1 Corintios 6:12

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I.

Quando criança sempre quis entender o medo. Jamais pude entender porque os meus amigos, meus pais, principalmente meus pais tinham medo. Pelo menos por mim não havia nada que pudesse me machucar. Não havia distâncias que eu não pudesse percorrer. A adaptação foi difícil, mas o hábito sempre ajuda.

Lembro-me do dia em que meu pai precisou da minha ajuda pela primeira vez. Ele sempre foi contra eu usar meus poderes para ganhos próprios. Sempre me ensinou que aquelas dádivas deveriam se transformar em algo bom para aqueles que estão a minha volta, até porque já havia muitas pessoas se empenhando em destruir o mundo.

Por falar em destruição.

Sempre achei tudo por aqui muito frágil. As pessoas, as construções, as flores. Tudo tão simplesmente frágil. Esse lugar sempre foi pequeno e frágil. Uma grande caixa de papelão. Aprendi, depois de muito tempo que para evitar problemas, eu deveria manter essa fina estrutura inteira.

Aprendi que há certo equilíbrio. Porém, por ser o que sou, o equilíbrio dessas terras estava trincado, despedaçado. Deveria eu consertá-lo?

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Os tempos de escola foram os mais difíceis. Foi durante esses anos em que as coisas ficaram complicadas para mim. Percebi que poderia levantar um carro com 8 anos de idade. Percebi que poderia correr de um estado a outro em menos de 10 minutos. Percebi que poderia saber se uma pessoa mentia pelo modo como seu coração batia. Aos poucos, meus sentidos eram tão refinados que a percepção da realidade era tão crua que as construções e interações sociais pareciam jogos de crianças.

"Você é um bosta! Por que você não volta para aquela fazenda de merda dos seus pais? Vai catar bosta de porco!", tudo isso acompanhado de um cuspe na cara. Até então, o valentão da escola nunca tinha notado minha presença. Enquanto aquela meleca escorria dos meus olhos até a boca contei até dez. Meu pai sempre disse para fazer isso.

Ouvi os batimentos acelerados, os olhos deles esbugalhando, seu maxilar se projetando para baixo, seus braços se erguendo e seus pés dando passos em minha direção, 1 - contei. Como ele estava na frente, ele foi o primeiro a executar esses atos, tão pequenos, mas que pude lê-los. Seus colegas o imitaram.

2

Acho que foi a primeira vez que tive dúvida sobre o que fazer. Enquanto pensava no que fazer, eles avançaram mais um passo. Atrás de mim, havia apenas o corredor. Naquela época ainda não existia câmeras de vigilância por todos os lados. A presença do adulto mais próximo era a de 100 metros, dentro de uma sala. Era o diretor, ele estava lendo uma revista adulta. Seus batimentos estavam acelerados e o barulho do papel daquele material era bem nítido. Sim, naquela idade eu já sabia o que era pornografia.

3

Para falar a verdade, eu via as pessoas nuas o tempo todo. Era difícil segurar o riso, e em alguns casos conter outras emoções. Exatamente como agora. Os cinco que vinham em minha direção estavam todos nus em minha percepção. Estavam ainda mais nus por expressarem fúria. Sempre achei que os seres humanos eram mais honestos consigo mesmos quando estavam bravos. Não sei se os seres humanos são bons ou maus por natureza, o que posso dizer é que eles são violentos. Assim como eles estão sendo agora.

4.

"Você tudo pode, mas nem tudo te convém. Estamos agora em uma estação de trens, não é, Clark? Você pode pegar qualquer trem aqui e ir para onde quiser, mas aonde você quer chegar? É nisso que tem que pensar quando tiver que tomar alguma decisão, filho. Você pode tudo, especialmente você, mas nem tudo te convém." Eles estão a menos de dois passos de mim

5.

O catarro já respingou em minha camiseta

6.

Minha mãe pode ficar brava comigo de novo. Ela sempre reclama de como estrago minhas roupas. Ora rasgadas, ora queimadas e agora toda emporcalhada de cuspe e catarro. Tenho que ceder, Ted tem bastante muco em seu organismo. E seu cuspe foi certeiro.

7.

Um passo. Ainda não decidi o que vou fazer. Outra pessoa se aproxima. Seus passos são mais leves. Seus batimentos cardíacos mais calmos. Sua respiração leve. Deve estar pensando em algo bom. Ela carrega algo em seus braços. Cadernos? Não, os cadernos são um pouco mais pesados do que isso. É um livro.

8.

Pela tensão de seus músculos percebo que é um livro pequeno. Deve ser o livro que devemos ler esse trimestre: "Alice nos país das maravilhas". Engraçado. Li o livro e me identifiquei muito com Alice. A parte em que ela se torna gigante é hilária. Ela poderia esmagar todos os perigos com facilidade. O que ela fez mesmo? Não era um exército de cartas, era? Acho que a rainha queria arrancar a cabeça da garota. O que fez Alice?

O braço dele se estica, uma mão cerrada, outra na altura da cintura. O ombro deslocado e o tronco inclinado para frente. Alguém tem ido às aulas de boxe, não é Ted? Desse modo, pode aproveitar o peso do corpo para poder dar um golpe mais consistente. Isso faria muita diferença em outras ocasiões. Não agora. O que Alice fez mesmo?

9.

Crack!

A mão dele atinge meu peito. Antecipei o impacto. Isso deve doer muito. Imagino. Devido ao posicionamento que assumiu e a projeção de meu peso, o soco acertou em cheio. Isso deveria ser uma coisa boa para o atacante. Mas não nesse caso. Quando digo que antecipei o impacto, refiro-me ao o impacto que impingi nele. Sei de minhas potencialidades. Sei da aceleração que posso produzir em meu próprio corpo, e como posso fazer isso bem rápido, bem rápido mesmo. É difícil de explicar para vocês, mas é como se o tempo parasse para vocês e não para mim. Fiz isso entre o levantar da sola do pé do chão até o reencontro do pé com o piso novamente. Assim, o impacto quebrou os ossos de sua mão, produzindo um rachado que foi da ponta do esqueleto da mão até a junção entre o osso do braço com o osso de seu ombro. Excruciante. Ninguém deveria passar por isso. Ninguém também deveria ser vítima de bullying. Os músculos, os tendões foram todos comprometidos. 6 meses no hospital. Mais um ano e meio de terapia para poder recuperar os movimentos. Triste. Frágil. Fraco.

Jonathan não apreciará essa conduta. Ao seu modo, ele é um nobre homem. Apesar de sua fixação com a moralidade. Ele deve ser o último homem do mundo.

A estrutura interna de seu braço foi danificada. Não há duvida disso. A pele também não resistiu. O osso afiado, talvez a única coisa afiada no corpo de Ted, trincou e rascou a pele macia. Ninguém deveria passar por isso, eu sei. Mas ninguém deveria sofrer bullying. Foi isso que Alice fez?

"Você pode tudo, meu filho, mas nem tudo te convém." Em estado de choque Ted cai no chão. E por falta de alternativa, o catarro na minha face pinga no chão. O sangue jorra. A meleca pinga.

10.

Por estar assustado, o pico de adrenalina sobe. O sangue pulsa ainda mais. Tenho que admitir, não é bonito. 180 bpm, ou mais. Ele vai desmaiar. Sua corda vocal quase rompe: semelhante ao que aconteceu com os seus tendões da mão quando encostou em mim. Espero que Ted não tenha nenhuma pretensão artística. Até porque, mesmo depois de sua recuperação, não acredito que será capaz de ter total controle sobre sua mão. Triste. Fraco. Frágil.

Os outros garotos correm. Passo atrás de passo. Largaram seu líder ali desacordado, quebrado, diante de mim. Na minha frente pessoas correm de medo, atrás de mim pessoas correm para o socorro. O que fez Alice? Pouco importa. O que vou fazer? Será difícil de explicar isso para alguém. A menina esta para dobrar a esquina dos corredores, em menos de alguns segundos seus olhos poderão ver. Em alguns milésimos de segundos a informação vai chegar ao cérebro dela. Vai demorar um pouco para ela acreditar na cena, o que me dá um pouco de vantagem. É melhor eu partir. E Ted? Ficará aqui? Levo-o à enfermaria? E o sangue? E os ossos trincados? Ted fica, eu parto. E a garota? Ela merece ver isso? Ninguém merece isso.

Eu deveria consertar isso?

É um mundo simples. Frágil e belo. É um mundo de papelão.

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II.

Anos depois, descobri que Ted morreu só. Seu braço jamais foi o mesmo. A menina que viu Ted largado e com ossos trincados perdeu a sanidade. Ela pensa que tem sempre alguém vigiando ela o tempo todo. Tem certo horror por espelhos. Fui eu quem fiz isso. Fui eu quem fiz isso?

Depois daquele dia, o conselho de meu pai se tornou ainda mais valioso. Essas amarras têm lá suas vantagens. Eu queria uma vida de paz.

Mas como disse, não sei se os seres humanos são bons ou maus por natureza. A única certeza que tenho é que eles são violentos. E cá estou metido nesse mundo. "Vê essa estação de trem? Você pode pegar qualquer um, mas aonde você quer chegar, meu filho? Aquele trem ali, por exemplo, vai te deixar mais perto ou mais longe do seu destino." O velho era bom. Tenho que admitir. Tudo posso, mas nem tudo me convém.

Eu queria uma vida de paz. Eu queria. No entanto, isso não é possível quando se pode escutar o mundo todo, o tempo todo.

Há muito tempo atrás me peguei vivendo em uma cidade grande. Filtrar minhas potencialidades é uma espécie de exercício do sossego.

Ao deixar que tudo se expanda que tudo me seja acessível posso, por exemplo, ouvir um grupo de homens armados torturarem um cara que lhes deve dinheiro. Devo consertar isso?

Mulheres são agredidas, pessoas são presas, crianças são abusadas. Que lugar doentio! Ignorar tudo isso não soluciona o caso. Saber disso tudo me quebra por dentro.

Invejo os seres humanos. Eles, quando querem esquecer, se entorpecem. Por alguma razão, essas coisas não funcionam comigo. Então, eu lembro. Então eu sei. Eu sei e eu lembro o tempo todo.

O tempo todo.

Houve um caso em que eu soube e lembrei por muito tempo.

Ela estava acorrentada. Era apenas uma garota. Seus dentes foram todos arrancados. Seus olhos expulsos do crânio por pancadas. A cadeira em que seu corpo deu o último suspiro estava suja de merda e mijo. Pude sentir o cheiro de seu medo a muitos quarteirões de distância. Cheguei tarde demais para salvá-la. Eu deveria ter consertado essa!

Fui lento demais para salvá-la. Fui rápido o suficiente para pegá-la. Não a criança, mas a mulher que fez isso.

Como sou tenho uma sensibilidade maior, também sei onde dói mais. Aquela noite foi longa. Até mesmo para mim.

"Tudo você pode, mas nem tudo te convém." Velho sábio. Jonathan Kent.

Hoje, tudo será conveniente.

Agarro o pé de cabra. Hoje, tudo será conveniente.



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