O Menino e o Palhaço

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CAPÍTULO 1

Existem, em todo mundo, centenas de crianças e adolescentes que, abandonadas pelos pais – ou que estes faleceram -, acabam por residirem em orfanatos. Muitas destas crianças, devido ao trauma vivido pelo abrupto rompimento do laço fraternal, acabam por ficarem solitárias no mundo. E essas crianças e adolescentes chegam a sofrer perseguições dentro dos educandários ou dos orfanatos, por serem isoladas dos demais.

Neste texto será contada a história de Leonardo Abraão Fitzgerald ou simplesmente Leo. O garoto de cabelos castanhos e lisos estilo "capacete" tem onze anos de idade e desde os nove reside no Orfanato Santa Clara, quando perdeu os pais em um violento acidente de carro, em que o próprio garoto só dele escapou por pura sorte do destino. Desde então, passou a residir no Santa Clara, um orfanato administrado pelas irmãs freiras, onde se tornou um garoto recluso, solitário no mundo. Os garotos do orfanato – e até mesmo do colégio -, ao invés de pesarem por conta de seu sofrimento, passaram a incomodá-lo, empurrando-o, fazendo com ele brincadeiras maldosas e até mesmo o machucando. E um dos garotos que mais incomodava Leo era Otto – um robusto garoto baixinho, de cabelos loiros e estilo alemão, que era da mesma sala de Leo. Possuía doze anos de idade, pois recebeu uma "bomba" na terceira série. E, por ser mais velho que os demais, Otto se sentia no direito de incomodá-los.

Otto sempre incomodava Leo, mesmo que o garoto nada com ele tenha feito. Sempre que o via, Otto fazia questão de ir até ele incomodá-lo, empurrá-lo, jogar os seus materiais no chão ou simplesmente roubar seu lanche. Leo odiava Otto – aliás, Leo odiava a todos, do fundo do seu coração, por ninguém respeitar a sua dor e o seu sofrimento: Leo odiava as irmãs que controlavam o orfanato, por estas deixarem os incômodos ocorrerem por dizerem que isso é "sadio" às crianças; odiava os colegas de orfanato, mesmo os que não lhe incomodavam, por estes rirem quando alguém lhe atacava. Leo não odiava a todos da sala de aula, mas também não gostavam destes – com exceção de Gerard e Mathias. Estes, sim, Leo gostava. Não conversavam, não trocavam ideia um com o outro, mas ambos tentavam ajudar Leo a não sofrer mais com os incômodos de Otto.

Era maio. O vento frio já anunciava o inverno iminente. As folhas das árvores se soltavam dos galhos e caminhavam pelo ar, lentamente, até se esbarrarem no solo. Leo caminhava pelas ruas da cidade de São Cirilo. Encontrava-se de regata, apesar do vento frio – o que lhe rendia dolorosos calafrios pelo corpo. Caminhava em direção ao orfanato, para mais um dia de tortura. Ficara a tarde inteira na rua – tinha o hábito de, após o término das aulas, por volta do meio-dia, ficar vagando pela cidade – e só estava retornando para o orfanato porque o Sol começava a dar sinais de que se poria em breve.

O garoto continuou sua caminhada, até o instante em que avistou, em um descampado próximo ao Rio São Cirilo, que corta a cidade, um parque de diversões, que não se encontrava ali dias antes. Sorriu – adorava parques. Olhou o seu relógio, para averiguar se dava tempo de dar uma desviada rápida em sua rota e, após, entrou no parque.

Dentro do parque de diversões, Leo caminhou praticamente todo o tempo olhando para cima e para os lados. Viu a montanha-russa, a roda gigante, as brincadeiras de tiro... sentiu-se maravilhado e com uma vontade irresistível de brincar. Sabia que precisava de dinheiro para brincar em qualquer brinquedo – e sabia que as madres jamais lhe dariam dinheiro para vir ao parque se divertir -, então ficou andando pelo local vendo os outros se divertindo e se imaginando fazendo o mesmo.

E, de repente, Leo avistou uma tenda marrom, com telhado vermelho e ligeiros traços brancos. Nela estava dependurado balões de várias cores. À frente dela, um palhaço, de rosto esbranquiçado, cabelo laranja estilo Black-power, nariz avermelhado e roupas coloridas. Ele entretinha um grupo de crianças, que estavam sentadas de frente para a tenda.

"Hoje tem marmelada?", perguntou o palhaço. "Tem sim, senhor.", diziam as crianças. "Hoje tem goiabada?". "Tem sim, senhor". "E o palhaço, o que que é?". "É ladrão de mulher", responderam as crianças, caindo estas e o palhaço no riso em seguida.

Leo passou pela tenda sem parar, porém ficou a olhando constantemente. Algo naquela tenda ou naquele palhaço lhe chamou a atenção, tão logo os vira.

O palhaço avistou Leo. Chamou-o.

- Olá, amiguinho. – o garoto se assustou. Olhou para os lados ao perceber o palhaço lhe fitando, a fim de descobrir se realmente era consigo a conversa. E, de fato, era. – Venha, venha, não tenha medo, amiguinho. – o palhaço gesticulava com a mão. Leo, mesmo receoso, começou a caminhar em direção ao palhaço. Algo naquela voz fina e aguda fez Leo se sentir bem e confortável. – Vem brincar, vem brincar com o Boguinho.

*Leo chegou próximo ao palhaço. Este logo passou o braço direito por seu pescoço pequeno e o levou ao local onde ficavam os balões.

- Você quer um balão, amiguinho? Pode escolher a cor...

- E...Eu... não tenho dinheiro. – disse um envergonhado Leo. O garoto sentia vergonha por não ter nenhum dinheiro.

- Pode levar, amiguinho, é de graça. – o palhaço retirou um dos balões e o entregou a Leo, que agradeceu. Aquele, todavia, percebeu que o garoto continuava com o semblante entristecido. – O que foi, amiguinho? Você está triste. O que te acomete?

A voz suave do palhaço trouxe a Leo uma serenidade e uma paz jamais conhecida antes. Fez o seu corpo – normalmente estressado - relaxar. Acabou por desatar no choro.

- Amiguinho, não chore... venha, venha aqui. – o palhaço abraçou Leo, deixando-o chorar no conforto de seus ombros. – O que te acomete, amiguinho?

- E...Eu não tenho ninguém nessa vida.

- Não fique assim, amiguinho. Você certamente possui muitas pessoas nesta vida. – o palhaço ajoelhou-se no chão, para ficar da altura de Leo.

- N...Não, Sr. Palhaço. Eu moro no orfanato...

A expressão facial do palhaço modificou rapidamente, transformando-se em algo mais sério.

- Sinto muito por seus pais. Mas, certamente, você possui amiguinhos na escola ou no orfanato...

Leo chorava com mais intensidade. Tentou balbuciar alguma palavra, mas não conseguiu. Apenas balançou a cabeça, em sinal negativo.

- Sinto muito. Mas não se entristeça, amiguinho. O palhaço Boguinho vai te dar tudo aquilo o que seu coração desejar.

Ao ouvir aquelas palavras, um raio de esperança atravessou o peito de Leo, dando-lhe confiança.

- C...Como? – perguntou o garoto, começando a cessar sua choradeira

- Venha. Siga-me. – disse animadamente o palhaço, fazendo um gesto infantil com o corpo – Deixe-me levá-lo ao meu castelo. – e o palhaço caminhou em direção ao interior da tenda

Leo se irritou, pois se sentiu inferiorizado. Já era crescido demais para que o palhaço evitasse dizer que aquela pequena tenda era um "castelo" e sentiu sendo tratado como se tivesse seis anos. Entretanto, não exteriorizou sua irritação momentânea e seguiu o palhaço em silêncio.

- Qual o seu nome, amiguinho? – perguntou o palhaço, enquanto esticava a porta da tenda para que Leo nela entrasse

- Leonardo. – respondeu o garoto

- Eu sou o Palhaço Bogo. Mas pode me chamar de Boguinho.

- Pode me chamar de Leo. – disse o garoto, enquanto entrava na tenda. Ele não reparou, mas Boguinho deu um sorriso de orelha a orelha

O interior da tenda era pequeno e claustrofóbico. Possuía uma pequena mesa em um dos cantos, um guardarroupa de sucupira no outro e uma porta entre ambos. Do lado oposto, havia uma pilha de brinquedos.

- Este é o seu "castelo"? – perguntou Leo, em tom de zombaria

- Claro que não, nobre amigo. – disse o palhaço. Leo, naquele instante, começou a se irritar levemente com o tom infantil na voz de Boguinho – O meu castelo está aqui dentro. – continuou, de frente à porta de madeira. Esta ficava de pé, encostada na tenda, como se desse para o lado de fora. Bogo abriu a porta. A luz solar adentrou no local, cegando Leo momentaneamente.

- Venha. Siga-me, até o local onde todos os desejos contidos no seu coração serão realizados. – disse Boguinho

Leo hesitou no começo. "Como os desejos contidos no meu coração serão realizados?", se perguntou, em pensamento. Porém, algo no interior do seu peito ardia em brasas. Era a esperança, de que todo aquele inferno acabaria; de que dias melhoras viriam. Endireitou-se, ficando com a coluna completamente reta. Sorriu. Estava confiante. Adentrou pela porta. Boguinho lhe seguiu, fechando-a logo atrás.

- O que é isso?! – exclamou o garoto, estupefato, tamanha a surpresa

CAPÍTULO 2

Leo se encontrava no interior de um campo florido com rosas e girassóis, a perder de vista. Borboletas coloridas voavam pelo local, à procura de néctar. Havia uma grande quantidade de finas árvores pelo campo. Ao fundo, havia uma grandiosa fábrica, com suas quatro chaminés que liberava no ar uma fumaça avermelhada. À direita desta, havia uma roda gigante igualmente grandiosa.

- Que lindo. – exclamou Leo, maravilhado pelo local – Nunca vi um local tão belo. – e, de fato, era. Era de deixar qualquer um de queixo caído, tamanha sua beleza. – Onde estamos?

- Seja bem-vindo amiguinho. – disse Boguinho, ultrapassando Leo e caminhando em dirà fábrica, distanciando deste dois passos – À Fábrica de Sonhos.

- Fábrica de Sonhos? – perguntou Leo. Nunca ouvira falar.

- Sim, nobre amigo. Esta é a Fábrica de Sonhos. Aqui, todos os desejos contidos no seu coração se transformam em realidade.

Leo ainda estava maravilhado. Primeiramente, por atravessar uma porta e sair naquele local. "Estamos dentro do parque?", se perguntou, em pensamentos. "Cadê as outras pessoas?". Olhou no entorno do local. Não havia muro algum, nem nada. Somente o campo. A única coisa de pé no local além deles e das árvores era a porta, às suas costas – nem mesmo havia parede para sustentá-la. Segundo, como poderia haver um local tão lindo, e ele nunca se deu conta?

Boguinho já se encontrava longe de Leo.

- Ei, Leo... vai ficar aí parado? – perguntou o palhaço, balançando o braço direito em sinal de aceno

O garoto acordou de seus pensamentos.

- Peraí. – gritou, enquanto corria em direção a Boguinho. Atravessou a distância entre ambos em poucos segundos, parando ao se encontrar com o palhaço.

Leo parou para retomar o ar do pulmão encostando-se na árvore que dava sombra ao local onde ele e o palhaço se encontravam. Neste instante, percebeu algo pendurado logo acima de sua cabeça, junto a um galho da árvore. Olhou. Percebeu se tratar de balas de goma – os galhos, todos eles, estavam tomados de balas de goma, das mais variadas cores.

- Uma árvore que dá balas de goma? – perguntou Leo, voltando a ficar surpreso

- Sim. – respondeu Boguinho, animado – Você adora balas de goma, não é? Elas estão te agradando... – Leo viu os galhos ao seu lado sacudirem – Sirva-se. Pode pegar quantas balas quiser.

- Muito obrigado. – disse Leo, à árvore. Com as mãos ávidas, catou a maior quantidade de bala de goma que conseguiu e as enfiou na boca de uma vez só.

- Você realmente gosta de bala de goma, amiguinho. – disse o palhaço, rindo

- "Adouo" – disse Leo, com dificuldades, com a boca cheia

Boguinho ri. O garoto mastigou as balas de goma contidas no interior de sua boca e as engoliu. Neste instante, recebeu uma pancada no peito, de algo aparentemente macio. Olhou para a direção aonde o objeto veio. Visualizou Boguinho rindo, curvando o corpo para cima e para baixo, com as mãos na barriga. Leo olhou para o chão, na tentativa de enxergar o que Bogo lhe jogara, entretanto, devido ao mato alto não conseguiu.

O garoto percebeu o palhaço rindo incessantemente de sua cara, inclusive apontando-lhe o lado vez ou outra. Retirou dos galhos algumas balas de goma e lançou uma delas na direção de Boguinho. Todavia, a bala acabou por passar longe do palhaço, que debochou de Leo. Este começou a correr em direção àquele, que correu na tentativa de se distanciar de Leo. Gesticulava com as mãos, fazia careta e emitia gritos como se estivesse com medo, em uma forma caricata.

Leo correu atrás de Boguinho pelo campo, tentando lhe acertar balas de goma. Vez ou outra, o palhaço revidava, retirando algumas balas do interior do bolso de sua calça. Após, começaram a brincar de pique-pega, devendo um encostar sua mão no outro. Leo custava a encostar a mão em Boguinho, que desviava com facilidade, mas ria constantemente da brincadeira.

Em determinado momento, exausto e bastante ofegante, o garoto se jogou no campo e deitou no local, relaxando o corpo. Boguinho se deitou ao seu lado. Leo olhava o céu azulado e sem nuvens que estava sobre sua cabeça.

- Que lindo esse céu. – disse o rapaz. Estava feliz; sua felicidade exalava. – Eu queria ficar aqui para sempre, se pudesse.

- Você pode ficar aqui comigo pra sempre, se quiser. Eu adoraria ter você como meu companheiro.

- Não posso. – o semblante de Leo se transformou; o garoto voltou a ficar triste – Preciso voltar para o orfanato. Já deve ser tarde.

- Você realmente não gosta de ficar neste orfanato, não é?

- Não. – respondeu o garoto – Todos lá me zoam, me humilham, só porque eu sou mais calado. Na escola é só um garoto, Otto, mas no orfanato... até as freiras ficam em silêncio e deixam a humilhação acontecer.

- Entendi. – Boguinho se levantou - Venha. – começou a caminhar em direção à fábrica – Está na hora de você fazer o seu pedido.

Sem pestanejar, Leo levantou-se e caminhou logo atrás do palhaço. Atravessavam o restante do campo quando o garoto sentiu um cheiro diferente no ar.

- Morango? – perguntou. Fungou novamente. – Sim, é morango.

- Gostou? É o cheiro da fumaça da fábrica.

Leo olhou para cima. Percebeu que a fumaça que saía das chaminés da fábrica eram avermelhadas.

- Que legal. – disse o garoto, voltando a sorrir. – Eu adoro morango. É meu sabor favorito. - em seguida, ele e Boguinho adentraram no interior da fábrica. Lá dentro, Leo se surpreendeu novamente.

Havia um salão imenso, com paredes vermelhas e nenhum móvel. No alto, haviam diversas esteiras, que passavam acima da cabeça de todos e que ia de uma sala, à esquerda, a outra, à direita. Na esteira se passava de tudo – pipoca, braços e cabeças, balas, nuvens... Abaixo das esteiras, havia um par de portas, uma em cada parede. A parede oposta a da entrada possuía diversas portas, idênticas às anteriores.

- O que são aquelas coisas agarradas na esteira? – perguntou o garoto, apontando para uma das diversas esteiras

- Pedaços de sonho. Ali – Boguinho apontou para a porta da direita – é onde se fazem os sonhos. E aqui – o palhaço apontou para a outra porta – é o depósito dos materiais para a fábrica realizar os sonhos.

- E aquelas portas?

- Lá estão as salas onde as pessoas fazem os seus pedidos.

- Que legal. – disse um maravilhoso Leo - É você quem comanda esta fábrica, Boguinho?

- Sim. – respondeu o palhaço – Quer fazer o seu pedido? – abriu um sorriso.

- Claro. – disse Leo.

- É só você se dirigir a alguma daquelas salas. – disse o palhaço, apontando com o braço para as portas na parede oposta a da entrada. Estava mais sério – Eu ajustarei as máquinas para que o seu sonho se realize.

- Certo. – disse o garoto, sorridente. Enquanto se afastava de Boguinho, começou a imaginar qual pedido faria. Pensou em pedir uma árvore que dava bala de goma para o orfanato, mas imaginou que chamaria muita atenção de todos. Pensou em pedir em morar em algum lugar legal, como a Fábrica de Sonhos. Lembrou-se, todavia, das palavras de Boguinho, que disse que a fábrica realizaria os desejos do seu coração. E Leo sabia exatamente qual desejo o seu coração mais queria naquele instante – deixar de ser infeliz, de ser atacado e humilhado diariamente. Era isso que Leo pediu. Era para isso que Leo veio à Fábrica de Sonhos.

O garoto caminhou até a porta mais próxima e a abriu. Adentrou no local em seguida. Assustou-se. Era um pequeno cômodo, do tamanho de um elevador. As quatro paredes e o teto eram espelhados. Leo fechou os olhos e desejou aquilo que o seu coração mais queria no momento – o motivo pela qual se encontrava na Fábrica de Sonhos. Ao terminar, saiu do interior da sala, adentrando novamente no grande salão principal da fábrica. Lá estava Boguinho, esperando o garoto terminar o seu desejo.

- Pediu? – perguntou Boguinho

- Sim. – disse Leo, feliz – Aquilo que o meu coração mais quer no momento.

O palhaço abriu um sorriso, de orelha a orelha.

- Eu preciso ir agora, Boguinho. Já deve ser tarde. – disse o garoto

- Eu te levo até a porta. – disse o palhaço – E logo, logo o seu desejo se tornará realidade.

- Fico feliz, Boguinho. Você não sabe o quanto.

Leo saiu da Fábrica de Sonhos junto de Boguinho, atravessando o campo e voltando ao interior da tenda. Despediu-se do palhaço e saiu, sorridente. Ao sair da tenda, todavia, se assustou, pois o céu já se encontrava escuro. Olhou o seu relógio e percebeu que já se passava das 10 horas da noite. Correu o mais rápido que pôde até o orfanato onde morava. Precisava inventar uma desculpa qualquer para as freiras quando chegava ao orfanato, pois o limite de horário para se chegar por lá era 7 horas. Ao chegar, inventou que houve um assalto perto dele e que o garoto foi levado à Polícia para ajudar nas pistas para descobrir o assaltante, entretanto, um dos internados dedurou Leo, dizendo que o viu entrar no parque, por volta das 5 horas da tarde e ficar de conversa com o palhaço do local. Leo foi levado a uma sala pelas freiras, onde recebeu uma surra como castigo, além de não poder sair do orfanato por dez dias, exceto para ir ao colégio.

Naquele instante, Leo desejou mais do que nunca que o seu desejo se transformasse em realidade.

CAPÍTULO 3

Leo ainda sentia as dores da surra dada pelas freiras no dia anterior. Acordou às 6 horas da manhã, como fazia todos os dias, mudou de roupa, tomou o café junto dos outros internados – que lhe olhavam com ar de desprezo e deboche – e saiu em direção ao colégio onde estudava. Apesar de haver outros internados que estudavam naquele colégio – e haver ordem expressa das freiras de que todos os alunos deveriam andar juntos na ida e na volta do colégio -, Leo estava, assim como todos os dias, caminhando sozinho. Tinha o costume de acelerar ou retardar os passos com o intuito de ficar sozinho.

Pouco antes das 7 horas da manhã, Leo entra no interior do colégio onde estudava. Atravessou a passos rápidos os corredores e adentrou em sua sala de aula. Era uma tentativa do rapaz de fugir dos ataques do Otto no corredor – dentro da sala de aula, por conta de sempre haver um professor por lá, era mais difícil dele lhe atacar. Deu 7 horas e o professor de Matemática – que até então se encontrava sentado em sua mesa, lendo um livro qualquer – começou a dar aula. Leo estranhou a falta de Otto – Otto era o aluno mais assíduo do colégio, nunca tendo faltado. E percebeu que outros alunos, à sua frente, também comentavam a repentina falta de Otto.

Gerard, que se sentava ao lado de Leo, puxou conversa – o mais discreto possível – com este e com Mathias, que se encontrava logo atrás do garoto.

- Vocês não acham estranho essa falta repentina do Otto? – perguntou Gerard

- Talvez ele esteja doente, ou algo do tipo. Só porque o Otto nunca faltou, não signifique que ele não possa haver uma primeira vez. – disse Leo. Causou-lhe estranheza todos comentarem a falta de Otto como se fosse algo urgente ou sobrenatural.

- Você não está sabendo, Leo? – perguntou Mathias, logo atrás dele

- Do quê? – perguntou o garoto, estranhando o comentário feito por seu colega de classe

- Ele não deve estar sabendo. – disse Gerard – Ele chegou agora.

- Do que vocês estão falando? – perguntou Leo, se remoendo de curiosidade

- Há alguns comentários dizendo que o Otto simplesmente... desapareceu! – explicou Mathias

- Desapareceu? Como desapareceu? Sem deixar nenhuma pista?

- Sim, exatamente. Desapareceu sem deixar nenhum vestígio para onde foi... – disse Mathias, consertando os seus óculos que quase caíam – Dizem que foi no meio da madrugada e que a sua família está doidinha atrás dele...

Leo estranhou os fatos. Sentiu um aperto no peito, como se alguma coisa o apertasse com muita força. Queria tirar uma dúvida que surgiu na sua cabeça, só por garantia. E esperar pelo fim da aula, para sanar a sua dúvida, quase lhe corroeu por dentro.

Tão logo as aulas no colégio terminaram, ao meio-dia, Leo caminhou em direção ao parque onde encontrou com Boguinho. Precisava conversar com o palhaço. Entrou no parque e já foi direito ao local onde encontrou a tenda. E lá estava ele, rodeado de crianças e lhes entregando balões, sorridente.

- Amiguinho, que bom revê-lo. – disse o palhaço, sorridente, ao visualizar Leo

- Eu preciso lhe perguntar uma coisa, Boguinho. – Leo estava com o semblante sério, e isso surpreendeu o palhaço

- Tudo bem. Diga. - Bogo ficou sério

- Você sabe o que aconteceu com o Otto? Ele desapareceu esta noite sem deixar pistas.

- Quem é Otto, amiguinho?

- O meu colega de turma, que eu te contei que sempre me incomodava e me humilhava.

- Eu não fiz nada. Fiquei aqui, brincando com as crianças, o dia inteiro. – disse Boguinho

- Entendi. Era só isso que eu precisava saber. Obrigado. – disse Leo, virando-se de costas

- Não vai ficar hoje? – Boguinho ficou surpreso

- Não posso. As freiras me proibiram. – explicou o garoto. Distanciou-se de Boguinho e saiu do parque, caminhando em direção ao orfanato o mais rápido que pôde. Não queria que as freiras percebessem que o garoto adentrou, ainda que rapidamente, no parque.

Leo chegou ao orfanato por volta do meio dia e meio. Entrou pelo portão principal, chegando ao pátio. Lá estavam bolas, carrosséis, escorregadores, piões e outros brinquedos esparramados, mas não havia nenhum dono. "Estranho", disse o garoto, em pensamentos. Deveria haver alguma criança no pátio, brincando com aqueles brinquedos. "Será que estão todos almoçando?", se perguntou. Era hora do almoço, talvez todos estivessem no refeitório, almoçando. Caminhou em direção à porta do refeitório, do lado contrário à porta de entrada, atravessando o pátio e os brinquedos jogados.

Ao chegar à porta de vidro e de correr do refeitório, Leo visualizou o local – havia pratos com resto de comida, cadeiras no chão, panelas jogadas sobre o balcão onde se serviam as refeições... só não havia pessoas. Nenhuma.

O garoto tinha, naquele instante, a sensação de ter havido no local uma evacuação às pressas – todos deixaram tudo para trás... inclusive ele. "O que aconteceu aqui?", se perguntou Leo. "Onde estão todos?"

Leo sentia uma estranha sensação no peito. Tinha receio de ter sido, de fato, abandonado pelos demais do orfanato. Sentia-se o Kevin McCallister[1], mas sabia que não teria final feliz – ninguém iria voltar ou sentir sua falta.

Aquela sensação rapidamente tomou todo o seu corpo. Seu coração começou a bater violentamente dentro do peito. Saiu do refeitório às pressas, correndo, a passos largos, o mais rápido que pôde. Atravessou o pátio e entrou no corredor principal do orfanato. Abriu a primeira porta à esquerda, onde dava à sala da diretora.

A mesa principal, feita toda de madeira talhada, estava lotada de papéis jogados pelo local – o chão estava igualmente lotado. Ao fundo, uma cadeira, de madeira simples, jogada no chão. Entretanto, da mesma forma como os cômodos anteriores, estava totalmente vazio de pessoas – não havia ninguém no local.

"O que aconteceu aqui?", se perguntava Leo, em pensamentos, continuadamente. Estava desesperado. Tinha certeza, mais do que nunca, de que todos os internados, além das freiras, fugiram às pressas do orfanato, deixando-o para trás. "E agora, o que será da minha vida?", se perguntou. Era um internado do único orfanato de São Cirilo e, se de fato houve a evacuação às pressas, seria obrigado a ir a outro orfanato – em outra cidade. E isso significa reconstruir sua vida, novamente...

Leo se lembrou dos quartos. Talvez lá estivessem todas as respostas das perguntas que o garoto se fazia em pensamentos. Correu em direção ao outro lado do orfanato, passando por diversas portas dos dois lados do corredor. Abriu porta por porta apenas a empurrando, olhando o interior do respectivo quarto em seguida.

A grande maioria dos quartos se encontrava impecavelmente arrumado – eram os quartos dos internados que estudavam de manhã. Os quartos onde dormiam os internados que estudavam de tarde já não estavam tão arrumados, pois os garotos estavam no orfanato no momento da possível evacuação. Dois dos vinte quartos, ao contrário, estavam completamente desarrumados, com os beliches tombados e com as roupas dentro dos guardarroupas jogadas no chão.

"Não parece que foi uma evacuação", pensou Leo. "Parece um ataque". Mas quem atacaria os internados do Santa Clara? E por qual motivo?

Leo tentava saber a resposta. Pensou em dar uma de detetive e desvendar o ocorrido. Entrou no interior de um dos dois quartos completamente desarrumados. Atravessou o batente da porta e caminhou em direção ao beliche jogado no chão. Naquele instante, enxergou algo pelo canto do olho, à sua direita. Virou o rosto em direção ao algo. Sobressaltou-se, tamanha a surpresa.

- O que é isso?! – se perguntou

Na parede à direita da porta havia um desenho, em tom vermelho, de um garoto pequeno, de idade semelhante a 10 ou 12 anos, de cabelo redondo e cheio, vestido de palhaço, empunhando uma faca, com um sorriso maligno no rosto.

Leo ficou observando o desenho por um longo período de tempo. Algo lhe chamava a atenção. O desenho de um palhaço. O desenho de um palhaço assassino. O desenho em tom vermelho vivo. O desenho de uma criança. A semelhante entre essa criança e o próprio Leo.

Mais do que nunca, Leo tinha a certeza de que o Orfanato Santa Clara não foi evacuado. Algo aconteceu dentre os seus muros, e o garoto teria que descobrir.

"Espera aí!", disse Leo, a si mesmo, em pensamento, após se lembrar de algo. Saiu andando em direção ao corredor. "Só pode ter sido. Palhaço, não pode ser outra pessoa.". Socou o batente de uma porta qualquer, com raiva. "Merda!"

- Boguinho! – gritou o rapaz, descontrolado, tamanha a raiva.

- Olá, amiguinho! – disse Boguinho, aparecendo repentinamente na porta final do corredor, logo atrás de Leo. Estampava no rosto um sorriso de orelha a orelha, e sua voz era fina e suave

- Boguinho! – virou Leo, em uma mistura de fúria com surpresa – O que você fez aqui no Santa Clara?

- Quando você esteve na Fábrica de Sonhos, o que você pediu? – o palhaço, repentinamente, ficou sério

- Que todos os meus problemas de humilhação fossem resolvidos. – disse Leo, impaciente e ainda com raiva – Mas o que isso tem a ver?

- E quem causava os seus problemas de humilhação?

- O Otto e o pessoal do Santa Clara. – naquele instante, a impaciência e a raiva de Leo se dissiparam como mágica

- E os resultados ficaram impecáveis. – Boguinho voltou a rir e a dizer com voz suave. – Veja, veja, com os seus próprios olhos, o resultado de seu pedido. – o palhaço deu um passo à direita, saindo da frente da porta e a abriu, mostrando o banheiro.

Leo caminhou até a porta que Boguinho abriu. Olhou para dentro, visualizando os inúmeros boxes, as pias e os chuveiros, ao fundo. Assustou-se. O local estava praticamente todo tomado de sangue. No chão, saindo dos boxes, havia pedaços de gente espalhados para todo lado – cabeça, braços, vísceras... outros se encontravam dependurados no teto por um gancho cravado no queixo, além de sangue verter do abdômen cortado ao meio. Pelas roupas, dava-se claramente para perceber a quem pertencia os corpos e vísceras ali espalhados: aos internados e às freiras do Santa Clara.

Tão logo visualizou a cena, o garoto tampou a boca. Virou o corpo para trás e começou a se debulhar em lágrimas.

- Por que você fez isso, Boguinho? Eu não pedi para matá-los.

O palhaço fechou novamente a porta.

- A regra era atender ao pedido que o seu coração mais quisesse, nobre amigo. – ele estava sério – VOCÊ quis que todos aqueles que te humilhavam, lhe incomodavam desaparecessem. VOCÊ pediu a morte deles. O SEU coração quem quis. Eu só atendi aos SEUS pedidos.

Leo começou a chorar com mais intensidade. Sentiu um aperto terrível no peito; uma sensação de dor, sofrimento e remorso. "A culpa é minha?". "Eu desejei a morte deles?". "Eu sou o culpado?". E ao imaginar que todas as respostas fossem "sim", mais o garoto chorava e mais forte era o aperto no seu peito.

Boguinho entrelaçou os braços pelo corpo de Leo, acariciando os seus braços, na altura dos ombros. O garoto não entendia o motivo, mas aqueles afagos eram reconfortantes.

- Não fique assim, amiguinho. Você nunca gostou deles. Desde o começo, antes de eu te levar na Fábrica de Sonhos, você estava deprimido porque já não aguentava mais o sofrimento de todos lhe incomodarem, lhe humilharem... agora, não tem mais ninguém para lhe incomodar. Já parou para pensar nisso? Tudo o que você sempre quis, você poderá ter agora em diante... paz. Você só queria paz. Esse foi o seu real desejo. E eu o concedi. Não tem mais ninguém para lhe incomodar, Leo. O que você sempre quis você terá a partir de hoje... paz. Daqui para frente, virá novos tempos, novos dias... muito melhores que esse, Leo. Já parou para pensar nisso?

- É mesmo. – disse Leo, vislumbrado. O choro cessara. Boguinho não percebeu, mas Leo estava com um sorriso diferente no rosto.

CAPÍTULO 4

Leo estava diferente. O velho cabelo "capacete" que lhe acompanhava desde o início de sua vida deu lugar a um cabelo reto, pequeno, com topete, parcialmente levantado. A sua roupa, típica dos retraídos, deu lugar a uma roupa mais descolada. Ele, que sempre andava curvado, tímido, endireitou o seu corpo, andando sempre reto. Tornou-se temido pelo interior dos corredores do colégio onde estudava – os assassinatos cometidos no interior do Orfanato Santa Clara vieram à tona, fazendo com que Leo fosse conhecido como o único sobrevivente da chacina. Alguns, entretanto, temiam o garoto por acreditarem que foi ele o assassino dos colegas de internato.

De uma forma ou de outra, Leo tornou-se temido e respeitado por todos os colegas de turma. Era como se fosse um novo Otto. E agora, mais do que nunca, o garoto tinha vários amigos – principalmente Gerard e Mathias, que aproveitaram da fama do amigo para não mais serem incomodados por outros alunos. Sabia que muitos desses novos amigos eram falsos, mas se sentia feliz por lhes adorarem. Além dos amigos, muitas garotas da sua classe passaram a observá-lo com outros olhos.

Todos os dias, Leo entrava pelos corredores do colégio onde estudava e via vários alunos correndo dele. "Isso é tão bom", disse o garoto, extasiado. Adorava ver os outros alunos passando pelo mesmo problema que ele teve – e por causa dele! Não tinha como se sentir mais feliz.

O garoto entrou na sua sala de aula. Uma garota, de idade semelhante a sua, com um belo sorriso branco e com os cabelos loiros soltos ao vento, passou por Leo e sorriu para ele, deixando-o admirado.

- A Alissa é realmente linda, não é? – perguntou Gerard, chegando perto do garoto. Como ele olhava para a garota que saía da classe, de costas para ele, acabou por assustar com a chegada repentina de seu amigo.

- Não me assuste. – disse Leo. – Ela é realmente linda. – continuou, olhando para trás

- É impressão minha ou tem alguém apaixonado? – perguntou Mathias, em tom de deboche, chegando perto de Leo pelo outro lado.

- Não estou apaixonado. – disse o garoto, irritado. Caminhou em direção à sua carteira – Só admirei a beleza dela.

Aqueles três garotos ainda não se deram conta, mas estavam agindo como adultos que não eram.

- Realmente a garota é muito bela. – disse Gerard, caminhando até a sua carteira, que continuava ao lado da de Leo. Mathias sentou-se logo atrás, no seu local de costume.

- Com certeza a Alissa vai querer alguma coisa com você, Leo. – disse Mathias

- Com certeza. Concordo com o Mathias. – disse Gerard.

Leo percebe algo do lado de fora da sala de aula, na porta. Era como se tivesse enxergado Boguinho olhando atentamente os seus passos e, ao perceber que o garoto percebeu sua presença, saiu do local. Leo continuou a olhar o local. "O Boguinho? Aqui?", se perguntou, em pensamentos.

- Leo! – chamou Gerard, trazendo o garoto de volta à realidade

- O que foi, Gerard? – perguntou Leo, assustando-se novamente com a fala do amigo

- Você ficou aéreo de repente. O que houve?

- Foi a Alissa que passou ali? – perguntou Mathias, em tom de deboche

- Nem vem. Não foi a Alissa. – disse Leo. Mas o garoto não quis contar a verdade.

- O que foi, então?

O sinal tocou. "Salvo pelo gongo", pensou Leo.

- Silêncio. – disse o professor, levantando-se da cadeira e começando a dar a aula.

Era pouco mais de meio-dia. As aulas do turno da manhã havia recentemente acabado. Leo andava furioso pela cidade. Chutou latas de lixo, lançando-as longe. "Você me paga, Gerard", gritava o garoto.

Veio à mente de Leo a imagem de ele, Gerard e Mathias saindo do colégio, conversando, animados. De repente, apareceu Alissa. Ela passou pelo trio, com um sorriso no rosto. Piscou para Mathias, que ficou com o rosto igual a um tomate. Leo ficou nervoso e apreensivo. Ele era o próximo da lista – afinal, estava no meio do trio -, entretanto, ao vê-lo, a garota virou o rosto. Isso o derrubou por completo. Mas, o mais o deixou furioso foi que, ao passar por Gerard, ela não apenas o cumprimentou com um olhar meigo – como fez com Mathias – como disse que pediria depois o telefone, quando o garoto "estivesse a sós".

Aquilo irritou Leo, deixando-o transtornado. Sentiu-se traído pelo melhor amigo, ou até mesmo pelos dois, quando a garota mais bonita da classe os cumprimentou com delicadeza e virou o rosto para ele. Ela poderia rejeitar qualquer um. Menos ele.

- Você me paga, Gerard. – gritou novamente o rapaz, antes de chutar mais uma lixeira – Você também, Mathias. Não era para vocês aceitarem a bola da Alissa. Seus traíra, vocês me pagam. Alissa, outra traíra. Eu sou o maior do colégio. Você não tem o direito de me renegar, sua vagabunda.

Leo não percebeu, mas, atrás dele, estava Boguinho, que ouvia atentamente todas as palavras ditas pelo rapaz.

Gerard e Mathias caminhavam por uma rua larga e arborizada do centro da cidade, em direção às suas respectivas casas. Moravam no mesmo bairro e sempre iam juntos para o colégio e para suas casas. Conversavam animados, rindo e falando alto.

- Nossa, cara, aquela guria... a Alissa... dando tanta bola pra gente... – disse Gerard

- Então... – disse Mathias – Nossa, aquela garota ainda me mata do coração – o garoto levou a mão ao peito e suspirou

- E o Leo, coitado... – Gerard segurou para não gargalhar – Ela realmente não gosta dele...

- Também... não é para menos... ninguém mais está suportando o Leo e aquela arrogância dele... fiquei feliz quando ele começou a ter atitudes e deixou de ser o ameba de sempre, mas... aquilo já é demais...

Gerard ameaçou abrir a boca para falar alguma coisa; porém, os garotos escutam um assobio atrás deles. Foi um assobio rápido, de poucas notas, porém bastante assustador. Os dois viraram para trás, sincronizados. Assustaram-se. Visualizaram um palhaço, portando uma faca em sua mão direita.

- Vem brincar, vem brincar com o Boguinho. – disse o palhaço, com uma voz suave e fina

Os garotos paralisaram de tanto terror. Gritaram, um pavoroso grito infantil.

CAPÍTULO 5

O dia raiou cedo naquela quinta-feira, 8 de julho. O vento frio de uma manhã gélida acertava a pele com tão violência que parecia que iria arrancá-la. Leo acordou tão logo o Sol apareceu. Morava agora junto de outras crianças órfãs no Lar dos Perdidos – local onde ficavam internados os menores infratores. Não gostava de permanecer ali – sentia-se um criminoso -, mas todos o respeitavam – a maioria o temia, inclusive – e se dava bem até com o pior dos menores.

Após cerca de vinte minutos de pé, Leo caminhou em direção ao colégio onde estudava. Precisava sair um pouco mais cedo todos os dias, já que o lar era mais longe do colégio que o Santa Clara. Atravessou a cidade, chegando ao colégio cinco minutos antes de o sinal tocar.

Ao visualizar o colégio, Leo percebe algo estranho – sua frente estava completamente vazia. Era costume naquele horário ter um grande número de pessoas na frente da escola – parados conversando ou entrando para estudar. "Será que já deu 7 horas e eu não sei?", perguntou Leo, em pensamentos. Olhou o relógio. Ainda faltavam quatro minutos. "Que esquisito."

Continuou normalmente sua caminhada em direção ao colégio. Ao chegar à porta principal, viu-a fechada, com um aviso na porta. Estava escrito:

"LUTO

Foi decretado 3 dias de luto pelas mortes de Alissa Gaia, Gerard Neviardieu e Mathias Albuquerque.

Voltamos na segunda.

Ass: A direção"

Leo ficou em choque. "Como assim, Alissa, Gerard e Mathias morreram?", se perguntou, em pensamento. "Mas, por que eles morreriam? Quem os mataria? Por qual motivo?". De repente, Leo lembrou-se de algo. "Não pode ser!", exclamou, dentro de si, levando a mão à testa. Retirou-a e começou a caminhar de um lado para o outro. "Não, não... não pode ser.". Continuou a caminhar. "Sim. Pode.". Em seguida, continuou sua caminhada, em direção ao caminho de volta ao antigo Santa Clara.

Tão logo passou pela frente do parque, Leo adentrou em seu interior. Atravessou os brinquedos principais sem parar para sequer olhá-los – já sabia o seu destino. Quando se encontrava já dentro do parque, avistou, de longe, a tenda de Boguinho. Sua frente estava vazia – como a escola -; não tinha balões, palhaço ou crianças – muito embora, o parque estivesse aberto e cheio. Aproximou-se da tenda. Começou a escutar uma música, vinda do interior do local.

"Hoje tem marmelada?

Tem sim, senhor."

Apesar de sentir um receio inicial, Leo entrou na tenda.

"Hoje tem goiabada?

Tem sim, senhor."

O interior da tenda estava vazio – muito embora os móveis continuassem em seus devidos lugares. O garoto caminhou em direção à porta que dava à Fábrica de Sonhos.

"E o palhaço, o que que é?

É um assassino de primeira"

Leo abriu a porta que dava à fábrica e a ultrapassou, fechando-a às suas costas. Sobressaltou, tamanha a surpresa.

A Fábrica de Sonhos estava completamente diferente. O campo estava queimado, sujo de fuligem e poeira. As rosas e os girassóis deram lugar a plantas carnívoras, com boca e dente. As árvores estavam com os seus troncos retorcidos e os galhos secos, apenas pendendo os seus "frutos" – cadáveres humanos, enforcados nos galhos e sujos de sangue. Havia incêndios em diversos pontos. A fábrica exalava fumaça tóxica. O céu estava cinzento, por causa da grande concentração de fumaça, que escurecia o local.

"O que aconteceu aqui, meu Deus?", se perguntou o garoto, de queixo caído. Não acreditava que aquele paraíso havia se transformado naquele pesadelo.

Ainda bastante surpreso, Leo caminhou pelo local, em direção à fábrica. Olhava constantemente para todos os lugares e gritava sempre por Boguinho. Desviou, o máximo que pôde, das plantas carnívoras, que tentavam avidamente morder as suas pernas; e das árvores, que pendiam os seus cadáveres próximos à sua cabeça.

Ao chegar à frente da porta da Fábrica de Sonhos, Leo gritou, aos quatro cantos, o nome de Boguinho. Esperou alguns segundos por resposta, que chegou na forma de ajuda – a porta principal da fábrica se abriu sozinha.

O garoto entrou. Imaginou que, do outro lado, estava Boguinho. Mas não. O salão principal da fábrica estava completamente vazio. Olhou para todos os lugares à procura do palhaço. Visualizou as esteiras acima da sua cabeça. Carregavam, ao invés de pedaços dos sonhos das pessoas, braços, cabeças, pernas, vísceras e troncos banhados a sangue. Leo sentiu vontade de vomitar.

- Olá, amiguinho! – disse alguém, atrás de Leo. A voz, por mais conhecida que fosse, fez um frio correr pela espinha do garoto, gelando o seu corpo por inteiro.

Leo virou o próprio corpo em um só giro. Visualizou o que estava à sua frente e sentiu o corpo inteiro tremer involuntariamente. Sentiu vontade de correr sabe-se Deus para onde, mas, ao mesmo tempo, sentiu todo o seu corpo paralisado. Não tinha condição nenhuma de se mexer, o mínimo que fosse.

Era Boguinho quem estava atrás de Leo. Mas o palhaço não estava bonito como das vezes anteriores. Estava feio, nojento... tinha o mesmo rosto, porém estava em carne viva, além de a boca dele – junto do macabro sorriso – ir quase de orelha a orelha, rasgando o rosto. A cabeça pendia para a direita. Os braços eram ossos puros. As roupas, embora as mesmas, estavam pretas – coloridos estavam apenas o velho nariz de palhaço e os pompons. Do lado direito do corpo de Boguinho, segurado pela mão de mesmo lado, estava um machado, que, de tão grande, arrastava no chão.

- O que aconteceu com você, Boguinho? – perguntou Leo, surpreso – e amedrontado.

- Você não sabe? – perguntou o palhaço. A velha voz fina e suave havia voltado. Boguinho soltou um som com a boca, em tom de deboche. – Está faltando espelho na sua casa, amiguinho.

- Espelho? Como assim? Eu estou o mesmo de sempre. – o garoto levou as mãos ao rosto, tateando-o, à procura de alguma deformidade. Ouvir a velha voz de Boguinho fez o medo em Leo desaparecer aos poucos.

- Tem certeza? – rápida pausa – Nada em você mudou depois que você fez os seus pedidos?

- Mudou a minha vida – disse Leo – Os meus amigos que você matou.

- Que amigos? – perguntou Boguinho – Você mesmo disse que todos te humilhavam e te incomodavam.

- Não estou falando deles. – rápida pausa – Até vivo melhor sem eles. – cochichou, pausando novamente – Estou falando dos meus amigos, o Gerard, o Mathias, que você os matou.

- Eu só faço o que o seu coração pede. – disse Boguinho – Você pediu, eu entendi.

- Eu NUNCA pediria para que meus amigos morressem...

- Você talvez, não. Mas o seu coração....

- E quando que meu coração teria pedido a morte dos meus melhores amigos?

- Quando a garota que você gostava deu em cima deles. Lembra?

Leo congelou. Lembrou-se instantaneamente do acesso de raiva que teve, no dia anterior, por ter visto Alissa dar em cima de Mathias e Gerard na sua frente, além de renegá-lo. Lembrou-se de ter gritado, aos quatro ventos, que todos iriam pagar pelo o que fizeram: "Você me paga, Gerard. [...] Você também, Mathias. Não era para vocês aceitarem a bola da Alissa. Seus traíra, vocês me pagam. Alissa, outra traíra. Eu sou o maior do colégio. Você não tem o direito de me renegar, sua vagabunda.". Sentiu-se triste, corroído por dentro.

- Fui eu quem desejou a morte dos meus melhores amigos? – perguntou, cabisbaixo, tamanha sua tristeza

- Sim. – a voz do palhaço estava séria - O seu coração queria ficar livre dos seus amigos e de Alissa. Você se sentiu traído por Mathias e Gerard, por terem aceitado a bola de Alissa, e sentiu ódio da garota, por ela ter te renegado. Foi você quem quis ficar livre do trio, Leo, e não eu. Eu só realizo os pedidos do seu coração.

Leo debulhava-se novamente em lágrimas. O ar e pose adultas deram lugar ao velho Leo de sempre – criança, imaturo, que comete erros por escolhas ruins, por sempre pensar com o emocional.

- Por que, meu Deus? – perguntou o garoto, entre soluços – Por quê?

- A escolha foi sua, Leo. Você fez o seu pedido, aquele de eliminar todos os que lhe incomodassem, todos os que lhe tirassem sua paz. E ainda estou fazendo. Eliminei todos os do orfanato, como você quis. Eliminei o Otto, como você quis. E agora eliminei o Gerard, o Mathias e a Alissa, exatamente da mesma forma como você quis. Aceite as consequências do seu pedido. A vida não é só feita de coisas boas, meu nobre amigo. Nem todas as consequências de seus atos serão boas. Você precisará aprender a lidar com as ruins, queira ou não.

Neste instante, Leo praticamente criava, a seus pés, um rio de lágrimas, tamanho o volume que saía de seus olhos. O barulho de seu choro ecoava pelas quatro paredes do salão principal da fábrica.

- Eu preciso retirar esse pedido. – disse Leo.

- É impossível, nobre amigo. Um pedido já feito não pode ser retirado.

- Eu vou dar um jeito. – Leo caminhou em direção às salas onde se realizavam os pedidos. Atravessou o restante do salão principal da fábrica e, ao ficar frente a frente com uma das diversas portas que ali se encontravam, abriu-a, entrando no recinto. Assustou-se, antes mesmo de fechar a porta. O minúsculo quarto estava com os vidros das paredes e do teto quebrados, lotando o chão com os cacos.

- Eu te avisei que era impossível. – disse Boguinho, atrás do garoto, no mesmo local em que se encontrava – Um pedido feito não tem mais volta. – rápida pausa – E por falar em pedido feito, é hora de realizar o segundo desejo que você pediu... ficar aqui para sempre!

CAPÍTULO 6

- E por falar em pedido feito, é hora de realizar o segundo desejo que você pediu... ficar aqui para sempre! – disse Boguinho

- Mas você me disse que somente pode desejar um pedido por vez... – disse Leo, com um tom de voz mais elevado

- Sim. Mas você pediu os dois desejos com tanto afinco. Não tinha como não realizar ambos.

Como que por instinto, Leo saiu correndo do interior da sala. Visualizou Boguinho parado no centro do salão principal da fábrica e afastou-se o máximo que pôde do mesmo.

- É inútil. – disse o palhaço

Leo, contudo, não lhe deu atenção. Continuou a correr, encostado na parede à sua direita. Boguinho começou a caminhar em sua direção.

- Não adianta fugir, Leo. O seu destino é ficar aqui comigo...

- Cala a boca. – respondeu o garoto. Visualizou uma porta junto à parede onde se encontrava encostado. Acelerou em sua direção, abrindo-a. Fechou a porta logo atrás dele.

Arregalou os olhos tão logo viu o que se encontrava no interior daquele grande cômodo. Havia pessoas dependuradas em ganchos cravados em seus queixos, espalhados por todos os lugares. Alguns se encontravam em esteiras aéreas, onde máquinas o atacavam, desmembrando-os e os eviscerando. Após, colocaram o que retiraram em outras esteiras, que saíam do local com os materiais, coladas ao teto.

- Meu Deus, o que é isso?

- Não adianta se esconder, amiguinho. – disse Boguinho. Leo conseguiu escutar o barulho do machado se arrastando ao chão, em sua direção.

Leo afastou-se da porta, entrando de vez no recinto. Como sentia o coração prestes a parar quando chegava perto de algum cadáver, o garoto tentou se afastar destes o máximo que pôde. Correu em direção ao lado oposto da porta de entrada.

- Cadê? Cadê? – se perguntou, desesperado. Procurava algo na parede oposta a da entrada. A porta de entrada do cômodo se abriu, entrando Boguinho no local.

- Quer brincar de pique-esconde, amiguinho? – perguntou o palhaço, com voz suave e fina

Leo se escondeu atrás de um amontoado de cadáveres dispersado em algum ponto na parede oposta. Boguinho começou a cantarolar enquanto passeava pelo local e girava o machado no ar. O coração do garoto saltitava dentro do seu peito, quase saindo de seu corpo.

O palhaço caminhou até ficar próximo a uma pilha de cadáveres situada em um ponto distinto ao de Leo.

- Será que você está... – perguntou o palhaço, cantando, erguendo o machado no ar. – aqui? – concluiu a frase, atacando a pilha de cadáveres com a arma.

Os cadáveres voaram longe. Alguns foram partidos ao meio devido ao violento golpe de machado de Boguinho. Sangue jorrou pelo local. Leo arregalou os olhos.

- Ó, você não está aqui. – disse o palhaço, fingindo tristeza, com voz infantil – Onde você estará?

Leo percebeu Boguinho procurando por outras pilhas de cadáveres. Lembrou de só haver mais uma pilha no local e sabia que Boguinho viria até ela. Poderia tentar se mexer e esconder em outro lugar, mas não havia como – o palhaço já estava virado em sua direção.

- Será que você está ali? – perguntou Boguinho, caminhando em direção à segunda pilha de cadáveres enquanto girava o machado

O garoto não perdeu atenção. Aproveitando que o palhaço ainda se encontrava distante, correu em direção à porta.

- Olha, você apareceu. – disse Boguinho, fingindo felicidade, quando viu Leo passar como um raio por ele – Vem cá, vem ficar com o Boguinho.

- Deus me livre. Eu não vou ficar contigo. Você quer me matar. – Leo saiu do interior do local, entrando novamente no salão principal da fábrica

Dentro do salão principal, Leo olhou de um lado para o outro. Pensou em entrar em uma das salas onde se realizavam os pedidos, mas, se Boguinho lhe achava, não teria como fugir. Pensou em entrar na sala de realização dos pedidos, mas acreditou não haver outra saída que não a porta de entrada. Algo iluminou sua mente, dando uma luz de esperança.

- É isso. – pensou o garoto

Saiu correndo, a toda velocidade, em direção à saída da fábrica. Atravessou o salão principal e, após, o batente da porta. Estava do lado de fora da fábrica novamente. Surpreendeu-se ao visualizar o cenário externo da Fábrica de Sonhos. O incêndio tomou conta de praticamente todo o campo, transformando em chamas as plantas carnívoras, o gramado e a grande maioria das árvores. Pouco restava de natureza naquele cenário outrora tão belo. Além disso, as árvores que foram queimadas tiveram os seus "frutos" lançados ao chão... e estes "frutos" estavam de pé – ou, pelo menos, tentavam – e mexiam!

Mas Leo não teve tempo de admirar o novo cenário à sua frente. Escutou Boguinho arrastando o machado logo atrás dele e voltou a correr. Enxergou a porta de entrada à Fábrica de Sonhos e a colocou como seu foco.

O garoto atravessou o campo o mais rápido que pôde. Grande parte do solo e do campo estava quente – quase fervendo – devido ao incêndio próximo. Era necessário saltar o tempo todo para não ter o solado do tênis – ou até mesmo a pele do pé e da perna – queimado. Desviou-se das árvores e das plantas carnívoras em chamas e dos cadáveres que, àquela altura, já andavam – ainda que com certa dificuldade.

Ao passar perto de uma árvore ainda intacta, Leo se assustou quando os cadáveres "frutos" se mexeram, tentando agarrar o garoto como podiam. Afastou-se do tronco e continuou sua corrida. Estava próximo da porta de entrada.

Sentiu, às suas costas, uma queimadura insuportável. Olhou para frente. Enxergou todo o cenário atrás de si em chamas. Dava para sentir o calor, de tão próximo que estava.

Após dois ou três minutos, Leo conseguiu, finalmente, chegar à porta de entrada. O coração queimava dentro do peito. Os pulmões ardiam, tentando resgatar o oxigênio perdido. As costelas doíam, por causa das numerosas fincadas. Sentia o corpo cansado, com os músculos já rígidos. Era uma criança e não tinha o hábito de praticar esportes – não era de seu feitio correr. Nunca julgou importante correr – até porque nunca conseguia fugir dos valentões no colégio.

Leo abriu a porta. Estava trancada. Forçou-a duas vezes, tentando abri-la. Em vão. A porta não se mexeu. Nada. Nem mesmo um centímetro.

O garoto soltou a porta e olhou ao seu redor. Enxergou o fogo tomar conta de grande parte do cenário, além de Boguinho perto dele.

- É inútil! – gritou o palhaço – Já disse que estou realizando o seu segundo desejo...

- Não enche. – reclamou Leo – Palhaço chato. – resmungou. Olhava em direção a todos os lados, na procura de alguma saída

- Ei! – manifestou Boguinho – Eu escutei!

- Eu falei para escutar mesmo... – resmungou o garoto, novamente

- Eu escutei de novo.

- Para de me escutar então.

Boguinho se manifesta seu descontentamento com gestos corporais. – "Para de me escutar" – disse o palhaço, modificando a voz, tornando-a mais grave – Você está achando que eu vou ficar andando com as duas mãos no ouvido? Eu vou cair no chão.

- Bom que você para de me perseguir.

- Eu estou realizando o seu desejo. Quem mandou pedir para ficar aqui?

- Eu pedi para FICAR aqui, e não para MORRER.

- E quem disse que você vai morrer?

- Você. Você está carregando um machado por causa de quê, então?

- Pra dançar. – Boguinho colocou o machado sobre o ombro direito. – "I´m singing in the rain. Just singin´in in the rain". – começou a cantar, com o machado no ombro direito e gesticulando com a mão esquerda. Em seguida, deu um giro de 360º na mesma posição de antes – "What a glorious feeling" – segurou o machado com as duas mãos, à sua frente, dançando com o mesmo. – "I´m happy again". – o palhaço parou de cantar, no exato momento em que percebeu Leo parado, observando-o incrédulo. - O que foi?

- Foi horrível sua piada.

- "Foi horrível sua piada" – disse Boguinho, modificando novamente a própria voz – E eu tenho culpa de seu senso de humor ser horrível? Você é péssimo em pia... – interrompeu sua fala, ao ouvir passos rápidos à sua direita. Percebeu se tratar de Leo. – Aff... – suspirou. Começou a andar. – Essa brincadeira está ficando chata, Leo. – gritou

- Então pare de brincar. – gritou o garoto, enquanto corria em direção à esquerda da fábrica.

- Você quem está brincando de pique-esconde...

- É lógico. Não quero ficar aqui...

- Nossa, valeu. – o palhaço se sentiu triste com a fala de Leo – Valeu mesmo. – ele bateu, com a mão fechada, no peito.

- Olha este lugar, Boguinho. Está feio. Tem cadáveres e incêndio. Até você... – pausou – mudou.

- Você ainda não percebeu, não é? – Leo ficou em silêncio alguns segundos. – Tudo bem. – concluiu – É normal que você não... – Boguinho parou de falar no exato momento em que percebeu Leo passando próximo a ele, a toda velocidade. Virou-se para trás e visualizou o garoto correndo rapidamente, atravessando o fogaréu e os cadáveres em pé, em direção à fábrica. – O que ele está pensando? – se perguntou o palhaço

CAPÍTULO 7

Leo correu em direção à fábrica, desesperado, desviando-se dos cadáveres e do fogo.

- Ele vai voltar pra fábrica? – perguntou Boguinho. – Aff... – soltou, suspirando – Isso já está ficando chato. É melhor acabar logo com isso. – o palhaço ergueu o machado e o colocou novamente no ombro direito.

O garoto não tinha nenhum plano em mente. Ficaria apenas desviando até conseguir sair daquele local – ou desmaiar por causa da exaustão. Precisava se manter longe de Boguinho o máximo que podia – só de olhar para o palhaço já fazia o seu corpo tremer. Correu novamente em direção ao interior da fábrica. Estava com a porta aberta, o que certamente lhe ajudaria naquele momento de fuga. Chegou perto da porta. Escutou um som horrível do interior da fábrica, tão horrível a ponto de fazê-lo tremer todo o corpo e a suar. Era o som de pavorosos gritos de dor e medo, que ecoava pela fábrica – o que parecia aumentar o sofrimento.

Instantaneamente, Leo desviou-se da porta, encostando as costas na parede ao lado. Tentava recuperar o fôlego e parar de tremer. Sentiu o suor da testa descer pelo rosto. Limpou o excesso.

"O que foi isso, meu Deus?", se perguntou o garoto, em pensamento. "O que está acontecendo?", perguntou novamente, enquanto mexia em seus cabelos

Percebeu o calor no local aumentar. Já não sabia mais se suava por causa do medo ou do calor. Olhou para frente. Todo o cenário estava tomado pelas chamas. Os cadáveres ainda andavam poucos passos antes de caírem no chão e serem engolidos pelas chamas. As árvores caíram. Não existiam mais plantas carnívoras no local. Leo procurou por Boguinho, mas o palhaço não mais se encontrava em seu campo de visão. Percebendo estar sem saída, correu em direção à parte de trás da fábrica. Atravessou toda a enorme extensão do prédio, até chegar ao seu fundo.

O campo existente na parte de trás do prédio da fábrica estava nas mesmas condições que o da parte da frente – completamente incendiado, com árvores tombadas e cadáveres andando queimados.

"O que eu faço? O que eu faço?", se perguntou, desesperado. Olhou em todas as direções. Enxergou uma escada de mão acoplada, que dava ao topo da fábrica.

Sentiu uma pequena pontada no peito. Tinha um medo horrível de altura – qual criança não tem? Respirou fundo, tentando se acalmar, se dirigiu até as escadas e colocou as mãos na barra de ferro ao lado dos degraus.

- Vamos, Leo, coragem. – disse o garoto, para si mesmo

Colocou o pé esquerdo no primeiro degrau. Elevou o corpo para colocar o outro pé, mas fraquejou, colocando-o no chão. Estava tremendo, tamanho o nervosismo. Voltou a respirar fundo. Ergueu novamente o corpo. Conseguiu dessa vez colocar o outro pé no degrau. Em seguida, elevou novamente o corpo, a fim de passar para o segundo degrau. Hesitou a princípio, porém, ao respirar fundo, conseguiu. Colocou o outro pé sem grandes dificuldades e começou a subir as escadas.

Já se encontrava no meio da escada. De repente, uma surpresa – algo segurou o seu pé esquerdo. O garoto quase caiu da escada, precisando se segurar com força nas barras de ferro laterais. Bateu com o estômago na quina da escada e sentiu a comida dentro do órgão escapulir e ir à boca, para depois voltar.

O garoto olhou para baixo. Sentiu uma grande tonteira ao visualizar o chão tão pequeno ao fundo. Não percebeu o fogo tomando conta de todo o solo. Leo também visualizou Boguinho logo abaixo dele, segurando sua perna.

- Me solta, Boguinho. – disse o garoto, sacudindo a perna

- Desista, Leo. Não tem para onde correr. – gritou o palhaço

- Nunca. Jamais vou desistir. Não quero ficar aqui, Boguinho, não adianta... – gritou Leo. Conseguiu sacudir a perna o suficiente e se soltar.

O garoto continuou a subir as escadas. Ultrapassou quatro degraus, quando Boguinho agarrou Leo pela parte de trás de seu corpo. O garoto quase caiu. Segurou-se novamente nas grades de ferro.

- Solte-me, Boguinho. Solte-me. – Leo começou a se debater. Tentou chutar o palhaço, conseguindo segundos depois. Boguinho caiu alguns degraus. Aproveitando-se da queda do palhaço, o garoto terminou de subir as escadas.

Chegou ao alto da fábrica. Avistou o terraço plano, com a fumaça cinzenta saindo das quatro chaminés espalhadas pelo local e cobrindo os céus.

Tão chegou entrou no terraço, Leo sentiu a garganta queimar e a respiração faltar – fruto da fumaça logo acima de sua cabeça. Tampou o nariz e a boca com a blusa e correu para dentro do local, escondendo-se atrás da mais próxima das chaminés.

Escutou barulho de passos no terraço. Certamente era Boguinho, que havia chegado ao local.

- Onde você está, Leo? – perguntou o palhaço, com um tom de voz grave e séria – Apareça. Já está perdendo a graça, garoto.

O garoto ficou encolhido em um pequeno ponto atrás da chaminé. Tentava ficar invisível no local.

- Leo, apareça. – gritou novamente Boguinho. Seu grito ecoou pelo local.

Boguinho começou a andar pelo terraço, à procura de Leo. Porém, para sorte do garoto, este caminhou na direção contrária à sua posição.

- Apareça, Leo. Não tenho o dia inteiro.

Leo percebeu Boguinho caminhando em direção a outra chaminé, colocada do lado oposto da que ele se encontrava e, em seguida, voltou. Imaginou que ele caminharia somente até o centro, mas o palhaço continuou a caminhar em sua direção.

"Tsc, e agora?", se perguntou, em pensamentos, o garoto. Olhou em todas as direções, à procura de alguma saída. De repente, percebeu que Boguinho não mais carregava o seu machado – era praticamente impossível subir uma escada de mão, segurar aquele que se encontrava logo acima na escada e ainda carregar um machado com apenas duas mãos; além do fato de que o palhaço usaria o machado para atacar Leo, ao invés de segurá-lo com as mãos.

"É isso. Ele não pode me atacar", disse o garoto, feliz. Levantou-se. Correu, na direção oposta à da escada. Não se importou em ser visto ou passar perto de Boguinho.

- Aí está voc... – disse o palhaço. Mas, parou sua fala ao perceber Leo voltando a correr e em outra direção

- Isso já está ficando chato, Leo. – disse Boguinho, voltando a perseguir o garoto

- Problema. Se for preciso, ficarei correndo eternamente para fugir daqui.

Mas Leo sabia que seria impossível correr eternamente pelo local. Aliás, era impossível ele correr mais alguns metros. Apesar da adrenalina correndo pelo seu corpo, o mesmo já se encontrava exausto. Suas pernas não aguentavam mais suportar o seu peso. Os joelhos e os calcanhares pulsavam de dor. As costelas fincavam furiosamente. Os pulmões ardiam, faltando ar. O estômago ainda doía da pancada. Os ombros doíam, devido aos movimentos do braço para conseguir equilibrar o seu corpo durante as corridas. Ao contrário do garoto, Boguinho não demonstrava sinal nenhum de cansaço. Estava implacável, sem nem mesmo se sentir ofegante. "Que ser é esse?", se perguntou o garoto.

Leo correu pelo terraço da fábrica, na direção oposta à da escada. Pensou em se esconder, mas sabia que era impossível – afinal, Boguinho estava lhe vendo. Atravessou o alto da fábrica até chegar ao outro lado, só parando quando percebeu não haver mais chão para pisar. Estava na beirada e já avistava o chão lá embaixo sendo engolido pelo fogo. Visualizou também o fogaréu começando a tomar as paredes da Fábrica de Sonhos. Mais cedo ou mais tarde a fábrica também seria tragada pelas chamas.

- A fábrica... está pegando fogo... – disse Leo, entristecido

- Isso já era de se esperar. – disse Boguinho, sério, logo atrás dele.

- Por que você deixou o fogo consumir toda a Fábrica de Sonhos? – se virou o garoto, irritado

- Não se controla o fogo.

Leo abaixou a cabeça, entristecido. As chamas começaram a aparecer no terraço, tomando conta de grande parte das chaminés e do local, deixando livre apenas o ponto onde se encontravam Boguinho e Leo.

- Por que a tristeza? – perguntou o palhaço

- Não queria que aqui pegasse fogo...

- Você não quis ficar aqui, mas não quer que aqui arda em chamas?

- Sim. – disse o garoto. – Não sei por que, mas é como se eu precisasse proteger este local, por mais feio que ele se encontre.

- É natural que queira proteger este local. – disse Boguinho. Chamou a atenção de Leo. – Ainda não entendeu, não é?

- O quê? – de fato, o garoto parecia não entender nada do que Boguinho estava dizendo – Diga, por favor. Me explica o que eu ainda não entendi.

Boguinho suspira.

- Aqui é o seu coração, Leo. Por isso você quer proteger tanto.

Leo levou a mão ao peito.

- Meu... coração...? – perguntou, surpreso

- Sim, exatamente. – disse Boguinho – Agora talvez você entenda tudo...

- E você, Boguinho, quem é? E por que mora no meu coração?

- Eu sou você, Leo. – disse o palhaço, apontando para o garoto. Este levantou as sobrancelhas, tamanha a surpresa.

De repente, para espanto de Leo, todo o cenário – a fábrica, com o terraço e as chaminés, as chamas, as árvores, os cadáveres, as cinzas e o próprio Boguinho começam a ser tragados por uma força mágica, rodopiando-se e unindo-se em um só ponto à frente do garoto. Em seguida, esta combinação de toda a Fábrica de Sonhos entra no peito de Leo, na região do coração.

Leo acorda, em um só susto. Não estava dormindo, pois estava com os olhos arregalados de tão abertos – parecia acordar de um transe ou de um devaneio. Percebeu se encontrar na calçada de uma rua larga, com muitas árvores. Estava sentado na rua, sobre suas próprias pernas – que se encontravam dobradas e jogadas cada uma para um canto.

Olhou em volta. Assustou-se, pois visualizou Gerard e Mathias mortos ao seu lado, com golpes de faca que perfuraram os seus peitos. Em seguida, percebeu que se encontrava segurando uma faca cravada no lado direito de seu pescoço, fazendo um enorme talho, de onde vertia muito sangue.

[1] Personagem de Macaulay Culkin no filme "Esqueceram de mim"



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Comentários   

0 # Lucile 16-07-2017 03:58
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