DEZOITO ANOS

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Estela estava estática, paralisada com o bastão de giz branco na mão e com as lentes dos óculos quase tocando o quadro negro. Às suas costas, o vozerio irritante concorria com a confusão pulsante da própria mente. A despeito do sopro gelado do barulhento condicionador de ar, filetes de um suor ainda mais frio rolavam pelas têmporas aflitas da mulher. Não tardou para que a irritação se traduzisse na mão espalmada contra o objeto de trabalho. As unhas curvas deslizaram sobre o verde escuro da madeira arrancando gritos desesperados da peça. Ela não estava certa se era atenção o que queria, isso ainda não estava claro em seus pensamentos. No entanto, de qualquer forma, o gesto intempestivo fez com que todos os rostos se voltassem em sua direção, numa comunhão de mudez e estarrecimento.
A professora sempre fora uma pessoa reservada, pelo menos essa era a visão que tinham dela. Porém, o que os estudantes do supletivo ignoravam era que tal recato respondia muito mais pelo peso do fardo que carregava do que propriamente por ações meticulosamente calculadas pela discrição. Estela era um vulcão prestes a explodir. Ela já não suportava mais a vida que levava.
Embora fosse vista como uma bela mulher, de corpo esguio semelhante ao de uma modelo de passarela, complementado por um rosto de linhas finas e simétricas, tendo o profundo azul dos olhos quase sempre protegido pelas lentes reflexivas presas por uma armação dourada. Apesar de tudo isso, não era assim que se sentia. E, definitivamente, essa não era ela.
Estela era seca. Tinha o corpo ressequido, embora não parecesse. Sua alma, se é que ainda possuía uma, se mostrava tão negra quanto o rancor e o ódio que trazia no coração. Em seu peito, ela nutria o desejo de arrancar a própria pele com as longas unhas que, naquele momento, deixavam cicatrizes profundas na madeira. Mas ela não podia. Sabia que não poderia fazer isso. Só havia uma saída para os problemas que a dominavam, e não era através de um ato de automutilação.
Ao se virarem para os alunos, os olhos da professora vaguearam por cada recanto da sala. Sem interesse. Sem propósito ou perspectiva. Apenas como uma nuvem que passeia sem pretensões pelo céu. Um manto negro e ameaçador. Ao pensar nisso, deixou escapar um suspiro. Era aquela época do mês. Um período tão difícil que seria impossível descrevê-lo, ainda que quisesse fazer isso.
A desolação do seu pesar parou quando seu olhar se deparou com o da menina que a fitava fixamente. Embora sua situação não permitisse grandes análises individuais das dezenas de rostos que encarava ao longo dos anos nos cursos que ministrava nas escolas públicas, Estela sabia muito bem quem era aquela garota. Sabia seu nome. Nutria, em segredo, um especial interesse nela, desde que descobrira, por acaso, mais detalhes sobre sua vida.
Clarisse. Esse era o nome da aluna. Era a estudante mais nova daquela classe noturna. Completara dezoito anos no dia anterior, uma data muito especial e desejada.
Mesmo depois de se deparar com as indicações que tanto buscara, objetivo maior que a fez se tornar professora, Estela não tinha, até aquele momento, pretensões de investir numa tentativa de aproximação, ela não achava que possuía aptidões para relações interpessoais. Na verdade, ela ansiava e, ao mesmo tempo, temia por aquele momento. E, na hora exata, agiria de forma mais direta e impulsiva. Esse era o planejado. Entretanto, o olhar lançado pela garota parecia lhe permitir, ou melhor, parecia lhe desafiar a um contato fora do âmbito escolar.
A eternidade daquele momento se quebrou com o grito estridente da sirene. A face fria do relógio marcava vinte e três horas. Último período. Final das aulas naquela quinta-feira.
Os alunos, pessoas que tentavam recuperar o tempo perdido, pais e mães ansiosos por voltar para casa, gente que pretendia de alguma forma melhorar um pouco na vida, se dispersavam rapidamente pelos corredores. Clarisse deixou a sala de aula por último, porém, antes de cruzar o vão da porta, lançou um último olhar para a professora, num claro convite mudo.
Estela, por alguns instantes, se manteve impávida, torcendo os nós dos longos dedos, enquanto uma nuvem de pó de giz descia lenta e branca até o chão. A porta se fechou tirando-a do transe e, ao mesmo tempo, fazendo brotar um sorriso dissimulado em seus lábios.
A professora recolheu rapidamente os pertences e saiu em disparada pelas dependências do prédio. Pretendia vencer rapidamente as escadarias dos três andares do imóvel. Ela trazia o conforto de saber que mesmo se desencontrando da garota, ainda sabia onde ela morava. Isso trazia um pouco de alento ao seu coração, embora a mínima chance de perdê-la trouxesse uma dor muito mais intensa do que qualquer convicção de sucesso.
Chegando ao pátio do estacionamento, mais de quinze minutos já haviam se passado desde o toque da sineta. Ela girou a chave na ignição e, pela janela aberta, olhou para os céus como se pedisse sorte. Deu a partida e seguiu pelas vias estreitas que conduziam ao anonimato das ruas.
Com as mãos trêmulas ao volante, Estela circundava o quarteirão em busca daquela que colocaria um fim na sua vida de danações. Um quarteirão levou a uma quadra e daí para as saídas do bairro. Vinte minutos mais. Nada de Clarisse. Nada de sorte lhe sorrindo. Decidida, se preparava para seguir rumo à residência da garota. O semáforo à frente lhe oferecia a face avermelhada, mas ela não pensava em reduzir a marcha, mas o veículo logo adiante tratou de cortar-lhe as pretensões. E foi aí que o destino e a sorte finalmente pareceram lhe estender a mão.
Clarisse descia do automóvel parado no sinal, e caminhava com um sorriso aberto em sua direção. Uma pontada lancinante pareceu lhe atingir o estômago, de uma forma literal por assim dizer. Estela tentou conter um grito, o som saiu entrecortado.
A garota parou diante da porta do carona e, sem qualquer cerimônia, se sentou ao lado da professora no exato momento em que o aparelho luminoso mudava de tom.
Estela não conseguia esconder o nervosismo. Não foi difícil se lembrar dela mesma naquela situação. Dezoito anos recém completados, a vida toda pela frente. A presença de um magnetismo contra o qual não se pode lutar. A dor. O desejo. A danação. Não era como as pessoas pensavam. Não havia grandes mudanças físicas. A mudança era muito mais sutil, quase imperceptível aos olhos despreparados do mundo. O verdadeiro clamor estava no interior. Uma torrente selvagem e impiedosa que só se volta para uma direção. E ela sentia que estava próxima. Era possível perceber pelo aroma espalhado pelo ar, pelas pontadas secas no ventre, pela aceleração do coração.
Clarisse pousou a mão no ombro da professora. Um sorriso doce parecia lhe oferecer conforto, mas Estela queria mais, muito mais do que a garota talvez estivesse disposta a oferecer. Quanta ingenuidade, pensou. Se deixar levar por uma improvável situação. Seria possível até sentir pena, se não fosse a urgência da situação.
O veículo seguiu pelas ruas por cerca de dez minutos. Chegaram a um descampado. De lá, do alto, era possível enxergar as luzes da cidade. Um local reservado. Escondido. Perfeito para as atividades pouco regulares que estavam prestes a acontecer.
Clarisse se aproximou mais. Chegou tão perto ao ponto de Estela perceber as notas delicadas da menta que revestia seu hálito. A professora recuou por um instante. Olhou para fora, para o alto. Saiu do carro ficando ao alcance das luzes dos faróis. Um formigamento irrefreável, incômodo, perturbador dominava-lhe por completo. Ela ardia, queimava numa súbita febre estritamente interna, algo que não chegava à superfície encharcada de sua epiderme. Permanecer vestida parecia impossível. As roupas foram largadas ao chão de barro. As linhas sinuosas e alvas do corpo da mulher ficavam evidentes sob a luz, que naquele momento, respondia apenas pelo luar, visto que Clarisse, ao descer do automóvel, tratara de desligar os olhos artificiais, talvez para preservar ainda mais o segredo.
A quinta-feira já havia ficado para trás. A garota lançava olhares desejosos para o que via. A mulher, que ela conhecia como professora, retribuía o olhar de cobiça. No entanto, o que ela desejava passava longe do que a situação parecia sugerir. Ela só pensava num meio de deixar para sempre o fardo que há anos carregava. A aparência que ostentava não era a dela, não a verdadeira, a Estela real há muito estava enterrada no tempo, para sempre com dezoito anos. O corpo, que naquele momento se mostrava ali, por completo, não passava de um sortilégio, um embuste para servir de atrativo aos seus próprios interesses, algo que parecia funcionar muito bem naquele momento.
Para quebrar de uma vez por todas o enlace maligno que a faz, todo mês, percorrer as ruas em busca de conforto para as dores lancinantes lançadas pela incurável fome, seria preciso provar a carne de uma jovem cujos dezoito anos fossem preenchidos na primeira lua cheia da quaresma, como ela mesma fora um dia. Assim, o fardo seria transferido imediatamente.
Não havia pelos espessos em seu corpo, tampouco gritos e osso retorcidos. O folclore acerca de sua figura passava longe da verdade. A fome, essa sim era real e presente.
Clarisse caminhou à frente com passos vacilantes. Seus braços buscavam a figura que respondia muito mais para uma fera do que para a professora que julgava conhecer.
O abraço se mostrou muito mais intenso do que ambas poderiam supor. As garras curvas do demônio buscaram as costelas da garota, rompendo tecidos de algodão e pele. O sangue pecaminoso escorria farto, pingava no chão. Os dentes aguçados da mulher buscavam a maciez da omoplata alheia, enquanto a garota olhava para o céu e sorria. O sorriso de Clarisse superava os limites da felicidade. Era impossível descrever o quanto exultante estava. Finalmente conseguia realizar aquilo que tanto ansiava. A lâmina de prata repousava, naquele momento, suave e serena na nuca da professora. O líquido negro e viscoso deslizava pelas costas nuas de Estela, que sem nada entender, sentia a força deixar seu corpo. Dois anos antes, o namorado de Clarisse teve a infelicidade de cruzar o caminho da fera. A busca pela vingança se mostrou tão longa e meticulosa quanto a própria procura realizada pela professora, a qual, prostrada e vencida, lançava pela última vez o olhar suplicante para a lua, que do alto, amarela e redonda, apenas lhe oferecia um sorriso de indiferença.



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