Inferno

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"O Diabo pode pensar que é o Diabo/Mas Deus sabe que o Diabo é Deus" (Fernando Pessoa).

A lua brilha por entre nuvens carregadas. Tanto o prenúncio de uma garoa quanto a beleza da paisagem são indiferentes a Cornelius, o vigia noturno do laboratório forense. Seus olhos meio ocultos por lentes grossas atentam ao livro O Homem que Apostou sua Cabeça com o Diabo, de Edgar Allan Poe. Assim como tudo em sua vida, a chuva leve passa por ele sem ser percebida. A atenção do vigia é quebrada por um telefonema informando sobre uma autópsia de última hora.

Quarenta minutos se passaram até que a médica legista e diretora do laboratório, Dra. Luna, chega acompanhada por Yumi, a especialista em fotografia, ambas irritadas com o horário e a chuva. O contraste entre a loira voluptuosa e a japonesa intriga o vigia que é ignorado pelas duas, elas passam por ele e sua pilha de livros sem notar sua existência.

Pouco depois uma viatura com três agentes forenses deixa um cadáver e se vão abandonando um homem alto e esbelto em seu sobretudo alinhado. Esse dirige-se ao vigia, sem falar nada ergue um de seus livros Hamlet. Ele não consegue esconder o nojo por tocar em um pertence de Cornélius.

- Pois não? – o insignificante homem pergunta ao elegante.

- Sou o Detetive Fausto.

- Da obra de Goethe?

- Quem?

- Fausto, o homem que descobre ter desperdiçado sua vida e em troca de uma nova chance vende sua alma ao diabo.

- Que seja. A médica legista está? Vim acompanhar o corpo.

Lentamente Cornélius sai de seu posto e empurra a maca onde jaz o corpo, seguido de perto pelo detetive. Novamente o contraste se evidente: o vigia velho, curvado, tímido, o detetive alto, belo e confiante. Os dois entram no laboratório onde as mulheres esperavam.

- Você deve ser o policial? – Luna interroga com ar seco, a dama de ferro da sociedade forense impecável em seu terno e rígida no olhar.

- Detetive Fausto. Eu não comando o trânsito para ser chamado de policial.

- Claro detetive – sua voz fica ainda mais seca- deve ser algo muito importante para me trazer ao trabalho fora do expediente.

- Não reclame comigo – Fausto caminha em direção do corpo – o caso trouxe repercussão negativa e alguns figurões o querem solucionado rapidamente.

- Não me interessa os figurões – Yumi atravessa a conversa – só quero saber o que estou fazendo aqui.

- Você deve ser a professora e especialista em fotografia.

- Me chame de Yumi.

- Prazer Yumi, doutora Luna, permitam-se explicar: Esse corpo foi encontrado dentro de um prédio abandonado que outrora fora uma escola católica. Após um exame superficial percebemos discrepâncias importantes. A primeira delas: suas roupas, cabelo e pele estão muito bem preservados sugerindo uma morte ocorrida há poucas horas, toda via o corpo foi encontrado emparedado num prédio abandonado.

- Emparedado? – Yumi não esconde sua curiosidade e terror.

- Sim, foi descoberto quando a parede desmoronou pelo efeito do tempo. A segunda discrepância: os objetos encontrados com o corpo, objetos particulares, datam de trinta anos atrás.

Luna abre o saco de defuntos revelando o cadáver de uma jovem em perfeito estado de conservação.

- Esse cadáver tem trinta anos?

- Exato. Jornalistas de diversas publicações já sabem do corpo e vão publicar amanhã com os títulos mais sensacionalistas que você poça imaginar. Por isso a urgência, precisamos de argumentos para replicar.

- Esse tipo de coisa pode ser perigosa – Luna explica – superstição costuma atrair pessoas de mente rasa e dispostas a acreditar em tudo.

- Como?

- Esse é um caso estranho detetive, não nego, mas existe uma explicação e mesmo a explicação em cima da hora pode vir tarde. Cada um enxerga aquilo que deseja ver. Em uma sociedade que cultua o charlatanismo um corpo como esse pode ser perigoso.

- E quanto a mim? – Impaciente Yumi interrompe dos dois.

- Encontraram isso com ela – o detetive levanta uma máquina fotográfica da década de oitenta – tentamos examinar o filme – exposto em sua outra mão – mas sem resultados a ação do tempo foi severa.

- Você quer que eu analise o filme e descubra o que tem nele?

- Pode ter alguma pista sobre sua morte ou sobre a identidade assassino.

Os três permanecem em silencio com a ideia de um assassino, Yumi dá um passo para trás. A expressão no rosto dos protagonistas muda, pareciam voltados para si, algo os incomoda mas não sabem dizer o que.

- Estranho – o detetive quebra o silêncio – me senti angustiado.

- É o que a morte faz - Luna racionaliza rapidamente – você está diante de um cadáver jovem em um laboratório forense no meio da noite. Você é humano detetive.

Sem dizer mais nenhuma palavra a doutora empurra a maca com o cadáver para a sala de autópsia deixando os dois a sós.

Yumi pede licença indo para uma segunda sala, onde senta-se na frente do computador começando a escancear os negativos, um trabalho tedioso e sem muito glamour, mas que ela orgulha-se em ser boa.

Vendo-se sozinho o detetive olha pela janela, Cornélius voltou ao seu posto e ao seu livro, sem vontade de juntar-se ao homem Fausto caminha em círculos. O peso em seu peito aumenta e ele deita em um sofá tentando descansar até sentir sono.

Dentro da sala de autópsia Luna faz os primeiros preparativos, ela troca seu terno feminino por uma roupa de cirurgia assexuada, veste luvas e touca, mas fica estagnada enquanto observa o rosto do cadáver, era uma menina muito bonita, a médica observa cuidadosamente os traços delicados, seu cabelo aloirado por sobre a pele pálida, os lábios grossos, o nariz fino, levemente empinado, pensa na juventude, nos desejos de adolescência, nos meninos, nos estudos "que tipo de mulher você quer ser? ".

Na outra sala Fausto cochila levemente, o suficiente para sonhar: estava em um jardim de infância, observando meninos e meninas brincando em um parquinho. Uma cena que geralmente o relaxa, mas não naquela noite. O detetive sente algo que não devia e não sabe o que é. Seus olhos são atraídos por um casal de crianças armando um castelo de areia. Assustado tenta tapar os olhos e acorda com o rosto coberto pelo suor.

- Estou trancado com duas lindas mulheres. Uma gostosa, mas frígida e outra que parece uma garotinha, refugiada de algum anime. Não sei se deveria ficar angustiado ou excitado.

Na outra sala Yumi olha entediada para a tela do computador, essa mostra um quadrado cinza com uma barra verde 20% analisado suas pernas cruzadas revelam coxas não condizentes com a aparência infantil.

A perita vira o rosto na direção da porta percebendo o detetive com olhar fixo em suas pernas, os dois ficam desconcertados. Fausto sente necessidade de pedir desculpas, mas se contem.

- A análise vai demorar uns quarenta minutos– ela quebra o silencio.

- Vocês fotógrafos não usam mais uma sala escura e água?

- Usamos – ela sorri – infelizmente é cada vez mais raro, foi tudo substituído por programas de computador. Eu mesma desenvolvi esse para potencializar negativos. Posso revelar filmes corroídos pelo tempo e otimizar qualquer detalhe com ele.

Yumi levanta-se esticando as costas, em seguida joga algumas revistas no colo de Fausto, são revistas especializadas em fotografia, com algumas páginas marcadas. Nessas páginas lindas fotografias da natureza. Na primeira o por do sol na África com chitas sentadas a sua frente em um perfeito contraste entre o marrom e o laranja; na outra uma tartaruga marinha tomava duas páginas. A água translúcida e o azul esverdeado do animal criavam um efeito único. Ambas as fotos assinadas por Yumi.

- Essa fotografia da tartaruga marinha me rendeu um prêmio.

- Linda.

- Sim, a natureza é linda sem ter que se ostentar – sua expressão muda e ela sussurra – mas prêmios não trazem dinheiro.

O computador emite um aviso atraindo a atenção de Yumi, rapidamente digita alguns comandos e a análise continua.

- Não vou conseguir revelar uma das fotos, mas terei o negativo ampliado para trabalhar.

- Por que não?

- Não sei, só saberemos ao término da análise. Mas terei seu negativo. Pode ser útil de toda forma.

- Você é muito premiada?

- Sou respeitada em um círculo muito estreito, mesmo sendo talentosa não passo de uma subordinada ofuscada por estrelas como Luna.

- Por que continua?

- Sou uma fotógrafa, portanto uma artista, como você deve imaginar é difícil sobreviver da arte.

A atenção do detetive é quebrada por risos de crianças Yumi estranha à reação dele, ela não consegue ouvir as crianças, transtornado Fausto faz um sinal para ela permanecer onde estava e sai da sala do computador em alerta procurando por algo invisível.

Na sala ao lado Fausto encontra-se sozinho, ele busca por qualquer sinal, nada, o laboratório estava vazio exceto pelos três e pelo vigia. Finalmente ele se convence de ter ouvido coisas e prepara-se para voltar para a japonesinha que parecia estar caindo na sua quando ouve crianças correndo em um corredor atrás de si.

Fausto não sente-se bem, o ambiente começa a girar e ele cambaleia com um pouco de náusea e muita culpa, sentindo suas forças se esvaindo ele alcança o sofá. A culpa é devastadora, pelo que? O que era aquilo? De onde vinha?

Na sala ao lado Luna continua paralisada observando o cadáver sem conseguir se mexer. Algo naquela garota morta a atrai, a médica sente uma mistura de repulsa e desejo. Sua mente racional a impedia de entender qualquer coisa. Sem pensar ela corre para dentro de um pequeno banheiro na sala de autópsia.

A média lava o rosto e olha-se no espelho "que tipo de mulher você quer ser?":

- Eu me dizia isso na universidade, meus colegas, futuros médicos, eles saiam para beber enquanto eu estudava. O que eu queria ser: uma clinica geral escondida em um hospital de plano de saúde ou uma referência na medicina?

Lava mais uma vez o rosto e encara-se no espelho quando é invadida por memórias da infância: uma tarde após ficar brincando com meninos sua mãe lhe pergunta "que tipo de garota você quer ser?".

Luna desliga a torneira, apaga a luz e volta para a sala de autópsia, nada a preparou para o que viu: o cadáver da garota havia sumido, assim como a mesa de autópsia em seu lugar um altar onde se realiza uma orgia. Luna cai de costas, a sala voltara ao normal, o cadáver continua ali.

Cornélius consulta seu relógio, era hora de mais uma ronda, pateticamente ele fecha o livro, arma-se de sua lanterna e chaves de duas dezenas de portas. Lentamente caminha pelo prédio, após uma breve reflexão decide evitar o local da autópsia: "Eu não sou ninguém para estar no mesmo lugar da Dra. Luna e dos outros dois, pessoas importantes".

Com andar curvado e passos lentos o velho segue seu caminho com o conto de Poe Nunca aposte sua cabeça com o diabo em mente, em especial um trecho que recita em voz alta: um pobre diabo sem sorte na vida.

Ao mesmo tempo, na sala do computador Yumi se frustra, aquele fora o pior fora que ela levou, ao mesmo tempo fica aliviada, não precisava de mais um louco fracassado na sua cama "se ainda fosse um general ou o chefe de polícia" sussurra sabendo que ninguém a ouviu. O computador emite um sinal, a análise estava concluída.

O monitor exibe várias fotos da garota e suas amigas dentro do colégio, no pátio, no dormitório, todas sorrindo. Yumi percebe algo na expressão da garota morta, seu sorriso ia perdendo o brilho, aquele era um rolo de trinta e seis fotos, a cada imagem o sorriso torna-se menor até desaparecer, olheiras começam a surgir, um olhar desconfiado. Por fim a foto não revelada.

Luna, Fausto e Cornélius ouvem o grito estridente e dolorido de Yumi. O detetive estava mais próximo e invade a sala do computador. Está vazia, Luna chega um pouco depois, ambos olhavam assustados para o nada. Havia algo ali, podiam sentir, só não sabiam dizer o que.

Fausto toma a frente e de maneira cautelosa caminha ao encontro do computador, ele encontra um pouco de sangue no chão, rapidamente saca sua arma, Luna gruda em suas costas.

- Espere lá fora.

- De jeito nenhum. Fico atrás de você.

- Pode ser perigoso.

- Por isso mesmo eu fico com você, me proteger é a sua obrigação.

Fausto suspira longamente e segue as gotas de sangue com o olhar elas rumam para uma porta lateral. Após uma rápida avaliação o detetive prossegue. Luna acompanhava de perto.

A porta dá para um corredor, mais sangue, dessa vez abundante, principalmente na parede como se alguém com as mãos ensanguentadas tivesse se apoiado. Os dois ouvem um gemido.

O corredor está escuro e a sala do computador é a única fonte de luz, é impossível enxergar cinco metros a frente. Um gemido vindo do breu os faz estremecer. Fausto empunha sua arma "quem está ai?" Um grito que invade o corredor assustando-os. Fausto percebe um vulto cambaleante.

O vulto caminha pela escuridão tropeçando, suas mãos apalpavam o ar desorientado, por vezes esbarra na parede. Tentando controlar seu medo o detetive faz a mira no que acredita ser o centro do vulto.

Aquilo se aproximar da luz, com a revelação o medo torna-se náusea. Era Yumi com as mãos sujas de sangue, suas orbitas oculares vazias, onde outrora haviam olhos agora buracos com marcas de unhas em torno dos orifícios e sangue escorrendo.

- O aconteceu com ela? – Cornélius surge com sua lanterna atrás dos dois os assustando.

Luna toma a frente envolvendo a garota cega com os braços a levando através da sala de computador até um consultório onde começa a limpar o sangue.

Os homens continuavam no corredor, Fausto guarda sua arma, enquanto Cornélius tenta entender o que viu.

- Quem faria uma coisa dessas com aquela garota?

- Não sei, alguém entrou depois de nós Cornelius?

- Não senhor, acabei de terminar minha ronda. O prédio está vazio com exceção de nós quatro.

- Então você não olhou direito. Quem a atacou entrou antes de nós ou enquanto você lia.

Irritado o detetive volta para a sala do computador seguido pelo vigia. Fausto nota o computador, uma ideia passa por sua cabeça e se a análise tivesse completa? E se quem atacou Yumi queria omitir provas? Assustado com a possibilidade ele aperta uma tecla e o que vê é ainda mais assustador.

Na tela um negativo mostra a garota do necrotério ainda com vida em uma imagem muito estranha: A garota apenas de lingerie, com expressão de Medo sendo puxada para dentro de uma porta atrás dela uma figura escura com chifres segurava o seu ombro. A menina parecia ser tragada. A surpresa e o medo em seus olhos prende a atenção dos dois homens.

Fausto não sabe o que pensar, a cena do parque invade sua memória, Cornélius parado atrás dele, é tomado pela solidão e lágrimas brotam em seus olhos.

- Isso é ridículo! – Fausto tenta recuperar o controle.

Minutos depois Luna junta-se aos dois homens e examina fotografia, sua postura cética contrasta com o desespero de Fausto e a introspecção de Cornélios. A doutora irrita-se.

- Vocês só podem estar brincando comigo, Yumi foi gravemente ferida e vocês me mostrando uma montagem!?

- Como sabe disso doutora? – Cornélius quebra o silêncio.

- É a única explicação seu idiota, essa foto mostra uma adolescente se divertindo com os amigos, é o que "essa gente" faz: reza de dia e sai trepando de noite. A fotografia só não ficou boa. Fim do mistério.

- Não – Fausto dá um passo à frente – temos que descobrir quem atacou Yumi.

- Como eu disse fim do mistério – sua voz estava grave e respeitosa – Yumi atacou a si mesma, acabei de limpar seus ferimentos, onde encontrei marcas de unhas em torno dos orifícios oculares e pedaços de pele embaixo de suas unhas.

- Não consigo entender...

- Ouça detetive, essa não é minha especialidade, mas a psiquiatria relata casos de surtos psicóticos onde pessoas se mutilam, inclusive casos com automutilação ocular. Aquela garota deve ser instável e ao ver a fotografia surtou.

- Eu quero falar com ela.

- impossível! Eu a sedei.

- Sedou? Por que fez isso?

- Deixe-me ver, seria porque ELA ARRANCOU OS PRÓPRIOS OLHOS?! Eu a sedei primeiro para nossa segurança, em segundo lugar para a segurança dela e em terceiro lugar por que ela sentia muita dor.

- Ok, pergunta idiota a minha.

- Novidade.

- E a autópsia, o que descobriu?

A postura de Luna muda, ela entra na defensiva e volta seu olhar para o chão.

- Ainda não terminei.

- Por favor ande com isso, eu vou pedir uma ambulância para Yumi.

Irritada por receber ordens de um qualquer Luna deixa a sala pisando firme e volta para a sala de autópsia "só porque é um pouco bonito fica se achando, rapaz estúpido, bruto, deve maltratar suas mulheres".

Fausto pega o telefone, o leva a orelha, bate algumas vezes no gancho e o desliga.

- Mudo.

- Pode ser a tempestade.

- Pode ser. Cornélius certo?

- Sim senhor.

- Venha comigo, vamos fazer outra ronda.

- Senhor?

- Eu não engulo essa de automutilação.

- Quanto a fotografa?

- Luna está cuidando dela. Encontrar o responsável é mais urgente.

Os dois homens adentram no labirinto escuro que era o prédio do Instituto Médico Legal, o zelador atrás iluminando o caminho com sua lanterna, Fausto vai à frente de arma em punho, os dois angustiados.

Luna observa o corpo da garota, a imagem da fotografia lhe vem, ela sorri sadicamente, um ódio nunca antes sentido a invade.

- Então você era esse tipo de garota? A putinha da escola.

Ela aproxima-se do cadáver passando as mãos por suas pernas "quantos homens entraram?", memórias de sua faculdade de medicina surgem, sua colega de quarto fazendo sexo enquanto ela estuda para a prova na cama ao lado "Putinha, teve o que mereceu" mais memórias dela brincando com os meninos: "que tipo de mulher você quer ser"; sua adolescência onde caminhava de cabeça erguida, muito bonita chamando a atenção dos rapazes, ela os ignorava com um sorriso sádico "que tipo de mulher você acha que eu sou?".

Sem perceber Luna acaricia o corpo nu da garota enquanto é invadida por suas memórias, sua mão entra na calça azul clara da autópsia começando a se masturbar, um gemido de prazer, morde os lábios. Os olhos abertos, ela se vê no espelho e grita de nojo.

Fausto entra em mais uma sala, escura e vazia. Os aparelhos médicos refletem os pingos da chuva. Ele percebe algo que não deveria estar ali, o som de crianças rindo, como se soubessem de um segredo, mas não fossem contar.

- Você ouviu isso?

- O que?

Os homens ouvem Luna gritar e correm o caminho de volta, furioso Fausto não admite que brinquem com ele. De volta a sala onde havia cochilado mais cedo. Nada!

Fausto e Cornélius invadem a sala de autópsia encontrando o corpo da garota intacto sobre a mesa.

- Ela nem começou? Aquela médica filha da puta nem começou a autópsia?

Yumi atravessa a sala atrás deles gemendo de dor, os curativos em seus olhos estão empapados de sangue, Cornélius a abraça gentilmente. Um raio ilumina a sala, Luna corre nua e entra em um corredor escuro, seu riso/choro são ouvidos a distância. Parecia uma loucura contagiosa. Yumi grita em desespero e cai de joelhos.

- Yumi – Fausto vê sua chance – o que aconteceu?

- O diabo... eu vi o diabo e ele me mostrou... ele me mostrou.

- A foto?

- Ele me mostrou quem eu sou!

- Não, não, não, não... – o detetive começa a entrar em choque.

- Sim! Eu vi!

Yumi urra em desespero enquanto arranha os curativos, Cornélius tenta segurar suas mãos, o descontrole deixa a garota forte. Sem alternativa Fausto a algema para que não se machuque ainda mais.

- O que está acontecendo Cornélius?

- Elas viram o inferno.

- Por favor.

- Todos temos um lado obscuro que escondemos de nós mesmos, por isso precisamos do diabo, ele nos dá uma licença, uma desculpa e alguém a culpar. Tudo por um preço.

- Virou filósofo?

- Não, eu apenas observo, observo e leio muito. Sartre disse que o inferno está nas outras pessoas, mas e se ele tiver errado? O que são as outras pessoas se não espelhos de nós mesmos? Pense nisso detetive, nós odiamos as pessoas porque elas mostram o que odiamos em nós.

- Besteira!

- Não os perdoamos pelo incômodo, cada um tem um lado que deseja ocultar, na maior parte das vezes conhecemos esse lado através dos outros.

- Cale a boca velho!

- Não sou velho, só pareço um porque desperdicei minha vida, não sou velho, mas fiquei velho. É tarde demais para todos nós.

- Preferia quando você ficava em silêncio.

- Não entende? Você não consegue perceber? Essa noite cada um de nós foi colocado de frente com o próprio inferno. Essa coisa, essa foto reflete o demônio que existe em nós.

Fausto saca sua arma e aponta para Cornélius, com lágrimas nos olhos e dentes cerrados o detetive é a imagem do ódio. "Nem mais uma palavra velho". O zelador reflete a dor de não estar vivendo, seus olhos falam "por favor atire, acabe com minha dor".

Fausto recua e corre por um corredor, as palavras de Cornélius ecoam por sua mente "Essa coisa, essa foto, reflete o demônio que existe em nós.". Qual seria o seu demônio, o que ele sentiu a noite toda? O que ele viu?

O detetive para, a vida se esvai de seus olhos ele percebe. De certa forma sempre soube mas tentava esconder. As crianças brincando no parque a felicidade proibida que sentia sempre que via uma criança, ele procurava pelas mães e tentava leva-las para cama, era um prazer falso. A expressão infantil no rosto de Yumi, seu corpo pequeno, franzino, frágil, parecido com uma criança. O nojo e a excitação que sentira. A culpa que o invadiu a noite toda sem motivo. Ele percebe do que tentava fugir. Fausto percebe que é um pedófilo.

Um pedófilo: dos pecados o pior. Fausto sente nojo de si mesmo, sente ânsia em seguida vomita. Queria se livrar daquela sensação, mas era impossível. Agora ele sabia e essa verdade o intoxica cada vez mais, teria sido assim com Yumi e Luna também? Como viver consigo mesmo sabendo de sua natureza?

Fausto cai no chão chorando, qualquer coisa seria melhor do que aquilo, aquela verdade desesperadora, tremendo ele leva sua arma a boca, o suicídio o acalma, um ultimo suspiro, uma ultima lágrima. O dedo aperta o gatilho, um ultimo som, seguido pela paz.

Cornelius ouve o som do tiro ecoando e entende o ultimo ato do detetive, o silencio respeitoso é quebrado por uma risada nervosa. Luna o olhava sensualmente, no corpo nu se destacam o sangue do hímen rompido em seus dedos e vagina, o sorriso da loucura.

O vigia dá as costas as duas mulheres, cada uma presa as suas fantasias, presas aos seus pecados ocultos. Cornelius era diferente, ele vivencia seus pecados todos os dias. Desperdiçara sua vida.

Finalmente senta-se na frente do computador, o corpo cansado não o ajuda, ele encara o negativo, o desespero no rosto da garota era igual aos de Yumi, Luna e Fausto. Ele será o próximo.

- Aquele que não se conhece está fadado a ser corrompido pelo destino. Li isso em Sófocles, Shakespeare, Poe, tantos outros. Eu sei disso, está na hora de aplicar. Yumi, Luna e Fausto. Cada um deles perdeu uma parte para você. O pacto da ignorância, hoje você veio coletar sua parte de suas almas. Meu pacto é o da sabedoria.

Os gritos de Yumi e a risada de Luna invadem o prédio, Cornélius permanece em silêncio olhando para o computador, a chuva para, o vigia sorri.

Seis meses depois:

Cornelius termina mais uma taça de champanhe, uma das mulheres que estava no seu quarto de hotel abre o biquíni exibindo os seios, o ex-vigia deita sua cabeça nas nádegas de uma segunda garota, observando seus seios volumosos de uma terceira, também nua que lhe dá uvas na boca, ele sorri:

- Naquela noite o diabo levou minha pior parte.

FIM



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Comentários   

0 # Maria Ana Luiza 10-09-2017 18:18
| Conheci mais sobre o assunto . Obrigado e parabéns por nos
mostrar mais sobre isso.

Aqui é meu weblog :: Magnésio Quelato: https://www.rivotram.ltda/
Responder | Reportar ao administrador
0 # João Isaac 07-09-2017 13:14
|Sou realmente agradecido ao o dono deste Rivotram site oficial (Pedro Benjamin: https://www.rivotram.ltda/) que compartilhou este
maravilhoso texto. Eu sou um visitante recorrente deste blog.

Muito legal!
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