O NEGÓCIO

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Severino trabalhava em seu negócio. O negócio da família. O que ele ganhava não era lá grande coisa, mas dava para sobreviver e continuar fazendo aquilo que sempre amou. Começou com seu pai, e após o seu falecimento, prosseguiu sozinho, aperfeiçoando-se conforme o tempo e sua dedicação. Dedicava-se dia e noite em seu negócio. Ouvia Mozart sem se cansar. E ainda estando cansado, ele sempre arranjava um tempo extra para fazer suas esculturas.

Ele sempre viveu sozinho. E nunca reclamou de viver isolado e afastado da vida em sociedade. O silêncio era seu fiel companheiro. E fora ele, suas confidentes. As lagartixas de olhar penetrante. Elas já o ajudaram muito em seu trabalho. E continuam ajudando, vez ou outra. Severino sempre as admirou. Não por sua aparência (por mais que ele gostasse), mas por causa de sua resistência. Elas não se quebram facilmente. Se regeneram; lutam para permanecer desfrutando de sua estadia na maravilhosa e inquietante vida terrena.

Os negócios iam razoavelmente bem. Até que um dia, Severino percebeu que teria que bolar algo novo se quisesse melhorar de vida. Ele nunca quis ter muitas riquezas ou se tornar um homem rico. Mas querendo ou não, se tem uma coisa que seu trabalho lhe ensinou é que, o poder é algo extremamente sedutor. E se deixando seduzir por ele, Severino teve então uma ideia.

Começou então a executar sua matança. Fez tudo aos pouquinhos. Matava um aqui, outro ali. E no final das contas, percebeu que, seguindo deste jeito, ele poderia fazer seu negócio ir de vento em poupa. Teria mais peças para vender em seu barracão. Receberia mais pedidos e faria novas encomendas. Faria novas esculturas. E então, quem sabe, até conseguiria guardar um pouco do que tinha, para que fosse seu próprio sustento depois.

Mas numa bela noite, o destino resolveu cobrar tudo o que ele devia. E sua dívida era alta, não havia como negar. O barracão ficou sozinho desde então. As lagartixas de olhar penetrante permaneceram ali por um bom tempo, mas depois foram embora. Não suportaram viver sem ele. As inúmeras peças continuaram amontoadas, e as variadas esculturas não puderam ser vistas por mais ninguém. Tudo acabou naquela noite. E nesta mesma noite, o coração de Severino parou de bater. Seu corpo se tornou apenas mais uma parte do negócio. Seu cérebro, seus pulmões e tudo que havia dentro dele...agora eram apenas novas peças. E quem sabe um dia, se alguém resolver aparecer, cada uma dessas peças seja usada em uma nova escultura.



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