os chuveiros estão funcionando. Estou precisando de um bom banho!

- E...Eu vou com você! – disse Ana. Caminhou junto de William em direção ao final do corredor, onde se encontrava um par de portas.

- Então... – disse Will, parado junto de Ana em frente às portas – Qual das portas que é o banheiro?

- A porta que queremos é a da direita. A porta da esquerda são os sanitários. – disse Ana, segura de si, caminhando em direção à porta da direita

- Foi você quem abriu as portas do banheiro quando chegamos, não foi, Aninha? – perguntou Will

Ana meneou positivamente com a cabeça. Abriu a porta. Era um corredor com vários boxes, todos com um chuveiro dentro.

William ficou surpreso com a arquitetura do local.

- Que massa... – disse. Adentrou no local logo atrás de sua amiga. Vislumbrava o local. Ao contrário dos demais lugares do prédio, aquele estava arrumado. Não havia nenhum azulejo ou piso fora do local, e o teto estava sem nenhum ponto preto.

- Muito... – disse Ana. Olhou para Will.

Ao perceber que estava encarando seu grande amigo, Ana enrubesceu-se, girou o foco do olhar e disse, cabisbaixa:

- Vamos!

Começou a caminhar em direção ao final do corredor.

Will ficou parado. "A Aninha é muito gostosa, e é muito afim de você!". A frase de Yuri em sua casa, pouco antes de saírem, veio à mente do rapaz. "Muito afim de você", repetiu em sua mente. Lembrou-se da reação de Ana ao fitar seu rosto. "Será?", se perguntou.

No final do corredor, Ana percebeu que Will não a estava seguindo. Virou para trás e o viu absorto, parado no meio do corredor.

- Ei, Will... – gritou. William acordou de seus devaneios – Teste os chuveiros daí, que eu testo os daqui!

- C...Certo! – disse. Fora pego de surpresa pelo berro de Ana, e ficou constrangido por estar fitando-a. "A Aninha é muito gostosa", essa parte também lhe veio à mente durante o devaneio.

- Vocês demoraram! – disse Yuri, quando Ana e Will estavam voltando

- N...Não é... – Ana ficou envergonhada com a frase de Yuri, por achar que eles imaginavam uma situação inexistente

- Eram muitos chuveiros! – respondeu Will, ríspido, cortando a maldade na conversa

- Muitos chuveiros?! – perguntou Clarinha

- Sim. Como em um vestiário! – respondeu o rapaz

- Que estranho, porque só há um sanitário!

- A Aninha me disse a mesma coisa!

- E estão funcionando?

- Saem água normalmente, apesar de estarem meio entupidos. Vai ser um banho frio, não há energia elétrica.

- Fazer o quê, né?

- Bom, vamos deixar de conversa, que estou morto de cansaço! – disse Yuri, se espreguiçando – Eu vou dar uma deitada. Depois eu tomo banho! Se não tomar hoje, tomo amanhã!

Yuri adentrou no quarto. Clarinha, ao perceber a frase de seu namorado, caminhou logo atrás dele, dizendo, irritada:

- Ah, não, não vou dormir do lado de um homem que não tomou banho e com roupas encharcadas. Nem vem, Yuri, ou você toma banho ou eu vou dormir com a Aninha!

- E por que com a Aninha?

- Você não quer que ela durma comigo, né, Yuri? – perguntou Will, parado na porta do quarto

- É, faz sentido. – disse o rapaz, pensativo

- Se quiser, eu faço seu papel na cama por hoje... – brincou o rapaz. Ana ficou enrubescida, Yuri quase pulou do chão tamanho o susto. Clarinha segurou para não rir.

- Nem sonhando! – gritou Yuri, irritado

Will caiu na gargalhada.

- Pode ficar tranquilo, Yuri. Foi só uma brincadeira! – o rapaz adentrou no quarto. – Eu vou tomar um banho!

Will caminhou em direção suas coisas, dentro de suas mochilas, espalhadas pelo quarto, a fim de achar roupas limpas e uma toalha de banho. Saiu do local em seguida.

- E eu vou dormir! – disse Yuri, caindo na cama

- Tsc, tsc... – disse Clarinha. – Está molhando a cama, sabia?

Yuri meneou positivamente a cabeça, com os olhos fechados.

Clarinha meneou negativamente a cabeça, em sinal de desaprovação e caminhou em direção a Ana – Vamos, Aninha, vamos procurar alguma coisa na cozinha que possamos utilizar para fazermos comida!

- Ei, eu vou ficar sozinho aqui? – perguntou Yuri, se levantando da cama de sobressalto

- Sim. – respondeu Clarinha

- Ah, então, vou tomar um banho também. – o rapaz se levanta da cama

- Tem medo de ficar sozinho, Yuri? – perguntou Clarinha, de forma sacana

- Neste prédio, eu tenho. Parece meio mal assombrado!

Clarinha gargalha.

- Vamos logo, Aninha.

As garotas saíram do quarto. Yuri saiu em seguida, carregando sua lanterna, uma muda de roupas e uma toalha limpa.

Will estava tomando banho normalmente, em um dos últimos chuveiros do corredor. Suas mudas de roupa, tanto as limpas quanto as molhadas, e sua toalha estavam dependuradas na porta do box, e o rapaz se encontrava de costas para o mesmo. Saía uma quantidade de água razoável do chuveiro, e Will se ensaboava com seu próprio sabonete, que trouxe consigo.

O lugar estava em completo silêncio, somente o barulho de água, vindos do chuveiro e da chuva caindo do lado de fora, podia ser ouvido naquele local. Qualquer conversa ou outros sons oriundos do corredor do banheiro, mesmo na porta, seriam apaziguados pelo forte barulho de água.

- É tão bom tirar suas roupas molhadas e tomar um bom banho! – disse, para si mesmo

Will estava concentrado em seu banho. Ouviu o barulho da porta do local se abrir. Imaginando ser alguém da sua turma, não parou para olhar.

- É você, Yuri?

Não obteve resposta, entretanto, Will continuou concentrado no banho. Dava-se para escutar barulhos de passos, tão baixos que soavam como sussurros.

- Quem está aí? – indagou novamente. E novamente, não obteve êxito.

Will não conseguia escutar os sinistros barulhos de passo, por causa da água do chuveiro. Continuou a tomar seu banho, sem se dar conta do que estava acontecendo.

- Yuri, é você, não é? Deixa de gracinhas! – perguntou. Parecia indiferente com a situação.

Will não percebeu quando os passos estavam de frente para os boxes adjacentes ao seu, nem quando se encontrava de frente ao seu. Continuou a tomar seu banho.

- Oi. Quem está aí? – indagou pela segunda vez. Não obteve resposta.

Como estava de costas para suas roupas, não as percebeu descendo vagarosamente em direção ao chão, caindo de forma vagarosamente. Na verdade, estavam sendo puxadas.

Will parou de tomar seu banho ao perceber que suas coisas estavam caindo lentamente em direção ao chão. Apoiou-se com todo seu peso na porta do box e gritou, olhando para o lado de fora:

- Yuri!

Yuri assustou-se. Estava abaixado, do lado da porta do box, com as mudas de roupa e a toalha de Will nas mãos.

- Que merda. Você percebeu!

- Você não acha que eu não tinha percebido, né, Yuri? – perguntou Will, com olhar de vitorioso

- Sem graça! – disse Yuri, enquanto se levantava

Will estendeu os braços e seu amigo lhe devolveu seus pertences.

Yuri caminhou em direção ao box adjacente ao de seu amigo.

- Resolveu tomar banho agora também, Yuri? – perguntou Will

- As meninas me deixaram sozinho no quarto, aí preferi tomar um banho de uma vez. – explicou – E é bom também que eu tiro essa roupa encharcada!

- Verdade!

Will e Yuri estavam caminhando pelo corredor do segundo andar em direção ao quarto. Estavam com as suas respectivas toalhas nos seus ombros e suas roupas sujas nas mãos.

Ao entrarem no quarto, Aninha e Clara saem, portando consigo roupas limpas e toalhas.

- Tem comida para vocês. Comam antes dos ratos! – disse Clarinha, em tom de deboche

- Que bom que elas fizeram comida... Estou morrendo de fome! – disse Yuri, adentrando no quarto. Will parou do lado de fora, fitando o corre-dor.

Sobre a cama de Aninha, jaziam dois pratos tampados com comida. Junto à comida, talheres.

- Arroz, feijão e um pouco de carne. – disse Yuri, vendo a comida. Estava sentado na sua cama – Realmente, a Aninha é uma garota precavida. Até comida ela trouxe...

Yuri não obteve nenhuma reação por parte de William. Olhou para ele, chamando-o, e Will continuava a fitar o corredor.

- Will! – chamou Yuri, aumentando o tom de voz

Will acordou de seus devaneios.

- Fala, Yuri... – disse. Parecia zonzo de sono. Adentrou no quarto.

- Estava fitando a Aninha, né, safado? – perguntou, enquanto pegava seu prato para comer

- Claro que não! – respondeu, irritado. Evitou olhar diretamente para seu amigo, aproveitando a deixa para sentar-se na cama de Aninha. Em seguida, começou a comer.

- Deixa de mentira, Will! – disse Yuri, mexendo na sua bolsa – Eu sei que você estava de olho na Aninha.

Will ficou constrangido com a situação, e nada respondeu. Yuri retirou sua máquina fotográfica da mochila e começou a mexer no aparelho com uma só mão, enquanto segurava seu prato com a outra.

- Não vai tirar fotos da gente comendo, não, né, Yuri?

- Não vou tirar fotos, pode ficar tranquilo! Lembrei de que não vi as fotos que tiramos antes de entrarmos!

- Isso já é vício, cara. Cuidado!

- Não muda de assunto, Will. – disse Yuri, focado na máquina fotográfica – Você estava de olho na Aninha, que eu sei!

- Não estava, Yuri! Não inventa! – disse Will, irritado

- Ela está bem gostosinha, né? – perguntou, olhando para seu amigo

- Você tem namorada, sabia?

- Eu sei. Mas isso não me impede de falar bem das outras, principalmente se for amiga da Clarinha!

- Nem sei por que te levo a sério, Yuri... Na moral! – disse Will, constrangido com a situação e mudando o foco do olhar

- Tá bom. Vou fingir que acredito... – disse o amigo, virando o olhar para a máquina fotográfica. Estava rindo. Contudo, ao fitar a tela do aparelho que portava, arregala os olhos de surpresa.

- Ei... – exclamou

- O que foi, Yuri? – perguntou Will. Ficou preocupado com a reação do amigo

Yuri apontou várias vezes o mesmo botão da máquina fotográfica, o botão para mudar a visualização de determinada foto para outra.

- Olha isso aqui! – disse. Will deixou o prato na cama de Aninha e caminhou em direção à cama do amigo, sentando-se do seu lado

- O que aconteceu?

- Vem cá! Olha as fotos!

Will fitou a tela da máquina fotográfica.

- Olhe! – disse Yuri, apontando para uma das figuras que aparecia na foto

A foto em questão era a tirada por Yuri de Aninha, Clara e William. Nela, logo atrás de William, havia uma cabeça, na diagonal – como se, no momento do flash, estivesse virando a cabeça de frente para de perfil. A parte direita da cabeça estava tampada por Will, mostrando apenas o olho esquerdo furioso e parte da boca.

Ao ver a foto e perceber que a pessoa em questão estava logo atrás dele, Will sentiu um arrepio preencher sua nuca.

- E não é só essa! – disse Yuri

Yuri passou foto por foto tirado na frente do prédio, e Will percebeu que a mesma pessoa se encontrava logo atrás dele em todas elas. Contudo, a mais assustadora das fotos foi a última mostrada por Yuri. No momento do flash, um trovão ribombou no céu, e um relâmpago caiu no fundo da foto. Nos contornos da claridade causada pela queda do relâmpago, via-se claramente uma cabeça, de um ser sem cabelo e sem face humana, com a boca e os olhos abertos ao máximo, e os últimos citados sem íris, apenas um vazio enegrecido. Parecia gritar. Will ergue a sobrancelha, surpreso.

- E não parece ser problema na hora de bater a foto! – disse Yuri – A máquina está em ótima qualidade!

- Muito sinistro! – disse Will

Repentinamente, para sobressalto da dupla, ouve-se barulho de algo de metal caindo. Yuri largou a câmera e o prato sobre a cama e, junto de Will, partiu para fora do quarto, cada um carregando sua respectiva lanterna.

- Meninos, meninos... – gritava Maria Clara, dentro do banheiro

- Estamos aqui! – disse Yuri, correndo a passos largos junto de Will pelo corredor

- O que foi isso?

- Parece ter vindo do andar inferior. Iremos ver agora! – disse Will

- Esperem um minuto. Estamos trocando de roupa. Não nos deixem sozinhas!

- Não demore! – disse

Maria Clara e Ana vestiram suas respectivas roupas rapidamente. Deixaram as mudas de roupas antigas e as toalhas dentro do banheiro, pegaram suas lanternas e saíram do local.

- Vamos! – disse Yuri

O quarteto desceu vagarosamente as escadas do andar inferior. Descê-las com o térreo em total silêncio era um verdadeiro terror. O ranger da madeira podre que dava os contornos à escada, ampliado pelo silêncio do andar inferior, era infernal, e fazia qualquer humano ter um frio sobrenatural na espinha.

- Será que foi um rato? – perguntou Will

- Só se for uma ninhada inteira! – respondeu Maria Clara

- O barulho pode ter sido intensificado pelo vazio do primeiro andar!

- O problema, Will, não foi a altura do som, mas sim a quantidade de coisas que caíram!

Will ficou em silêncio; Maria Clara venceu a discussão.

Chegaram ao primeiro andar.

- Veio da cozinha! – disse Clarinha – O barulho foi de panela!

- Pra quem nos gritou perguntando o que aconteceu, até que você está sabendo, Clarinha! – disse Yuri

- O som eu sabia o que era, eu havia perguntado o que o ocasionou!

Yuri ficou em silêncio; a explicação de sua namorada havia feito total sentido.

Will caminhou em direção à porta da cozinha e abriu uma nesga, o suficiente para projetar seu corpo e espreitar o local, com a ajuda de sua lanterna.

- Parece que os ratos fizeram a festa aqui! – disse, ainda fitando o local

- Por quê?

Will abriu a porta de correr inteira. Yuri, Ana e Maria Clara arregalaram os olhos quando fitaram a cozinha. Havia panelas jogadas por todo o chão, de forma desorganizada, como se tivessem caído da pia e mesa, onde no sopé se encontravam.

O quarteto adentrou no local.

- Eu deixei tudo organizado. O que aconteceu aqui? – perguntou Maria Clara, fitando o chão

- Será ratos? – perguntou Yuri

- Não! – respondeu Ana, fitando a pia – Não parece que ratos andaram por aqui!

- Será que há mais pessoas por aqui além da gente?

- Espero que não sejam hostis!

- Ei, gente... – Will era o único do grupo que fitava o exterior do hotel, na sua parte traseira. Visualizava o local pela janela da cozinha, que ficava sobre a pia. O local estava pouco iluminado, por conta da forte chuva e da fraca iluminação noturna.

- O que foi, Will? – perguntou Clarinha, enquanto ela, Ana e Yuri caminhavam em direção ao amigo

- Vocês sabiam que tinha um cemitério atrás deste prédio? – perguntou Will, virando o olhar para seus amigos

Aninha, Clara e Yuri arregalam os olhos, tamanha sua surpresa.

- Como...?! – perguntou Clara

- Olhem! – disse William, saindo de frente da janela. O grupo fitou o local. No terreno dos fundos do prédio havia um cemitério, com um número considerável de lápides. Em volta, várias árvores, que balançavam furiosamente em virtude do forte vento. Contudo, o quarteto, da janela da cozinha, conseguia ver apenas as primeiras lápides, e apenas escutavam o farfalhar dos galhos de grande parte das árvores.

- Meu Deus... – disse Aninha, surpresa

- Por que um cemitério nos fundos deste prédio? – se perguntou Clarinha

William deu de ombros.

- Boa pergun... – o rapaz foi interrompido pelo ribombo de um trovão. Este foi tão intenso que deu um clarão forte o suficiente para iluminar o cemitério inteiro. Nesse exato momento, Will percebeu que havia alguém parado entre as lápides.

- Ei... – gritou, com o olhar fixado no cemitério. Yuri, Ana e Clara viraram o olhar para seu amigo.

- O que aconteceu, Will? – perguntou Yuri

- Vocês viram?

- Oi? – os três não conseguiram entender a pergunta feita por William

- Vocês viram, não viram? – perguntou Will. Parecia desesperado. – Tinha alguém parado entre as lápides.

Yuri, Aninha e Clara viraram o olhar para a janela. Não enxergaram nada.

William começou a andar de forma desorientada pela cozinha, à procura de alguma coisa.

- Não há ninguém lá, Will! – disse Yuri, andando atrás de seu amigo

- Há, Yuri... – respondeu, sem parar de andar – Só que ela está submersa na escuridão!

- O que está pensando em fazer, Will? – perguntou Clarinha

O rapaz não respondeu sua amiga. Lembrou-se de algo e, em seguida, caminhou em direção à janela. Chegando lá, pediu licença a Clara e Ana, e ambas concederam ao pedido. Yuri perguntou:

- O que vai fazer?

- Ir atrás dessa pessoa! Não vou deixá-la sozinha! – Will começa a pular a janela

- Eu vou junto!

- Fique aí, com as garotas! – Will estava na janela quando deu a ordem

- L...Leve pelo menos isso, para não se molhar! – disse Ana, estendendo um plástico

Will pegou o plástico, arrumou no pescoço e, assim, cobriu sua roupa, como uma capa de chuva.

- Obrigado, Aninha! – disse, antes de saltar ao lado de fora do prédio

A parte traseira do prédio tinha os mesmos detalhes de sua parte frontal, a única diferença era a ausência de portas. Árvores cresciam em volta do cemitério, que existia tão logo o prédio acabava.

A chuva caía violentamente sobre o cemitério; o vento devastava as árvores, lançando sobre o chão uma chuva de pétalas e pequenos galhos. O plástico que Ana dera a Will, por ser impermeável, ajudou-o a não molhar a roupa limpa, contudo, tão logo ficou em contato com a chuva, o plástico encharcou-se, passando o frio e a umidade para a roupa do rapaz, esfriando seu corpo. Junto disso, seu rosto e cabelo ficaram encharcados no primeiro segundo sob a chuva.

Will não usava sua lanterna, para não comprometê-la ao ficar exposta debaixo de uma chuva como aquela. Caminhava a passos largos em volta de um par de sepulturas. Aquele assobio constante das arvores, quando se está cercado de sepulturas macabras, tornava o lugar mais sinistro do que o normal.

- Ei – gritava Will, constantemente, enquanto girava em torno de si mesmo à procura da pessoa que vira

Do lado de dentro, Ana, Clara e Yuri estavam fitando a escuridão, com o coração apertado, à espera do retorno de Will. O trio escutava apenas a voz do amigo, quando não era engolida pelo barulho forte dos trovões.

William estava parado onde supostamente viu a pessoa. Girava em torno de si à procura de alguém. Sentia uma aura estranha – que agrilhoa a pessoa, que prende sua respiração com tamanha força, que parece que irá morrer asfixiado; sabia que algo de ruim estava por perto, entretanto, dali não conseguia sair. Precisava encontrar aquela pessoa a todo custo.

- Ande logo, Will! – ouviu Yuri gritar por ele. Os raios estavam aumentando, e um poderia cair em qualquer daquelas árvores a qualquer instante.

Decidiu voltar. Deu as costas para o lugar e partiu. Sentiu claramente uma aura estranha nas suas costas, um eriçar dos pelos da nuca, um frio na espinha... Acelerou os passos, a fim de sair daquela situação o mais rápido possível.

Chegou, a poucos passos, em frente à janela de onde saíra. Rapidamente saltou para dentro, com a ajuda de seus amigos.

- E aí?Achou? – perguntou Yuri

Will meneou negativamente a cabeça. Parecia chateado. Retirava do corpo a encharcada capa de chuva.

- Eu já imaginava! – disse. - Vamos, seque-se, antes que pegue uma pneumonia!

William estava sentado na sua cama, secando sua cabeça com uma toalha. Yuri estava sentado na cama de sua namorada, com a máquina fotográfica em mãos.

- Por que fez isso, Will? – perguntou Yuri

- Tinha alguém ali, Yuri... Eu juro, por tudo que é mais sagrado! – o rapaz parecia consternado com a situação.

- Não se preocupe, Will! Eu acredito em você!

- Olha o que eu e a Aninha fizemos pra nós todos! – disse Clarinha, entrando no quarto junto de Aninha. Cada uma das garotas carregava consigo um par de xícaras. – Chocolate quente! – deu uma pausa – Agradeçam a Aninha, que trouxe chocolate! Ela é uma menina prendada!

Aninha ficou enrubescida com a fala de sua amiga e sorriu sem graça.

Yuri pegou uma xícara com sua namorada, e Will pegou com Aninha. Cada uma das garotas sentou-se lado a lado com um dos garotos. Com ar sério, Clarinha perguntou a seu amigo:

- Então, Will, o que viu no cemitério?

- Nada – respondeu, apenas. Ficou cabisbaixo.

- Tem certeza de que viu al...?

- Já falei que sim! – gritou Will. Levantou-se do local, reclamando do grupo – Que saco!

William saiu do local e bateu a porta.

- O que aconteceu? Será que falei algo de errado? – perguntou Clarinha, olhando para seu namorado e sua amiga

- Deixe-o! – respondeu Yuri. Ele estava fitando a porta, preocupado – Apenas deixe-o!

O grupo dormiu logo em seguida. Will ficou sentado, no último degrau da escada, sozinho, com a lanterna virada para o andar inferior, por muito tempo. Depois que todos foram dormir, sentiu-se cansado e resolveu dormir.

William acordou no meio da madrugada, sobressaltado. Ficou sentado na cama, esfregando os olhos, até sua consciência voltar à sua mente. Quando ficou completamente acordado, não se lembrava do pesadelo que o fizera acordar assustado. Levantou-se. Apesar da escuridão absoluta reinante naquele recinto, conseguia enxergar perfeitamente. Caminhou em direção ao corredor. Percebeu uma luz e vozes vindas do andar inferior. Continuou a caminhar, em direção à escada. Estava andando lentamente, pois estava temeroso com a situação. Quando dormiu, não havia ninguém no recinto além de seus amigos. As vozes não pareciam ser a de seus amigos, e o seu número não batia.

Chegou ao alto da escada e, agachado e escondido, espreitou o andar inferior. O local estava pouco iluminado, com velas bem localizadas, no centro do local, no contorno de um estranho símbolo. Este era uma esfera, com um dragão em seu interior.

Ao redor do símbolo central, diversas pessoas, todos homens, vestidos com um sobretudo preto e portando o símbolo central em suas costas, conversavam no andar inferior. Por incrível que parecesse, o local não era mais um corredor, e sim um enorme saguão. No canto oposto da escada, havia um tablado sob uma imponente cadeira.

- O que está acontecendo aqui? – se perguntou Will. Tentou falar no tom mais baixo possível, para não ser descoberto

Repentinamente, um sino ressoa no ar. William sobressaltou, imaginou que fosse por sua causa.

- Senhores cavaleiros, O Magnífico Offen-Kaiser[2] Dmitri Mendelaev está presente. Recebam-no! – disse alguém entre os presentes. Todos pararam de fazer o que estavam fazendo e viraram sua atenção em direção oposta a da escada

- O que será que está acontecendo? – se perguntou William. Estava entendendo bulhufas

Um senhor, de seus setenta e poucos anos, cabelos laterais e grisalhos, barba e bigode brancos, portando diversos anéis, um colar, um sobretudo preto com fitas das cores dourada e vermelha, uma roupa igualmente preta por debaixo, com o símbolo central no peito, e uma calça de igual cor, adentrou no local. Caminhou sob as vistas de todos em direção à cadeira central e lá se sentou.

- Senhores teilnehmer[3], estamos aqui hoje para uma nova reunião dos Blutrot[4]... – proferia o senhor

- Do que eles estão falando? – perguntou Will

Repentinamente, para surpresa geral, ouve-se o barulho de um tiro. Provinha de algum lugar abaixo do segundo andar, onde William não conseguia ver. Todos sobressaltaram, incluindo o rapaz intruso.

Logo depois do tiro, ouve-se um gemido intenso, como se a pessoa estivesse sofrendo de dor. Junto ao gemido, uma voz, em tom claramente insano, gritava:

- Morre, morre, desgraçado. – o dono da voz bestial parecia rir da situação

- O que está acontecendo? – perguntou o senhor idoso, enquanto se levantava da cadeira. Ouve-se um segundo ribombar de tiro, e o senhor cai sentado na cadeira com tal intensidade que a mesma vira para trás.

Todos os demais participantes daquela festa ficaram desesperados com a situação. Ouve-se um corre-corre generalizado. Pessoas tentando parar o atirador, pessoas tentando auxiliar o senhor caído, pessoas tentando fugir... o corre-corre gera um movimento de ar que acaba por apagar as velas centrais, deixando o local mergulhado na escuridão. Tiros ribombam no ar, pessoas gritam desesperadas, uma voz insana grita para todos morrerem. William assistia estupefato à situação.

Repentinamente, tudo se silenciou. Will se escondeu com mais intensidade, espreitando com apenas um dos olhos. A luz do local se acendeu novamente. O coração do pobre rapaz acelerou com tal intensidade, que parecia sair do peito. Percebeu haver apenas um homem de pé, portando um revólver na mão direita e um punhal sujo de sangue na esquerda. Estava parado, no sopé da escada, cabisbaixo. Atrás dele, William percebeu jazer os corpos dos demais presentes, todos banhados em grande quantidade de sangue.

O rapaz arregala os olhos ao perceber a situação que o saguão daquele prédio se encontrava.

- Eu sei que você está escondido, William Kaihi! Apareça! – disse o insano

Will levanta assustado, em sua cama. Estava mergulhado na escuridão da noite. Sentou-se, levou a mão ao peito para tentar acalmar seu coração afoito e se perguntou, em pensamento:

- Foi tudo... um sonho?

Deitou-se novamente em sua cama, relaxando os músculos do corpo. Pensou em dormir novamente, contudo, sentiu necessidade de ir ao banheiro. Utilizando-se do tato, apanhou sua lanterna e acendeu-a, iluminando fracamente o lugar. Levantou-se da cama e caminhou em direção à saída do quarto. Abriu a porta e saiu. Fechou-a, entretanto, deixou uma nesga da mesma aberta.

Saiu pelo corredor. Ficou aliviado ao perceber não haver nenhuma luz vinda do primeiro andar. Continuou a caminhar pelo corredor. No silêncio total da noite, apenas com o barulho da chuva, em um lugar deserto, o ranger da madeira do piso do segundo andar era angustiante. William tentou caminhar o mais leve possível para não acordar seus amigos, entretanto, sentia necessidade de andar rápido, por medo de estar sozinho em um corredor vazio.

Chegou ao alto da escada do segundo andar, virou rapidamente a lanterna para o andar inferior. Não havia nada. Era, de fato, um corredor, e o mesmo se encontrava completamente vazio. Aliviou-se.

Caminhou em direção ao banheiro e abriu a porta. Entrou no banheiro, deixando a lanterna na pia.

O local era como Aninha lhe havia dito, um lavabo. Tinha uma pia com um espelho perto da porta, e um vaso sanitário do lado oposto. Era extrema-mente pequeno, só cabia uma pessoa por vez no re-cinto.

Will utilizou-se do banheiro e estava lavando as mãos na pia. Escutou passos vindos do lado de fora. Abriu a porta para ver quem era. Não tinha ninguém no corredor. Mirou a lanterna em direção ao corredor. Vazio.

Achou estranha a situação. Voltou a lavar a mão e virou o olhar novamente para o espelho. Naquele momento, sobressaltou-se. O espelho não tinha como reflexo o seu rosto de forma normal, mas sim diferente: seu lado esquerdo estava completamente cadavérico, e sangue escorria de seu olho.

William balançou a cabeça, a fim de acordar completamente. Era coisa de sua mente, supôs.

Olhou novamente para o espelho. Seu reflexo estava normal.

- Esse lugar ainda me mata do coração! – reclamou. Pegou sua lanterna e saiu – É gente que desaparece do nada, reflexo no espelho, pesadelo... foi acabar saindo daqui doido!

William adentrou no corredor principal. Naquele momento, sentiu uma estranha presença. Os pelos de sua nuca se eriçaram, um frio sobrenatural subiu pela espinha e uma tremedeira igualmente sobrenatural.

- O que é isso? – se perguntou. Levou a mão à nuca e ficou a afagando. – Que sensação estranha.

O rapaz começou a sentir um apertar no pescoço. Começou a procurar em todos os lugares com a lanterna, a fim de achar algo diferente. E achou. Para sua surpresa, percebeu uma silhueta no corredor do andar inferior, perto do sopé da escada.

- Quem é você? – perguntou. Mirou a lanterna no rosto da pessoa. Era um homem, com seus vinte e poucos anos, portando um sobretudo. A silhueta parecia incompleta, translúcida, faltando detalhes de mão, pés e rosto, como dedos e a curva do queixo. Will não conseguiu enxergar o rosto da pessoa logo acima do nariz, este estava encoberto pela escuridão, não importasse a incidência de luz da lanterna do rapaz.

Ao fitar a silhueta do estranho, Will lembrou-se ser parecida com a do homem no meio das lápides.

- Você é aquele... do cemitério, não é? – perguntou Will. Estava mais entretido e menos nervoso com o assunto

O homem ficou inerte. William começou a caminhar lentamente em direção à escada, sem tirar o foco do olhar do homem. Seu coração começou a ficar apertado, enquanto sua respiração começou a ficar ofegante. Will se lembrara do pesadelo que tivera, e temeu que aquele fosse o assassino do sonho. Contudo, o rapaz estava fixo de tal forma, que travara seus movimentos. Sua curiosidade para com aquela pessoa era tão grande, que seus movimentos eram mecânicos, o pensamento do rapaz se desvaneceu de seu corpo.

Quando Will colocou o braço esquerdo no corrimão da escada e projetou sua perna para pisar no primeiro degrau, eis que uma voz lhe sobressalta a tal ponto que o rapaz berrou, e seu berro se espalhou por todo o local.

- Will...?! – perguntou a voz; uma voz conhecida.

O coração do rapaz parecia explodir no peito, de tão rápido que batia. Sua respiração sumira por um instante, sufocada pelo susto. William estava tão compenetrado no estranho, que acordá-lo quase lhe rendeu um enfarto.

- Aninha... – disse, com a mão sobre o peito

- Desculpe, Will, n...não quis assustá-lo! – disse Aninha. A garota estava parada, à direita de William. Assustou-se com o grito de seu amigo, e enrubesceu-se ao perceber que o assustara – O que estava fazendo aqui?

- O que aconteceu? – perguntou Yuri. Estava preocupado e assustado, ao lado de sua namorada. Tanto ele quanto Clara corriam pelo corredor em direção aos amigos.

William não conseguia falar. Ofegava escorado no corrimão esquerdo da escada, com a mão sobre seu peito.

- Eu vi Will descendo as escadas, compenetradamente, e o chamei. Não imaginei que fosse assustá-lo. Desculpem! A culpa de terem acordado foi minha! – disse Ana. Ficou envergonhada diante a situação, abaixando a cabeça

- Não tem problema, Aninha. A culpa não foi sua! – disse Yuri, para sua amiga. Virou o foco do olhar para seu amigo. Percebeu-o recuperando-se do susto. – O que aconteceu, Will?

- Tinha... alguém... ali...embaixo... – respondeu. Foi o que conseguiu falar. Apontou a direção com o braço esquerdo.

- De novo essa história, Will? – Yuri estava ficando irritado com a situação

- Você não quer... acreditar em mim, né? – perguntou Will. Estava praticamente recuperado do susto. Desencostou-se do corrimão da escada – Pois eu vou te provar que não estou delirando! – disse, afrontando seu amigo.

Virou-se para a escada.

- Aonde vai, Will? – perguntou Yuri

- Já lhe disse, Yuri. Provar-lhe de que não estou mentindo!

- Volte, Will. – disse Clara – Está tarde. Se realmente tiver alguém aí, você não vai enxergá-lo!

- É... Will. E...Ele pode te atacar! – disse Aninha

- Deixe-o. Ele sabe o que faz! – Yuri estava irritado com a situação

Clara deu nas costelas de seu namorado uma cotovelada. Yuri olhou para sua namorada. Clara fez sinal com a cabeça para seu namorado agir, mas o mesmo fez sinal de que não havia nada do que agir.

Percebendo as ações de Yuri e Maria Clara, Ana vira para William, que já estava no primeiro degrau da escada e diz, segura de si:

- Espere, Will.

Yuri e Clara viraram para Ana e William.

- Se for tentar me impedir... – disse Will

- Eu vou com você! – respondeu Aninha, firme nas suas palavras

Yuri e Maria Clara arregalaram os olhos. Aninha agira primeiro do que eles.

Ana havia dito, com muita coragem, de que iria descer junto de Will, todavia, agora estava arrependida de seus atos.

- Pra quê eu fui falar aquilo? – se perguntou. Estava tremendo, tamanho seu medo. Seu coração estava a mil por hora. Queria apoio, queria sair dali, mas não podia, pois foi ela própria quem se colocou naquela situação. Tinha que demonstrar força, por pior que a situação estivesse.

- Vamos descer também! – cochichou Clarinha, com seu namorado

- Não, não tem necessidade, Clara! – disse Yuri – Não está vendo que é loucura do Will?

- Ele é nosso amigo. Se ele estiver louco, ajudar-lhe-emos a sair de sua loucura! – respondeu. Yuri ficou em silêncio. Clara caminhou até a parede frontal à escada e ali colocou sua lanterna, posicionando-a para frente.

- O que está fazendo?

- Deixando minha lanterna aqui. Assim, se alguma coisa acontecer, teremos um ponto iluminando no segundo andar! – disse Clara, se levantando. Caminhou até seu namorado, segurou seu braço direito e disse, puxando-o: - Vamos!

Yuri e Clara caminharam até o alto da escada. Perceberam Ana e Will caminhando pelo corredor. Estavam de frente para o segundo par de portas. William investigava com sua lanterna qualquer ponto escuro, enquanto Ana mirava sua lanterna para o cor-redor e caminhava como se estivesse em um devaneio, tamanho seu medo.

Clara desceu as escadas junto de seu namorado, perguntando:

- Por que não investigar nos quartos, ao invés de só no corredor?

Will parou. Ficou feliz por perceber que seus amigos, retirando Yuri, acreditavam nele.

- É verdade – disse, animado – Não tinha pensado nisso!

- Eu e Yuri investigaremos os quartos da esquerda. Você e Aninha investigam os quartos da direita! – disse Clara – Pode ser? Assim, andaremos mais rápido!

- Pode ser! – disse Will. Caminhou em direção à primeira porta à direita. Aninha caminhou atrás, enquanto o casal de namorados caminhava na porta frontal.

Aninha fez sinal corporal para Clarinha, demonstrando estar irritada com a ideia de sua amiga. Clarinha disse, movendo apenas os lábios:

- Aproveita!

Aninha meneou negativamente a cabeça em desaprovação, enquanto caminhava em direção à porta que Will adentrou.

- Olhe isso, Aninha... – disse William. Aninha estava tão absorta em seus pensamentos, que tomou um pequeno susto ao ouvir seu nome

- O q...que foi? – perguntou, caminhando em direção de seu amado

- Isso aqui parece um depósito!

- M...Mas não era para ser um banheiro? Tem uma placa na porta dizendo "Banheiro"!

- Parece que outrora aqui realmente fora um banheiro! – disse Will, apontando a lanterna para o chão. Ana segue o foco do olhar e percebe a presença de um vaso sanitário – Bom – disse, para sua amiga – Não tem nada por aqui. Vamos!

Will caminha para sair do lugar. Ana caminha em sua frente. Repentinamente, para surpresa do rapaz, eis que algo surge na frente do seu pé, fazendo-o tropeçar. Ana percebeu que seu amigo tropeçara, contudo, não conseguiu evitar o resultado e Will caiu sobre ela.

O rosto de William estava perto do de Ana o suficiente para que sua respiração passeasse como uma brisa pelas suas bochechas. William fitou o rosto de Ana. Naquele momento, a fala de Yuri dita em sua casa, pouco antes de saírem para Athros, "A Aninha é muito gostosa, e é muito afim de você", veio em sua mente. William ficou admirando as curvas do rosto de Ana, seus olhos azuis, a beleza e suavidade de seu corpo...

- Uau, nunca tinha percebido como ela é linda! – pensou

Ana ficava fitando apenas os olhos de Will. Talvez fosse por causa de seus olhos que Ana se apaixonara por ele. Aqueles olhos enegrecidos, redondos como uma jabuticaba. Ela não conseguia parar de fitá-los, da mesma maneira que Will não conseguia parar de fitá-la.

Yuri e Clara adentraram no quarto de frente para o banheiro. Estavam visivelmente irritados um com o outro, mas não aumentavam a voz para não demonstrar para os demais.

- Você tem ideia do que você está fazendo? Está dando margem ao Will, Clarinha! – reclamou Yuri

- Nós temos que ajudá-lo, Yuri... E se realmente tiver alguém aqui?

- Problema dele... – disse Yuri – Eu quero dormir! Amanhã teremos um longo dia pele frente. Eu quero descansar! Senão, na hora da festa, não vou aguentar nem andar!

- Deixe de pensar só nessa festa, Yuri. Nem sabemos se conseguiremos chegar lá. Ou devo lhe lembrar que o carro que ia nos levar quebrou?

- Tsc... – disse Yuri. Era péssimo em discussões verbais, e sempre perdia, principalmente contra sua namorada.

A dupla investigou, com o olhar apenas, em todos os cantos do quarto, inclusive debaixo da cama, onde baratas saíram ao serem atingidas pela luz da lanterna.

- Pronto, não tem nada por aqui. Vam...? – dizia Yuri. Contudo, para surpresa da dupla, eis que acontece um estrondo, amplificado pelo silêncio do local. Se o estrondo já era problema por si só, imagina ao descobrir que ele vinha exatamente do cômodo de frente, onde Will e Ana se encontravam naquele instante.

- Will! – gritou Yuri

- Aninha! – gritou Clara

Yuri e Clara correram em direção ao cômodo frontal. Ao chegar perto o suficiente para ver o seu interior, se assustaram ao ver Will sobre Ana, no chão, perto da porta. Estavam um encarando o outro, e nem perceberam a presença de seus amigos.

Yuri faz um barulho com a garganta. Will e Ana percebem a presença dos amigos e o rapaz sai de cima da garota em total desespero e em um modo bem desengonçado. Aninha senta-se no chão no mesmo total que William. Ambos estavam enrubescidos iguais a tomates.

- N... Não é i...isso que vocês es...estão pen...pensando! – disse Ana, gaguejando e tremendo, tamanho a vergonha

- É ver...verdade. O..Olhe. Eu tropecei em al...algo! – disse Will. Apontou sua lanterna para o chão. Era uma espécie de pedra o que derrubou o rapaz

- Eu vou fingir que acredito, pra não perdermos a amizade! – brincou Yuri, fingindo estar sério. Caminhou em direção a seus amigos

Tão logo Will se levantou, abaixou-se e pegou a pedra, enquanto dizia:

- Só queria saber o que uma pedra dessas faz jogada no chão de um depósito...

A pedra na mão de William era um formato de um paralelepípedo, todavia, suas quinas eram mal lapidadas.

Ao ver a pedra, o rapaz percebeu algo de diferente.

- Ei, olhem... – disse

Ana, Clara e Yuri viraram o olhar para a pedra na mão de seu amigo.

- O que foi, cara? – perguntou Yuri

- Há uma inscrição na pedra...

- Inscrição?! – perguntou Yuri. Estava surpreso com a afirmação de seu amigo. E não só ele. As garotas estavam igualmente surpresas.

- E o que diz essa inscrição?

- "Quando o Número da Besta em hora aos amaldiçoados chegar

O fim de suas vidas se concretizará

E uma nova ordem no mundo reinará"

Ana, Maria Clara e Yuri não acreditaram nas palavras proferidas por seu amigo. Eram surreais demais.

- Quando o Número da Besta em hora chegar... – repetia Yuri, com alguns erros

- Aos amaldiçoados chegar... – corrigiu Will

- Número da Besta...

- Qual é o número da Besta? – perguntou Maria Clara

- 666! – respondeu Will

- Meia meia meia... – repetiu Clarinha, pensativa

- O Número da Besta em hora chegar... – disse Aninha – Então, será às 6 horas, 6 minutos e 6 segundos que algo vai acontecer. – pausou por alguns segundos, enquanto as informações que dissera era mentalmente guardada por seus amigos - Que horas são? – perguntou para Yuri

Yuri olhou seu relógio, mirando sua lanterna na tela do aparelho, e disse:

- São pouco mais de uma hora da manhã!

- Então, temos pouco mais de cinco horas!

- Nada significa que seja com a gente! – respondeu Will - Quando o Número da Besta aos amaldiçoados chegar... – repetiu – Pode ser que os amaldiçoados sejam os antigos moradores daqui...

- De fato, o que o Will disse tem razão! Talvez estejamos nos preocupando à toa! – disse Yuri – Vamos dormir. Amanhã temos um dia longo! – continuou, bocejando de sono

- Vamos. – disse Will.

O grupo saiu do cômodo. Naquele momento, perceberam vozes conversando, em um tom de voz semelhante ao de um sussurro e em um idioma indecifrável, vindos do saguão do prédio.

- O que... é... isso? – perguntou Ana, tremendo de medo

E não era somente Ana quem estava com medo. Maria Clara se encontrava na mesma situação, entretanto, abraçou seu namorado. Tinha um apoio, para apaziguar seu medo.

Sem responder, Will começou a caminhar em direção ao final do corredor. Andava vagarosamente, passo por passo, ao lado da parede. Projetara sua lanterna para frente.

Ana começou a caminhar ao lado de William, enquanto o casal de namorados caminhava logo atrás.

Will percebeu que sua amiga estava tremendo, e perguntou-lhe:

- Tudo bem?

- Tu...Tudo! – respondeu – S...Só um pouco d...de medo!

Will passou o braço esquerdo pelas costas de sua amiga e repousou sua mão na sua cintura, extinguindo o espaço entre ambos. Ana ficou vermelha e seu coração foi às alturas. Estava abraçada com seu amado.

- Pronto! – respondeu – Assim você não sente mais medo! Eu estou aqui te protegendo!

Maria Clara e Yuri, ao verem a cena, se entreolharam. A princípio, estavam incrédulos. Depois, abriram um sorriso de satisfação. O plano da dupla estava começando a dar certo.

De repente, para surpresa de Maria Clara e Yuri, ambos percebem uma variação na lanterna posta no andar superior. Algo havia passado em frente, modificando sua projeção no piso do primeiro andar. Ambos olharam para trás. Não havia nada em frente à lanterna. Novamente, se entreolharam. Não sabiam o porquê de aquilo ter ocorrido. Deram de ombro. Continuaram a caminhar.

Nenhum dos quatro havia percebido, mas, quando houve a projeção da lanterna no primeiro andar apareceu o escrito "666" feito a sangue no centro de um círculo com um dragão dentro.

Will estava tão preocupado com as vozes vindas do saguão, que mal havia percebido a mudança na projeção da luz. Continuou a caminhar, passo por passo, de forma lenta. Era o mais preocupado, por conta do pesadelo que tivera. E se aquilo fora verdade? E se o maníaco do pesadelo estiver à solta? Ele sabia seu nome. Chamou-o pelo nome completo, o maníaco o conhecia. Quem era ele? O rapaz estava absorto em seus pensamentos, se flagelando com tantas perguntas.

- Tudo bem? – perguntou Ana, ao perceber que seu amado estava preocupado

- Tudo! – respondeu. Estava demasiadamente tenso – Só estou com um pouco de medo!

Continuaram a caminhar. Chegaram ao final do corredor. Encostaram-se à parede. Faltava pouco menos de meio metro para o final do corredor. As vozes permaneciam, estranhamente, no mesmo tom.

- Eu vou na frente! – disse Will. Se desvencilhou de Ana, a seu contragosto, e partiu.

Caminhou, lentamente, passo por passo. Naquele instante, todos estavam uma pilha de nervos. Estava demorando uma eternidade. Parecia que Will nunca fosse chegar ao seu destino. Mas ele chegou. E, naquele momento, sobressaltando a todos, o rapaz berrou de susto.

William ficou parado de frente para o saguão. Yuri, Clara e Ana correram o mais rápido que puderam. Reagiram desesperados à ação de Will.

- O que aconteceu, Will? Will? – gritaram o trio, preocupadíssimos

Quando o trio chegou perto do rapaz, este virou, rindo.

- Brincadeira, gente! – disse, com um sorriso no rosto

Yuri, Maria Clara e Ana irritam-se com a ação de seu amigo.

- Palhaço! – disse Yuri, com o semblante fechado, passando com Clarinha por seu amigo, até ficar um ou dois passos à sua frente

- Foi engraçado, gente, a reação de vocês! – brincou o rapaz, ainda rindo

- Brincando numa coisa séria dessas... – reclamou Maria Clara

- Que estranho... – disse Yuri, fitando o saguão – Não me lembro de o saguão estar desarrumado dessa maneira!

- Eu percebi a mesma coisa! – disse Will, caminhando logo à frente de Aninha em direção ao restante de seus amigos

- E o som estranho parou... – disse Ana. Com aquela situação acontecendo, se tornava mais segura ao falar com William

- É, Will... talvez você realmente tenha razão. Há mais pessoas por aqui além da gente! – disse Yuri, ainda fitando o saguão

- Eu não falei? Eu te disse, Yuri... – disse Will

- Eu só espero que estejam vivas! – disse. Seus amigos lhe fitaram, estranhando sua frase.

O saguão estava completamente desarrumado. O sofá onde outrora William, Maria Clara e Ana se sentaram, quando haviam acabado de chegar, estava virado de ponta-cabeça. A papelada empilhada sobre o balcão jazia esparramada pelo chão. Os quadros da parede estavam tortos.

- Parece que um tufão passou por aqui! – disse Yuri. Caminhava junto de seus amigos, adentrando no local

Naquele instante, enquanto estava perto da entrada do saguão, Maria Clara, a única que não investigava com a lanterna o lugar, percebeu uma segunda mudança na projeção de luz no corredor. Naquele instante, percebeu o desenho. Era a silhueta da Morte!

Sentiu sua espinha tremer da base até o cume. Pensou em contar para Yuri, todavia, com a volta da projeção original, não tinha provas para argumentar a seu favor, e só iria colocar mais lenha naquela fogueira superaquecida.

Yuri investigava as paredes, enquanto Aninha e William, lado a lado novamente, investigavam o chão.

- Ei, pessoal... – disse Yuri. Estava frente a frente a um dos diversos quadros que povoavam as paredes do saguão, junto de Clara. – Vocês já tinham percebido os quadros deste local?

- Sei que tinha quadros, mas não parei para vê-los, por quê? – perguntou William, ainda investigando o chão

- Alguém saberia me dizer se já viu esse símbolo antes?

William se surpreende ao ouvir a pergunta de Yuri. Largou o chão e Aninha e partiu em direção aos quadros, em total desespero. Sem falar uma palavra, Will projetou sua lanterna na parede e fitou um dos quadros. Era um senhor, de seus setenta e poucos anos, com um desenho de um dragão dentro de um círculo no peito e um sobretudo preto com fitas dourada e vermelha, cabelos, barca e bigode grisalhos e portando diversos anéis e um colar. No centro, logo abaixo do senhor, estava escrito "Offen-Kaiser". Era uma foto, em preto e branco, oval, datada por volta dos meados do século XIX.

- Deus... – disse, estupefato

- Você conhece esse símbolo, Will? – perguntou Yuri. Estava surpreso com a reação de seu amigo

- Não... pode... ser! – disse

- Will, não estou entendendo. Explique!

Will respirou fundo. Ficou cabisbaixo. Pensou se o certo era contar a seus amigos. Percebeu que era.

- Foi um pesadelo que tive enquanto estávamos dormindo. – pausou por alguns segundos – Tinha uma reunião no saguão do hotel, com esse símbolo no centro, cercado por velas, todos vestindo um sobretudo com esse símbolo nas costas, e esse senhor era um tal de ofenraiser...

- Offen-kaiser! – corrigiu Yuri. – Segundo o que está escrito abaixo da foto, é Offen-kaiser!

- Então, aí aparece um maluco e mata todo mundo. Em seguida, acordei! – Will escondeu a parte de que o insano citou seu nome completo

- Que... história... estranha! – disse Maria Clara, perplexa

- Bom, vamos ver o que achamos acerca desse tal Offen-kaiser! – disse Yuri. Ao contrário de sua namorada e de Aninha, estava frio diante a situação

Yuri começou a investigar os papéis jogados no chão, junto de Maria Clara e Ana. William estava preso às fotografias da parede. Passou a observar foto por foto, e percebeu que todos os demais, fotografados ou pintados, como nos retratos mais antigos, possuíam as mesmas vestes do senhor do primeiro quadro. Além disso, o escrito "Offen-kaiser" perseguia todos os retratos.

- Venha nos ajudar a procurar, Will! – disse Yuri, procurando com suas amigas entre as papeladas

- Já vou indo! – disse. Estava parado frontal-mente a um dos diversos quadros que preenchia a parede. A luz da lanterna de Will iluminava não somente o quadro, mas suas adjacências também.

- Anda logo! - disse Yuri, irritado – Pare de ficar olhando esses quadros. Não há nada demais aí!

- "Aquele cuja sombra aqui repousar, sua alma será agrilhoada pela roda macabra do destino" – profetizou William, absorto

Aninha, Clara e Yuri pararam imediatamente de fazer o que estavam fazendo e viraram o foco do olhar para seu amigo. Ele estava parado, inerte, frontalmente a um dos quadros que preenchia a parede

Temeroso com a ação de seu amigo, Yuri levantou-se. Caminhou hesitante em direção a Will.

- O que foi isso, Will? – perguntou, ainda no caminho

- Está escrito aqui. – disse. Estendeu a mão direita e encostou o dedo indicador na parede, logo ao lado do quadro que fitava – Veja!

Yuri caminhou até ficar ao lado de seu amigo e leu o escrito na parede onde Will estava apontando.

- "Aquele cuja sombra aqui repousar, sua alma será agrilhoada pela roda macabra do destino" – repetiu

- S...Será uma profecia? – perguntou Ana, se levantando junto de sua amiga. Estava temerosa. Odiava assuntos sobrenaturais.

Yuri deu de ombros. Pensativo, disse:

- Aquele cuja sombra aqui repousar... – repetiu – Com certeza, deve ser quem aqui morrer!

- Como aqueles que estão enterrados logo ali atrás... – disse William – Pelo menos, é a probabilidade maior!

Aninha sentiu um arrepio subir pela espinha.

- Parece que já tem muita gente agrilhoada pela tal roda do destino! – brincou Yuri

Ninguém havia percebido, mas Maria Clara saíra em direção a outros retratos. Fitava um por um, e, perto do sofá onde outrora sentara, parou e disse:

- Olhem, pessoal. Tem mais!

Will, Ana e Yuri caminharam a passos largos em direção a Clarinha.

- O que descobriu, amor? – perguntou Yuri

- "O número do impronunciável jamais poderá chegar àquele cuja alma é prometida, senão ruirá as estruturais universais da morte e da vida"

- Isso só está piorando... – disse Will, sério

- O número do impronunciável... – repetia Yuri. Maria Clara o cortou.

- O Número da Besta!

Ana, Yuri e Will viraram o olhar para sua amiga.

- Possivelmente, esse "O número do impronunciável" se refira ao Número da Besta. O nome da Besta é o nome impronunciável, e tanto esse texto quanto aquele escrito na pedra se referem a um número! Só pode ser o Número da Besta!

- Faz total sentido! – disse Will

- Então, o Número da Besta nunca poderá chegar àquele cuja alma é prometida...

- "Quando o Número da Besta em hora aos amaldiçoados chegar/ O fim de suas vidas se concretizará". Basicamente, um se refere diretamente ao outro! – disse Maria Clara

- "Senão ruirá as estruturas universais da morte e da vida" – finalizou Yuri

- Será que quem está vivo morrerá, e os mortos ressuscitarão? – perguntou Will

- "E uma nova ordem no mundo reinará" – finalizou Maria Clara o texto na pedra que derrubara seu amigo – Possivelmente, sua hipótese faça sentido!

- M...Mas i...isso é um absurdo! – disse Ana.

- Acalme-se, Aninha – disse Will – Ter profecias nem sempre significam que elas se concretizarão. Um grupo de pessoas apenas pode acreditar, como deva ser este caso...

Ana se acalmou.

- Bom, vamos aonde agora? – perguntou Will

- Sair daqui sempre é uma boa pedida! – respondeu Aninha, direta. Ainda estava nervosa com toda a situação.

- De fato... – disse Yuri

- O problema é que ainda é de madrugada. Por mais que queiramos sair daqui, precisamos... – um barulho ecoa pelo corredor, assustando a todos – Que barulho foi esse?

William projetou sua lanterna em direção ao corredor. Completamente vazio. Houve-se o barulho do ranger de uma madeira podre. Era constante.

Will caminhou lentamente em direção ao cor-redor. Ana iria falar algo para seu amado, contudo, com sua mão esquerda, o rapaz pediu para ela esperar.

Fez sinal para que Yuri viesse junto dele. O rapaz partiu, deixando sua lanterna com sua namorada. Caminharam os dois vagarosamente pelo cor-redor. Queriam diminuir ao máximo o barulho gerado pelo andar no frágil piso, assim seria mais fácil de localizar o outro barulho de ranger. Descobriram vir da primeira porta do corredor. Caminharam em sua direção. Ana e Maria Clara fitavam a ação da dupla, paradas no final do corredor. Tinham receio da situação.

Will e Yuri se separam, e cada um parou de um lado da porta. Do outro lado, o ranger constante.

Will fez sinal para Yuri de que iria contar até três, e assim fez. Quando chegou no três, os dois viraram em direção à porta e Will abriu-a, apontando a lanterna em sua direção.

Quando o rapaz abriu a porta, os dois se surpreendem. Um guardarroupa estava escorado na porta, e cai no chão. Yuri e Will conseguem desviar. O estrondo do objeto caindo no chão, ampliado pelo silêncio do local, é ensurdecedor.

Todos se assustaram com o ocorrido.

- O que foi isso? – perguntou Will. Recuperava-se do susto

- Já não abrimos esse quarto antes? – perguntou Maria Clara, pensativa

- Sim, e não tinha nada escorado na porta da primeira vez! – disse Yuri

- Realmente, tudo aqui está estranho! – disse Will

Repentinamente, para surpresa geral, há um piscar da luz das lanternas empunhadas pelo grupo.

- Acho melhor partirmos! – disse Will – Antes que essas lanternas falhem!

Os demais assentiram com a cabeça. Will ajuda Yuri a passar pelo guardarroupa caído, e os dois ajudam as garotas.

- Vamos! – disse Will. O grupo partiu em direção à escada que dava ao andar superior.

Começaram a andar. No meio do caminho, todavia, a luz das lanternas empunhadas pelos ami-gos apaga, deixando o grupo na escuridão. A única luminosidade era a lanterna de Clara, deixada no andar superior.

- Malditas pilhas de camelô... – reclamou Yuri – Fui comprar pilhas baratas, deu nisso...

- Pare de reclamar, Yuri... Reclamar não nos tirará dessa situação! – disse Will, levemente irritado. Mais calmo, continuou: - E não estamos tão ruins. Não estamos mergulhados na escuridão absoluta. Há a luz da lanterna da Clarinha, ela está nos iluminando, mesmo que fracamente. É só nos guiarmos!

- Ainda bem que eu tive essa ideia. Parecia até que eu estava adivinhando! – disse Clarinha

O grupo começou a andar calmamente em direção à escada. Maria Clara apoiou-se em seu namorado. Will não via Aninha no meio do grupo, a garota deveria estar encoberta na escuridão. Todavia, sentiu uma mão em seu ombro. Pensou ser ela.

- Aninha? – perguntou. Ficou meio ressentido ao perguntar, meio envergonhado, mas acabou perguntando.

- Fala! – disse. Entretanto, para surpresa de Will, a voz de sua amiga provinha da escuridão à direita de Yuri

- Espera um pouco. – disse – Se não é você quem está com a mão no meu ombro, quem é então?

Will virou calmamente com a cabeça em dire-ção a seu ombro esquerdo, onde a mão sem dono re-pousava. Percebeu ser uma mão translúcida, incrível-mente branca.

Ao encarar a mão, Will nem quis fitar o rosto de seu dono. Correu como um louco, gritando desesperado. Yuri, Ana e Maria Clara sobressaltaram com a reação de seu amigo.

- O que aconteceu, Will? Will? – gritou Yuri.

William chegou ao andar superior e ficou lado a lado com a lanterna.

O trio corre até o segundo nadar, chegando ao lado de Will.

- O que aconteceu, Will? – perguntou Yuri. Estava incrivelmente preocupado, situação semelhante à das garotas

- Tinha... uma... mão... – William arfava. Segurava a respiração para tentar balbuciar com menos ferocidade -... no... – uma respirada longa e profunda -... meu ombro, e não era de... nenhum... de vocês!

- Uma mão?! – perguntou Yuri, surpreso. – Que estranho!

- E bota estranho nisso! – disse Maria Clara. Estava pensativa.

- S...Será que não seria aquele q...que o Will vê constantemente?! – perguntou Ana, ao se lembrar de algo

- Pode ser... o que você chegou a ver da pessoa, Will? – perguntou Yuri

- Uma mão branca, incrivelmente gelada, com unhas pútridas e a pele translúcida, parecia ser a de um fantasma tamanha a claridade de sua cor... – narrou Will, em tom de mistério. Parecia divagando em seus pensamentos.

A forma de narração de Will gelou a espinha de Clarinha e de Ana. Naquele instante, ouve-se um gemido vindo do andar inferior. Tornou-se contínuo durante cerca de dez segundos e o quarteto percebeu-se claramente dizer: "Venha, venha..."

O medo provindo daquele efeito sobrenatural fez com que o quarteto nem titubeasse. Will pegou a lanterna e correu em direção a seu quarto, tendo, logo atrás, seus amigos. Ao entrar no quarto, Yuri, o último a adentrar nos aposentos, fechou e trancou a porta a chave, e correram até a cama de Yuri e Clarinha. Sentaram-se nela violentamente, apoiaram as costas na parede, dobraram os joelhos e encostaram-no no queixo, ficando o quarteto naquela posição, esperando alguma atividade sobrenatural provinda do andar inferior. A lanterna sobrevivente apontava seu feixe de luz em direção à parede, assim, ela não denunciaria com tanta clareza a posição de seus donos.

Contudo, apesar da precaução exacerbada do grupo, causada pelo medo, não houve nenhuma atividade no corredor. Estava completamente vazio, sem nenhuma presença maléfica ou coisas semelhantes. Will se levantou, logo à frente de Yuri.

- O que faremos agora? – perguntou Aninha, enquanto descia da cama

Will deu de ombro. Não sabia o que fazer.

Yuri olhou seu relógio.

- Quantas horas?

- Pouco mais de três horas!

- Hum... – Will ficou pensativo por um ou dois segundos - Precisamos descobrir algo sobre esse prédio! Talvez assim possamos entender esses fenômenos estranhos!

- Gostava de quando era tão somente fantasmas em foto! – reclama Yuri, enquanto procurava em sua mochila por algo

- Fantasmas na foto... – disse Will, se lembrando de algo – É claro!

- Aconteceu algo, Will? – Yuri ficou surpreso com a reação do amigo

- Dê-me sua máquina fotográfica! - Will estendeu a mão para seu amigo

- Não está comigo. Está na cabeceira da cama! – disse Yuri, voltando a fitar sua mochila

Retirou de lá seu notebook.

- Um notebook?! – perguntou Maria Clara, surpresa - Pra que quer um notebook numa hora dessas?

- Quero procurar algo acerca deste prédio!

- E será que a internet pegará nesse lugar inóspito debaixo de chuva? – perguntou Aninha

- Espero que sim! – Yuri ligava seu aparelho

- E procurará com base em qual palavra? – perguntou Maria Clara

- Offen-Kaiser! – respondeu Yuri. Clarinha arqueou a sobrancelha

Enquanto Clarinha e Yuri conversavam, Will caminhou em direção à cabeceira da cama. Pegou a máquina de seu amigo e a ligou. Em seguida, fitou as fotos.

Tão logo seus amigos cessaram a conversa,

William disse, levemente surpreso, mas igualmente satisfeito ao saber que sua hipótese era verídica:

- Foi o que eu imaginei!

- Está falando sobre o quê, Will? – perguntou Yuri. Clarinha e Ana caminharam até ficaram ao lado de seu amigo

- Nas fotos que tiramos antes de adentrarmos

nesse prédio... lembra que você disse que havia uma cabeça a mais, Yuri?

- Claro, e como não lembraria? – Yuri estava focado na tela de seu computador

- Nem sabia que desse fato! – disse Clarinha

- E o que tem ela? – perguntou Aninha

- Pela silhueta, ela é perfeitamente igual à pessoa que eu vi no cemitério e no corredor do primeiro andar! – disse Will – Eu não a enxerguei, mas o formato é muito parecido!

Clara e Aninha ficam surpresas com a fala de seu amigo. Yuri apenas ergueu as sobrancelhas.

- Ouvem isso! – disse, focado no notebook – "Assassinato do Offen-Kaiser Dmitri Mendelaev e demais membros dos Blutrot na sede do grupo"

- Dmitri... – repetiu William, enquanto adentrava em seus próprios devaneios. Divagou, tendo um flashback do seu pesadelo. "Senhores cavaleiros, O Magnífico Offen-Kaiser Dmitri Mendelaev está presente. Recebam-no!"

Yuri, Maria Clara e Ana nem perceberam a divagação de Will. O rapaz continuou a ler a matéria, onde outrora lera o título:

"19 de agosto de 1879

A polícia de Athros está tentando investigar o que ocorreu no prédio sede do grupo Blutrot. No raiar deste dia, a empregada doméstica da sede adentrou no local para sua rotineira faxina, às 7 da manhã. Entretanto, percebeu que a porta que dava ao espaço do culto, localizada na cozinha do prédio, estava aberta, situação esta que não ocorria normalmente. Ao chegar ao local, a empregada percebeu a ocorrência de uma verdadeira carnificina: no local jazia os corpos de todos os membros do grupo, inclusive do "Offen-kaiser" Dmitri Mendelaev, 79. Dmitri foi considerado o mais fantástico Offen-Kaiser do grupo, desde sua fundação [...]. A empregada, ao reconhecer os corpos, sentiu a falta do corpo de Andrei Kazigarov, 43, que, neste momento, passa a ser o principal suspeito do cruel assassinato na sede dos Blutrot. Sua ordem de prisão deve ser expedida pelo juiz o mais célere possível."

- Então, o sonho que eu tive foi real! – disse William, pensativo

- Ao que tudo indica... – disse Clarinha

- E não é só isso o que eu achei, não! – disse Yuri – Escuta esse texto, agora de um historiador, datado de 8 de outubro de 1953:

"A MALDIÇÃO DOS BLUTROT

Visitei o antigo vilarejo de Ampütchen, agora uma cidade-fantasma, que se tornou assim após o cruel crime na sede do grupo Blutrot, em 19 de agosto de 1879.

Cheguei ao prédio, que outrora fora um museu dedicado ao grupo, e adentrei no local. Pernoitei por lá, no lugar outrora destinado ao repouso dos teilnehmer[5]. Contudo, durante a ausência da luz solar, eis que aconteceram os mais estranhos fenômenos ocorridos em toda a minha vida: panelas caindo, pessoas vagando pelo local, sussurros e gemidos, passos no corredor, e por aí vai. Resolvi tirar foto de alguns dos fenômenos estranhos que ocorreram Durante minha estada no antigo vilarejo pertencente a Athros.[...]"

- Aqui estão várias fotos. – disse Yuri. Maria Clara, Ana e Will caminharam a passos largos e postaram-se atrás de Yuri, espreitando a pequena tela do notebook.

Eram diversas fotos, todas em preto-e-branco, relativamente antigas. Eram panelas jogadas no chão, vultos com silhuetas humanas pelo corredor, uma pessoa de sobretudo preto à frente de uma porta, e por aí vai.

"Eu investigava o local...", continuou a ler Yuri "...mesmo sob o constante bombardear dos fenômenos sobrenaturais; aquela era minha missão em Ampütchen. Descobri o que estava procurando, algo sobre a MALDIÇÃO DOS BLUTROT. Segundo consta nas lendas, esse grupo se reuniu a fim de defender os interesses humanos na Terra, e não mais servir aos deuses. Entretanto, ao descobrir a traição sofrida por sua cria, o Deus que criou os humanos, rogou-lhes uma maldição: seriam caçados pelos humanos, até o fim da humanidade, e o grupo seria extinto ao sofrerem uma enorme traição. Quando morressem, vagariam pela Terra à procura de almas humanas, para barganhar. Dariam suas almas e, no Número da Besta, ser este adorado pelos humanos, segundo deturpação do Deus, seriam ressuscitados. E depois de ressuscitados, viveriam o restante de suas vidas como seres normais, adoradores dos verdadeiros deuses. Esta era a sina do grupo. E foram cravadas as maldições na sede do grupo, assim, sempre lembrariam de sua sina..."

Will, Clarinha e Ana ficaram estarrecidos com o lido.

- Maldição dos Deuses, Número da Besta...

tudo meio fantasioso... – disse Ana. Estava visivelmente com medo

- Não tem do que temer, Aninha – Will percebera o medo correndo pelas veias de sua amiga – Todo povo tem sua cultura, a deste é essa. Por mais sobrenatural que sejam os fenômenos, ocorridos pelos "fantasmas" dos integrantes desse grupo, todo povo tem, em sua cultura, uma parte sobrenatural, normalmente junto aos seus deuses.

- Por mais que diga isso, Will – disse Yuri. Estava focado na tela do computador. Chamou para si a atenção de seus amigos – Aqui na internet há vários relatos de casos de poltergeist[6] ocorridos neste prédio, inclusive há um vídeo que parece ser bem medonho!

- Eu tentando ajudar a Aninha, que está morrendo de medo, e você só me quebrando, Yuri...

- Não adianta tirá-la da realidade, Will – disse Yuri. Estava visivelmente irritado – Ela não mais é uma criança.

- Mas não é deixando-a com medo que você a estará ajudando a enfrentar os desafios que provavelmente ela enfrentará!

Ana estava ficando enrubescida com a discussão de seus amigos por sua causa. Clarinha percebeu a reação de sua amiga, e gritou:

- Calem-se os dois! Agora não é hora para discussão!

Will e Yuri se silenciaram, mas trocaram olhares furiosos. O geek virou o olhar para o computador e disse:

- O vídeo que eu falei terminou de carregar. Se alguém quiser ver...

Will, Clara e Ana, esta última com receio, posicionaram-se para assistirem ao vídeo.

O vídeo era escuro e em preto-e-branco. Era antigo, datado de 1952, e dizia ser o primeiro vídeo que capturou o poltergeist no prédio sede dos Blutrot.

Filmavam o primeiro andar do prédio. O cinegrafista caminhava em direção à cozinha, vindo da porta principal. Caminhava a passos curtos e, apesar de focalizar a porta de correr da cozinha, girava a câmera a fim de capturar possíveis efeitos sobrenaturais ocorridos em outros pontos do local.

O som do vídeo era péssimo, havia praticamente apenas chiado, e não se compreendia com clareza o que o cinegrafista dizia.

O cinegrafista adentrou na cozinha, virou à esquerda, abriu uma pequena porta escondida na parede e desceu. A luz da câmera hesitou por um instante, mas logo voltou ao estado normal. Desceu uma escadaria úmida e escorregadia. As paredes eram tomadas pelo lodo e por teias de aranha, situação semelhante ao do chão. Segurando-se para não cair, o cinegrafista descia de forma lenta.

- Estamos chegando perto do cenário do poltergeist narrado por turistas em 1925. Desde então, este lugar se encontra fechado para visitas! – disse o cinegrafista. O chiado tornou-se menos insuportável desde que o homem adentrara naquele local, e podia-se entender o que ele dizia.

Chegou ao meio da escada, quando a mesma vira para a esquerda. No final da escada, um enorme espaço aberto. Era o lugar do culto, da mesma forma que Will vira em seu sonho. Velas estavam acesas no meio, apesar da impossibilidade física.

O cinegrafista continuou a descer o local.

- Que a vela eterna da vida sobressaia à escuridão da morte! – disse. Parecia divagar.

Continuou a caminhar. Começaram a ouvir barulhos de tambor ressoando no local. Apesar do espaço aberto, não houve ampliação do estranho som.

Apesar de o cinegrafista descer as escadas, o mesmo parecia continuar no mesmo patamar; fato este desconsiderado pelo quarteto que assistia ao vídeo.

- Que rufem os tambores, e que a alma dos amaldiçoados seja a fonte que destrua as estruturas universais que separam os vivos dos mortos!

- O que esse homem está falando? – perguntou Will

Yuri deu de ombros. Os rapazes estavam estupefatos com o vídeo; Clarinha e, principalmente, Aninha tremiam de medo.

- Ei... – disse Yuri. Chamou a atenção de Will para si.

- O que foi? – perguntou William. Ao perceber que o foco do olhar de seu amigo era o vídeo, voltou a olhar para a tela do notebook

- O cinegrafista... – disse – Ele não está... flutuando?

Will surpreendeu-se com a pergunta de Yuri. Fitou o vídeo. Constatou que, de fato, o cinegrafista flutuava no ar.

Naquele instante, a câmera cai das mãos do cinegrafista. Caiu no chão e virou seu foco para o ar, continuando a gravar. O homem estava literalmente flutuando no ar, com os braços abertos. Os tambores rufavam com maior intensidade. Junto aos rufos, frases ditas constantemente, sem intervalo, como em um rito ou coisa análoga. Estava indecifrável; parecia ser em um idioma não conhecido dos ouvintes. Em volta do cinegrafista, flutuavam as mobílias.

Ninguém acreditava no que via. Contudo, o mais inacreditável ainda estaria por vir. Ao chegar ao ponto cerne do símbolo do Blutrot, houve-se, de uma voz desconhecida, a seguinte frase:

- Que seu sangue seja o líquido de Deus, que suas vísceras sejam a Sua carne, e que estes sejam o caminho e a verdade para que se rompam os ditos eternos da Terra...

O mais inacreditável não fora a frase proferida, mas os acontecimentos subsequentes. O abdômen do cinegrafista fora aberto sem nada lho cortar, vertendo grandes quantidades de sangue. Este escorreu até chegar ao chão e a tomar as curvas do desenho. Quando o mesmo se completou com o sangue do homem, houve um brilho, e as vísceras do cinegrafista começaram a sair lentamente de seu corpo. Maria Clara e Ana tamparam o rosto, Yuri e Will fizeram cara de nojo e viraram o rosto, com a mão sob o nariz.

O notebook começou a tremer, em sintonia com o rufo dos tambores, que aumentaram drasticamente. Junto a este, os gritos do cinegrafista, que era eviscerado vivo. Os gritos se tornavam insuportáveis, enquanto o notebook tremia intensamente. As garotas tampavam o ouvido e gritavam, como se os gritos vindos do vídeo as quisessem destruir por dentro.

- Desliga essa merda, Yuri! – gritou Will

Yuri tentava desligar, mas não conseguia.

- Não consigo! – gritou. Estava completamente desesperado, situação semelhante a William

- Desliga, Yuri!

- Não consigo!

Os gritos das garotas se tornavam cada vez mais insuportáveis.

- Desliga!

- Não dá! – Yuri tentava desligar o computa-dor, mas não conseguia

Num ato completo de desespero, Will destruiu o computador de Yuri com um pedaço de pau que estava jogado no canto do quarto. Naquele instante, tudo voltou ao normal.

- Desculpe! – disse Will. Todos ofegavam, com a mão no joelho e as costas dobradas.

- Não se preocupe... – disse Yuri

O quarteto começou a recuperar o fôlego.

- Parecia... que... o fantasma... queria... nos possuir... pelo vídeo! – disse Will. Ainda estava tentando entender perfeitamente os acontecimentos

Yuri e Maria Clara estavam sentados em suas camas, lado a lado. De frente, Ana e Will, na mesma situação. Aninha pediu para deitar no colo de seu amigo, estava cansada demais com toda aquela situação.

- O que... vamos... fazer... agora? – perguntou Maria Clara. Ainda tremia com medo daquele vídeo assustador.

Yuri deu de ombros.

- Alguma ideia, Will? – perguntou, para Will

- Só tem uma coisa que possamos fazer... – disse

- E isso seria exatamente o quê?

- Irmos aonde tudo ocorreu! Lá poderá estar respostas para essa confusão toda!

- E..Eu ia dar a ideia de sairmos daqui! – disse Aninha – Depois do que vi no vídeo, não quero ir aonde eu posso ser eviscerada viva!

- Assino embaixo! – disse Clarinha

- E para onde iremos debaixo da chuva e a pé, às quatro da manhã? – perguntou Will

Clara e Ana emudeceram-se. Por um instante, o silêncio reinou absoluto no recinto.

- É... – disse Yuri. Respirou fundo – Parece que não temos outra escolha. – parou um instante. Virou o foco do olhar para seu amigo – A responsabilidade está em suas mãos, Will!

Will abriu a porta. Carregava consigo a lanterna. Junto dele, caminhava Aninha, abraçada em seu amigo. Logo atrás, Maria Clara e Yuri. As garotas, principalmente Ana, tremiam de medo. Temiam sair novamente na escuridão da noite pelo prédio abandonado.

Caminharam a passos vagarosos pelo corre-dor. Como temiam qualquer manifestação sobrenatural, Will procurava por todos os lugares a fim de se certificar de que tudo estava nos conformes.

O ranger da madeira podre reinava absoluto e seu eco se transformava em algo assustador.

Caminharam, caminharam, caminharam... o corredor parecia eterno. Rezavam para chegar o mais cedo possível ao local, mas caminhavam para que o local nunca chegasse. Mas chegou. Desceram as escadas focalizando a lanterna no primeiro andar. Estava completamente vazio.

Chegaram ao corredor do primeiro andar e viraram o corpo em direção à cozinha. Tinham absoluta certeza de que o corredor estava vazio, entretanto, ao dar as costas ao mesmo, sentiam um frio sobrenatural percorrer pelas espinhas, o coração disparava, aflito, a respiração ofegava. Sentiam como se o tempo congelasse, pareciam paralisados, agrilhoados àquele fenômeno causado pelo medo, o medo de passarem novamente por essa desagradável situação ocorrida no mesmo local, ou por virem a passar por situação análoga à do vídeo.

Will abriu a porta de correr da cozinha. O quarteto adentrou rapidamente no recinto e fecharam a porta.

- Sabe onde fica a passagem secreta? – perguntou Yuri

Will meneou positivamente a cabeça. Começou a procurar na parede, no exato ponto onde o cinegrafista abrira no vídeo. Sentia o coração bater violentamente no interior do corpo, sentia o corpo tremendo violentamente da mesma forma que o coração. E se ocorresse com eles o mesmo que aconteceu com o cinegrafista, no vídeo? Todavia, veio à sua mente uma resposta mais racional, mais esperançosa. Se o cinegrafista morrera eviscerado neste lugar, e ele ficou fechado desde o fato, quem recuperou a fita gravada e colocou-o na internet? E, ao que tudo indica, houve outros casos de poltergeist, como possivelmente visto pelo historiador um ano depois, e outros, uma vez que o vídeo chamava-se "Vídeo do Primeiro Poltergeist no Prédio Sede do Blutrot". Se o vídeo assim se chamava, era porque outros poltergeist aconteceram ulteriormente. Entretanto, o medo do sobrenatural tomava conta de seu corpo.

Will abriu a passagem secreta. Adentrou primeiro, seguido de Aninha. Em seguida, entraram Yuri e sua namorada.

O lugar estava estranhamente limpo, sem teias de aranha tomando o lugar, sem lodo tomando as paredes e chão, por mais úmidas que as primeiras estivessem.

Nas paredes, havia diversos quadros, todos retratando pessoas vestidas extremamente iguais – com os trajes característicos dos teilnehmer.

Will passou vislumbrando o lugar, enquanto o grupo descia as longas escadas que davam ao subsolo.

Visualizando um dos diversos quadros representativos, sobressaltou-se ao perceber de este representava justamente o algoz dos Blutrot.

- Andrei Kazigarov! – Will leu os escritos sob o quadro

- É o nome do desaparecido e suspeito número 1 do assassinato do grupo. – disse Yuri

- E é o mesmo homem que aparece em meu pesadelo... – disse Will – E que disse meu nome... – continuou, em seus pensamentos. Ainda se perguntava quem era aquele homem e por que ele sabia seu nome.

Yuri faz sinal para que o grupo continuasse a caminhada. Partiram. Pouco depois, chegaram à curva da escada. Naquele instante, conseguiram visualizar todo o subsolo. Era um imenso espaço aberto, sem nenhuma parede central. Estava completamente mobiliado. No centro, um símbolo, idêntico ao do pesadelo de Will, com velas acesas em seu contorno. Logo atrás do símbolo, uma imensa cadeira, diferente das demais presentes.

- Parece que é aqui mesmo o refúgio dos Blutrot! – disse Yuri. O quarteto vislumbrava o subsolo enquanto descia os degraus da escada.

- É igual ao meu pesadelo... – pensou Will. Estava perplexo, tudo estava exatamente na mesma posição, o símbolo, a cadeira do Offen-Kaiser, as demais cadeiras...

O quarteto não havia se dado conta, mas não era apenas ao sonho de Will que o subsolo real estava exatamente igual...

Continuaram a descer as escadas. Repentina-mente, para surpresa de Will, Yuri e Clarinha, Ana desvencilhou-se de William e começou a andar na sua frente.

- Está tudo bem, Aninha? – perguntou Will

- Que a vela eterna da vida sobressaia à escuridão da morte! – respondeu a garota. Parecia divagar.

Aninha continuou a descer as escadas. Will sentiu seu peito queimar de preocupação, mesmo sem saber preocupação quanto a quê.

- Aninha... – disse

- Aninha... – chamou Yuri. Estava igualmente preocupado.

Aninha continuou a descer as escadas.

- Que rufem os tambores, e que a alma dos amaldiçoados seja a fonte que destrua as estruturas universais que separam os vivos dos mortos!

- Engraçado... – pensou Will – Eu já ouvi essa frase antes... – estava pensado. Repentinamente, sobressaltou-se ao se lembrar de onde ouvira essa frase. Do vídeo macabro!

- Merda! – gritou. Correu em direção a Aninha. Contudo, antes de chegar à garota, esta começou a flutuar, em direção ao centro do local.

O quarteto começou a ouvir barulhos de tambor ressoados no local. Apesar do espaço aberto, não houve ampliação do estranho som.

Yuri, Will e Clarinha entraram em desespero. O vídeo estava se repetindo, e o alvo naquele instante era Aninha.

- Eu falei que não era uma boa ideia vir para cá! – disse Yuri, irritado

- Depois reclame sobre isso. Ajude primeiro a salvar a Aninha! – Will descia as escadas tropeçando degraus. Largara a lanterna no meio da escada; pouco se importava com ela naquele instante.

O rapaz logo chegou ao piso do subsolo. Yuri tentou saltar para salvar sua amiga, entretanto, não obteve êxito, caindo sobre seu braço direito, nos últimos degraus da escada. Clarinha correu até seu namorado, perguntando-lhe:

- Você está bem, Yuri?

O rapaz meneou positivamente a cabeça. Levantou-se com dificuldades, sendo ajudado por sua namorada. Seu braço direito estava levemente inchado, com hematomas no cotovelo e adjacências.

- Só o Will mesmo pra nos colocar nessas roubadas... – reclamou. Seu braço doía horrores.

Will continuava correndo. Estava sob sua amiga, todavia, devido à altura da mesma, não poderia saltar para resgatá-la.

Os rufos tocavam mais intensamente. Junto deles, ouvia-se claramente vozes citando frases in-decifráveis, continuadamente. Naquele instante, as mobílias começaram a flutuar em volta de Aninha.

- Só há um jeito... Espero que dê certo! – disse. Correu mais rapidamente. Chegou ao símbolo central e apagou com um sopro uma das velas. O brilho que resplandecia o símbolo central apagou-se, não apagando, contudo, as velas que iluminavam o local. As mobílias caíram ao chão, os rufos e as vozes cessaram seus sons. Aninha começou a cair, inconsciente. Will correu para segurá-la e, dessa vez, conseguiu lograr êxito.

Tão logo segurara Aninha, levantou sua blusa na região do abdômen. Não havia nenhum corte superficial ou profundo. A garota estava salva.

- Graças a Deus... – disse, abraçando sua amiga com força. Parecia segurar para não derramar uma lágrima

- Você tem ideia de que foi você quem quase matou a Aninha, não tem? – perguntou Yuri. Estava visivelmente irritado com a situação. Segurava seu braço direito a fim de evitar dor ao se mexer.

- Yuri... – reclamou Maria Clara

- Deixe-me falar, Clarinha. – reclamou Yuri, com sua namorada. Clarinha emudeceu-se.

- Eu não fiz nada, Yuri. Não coloque a culpa em mim. – reclamou Will

- Você nos trouxe para cá. Sabia que essa ideia era ridícula, mas, mesmo assim, resolveu vir para cá!

- Era a única opção que tínhamos. Não sei se você sabe, mas não sou muito preparado para situações sobrenaturais! – reclamou Will. Ele e seu amigo discutiam gritando. – E você deu o aval!

- Deveríamos ter saído daqui o quanto antes, como a própria Aninha deu a ideia, ao invés de darmos uma de Sherlock Holmes! – reclamou Yuri

- E como iremos embora, às quatro da manhã, debaixo de chuva? E quem disse que sairmos daqui significa que estejamos fora do alcance dos poderes deste lugar?

- É claro que sim...

- No meu pesadelo, o tal do Andrei sabia meu nome e sobrenome... – disse Will. Cortou a fala de Yuri, emudecendo-o.

Clarinha e Yuri arregalaram os olhos diante de tanta surpresa.

- Era por isso que eu queria cortar o mal pela raiz!

- E por que não nos contou antes?

- Não queria preocupá-los. Poderia ser coisa supérflua, dada somente em um pesadelo, como sempre acontece.

Yuri respirou fundo; ainda estava irritado com seu amigo. Deu as costas a ele e partiu.

- Vamos, Clarinha. Vamos sair deste inferno antes que aqui pereceremos.

- Para onde iremos, Yuri? – perguntou Clarinha, caminhando logo atrás de seu namorado

- Qualquer lugar onde o Will não nos possa colocar em risco de vida!

Yuri subiu as escadas. Clarinha tentava acompanhar seus passos; todavia, seu namorado caminha-

va a passos largos, e ela não conseguia acompanhá-lo.

Yuri e Maria Clara saíram do lugar sussurrando uma conversa que Will não conseguia escutar. Yuri pegou a lanterna que se encontrava na escada e partiu com ela.

Tão logo o casal saiu do subsolo, Aninha abriu os olhos. Estava ligeiramente tonta.

- On...Onde estou?

- Graças a Deus! – Will apontou com força sua amiga. Estava a ponto de chorar.

Aninha enrubesceu-se ao perceber ser abraçada por seu amado. Seu coração disparara, apertado no peito.

- O que... aconteceu?

- Está tudo bem. Está tudo bem! – disse Will. Tentara segurar, mas não conseguiu: acabou soltando uma lágrima.

Yuri e Clarinha estavam saindo da cozinha do prédio e adentrando no corredor do primeiro andar.

- Eu não acredito que você vai largar a Aninha e o Will aqui sozinhos, depois do que acon-teceu... – reclamou Clarinha. Estava visivelmente irritada, situação igual à de Yuri

- Eu não fico mais nesse maldito prédio por nem mais um minuto, Clarinha! – esbravejava Yuri – Eu não vou ficar junto de alguém que quase coloca a vida dos outros em perigo!

- Mas tem a Aninha também. Ela não tem nada a ver com essa sua briga ridícula!

Yuri havia subido três degraus da escada que dava ao segundo andar, mas parou para continuar a discussão com sua namorada.

- A Ana estará sempre ao lado do Will, e você sabe muito bem disso, Clarinha...

- Você é muito egoísta, Yuri, só pensa em si mesmo...

- É claro que neste momento estou apenas pensando em mim, Clarinha. Estou correndo risco de vida. Quem seria besta o suficiente de pensar nos outros nessa situação?

Repentinamente, para surpresa geral, um sussurro veio do corredor. Ao escutarem, Yuri e Maria Clara pararam a discussão imediatamente, e viraram o foco do olhar para o corredor.

- Eu quase morri?! – perguntou Aninha – E foi você quem me salvou? – parecia atordoada ao saber dos fatos.

Will meneia positivamente a cabeça. Sorria de felicidade, e seus olhos estavam cheios de lágrimas.

- Obrigada por me salvar! – disse, em tom suave. Estava adorando a hipótese de estar no colo de seu amado

Ana abraçou Will.

- Obrigada! – disse, quase dentro de seu ouvido. O ar que saiu de sua boca, ao acertar a pele do pescoço de Will, arrepiou-o.

- De nada! – respondeu, feliz

Aninha separou seu corpo do de seu amigo, entretanto, ainda ficou com os braços entrelaçados nas suas costas. Fitou seu rosto, perto o suficiente para sentir sua respiração. Estavam enrubescidos. Chegaram a cabeça uma perto da outra. Estavam cada vez mais perto, mais perto... entretanto, sobres-saltaram, ao escutar um grito. A voz era conhecida.

- Yuri! – gritou Will. Aninha levantou-se em pulo. William levantou-se em seguida. Pegou uma vela, para iluminar seu caminho, e correram. Saltaram degraus da escada e chegaram à cozinha. Em dois ou três passos, chegaram ao corredor do primeiro andar.

Will percebeu uma iluminação vinda do início da escada. Ao que tudo indica, a fonte da iluminação se encontrava nos primeiros degraus.

Com receio, Will avançou. Andou encostado na parede oposta. Aninha ficou parada na entrada do corredor. Ao chegar de frente para a escada, sobres-saltou. Uma poça de sangue tomava conta do terceiro grau da escada, onde jazia uma lanterna mergulhada, e vazava nos degraus inferiores.

- O que... aconteceu... aqui? – perguntou, estarrecido

Ao perceber seu amigo parado de frente para a escada, Aninha caminhou. Surpreendeu-se ao ver a poça de sangue. Levou a mão à boca.

William percebeu que a poça de sangue fazia um caminho, adentrando no corredor. Deu sua vela a Aninha, pegou a lanterna, sacudiu-a no ar, limpando-a parcialmente e caminhou, seguindo a marca de sangue. Tinha certo receio do que poderia ocorrer. Ana seguiu seu amigo.

A marca de sangue adentrou sob a porta do primeiro quarto. Will parou em sua porta.

- Vai abrir? – perguntou Ana

William ficou parado, em total silêncio, por alguns poucos segundos.

- Sim! – respondeu. Estava criando coragem de prosseguir.

Will abriu a porta. O feixe da lanterna estava

apontado para o chão. Caminhou seguindo a marca de sangue.

Com receio de ficar sozinha no corredor, Aninha caminhou logo atrás de William.

O casal de amigos atravessou todo o quarto, passando pelo guardarroupa, à esquerda, e um par de camas, cada uma em um canto oposto.

Quando Will percebeu que o caminho de sangue terminava em uma poça de mesmo material, no canto oposto da parede, apontou o feixe de luz para a parede. Naquele instante, tanto ele quanto Ana sobressaltaram. Com o susto, a vela fora ao chão, apagando-se.

Yuri e Maria Clara jaziam sentados, escorados na parede, mergulhados no próprio sangue. No centro de seus peitos, uma fenda, de onde vertera o sangue. O casal perdera seus olhos, ficando apenas a órbita vazia. Das órbitas, vertia sangue, percorrendo os mesmos caminhos no rosto do casal que normalmente percorre as lágrimas.

Diante do choque, Aninha caíra de joelhos no chão e postou-se a debulhar em lágrimas. Will ficou de pé e levou a mão aos olhos. Lágrimas começaram a escorrer de seus olhos.

- Isso não poderia... ter... acontecido! – disse Aninha, chorando

- Eu só faço merda! – reclamou, em seus pensamentos, Will. Cerrava os punhos de tal maneira que parecia que iam sangrar.

Tentava se conter, queria ser o apoio de Aninha, e não conseguiria ser se estivesse chorando. Segurando suas lágrimas, percebeu haver algo que primeiramente passou despercebido, tamanho o choque que Ana e ele sofreram. Na parede, logo acima de Yuri e Clarinha, havia uma marca de sangue, escondida pela escuridão que tomava conta do lugar. William enxugou os olhos e apontou o feixe de luz em direção à parede. Sobressaltou-se.

Estava escrito, a sangue, tomando conta de toda a parede, logo acima de Yuri e Clara:

"666

Os mortos voltarão para roubar a vida dos amaldiçoados"

William ficou estupefato diante do que lera. Olhou seu relógio de pulso. Sobressaltou-se nova-mente. Gritou, partindo em direção à saída do quarto:

- Vamos, Aninha, vamos!

Mesmo sem entender o que estava acontecendo, Ana levantou-se, pois percebeu que Will sabia de algo que poderia ameaçar suas vidas.

- O que está acontecendo, Will? – perguntou Ana

- Temos que correr. Os mortos logo voltarão a vida. Já são... – dizia Will, enquanto adentrava no corredor do primeiro andar. Iria prosseguir com sua fala, todavia, fora interrompido por um forte vento oriundo da cozinha

Caminhou lentamente, com receio, em direção à cozinha.

- O que aconteceu, Will? – perguntou Aninha, estranho a ação de seu amigo

William ficou em silêncio, porém fez sinal para Aninha esperar. A garota aliviou-se. Will não divagava, como acontecera consigo no subsolo; apenas focalizava profundamente a janela da cozinha.

O rapaz parou de frente à janela, vislumbrando perplexo o que acontecia fora do prédio sede dos Blutrot. A chuva caía violentamente, raios tomavam conta dos céus e davam brilho àquele findar de noite. Continuava escuro, por causa da forte nuvem que reinava majestosa. Ventos balançavam violenta-mente a copa das árvores, jogando folhas em todas as direções. Entretanto, o que deixou William temeroso foi o estranho gemido que tomou conta do cenário. Era horripilante e assustador, e fazia a espinha do rapaz tremer violentamente.

Os gemidos foram se tornando cada vez mais assustadores e mais intensos. Naquele instante, aconteceu o pesadelo de todo homem: as lápides começaram a se abrir, de dentro para fora! Will estava paralisado diante de tanto horror.

Focalizando o olhar no relógio de William, percebia-se claramente a hora: os ponteiros pequeno e grande estavam um sobre o outro, parados na mesma marca, logo abaixo do número 1. O ponteiro vermelho se encontrava sobre o número 1, mas, um segundo depois, ficou sobre os demais ponteiros. E não foram somente os três ponteiros de Will que se juntaram naquele segundo daquele dia; naquele instante, eis que mãos surgem vagarosamente, vindas do interior das lápides.

Aninha leva a mão à boca. Will estava furioso e temeroso diante a situação. Os mortos ganhavam vida!

O rapaz virou o corpo e correndo em direção à saída da cozinha, gritou:

- Corre, Aninha!

Ana começou a correr tão logo ouviu a

ordem proferida por seu amigo. Correram a toda velocidade possível pelo corredor do primeiro andar do prédio. Rapidamente, chegaram à porta de saída. Um alívio. Seria, de fato, se não fosse por um detalhe, que mudou todo o rumo daquela história: a porta estava trancada.

Will tentou abrir a porta, todavia, não obteve êxito. Girou a maçaneta novamente e, tentando fazer força, puxou novamente a porta para trás. Novamente, não obteve êxito. A porta tampouco se mexeu do lugar.

- O que aconteceu, Will? – perguntou Ana. Estava desesperada com a situação. Um bando de mortos ressuscitando no fundo do prédio, e a porta frontal estava emperrada

- Não quer abrir. – respondeu o rapaz, tentando abrir a porta pela terceira vez – Não parece estar emperrada. Parece ser trancada!

Aninha assustou-se.

- Trancada?! – perguntou – Não tem a menor possibilidade de estar trancada, Will. Não a trancamos quando chegamos!

- Claro que não... – disse Will. Naquele exato momento, lembrou-se de algo – Meu Deus! – disse, surpreso

- O que foi, Will? – Aninha não obteve resposta. Ficou desesperada – Will?! Will?! – chamava pelo seu amigo com mais intensidade

- E se quem trancou a gente foi o mesmo que matou Yuri e Clarinha?! – perguntou, virando-se para sua amiga

Ana ficou estarrecida diante a fala de Will. Não havia pensado naquela possibilidade.

Um barulho pôde-se ser ouvido vindo da cozinha. Will e Aninha visualizaram o local. Perceberam que eram os mortos-vivos tentando adentrar no prédio pela janela da cozinha. Estavam tendo certa dificuldade, mas poderia ser apenas momentânea.

- O que faremos agora, Will?! – perguntou Ana, no ápice de seu desespero

William fitava o prédio inteiro com rapidez, a fim de pensar em alguma coisa.

- Will?!

- Vamos por aqui! – disse, caminhando em direção à primeira porta à esquerda. Abriu-a.

- No quê está pensando, Will? – perguntou Aninha, seguindo seu amigo

O quarto estava mobiliado com um guardar-roupa no canto esquerdo e um par de camas no centro, posições estas semelhantes às do quarto aonde jaziam Yuri e Clarinha.

Will abriu a porta do guardarroupa, expulsou com as velhas roupas que lá se encontravam um ninho de ratos. Sem as roupas velhas e os ratos, o guardarroupa era bem espaçoso.

- Não está querendo dizer que... – disse Ana, temerosa

- É a única opção!

- Era o que eu temia! – disse, suspirando fundo

Will escutou passos vindos do corredor.

- Vamos! – disse. Ajudou Aninha a adentrar no guardarroupa e entrou em seguida. Fechou a porta do local e apagou a lanterna, ficando, assim, no silêncio e escuridão totais

O ranger da madeira do corredor se tornava cada vez mais intenso e o bater do coração de William e Ana acompanhavam a intensidade do ranger. Aninha estava com o coração apertado; parecia que alguém o espremia como se faz com uma laranja. A sensação era insuportável. E a cada ranger mais intenso, seu coração ficava mais apertado.

Will não estava em situação diferente da de Ana, entretanto, precisava demonstrar frieza diante a situação – e precisava ser frio, se quisesse pensar com razão -, para não passar insegurança à sua amiga. Era o homem da situação e precisava ser o amparo à garota.

Os passos foram se tornando mais intensos. Junto deles, ouvia-se claramente o abrir e o fechar das portas dos corredores. Naquele instante, o coração de Ana apertou a tal ponto que ela gemeu. Will virou o olhar para sua amiga. Não conseguia vê-la, portanto, não percebeu o seu lacrimejar. Levou a mão à cabeça de Aninha e afagou-a. Precisava ser seu amparo, e começou a realizar seu papel.

Will demonstrava segurança e frieza diante a situação, todavia, quando o ranger da madeira do corredor cessou em frente à porta do quarto onde se encontrava, seu coração apertou como o de Aninha. Não poderia demonstrar o desespero que tomava conta de seu corpo. Apertou sua cabeça em seus joelhos e entrelaçou suas mãos, abraçando suas pernas.

A porta do quarto se abriu. William se apertou com mais intensidade. Não percebera, mas Aninha fizera o mesmo. O silêncio reinou no local por alguns segundos, não se ouvia absolutamente nada – nem um ranger de madeira velha, nem um andar, nem uma voz, nem um sussurro, um suspiro, nada... parecia uma imagem travada naquela situação - Will e Aninha no ápice do desespero, com o coração apertado, segurando suas emoções, tremendo de medo; e a porta aberta, com alguém – sabe-se lá quem – fitando o interior do local.

A situação parecia eterna. Will e Aninha rezavam para que ela logo se resolvesse, mas ficou se arrastando por dolorosos segundos. Foram poucos, mas pareciam horas, dias, meses... aquela sensação de estar a um passo da morte distorcia a capacidade de saber exatamente as dimensões do tempo. Entretanto, para felicidade do casal de amigos, a porta se fechou, e o ranger da madeira afastou-se do local.

Will e Aninha aliviaram a tensão que causara aos músculos de seus respectivos corpos. O rapaz encostou-se no fundo do guardarroupa. Deixou escapar um suspiro.

- Pode haver alguém no recinto ainda, Will – cochichou Aninha, o mais baixo possível – E se um adentrou e os demais partiram?

Will não havia pensado nessa possibilidade; tentou se fazer do frio e racional e Aninha acabou fazendo esse papel naquele momento. Voltou a ficar tenso.

O rapaz acendeu a lanterna e, pelos espaços sem madeira da porta do guardarroupa, projetou a luz do objeto pelo quarto. Varreu o local. Estava completamente vazio.

- Está vazio... – disse, virando para sua amiga – Vamos?

Ana meneou positivamente a cabeça, e Will abriu a porta do guardarroupa. Desceu. Em seguida, ajudou Aninha a descer. Caminhou até a porta e abriu-a com cuidado, sem fazer o menor barulho.

- O que está fazendo, Will? – perguntou Aninha, tentando fazer o menor barulho possível

William fez sinal para Aninha ficar em silêncio. Espreitou o corredor. Totalmente vazio. Fechou a porta com extremo cuidado.

- Não há ninguém no corredor! - disse

- E agora? O que faremos? – perguntou Aninha.

Will deu de ombros.

- Deixe-me pensar por um minuto. – disse. Começou a andar pelo local, de um lado para o outro, evitando fazer barulho sobre a velha madeira do chão

- Temos que investigar como reverter essa maldição!

- Yuri e Maria Clara vão ressuscitar?! – perguntou Aninha, esperançosa

- Não quis dizer isso. – disse Will, retirando as esperanças de Aninha – Pode ser que aconteça, pode ser que não! - tentou consertar, ao perceber que frustrara a amiga - Estou dizendo em acabar com estes malditos mortos-vivos!

- Entendo... – Aninha frustrou-se, diante da hipótese de não ressurreição de seus amigos. Will percebeu o silêncio de sua amiga, e emudeceu-se. Não queria piorar a situação ao tentar consertá-la – E onde pesquisará? – Aninha perguntou, ao perceber que o reino do silêncio começava a se formar no local

- Não sei... agora que o notebook do Yuri foi quebrado, precisamos pensar em outros lugares!

- Poderíamos procurar no banheiro do primeiro andar!

Will surpreendeu-se com a fala de Aninha; foi uma surpresa alegre. Era uma hipótese plausível.

- Verdade! – disse, mais alegre – Vamos!

William abriu a porta do corredor sem fazer barulho e saiu do quarto, seguido de Aninha. Caminhou no centro do corredor de forma vagarosa, evitando, assim, fazer barulho com o ranger da madeira velha. O rapaz caminhava jogando o feixe de luz da lanterna em todos os cantos onde possivelmente poderia ter algum inimigo à espreita. Toda aquela segurança, a fim de evitar serem pegos, faziam-nos andar o mais devagar possível – seus passos eram vagarosos e a distância entre os pés no chão eram ínfimos.

Depois de uma quantidade alta de tempo gasta caminhando pelo corredor, Will chegou à frente da última porta do corredor, a que adentrava no banheiro do primeiro andar. Chegou de frente ao local e levou a mão à maçaneta para abri-la. Entretanto, para surpresa geral, ouviram uma voz, vinda da escada, logo atrás, dizer:

- Quem são vocês?

Naquele instante, os corações de William e Aninha sobressaltaram, e os músculos dos mesmos travaram. Viraram com extrema dificuldade. Perceberam um homem, portando um sobressalto preto, parado no alto da escada. A escuridão impossibilitava de que Will e Aninha visualizassem a parte superior de seu corpo.

- Corre! – gritou Will. Partiu em direção à cozinha. Sem titubear, Ana seguiu seu amigo. O estranho sobressaltou diante a reação do rapaz, e gritou, em alto e bom som:

- Invasores fugindo, em direção ao cemitério. Repito: invasores fugindo, em direção ao cemitério.

Will e Aninha corriam pelo lado externo do prédio, adentrando no macabro cemitério. Em poucos segundos sob a forte chuva, as roupas do casal estavam encharcadas e, consequentemente, pesadas, o que só os atrapalhavam a correr. Os raios caíam ameaçadoramente, ribombando nos céus e sobressaltando seus ouvintes. Os ventos batiam fortes nas copas das árvores que tomavam conta do cemitério, transformando o local em um cenário mais macabro do que originalmente já é.

Aninha não estava com fôlego para correr com mesmo pique que seu amigo, assim, Will a puxava pelo braço direito. Perceberam movimentação vinda do prédio atrás deles, todavia, não quiseram visualizar o que estava acontecendo, apenas fitavam o macabro corredor entre as lápides.

O que o casal de amigos não esperava foi a ponta de uma das lápides se encontrar justamente no caminho das pernas de Will. O rapaz tropeçou, largando Ana de pé e caindo de cabeça na lateral da lápide. Bateu com a parte esquerda da testa no local e caiu com o rosto no chão.

- Will? Você está bem? Will? – perguntou Aninha, preocupada

Will começou a tremer no chão, deitado de bruços. Parecia ter uma convulsão. Os músculos de seus braços tensionavam assustadoramente. Suas pernas se debatiam no ar.

- Will, Will, Will... – gritava constantemente Ana, enquanto tentava parar o ataque de seu amigo

Naquele momento, Will acordou em um devaneio. Estava em um cenário totalmente branco, junto de uma pessoa.

- Você é o escolhido! – disse a pessoa à sua frente. Will olhava em todas as direções, tentando saber onde se encontrava. Assim que a pessoa proferiu suas palavras, o rapaz virou o olhar para frente

- Você... – disse Will, chocado. Reconheceu a pessoa como sendo Andrei Kazigarov, o mesmo que assassinou todos os membros do Blutrot.

- William Kaihi, você é o escolhido! Só você pode acabar aquilo que era para eu ter feito cem anos atrás.

- Matar a todos?

Andrei meneia positivamente a cabeça.

- E como eu faço isso?

Naquele instante, no mundo real, Will levantou-se, em um só movimento. Ana ficou aliviada ao ver seu amigo bem.

- Graças a Deus... – disse. Escorria lágrimas de seus olhos

Will caminhava por entre as lápides a passos largos. Ana começou a segui-lo. A garota percebeu que Will adentrava no cemitério, ao invés de dele sair.

- Onde está indo, Will? A saída do cemitério não é por este lado! – perguntou, preocupada

Will não respondeu Ana. Por mais que seu corpo estivesse no mundo real, seus pensamentos ainda se encontravam em seus devaneios.

"Somente seu sangue vertendo no cerne do lugar mais nefasto reverterá a dor e a destruição",

disse Andrei, na divagação de Wiliam

Will parou em um pequeno círculo. Ana não estava entendendo bulhufas. Deixou seu amigo agir, sem atrapalhá-lo. Achou melhor assim. Por mais que seus inimigos vinham velozes pelos corredores de tumbas, confiava em seu amigo. Ele não estaria agindo estranho se não tivesse um bom plano. Ela não sabia, mas o círculo delimitava o ponto central do cemitério.

"Recite", ordenou Andrei. Will retirou um pequeno canivete do seu bolso e cortou superficial-mente sue pulso direito. Ana arregalou os olhos de surpresa, mas nada disse.

Sangue vertia de seu braço e caía no ponto central do cemitério. O rapaz largou o objeto, abriu os braços, fechou os olhos e abaixou a cabeça. Começou a recitar:

"666

O Número da Besta

O Número da Discórdia

Ó, aquele de nome impronunciável

A Besta do Meia Meia Meia

Leve teus soldados deste mundo

Tu, que és a Besta

Leve todos daqui

E mande-os queimar no Inferno

Tu, que és a sombra e o fogo

Soldado fiel daquele de nome impronunciável

Volte para o Reino dos Mortos

Caminhar entre os vivos já não mais pode

Tu, que causas a destruição e a dor

Tu, Rei dos Sujos

Leves seu povo deste mundo

Ó, ser ignóbil,

Volte para onde jamais deveria ter saído

Volte, volte

Volte ao teu mundo

E se esqueça do mundo dos humanos"

Will repetiu incontestáveis vezes a última estrofe, acelerando os versos. Aninha sentiu tudo rodopiar, tão logo a recitação iniciou-se. Vozes, vindas do nada, cantaram em volta, como em um rito, em uma linguagem indecifrável, e acompanhava rufos de tambores e ambos aceleravam na mesma proporção que o recitar do rapaz. Fogo surgiu em volta de Will e Ana, tão logo o primeiro acelerou a última estrofe da recitação, e fazia um imenso "666".

Depois de recitar incontestáveis vezes a última estrofe, William começa a gritar, focalizando o céu. O rito de vozes desconhecidas e os rufos de tambores continuaram. Tudo rodopiava em extrema velocidade. Repentinamente, tudo parou. Will sentiu perder a consciência. Viu tudo se extinguir, antes de ir ao chão.

Will abriu os olhos. Viu um raiar de dia incrível. Não tinha nuvens no chão e o dia parecia ser lindo. Viu também uma silhueta conhecida, entretanto, estava embaçada. Escutou alguém, de voz conhecida, chamar por seu nome. Fechou os olhos nova-mente. Abriu-os, em seguida. Fechou-os, e, pela terceira vez consecutiva, abriu-os. Sua cabeça estava rodando. Conseguia, desta vez, enxergar Aninha de forma clara. A garota estava sentada ao seu lado.

- Onde estou? – perguntou o rapaz, ainda tentando focalizar em sua mente seu paradeiro

- Acabou... – respondeu Aninha.

Naquele instante, tudo voltou à sua mente. Ficou feliz por tudo ter acabado, e triste por não rever Yuri e Maria Clara vivos.

Will abraçou Aninha.

- É tão bom vê-la viva! – disse

A garota, a princípio, surpreendeu-se com a atitude de seu amigo, mas depois a aceitou, retribuindo o abraço.

Depois de algum tempo abraçados, William fitou o rosto de Aninha, próximo o suficiente para sentir sua respiração bater nas suas bochechas. Corou-se. Ana enrubesceu-se em seguida.

- Fico feliz por ter sobrevivido!

O coração de Ana batia mais rápido que o normal. Aninha abaixou a cabeça, de timidez.

Will repousou os dedos indicador e do meio juntos sob o queixo de Aninha, e levantou-o lenta-mente. A garota voltou a encarar seu amigo. Will estava rindo.

Para surpresa de Aninha, sem nada lhe dizer, Will lhe beijou. Seu coração começou a bater mais acelerado. Ficou alguns minutos parada no mesmo lugar, apenas curtindo o beijo de seu amado.

2 meses depois...

Naquela noite, estava ocorrendo o baile de formatura dos alunos do terceiro ano do Colégio Ihzaki. Aquele baile era especial dos demais. Em seu início, teve um culto, para celebrar a paz entre os povos e a fim de homenagear dois formandos que não mais ali se encontravam.

A diretora do colégio abriu o baile de for-matura, discorrendo:

- Prezados formandos, pais e amigos, hoje estamos aqui não apenas para comemorar essa data linda, a passagem de uma etapa da vida para outra, a saída de brilhantes alunos deste colégio para ganhar a vida, mas também para homenagearmos dois alunos que deveriam estar aqui hoje, participando deste baile de formatura, mas o destino lhes foi cruel. Yuri Kazini e Maria Clara de Souza Aguiar eram alunos brilhantes, amigos de todos e que tinham um futuro promissor pela frente, porém um louco assassino – assim ficou a versão dada por Will e Aninha ao caso -, que a justiça ainda não pousou sua firme mão sobre ele, atravessou seus caminhos e mudaram todo o rumo de suas histórias. Que fique aqui a homenagem do Colégio Ihzaki a estes dois alunos que aqui estudaram.

Não só a diretora segurava as lágrimas, mas todos os presentes – principalmente os pais de Yuri e Clarinha, convidados especiais do baile, Will, Aninha e seus respectivos parentes, e os amigos do casal de modo geral. Houve uma chuva de pétalas de rosas sobre um tablado, onde se encontravam fotos do casal. Os alunos depositaram flores sobre o tablado.

Tão logo o culto findou-se, deu-se o início ao baile. Aninha acompanhava seu agora namorado William em uma valsa. Seus respectivos pais dançavam perto, junto dos demais alunos, no centro do local onde ocorria o baile. Ana estava impecável em um vestido dourado, enquanto Will parecia um segurança de famoso em seu smoking.

- Essa festa está incrível, não está, Will? – perguntou Ana. Depois que começou a namorar seu amado, a garota perdeu a vergonha de conversar com ele

- Está. Pena que o Yuri e a Clarinha não puderam participar! – disse. Apesar da aparente animação de todos na festa, era evidência uma melancolia em seus interiores. A melancolia no interior de Aninha apareceu em seu semblante.

- Então, temos que aproveitar dobrado essa festa... – disse Will, sorrindo. Ana surpreendeu-se com a fala de seu namorado – Eu tenho que aproveitá-la por mim e pelo Yuri, e você por ti e pela Clarinha!

Ana abriu um sorriso, antes de o casal voltar a dançar algo mais elaborado do que "dois para lá, dois para cá".

Cerca de vinte a trinta minutos depois, Will largou-se rapidamente de sua namorada para ir ao banheiro. Adentrou no local, que possuía uma fileira de boxes frontalmente a um gigantesco espelho e um sem-número de pias. O rapaz entrou no oitavo box, contados a partir da porta. Assim que fechou a porta do local, eis que a porta ao lado se abre. Will escutou barulho de água escorrendo da pia normalmente, e depois a mesma cessou-se. Escutou passos partindo do banheiro. Depois do que aconteceu no prédio sede dos Blutrot, percebeu ter ficado com a audição aguçada.

Terminou de usar o sanitário, fechou sua calça e abriu a porta do box onde se encontrava, se deslocando para fora do mesmo. Naquele instante, sobressaltou. No espelho, estava escrito, tomando conta de todo o espaço, a sangue:

"666"

[1] Pessoa obcecada em tecnologia, jogos eletrônicos e outros.

[2] Franco-Imperador. Em alemão, no original

[3] Participantes. Em alemão, no original

[4] Algo como "Sangue vermelho" em alemão.

[5] Neste caso, a palavra está como integrante do grupo Blutrot.

[6] Tipo de evento sobrenatural que se manifesta deslocando objetos e fazendo ruídos, normalmente ocorridos pela ação de um fantasma

 



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0 # Lashunda 13-08-2017 03:01
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0 # Carla 24-11-2014 02:50
Nossa! Esse conto eh de +. Daria um bom filme de terror. AMei
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