Longa Noite

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LONGA NOITE

- Não há nada... Não há ninguém... - Dizia repetidamente pra si mesma, tentando encontrar nessas palavras alguma verdade a qual pudesse se agarrar. Apertava os olhos com toda a força que podia. Tentava permanecer imóvel o máximo possível. Os músculos começavam a ficar doloridos e fatigados pelo tempo em que estavam na mesma posição, sem se movimentar. A respiração estava ofegante e entrecortada. As mãos, postas junto ao peito, começavam a gotejar de suor, umedecendo o tecido fino da camisola. O lugar estava mergulhado na mais profunda penumbra. Não era possível ver mais do que sombras mal delineadas na escuridão espessa. Mesmo assim não se atrevia a abrir os olhos.

As paredes de pedra negra erguiam-se impiedosas sobre a noite sem lua. A brisa noturna entrava pela fresta da única pequena janela no alto da parede e se espalhava por todo o espaço, deixando o ambiente frio de uma maneira inconveniente. O cômodo era estranhamente úmido, cheirava a mofo e permanecia em um silêncio aterrador, quebrado eventualmente pelo tamborilar quase inaudível de goteiras que caíam aqui e ali. - Não há nada... Não há ninguém... - Continuava repetindo, tal como um mantra, tentando seguir o ritmo das goteiras.

Não tinha noção de qual era a real extensão do lugar, mas parecia ter sido erguido ainda no início dos tempos, pelos primeiros homens das primeiras civilizações, tão antigas que seus vestígios foram apagados da história, restando apenas a construção de pedra fria e úmida. Por alguns momentos pensava poder ouvir os sons do passado, as vozes rarefeitas de uma antiguidade tão distante que não era possível localizar. Aquilo lhe aterrorizava ainda mais. - Não há nada... Não há ninguém... Apenas o vazio e o escuro. Quando a noite finalmente se for, abrirei os olhos e tudo terá terminado.

Uma súbita rajada de vento arrebentou pela janela alta, fazendo-a bater com brutalidade. A ventania rodopiou impetuosamente pela sala, assobiando tão alto e tão aguda que fez seu corpo estremecer com violência e seus dentes rangerem. Tirou as mãos suadas do peito e colocou-as sobre o rosto, tapando os olhos com desespero. O vento soprava mais forte, gritava mais alto, como almas vindas do além sussurrando em sua danação eterna. As lufadas de ar cortavam-lhe o rosto e as mãos como navalhas afiadas. - Não há nada... Não há ninguém... Quando a noite acabar... Quando a noite acabar... - Mas a noite não acabava. Era uma longa noite sem lua.

O horror sufocava-a, estrangulava-a. Quase podia senti-lo se materializar em torno de seu pescoço, com dedos longos e gelados, apertando cada vez mais forte. O medo cresceu, agigantou-se, tomou todo o seu corpo e ela podia senti-lo escorrer por todos os poros, junto com o suor que agora lhe encharcava por inteiro. Buscou fôlego para gritar. Uma. Duas. Três vezes. Em vão. As gélidas mãos apertavam-se com mais força, os finos dedos multiplicando-se, cravando-se na pele dos braços, pernas e tórax. Debateu-se desesperadamente tentando livrar-se, numa luta feroz que pareceu durar uma eternidade.

De repente, o silêncio. A ventania cessara. Não havia mais os lamentos infernais, nem as lâminas de ar retalhando-lhe a pele, nem as mãos frias e finas apertando-lhe a garganta. Apenas a quietude, a umidade e uma goteira cantarolando em algum canto. A luz do sol entrou pela janela alta num feixe fraco e vacilante. Pousou sobre seu rosto, dando-lhe um beijo morno. Num rápido impulso ela abriu os olhos e percebeu que não havia mais a densa escuridão da noite. Uma claridade difusa entrava pela pequena janela, trêmula e frágil, mas o suficiente para retirar a antiga cripta das trevas. Levantou-se e buscou sofregamente por uma saída. Verificou as paredes, inspecionou o chão, tocou, bateu e arranhou a pedra dura. Não encontrou nada. Nenhuma abertura, nenhuma fresta, nenhum contorno apagado de uma porta ou alçapão. Olhou desolada para cima. Era uma torre sólida, tão alta quanto a vista poderia alcançar. E lá no alto, quase no topo, a pequena janela, a única entrada de ar e luz. Inatingível. Inalcançável. Sentiu a mão gelada penetrar-lhe o peito e retirar dele qualquer resquício de esperança. Longa noite... Longo dia...



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