BEBENDO COM O DIABO

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   Ele me olhava com destreza e sofreguidão. Mas quando me aproximei, percebi que seu olhar era mais profundo e convidativo do que eu imaginava. Ele vestia uma camiseta preta, calças pretas e tinha um corpo de quem andou fazendo alguns meses de academia. Tinha barba por fazer, movimentos discretos, e parecia estar sempre longe, refletindo sobre seja lá o que fosse. Me sentei ao seu lado e ele fingiu não se importar. Ou talvez não se importasse. Eu ia pedir uma bebida quando ele tocou meu braço e disse: "Essa é por minha conta". Eu não entendi o porquê, mas apenas agradeci e peguei o copo com uísque. Ele agora me observava como se eu fizesse parte de alguma experiência, como se eu fosse uma parte relevante de suas análises e observações.

— Curtindo a noite? — ele perguntou, e por um breve momento pensei que não estivesse falando comigo. Então percebi que estava.

— É...Tô só matando o tempo antes que ele me mate. — O homem deu um sorriso simpático, como se tivesse achado engraçado.

— Mora aqui a muito tempo?

— Eu nasci aqui.

— Aqui, jura? Nesse bar horrível e barulhento?

Não achei a menor graça, mesmo assim sorri, tentando ser educado.

— Você acredita em Deus? — Achei estranho ele me perguntar aquilo assim, do nada.

— Nada é do nada, meu caro. — Era como se ele tivesse lido meus pensamentos. Ou eu teria dito em voz alta?

— Sim, acredito. Não acredito em religião, mas acredito que há alguém lá em cima, cuidando de tudo.

— E no Diabo, você acredita?

— Seria burrice acreditar no bem e ignorar o mal, não acha?

— Sem dúvida.

— E você? Acredita em Deus? — Então ele começou a rir, e não respondeu.

— Está vendo aquele sujeito, ali sentado, mexendo no celular? — Ele apontou com a cabeça e eu fiz que sim.

— Bom...Ele parece apenas mais um sujeito que veio até um bar no fim de semana, encher a cara ou talvez, tentar a sorte com algumas mulheres. Acontece que...ele não é um desses sujeitos. — ele bebe, depois continua. — Esse cara, que você está vendo ali sentado, acaba de matar sua namorada. Motivo? Ciúmes.

— Espera um pouco. Como sabe disso?

— Digamos que...Sou um homem muito bem informado.

— E se isso for verdade? Não acha que devemos ir atrás dele e impedir?

— Não. — diz ele, como se acabasse de recusar uma porção de batata.

— Então você tá me dizendo que, em algum momento, aquele cara vai levantar e sair andando, então irá até a casa da namorada e irá matá-la, e nós dois ficaremos aqui sentados, bebendo, enquanto o cara comete uma loucura?

— Você tem que entender uma coisa, meu caro. — Ele fixa seus olhos nos meus, e eu não sei como nem porque, me sinto preso em suas palavras.

— Suponhamos que alguém o impeça. Então ele não consegue matá-la. Isso o leva ao arrependimento, mesmo sabendo que não cometeu o ato; o que o deixa mais fragilizado. Então ele é tomado pela culpa, que o leva à autopunição. Então, no fim das contas, como que para equilibrar a balança, o lobo dentro dele fala mais alto e acaba cometendo uma outra loucura, desta vez, sem ninguém para impedir. Ou então, ele acaba se entregando à dor e põe fim à própria vida. Resumindo: Se na hora do ato, ele não conseguir finalizar, tudo bem, pois como não teve nenhum tipo de interferência externa, não haverá piores consequências. Mas se alguém vai atrás dele e o impede, estará contribuindo, querendo ou não, para que haja outras consequências, que podem acabar colocando mais vidas em risco. Agora eu lhe pergunto: Será que vale mesmo a pena correr esse risco?

— Tudo que você me falou faz todo sentido. Mas eu não consigo simplesmente ignorar o fato de que uma pessoa está prestes a cometer uma loucura e mesmo sabendo disso, não devo fazer nada a respeito.

— A escolha é sua.

   Nesse momento, o sujeito se levanta e caminha em nossa direção. Paga a conta. Me senti pressionado. Eu tinha duas opções e uma única escolha a fazer. Tentar impedi-lo...ou simplesmente permanecer sentado onde estou, tomando um outro gole de uísque e dando uma de Sócrates: Só sei que nada sei.

   Ele se vira e começa a guardar a carteira. Meu coração acelera e eu nem sei o porquê. Ou talvez saiba. Antes que ele saia andando, apoio uma das mãos em seu ombro esquerdo. Ele me olha com um olhar confuso e ao mesmo tempo, na defensiva. Eu o encaro bem de perto e vejo que realmente há algo diferente ali. Então eu percebo algo em sua cintura. E quando penso em dizer algo, ele tira da cintura o maldito revólver e aponta em minha direção. Antes de ser atingido, percebo que o lugar onde o estranho homem estava está vazio. Então consigo vê-lo no final do bar, em frente à porta da entrada, com um sorriso sádico e irônico nos lábios. Levo o tiro e antes de cair no chão, antes que meus olhos se fechem, tenho um último pensamento; uma última conclusão.

Ele sabia.



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