ERVA-DOCE

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    Sempre fui de gostos um tanto peculiares. Tenho grande afeição por coisas estranhas, e aprecio enormemente quem tem a ousadia e originalidade de cria-las. Melodias melodramáticas, histórias grotescas, imagens traumatizantes. Nada disso me faz ter medo ou qualquer sentimento de repulsa. Pelo contrário. Todas essas coisas, que causam pavor e vibrações ruins na grande maioria das pessoas, me fazem sentir vivo. Me fazem sentir confortável.

    Moro com a minha avó. Ajudo-a sempre com as tarefas de casa. Vou ao mercado pra ela de vez em quando, e ela sempre acaba me dando algum trocado em retribuição. Carrego-a pra lá e pra cá, empurrando a abominável cadeira. Subir e descer as escadas é o mais difícil. Se ao menos fosse uma casa pequena, seria tudo mais simples. Mais proporcional, sabe. Apesar da idade, a pobre velhinha ainda é um pouco teimosa quando quer. Quer tudo do jeito dela. Já lhe disse que as coisas nem sempre são do modo como queremos que sejam. Mas não adianta. Oh, velha teimosa! Seu corpo flácido e gasto as vezes me dá um certo nojo, tenho que confessar. Mas quando toco sua face, o que sinto são pequenos e intensos arrepios que percorrem minha espinha e todo o meu corpo.

    Meu avô morreu a pouco tempo. E desde então, somos só eu e ela. Meus pais? Não os conheço, nem sei quem são ou onde estão, nem mesmo sei se ainda estão vivos. Mas nem faço questão. Sei que você vai me condenar ao dizer isso mas...prefiro que estejam mortos. Assim, será melhor para todos nós. Estou bem, vivendo aqui. Apesar de estar começando a pensar seriamente no quanto minha vida e minha rotina poderiam ser melhores bem longe daqui. Mas logo afasto este pensamento tolo. Meu lugar é aqui. Sempre foi. E vai continuar sendo.

    Vovó está sentada agora, vendo Tv. O silêncio dentro dessa casa é como uma doce melodia aos meus ouvidos. Vou até a cozinha, preparo um sanduíche de presento e queijo, e caminho em direção à sala, me juntando a ela no espaçoso e confortável sofá. Sinto-me relaxado. Vovó também. Ela olha para mim e sorri. Ela me ama. Sei que me ama. Um amor incondicional. Um amor totalmente inabalável. Eu também a amo. Muito. E é por isso que não conseguiria suportar sequer um dia na face desta terra se soubesse que ela estava infeliz ou se sentisse incompleta, de alguma forma. O cheiro ainda paira pelo ar. Malditos mosquitos! Vez ou outra aparecem, só para me tirar do sério. Mas eu estou calmo. É. Eu estou, sim. Bebo uma xícara de chá. Erva-doce. Vovó adorava Erva-doce. Era o chá predileto dela. Sim, era. Agora ela já não consegue mais beber. Eu até tento dar essa alegria à ela. Mas toda vez que tento introduzir o líquido em sua garganta, acaba sempre voltando.

    Já me decidi. Não aguento mais todo esse cheiro. Está na hora de levar a vovó para outro canto, onde cause menos fedor e atraia menos mosquitos. Malditos mosquitos! Criaturas chatas e estranhas. Tudo bem que gosto de coisas estranhas. Mas não deles. Eles me deixam irritado. E eu não gosto nem um pouco da ideia de estar irritado.

    Vovó que me perdoe, mas agora terá que ficar no sótão. "É só por um tempo, vovó. Não se preocupe." "Logo acharei um lugar melhor." Depois de carregar o corpo, que apesar de velho, é um tanto pesado, vou até a cozinha, para ver o que tem reservado para o dia de amanhã. Parece que esse será o prato do almoço do dia seguinte. Sim. Parece suculento. Já faz um tempo que está ali. Um dos últimos pedaços daquela carne. Mas essa eu não comprei. Conquistei. Me pertence como um troféu. E amanhã será meu banquete. Bem ali, na penúltima prateleira de minha geladeira, está o último pedaço. Ali está tudo o que restou do meu querido e falecido avô.

    Queria que ele estivesse aqui agora. Sim, vovô. Ele mesmo. Poderia estar me fazendo companhia agora, se não tivesse me deixado tão irritado naquela noite...E, você sabe, detesto me sentir irritado. Detesto, detesto me sentir assim. "Ah, vovô! Por que o senhor foi ser tão teimoso? Poderia estar vivo agora. Poderia, nesse exato instante, estar sentado ao meu lado, saboreando uma bela xícara de chá. Do melhor sabor, claro. Erva-doce. Bem forte e bem doce. Do jeitinho que eu sei que o senhor gosta."

 

- Giliarde Felipe de Jesus



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