Diário dos mortos

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Tudo começou quando eu tinha oito anos, em uma noite fria e chuvosa, um pesadelo me despertou de forma agressiva, fiquei sentada, encostada na cabeceira da cama, abraçando os joelhos e chorando desesperadamente. Eu gritava por meus pais, mas não tive retorno, me sentia sozinha e assustada. De repente a porta se abriu lentamente, uma menina entrou no quarto, saltitou e se sentou ao meu lado. Ela tinha cabelos castanhos claros, vestido branco de festa, um leve sorriso no rosto. Ficamos em silencio, eu não conseguia gritar mais, apenas a observei. Ela estendeu as mãos e empurrou meu ombro para trás me deitando, puxou o cobertor sobre mim, desligou o abajur próximo a minha cama, me deu um beijo na testa, e começou a cantar. Sua voz suave me acalmou, mas a letra era terrível, a música falava sobre uma criança que brincava em um bosque de pique esconde, de repente surgiu um lobo – sua voz estremeceu nesta parte – que a cozinhou viva, foi neste momento que eu adormeci. No dia seguinte cogitei a possibilidade de não ser apenas um sonho, mas deixei de lado, por medo talvez. Voltando do colégio minha mãe parou no farol, lancei meu olhar para um poste ao lado do carro que tinha um cartaz de uma garota que estava desaparecida, meu corpo todo esfriou, parecia que o sangue simplesmente desapareceu de mim, fiquei tremula. A garota da foto me visitou de madrugada, como isso é possível? Apontei para a foto e sussurrei.
-Eu a conheço.
Minha mãe girou o rosto para o cartaz e com a mesma velocidade voltou seu rosto para frente me ignorando completamente. Não era impossível eu conhecer aquela garota, afinal tínhamos a mesma idade. A falta de credibilidade da minha mãe me incomodou, então decidi esperar outra visita. Algumas noites se passaram até que acordei novamente assustada, e a cena se repetiu, ela abriu a porta e se sentou ao meu lado. Porem, dessa vez eu quebrei seu silencio.
-Você morreu?
Ela moveu a cabeça de forma positiva, me arrepiando.
-Por que você está aqui? – Questionei.
-Preciso dar paz para minha família.
-Como? – fiz uma pausa – Por que eu?
Ela me entregou um caderno e uma caneta.
-Escreva a ultima folha do meu diário.
Não me lembro ao certo o que aconteceu depois, acordei no dia seguinte suada e dolorida, o caderno estava aberto na minha frente, a ultima folha não estava mais em branco e a letra não era minha. Desci as escadas e entreguei o caderno para minha mãe, nele tinha uma foto da garota com a família. Minha mãe sorriu ao pegar o caderno e sua expressão mudou drasticamente quando começou a ler a ultima folha, seus olhos lacrimejaram.
-Onde você encontrou isso?
-Ela me deu – respondi ameaçando chorar.
-Fala a verdade Nicolly, onde você encontrou?
-Ela me deu mãe – gritei chorando – ela entrou no meu quarto de noite e me deu.
Minha mãe foi para a delegacia, depois me levou para casa. De noite a garota voltou, estava feliz e me agradeceu por finalmente dar a paz que sua família tanto buscara. Ela colocou uma borboleta na janela e disse que sempre quando estivesse assustada, essa borboleta voltaria para me acalmar. Ela nunca mais voltou, mas sempre vi essa borboleta quando precisei de companhia. Eu tinha certeza de que nunca mais veria alguém que já morreu, mas mal sabia o quanto estava errada. Aos 14 anos sofri bulling constantemente, por ser quieta e tímida, não tinha amigos e aquele clichê todo. Certo dia estava farta de ser humilhada e decidi fugir, corri para um parque próximo ao colégio, me sentei em uma balança e deixei a tristeza transbordar em lagrimas. Uma garota se aproximou de mim, tinha a minha idade, se sentou ao meu lado e sorriu. Cabelo preto, olhos claros, vestia Jens e tênis, muito comum. Então ela começou a cantar e ficou claro que de comum não tinha nada, era outro espírito querendo paz para si e sua família.
-Não vou te ajudar – sussurrei – tenho meus próprios problemas.
Ela ficou em pé diante de mim, e forçou um confronto visual que eu tentei evitar, mas falhei. Ela estremeceu, de repente seus olhos caíram, bateram no chão e rolaram para baixo dos meus pés, uma linha de sangue se formou na cavidade ocular que em segundos começou a jorrar, ela gritava de dor e não movia os braços como se estivesse amarrada. Suas roupas se rasgaram e começou a escorrer sangue de sua virilha, boca e ouvido. Uma sombra surgiu atrás dela, a pegou pelo cabelo e a arrastou até uma arvore, bateu sua cabeça contra o tronco e começou a puxar seus seios rasgando a pele, ele jogou pedaço de carne ensangüentado sobre mim. Eu tentei correr, mas meus pés estavam presos por uma espécie de algemas, que antes eram os olhos da garota. A sombra puxou a garota pelas pernas, se ajoelhou e a estuprou lentamente diante de meus olhos, cada vez que ele a introduzia a puxando pelas nádegas e espirrava sangue sobre mim. Ela gritava, gemia, engasgava com sangue. Ele virou a garota e a estuprou pelo anus, foi quando eu fechei os olhos, eu ouvia mais duas mulheres gritando. Os gritos soavam da mesma forma, agudo, profundo, desesperado.
-Chega – sussurrei chorando – Para.
Abri os olhos e a garota estava diante de mim, não estava deformada. Ela estendeu a mão e me entregou um caderno e uma caneta, quando toquei no caderno, tudo escureceu. Acordei em casa, suada e dolorida, o caderno estava aberto sobre mim e estava com a ultima folha preenchida com uma letra que não era minha. Dessa vez decidi ler o restante do caderno, era um diário de uma garota chamada Emma, feliz, apaixonada, agora era uma alma desesperada. A ultima folha estava escrita em primeira pessoa, ela detalhou que foi pega com mais duas amigas quando voltavam para casa, um homem grande, branco, careca e sínico. Ele jogou as garotas em uma caminhonete, dirigiu até um riu onde estuprou e matou duas delas, depois dirigiu com o corpo quase desfalecido de Emma para o parque onde a estuprou novamente e a enterrou. Levei o diário para a policia, depois voltei para casa. Tentei desesperadamente esquecer aquela cena, os gritos, o sangue. Encontraram os corpos, mas não encontraram o homem. Por um motivo desconhecido, todas as pessoas que praticavam bulling comigo saíram do colégio, em questão de dias eu estava livre, recebi aquilo como um agradecimento, mas rezei para que eu não precisasse passar por aquilo novamente. Minhas orações não foram ouvidas, recebi espíritos durante toda minha adolescência. Ajudei diversos espíritos, sempre com a mesma idade que eu, e todas às vezes de pessoas assassinadas, elas vagavam a procura de paz, para si e sua família, e pessoas como eu – uma espécie de canal/diário – simplesmente chamo – inconscientemente – esses espíritos para mim. Mas nada se compara o que aconteceu na faculdade, com 18 anos. Deixar a cidade natal não é fácil, ainda mais quando é para uma cidade maior, com mais crimes e mais espíritos. Agora eu já sei diferenciar quando é uma pessoa ou um espírito, e aprendi a me comunicar positivamente com eles, pedindo respeito a minha vida pessoal. Eles não aparecem de madrugada com a cara deformada para arrancar seu coração e comer, também não escrevem ameaças esquisitas em espelhos embaçados, e muito menos movem objetos de um lugar para outro te arrepiando. Geralmente eles se aproximam como alguém comum, sentam ao seu lado e esperam uma interação sua caso contrario eles cantam suas vidas, com uma linda melodia, e uma letra macabra. Na universidade sempre evitei ir ao ginásio, aquele lugar me dá calafrios, talvez por ter muitas almas perdidas nessa cidade, ou talvez por ser um lugar pesado, não sei. Mas infelizmente minha aula de direito teria que ser no ginásio, já que minha classe passara por uma singela reforma. O primeiro dia foi lento, ouvi gritos de longe, meu corpo estremecia, mas não vi espíritos. A partir do segundo dia, eu comecei a ver uma bola de fogo que saia do centro da quadra, batia no teto e explodia na cabeça de um professor – que sempre se sentava no canto próximo a porta-, aquele lugar o incomodava tanto quanto a mim. Eu o observei por alguns dias, e percebi uma sombra negra atrás dele, que o abraçara. Eu já vi aquela sombra antes, eu tinha certeza disso. Os dias foram passando e o lugar ficou ainda mais barulhento, gritos, correntes batendo na parede, cheiro de carne queimando. O que tinha naquele lugar? Certo dia decidi não sair com os outros alunos, fiquei sozinha no ginásio e esperei algum contato, qualquer coisa. O professor – da bola de fogo – entrou no ginásio e se espantou quando me viu.
-A aula já terminou, pode ir embora.
-Eu sei – respondi apertando minha mão – quero ficar sozinha um pouco.
-Não pode ficar sozinha aqui.
-Por quê?
A sombra surgiu por detrás dele, se inclinou e ficou a centímetros de mim, tinha cheiro de carne podre, olhos grandes e vermelhos, dentes amarelos e podres. Finalmente a reconheci, era à sombra da minha visão no parque.
-Eu te conheço garota – a sombra sussurrou sobre meu rosto – acha que vai ser o "diário dos mortos" por muito tempo? Vou queimar você, assim como queimei todas elas.
O chão se abriu e um cemitério surgiu diante de meus olhos, corpos começaram a se levantar, se arrastando e deixando pedaço de carne podre no chão, se ajoelharam atrás da sombra. Parecia o apocalipse zumbi, de repente os corpo começaram a pegar fogo, gritavam como se sentissem dor, e viraram pó.
-Oi? – o professor gritava e passava a mão diante dos meus olhos – Você está bem?
Eu não estava bem, ele era o homem que matou a garota do parque daquele jeito tão brutal, e agora estava diante de mim.
- Tenho que ir.
Sai correndo do ginásio me questionando sobre minha próxima atitude, ligar para a policia, voltar para casa, falar com algum espírito. O que eu deveria fazer? Não fui para a faculdade na próxima semana, e não estranhei quando uma garota desconhecida veio me visitar de madrugada. Loira, olhos castanhos, uniforme escolar, e o mesmo sorriso dos outros espíritos.
-Quero te mostrar uma coisa – ela sussurrou.
Eu a segui por algumas ruas até que chegamos à universidade, demos a volta no prédio, descemos uma escada ao lado do ginásio que nos levou a uma pequena porta camuflada, abrimos e entramos. Estava escuro, de repente uma garota começou a pegar fogo diante de mim, ela agonizava e gritava por socorro, ao seu lado dela aquele professor assistia com um olhar apaixonado, atrás dele a sombra aplaudia orgulhosa. O corpo ficou preto e sem vida, de repente o braço despedaçou e o corpo se desmontou aos meus pés. O lugar voltou a escurecer e agora eu estava sozinha, acendi a luz do celular e olhei ao redor, não tinha nada, literalmente, era um grande vazio. Desisti de buscar qualquer coisa ali, mas sabia que alguma coisa acontecia, fui para o quarto e pensei em voltar lá outro dia, com mais calma para ver melhor. Como voltei para a classe e não tive motivos para passear pelo ginásio, acabei deixando isso pra lá. Meses depois fui acordada por uma borboleta que saiu voando pela janela em direção a universidade, então resolvi voltar lá, caminhei silenciosamente, me aproximei da porta, mas ouvi barulhos, olhei por um pequeno buraco na porta e vi um homem de costas, nu sobre uma garota que gritava e tentava bater nele. Ela estava deitada de costas para o chão, também estava sem roupas, com as pernas em volta do cintura do homem, e o rosto sujo de sangue. Ele fazia movimentos agressivos com a cintura, forçando uma penetração, e batendo o corpo dela contra o chão. Eu dei um passo para trás e corri para longe, não era uma visão de algo que aconteceu, aquilo estava acontecendo agora. Encostei-me a uma arvore, inclinei o corpo para frente, e tentei respirar, o que eu faço? De repente senti um vento frio, as folhas ao meu redor subiram como em um redemoinho, ouvi passos, levantei o rosto e tinha muitas mulheres diante de mim, machucadas, sangrando, faltando parte do corpo, carbonizadas, era um filme de terror. Elas deram as mãos e de repente senti uma pressão na cabeça, cai de joelhos, elas se aproximaram, minha cabeça deu um estalo e tudo ficou em silencio. Agora eu não tinha mais controle sobre mim, caminhei até o ginásio, chutei a porta, o homem saiu de cima da garota e era o professor, a sobra saiu da boca dele e se armou contra mim.
-Garota ingênua – a sombra sussurrou – quer fazer parte da minha coleção?
Ele estendeu as mãos e começou a cair ossos, carne podre e órgãos espremidos sobre nós
- O que você faz aqui? – o professor sussurrou com um olhar assustado – o que eu faço aqui?
Ele olhou para trás e a garota se encolhia próxima a parede ensangüentada.
-Eu fiz isso? – o professor fez uma pausa – eu machuquei ela.
-Não – abri a boca e centenas de vozes falaram ao mesmo tempo – você fez isso com todas nos.
A sombra foi para trás do professor que se tornou um dragão se enrolando em mim e tentando me sufocar, eu gritei e me transformei em um tigre o mordendo e arranhando. A briga subiu pro ginásio, ele me jogou contra a parede, eu bati e voltei mordendo a cabeça dele. Caímos no chão e eu tinha a cabeça dele na minha boca, mordi e senti gosto de sangue. De repente eu estava em baixo no ginásio de novo, de joelhos, meu nariz sangrava e eu tinha uma forte dor de cabeça. O professor estava diante de mim, desacordado, a sobra agora lutava sobre nos contra todas as almas que matou. Foi despedaçada, o lugar ficou escuro e depois clareou de uma vez. Eu estava ainda ajoelhada, o professor se arrastava atordoado para o canto da parede tentando entender o que estava acontecendo, e a garota chorava na outra parede. Ouvi as vozes sussurrando de longe.
-Unam-se enquanto estão vivas, pelas causas das vivas. E busquem a liberdade das almas que se escondem nas profundezas das sombras.
De repente a policia entrou arrebentando o resto de porta que ainda tinha, gritando e algemando o professor. Levaram a garota para o hospital e eu fui para a delegacia dar um depoimento contra homem. A sombra não estava mais com ele, porque agora ele é a alma liberta que se escondia nas profundezas das sombras, claro que nada justificaria o que ele fez, independente se são ou por influencia maligna. E a garota era a viva, das causas das vivas. Naquele momento eu entendi o que eu deveria fazer, procurei aquela garota – Megan- e conversamos muito. Demorou para ela entender o que aconteceu naquele dia, 10 anos para ser exata, mas hoje somos formadas, ela psicóloga, eu advogada. Lutamos pelas causas das mulheres que sofrem agressão física, psicológica e sexual, independente de quem, e onde. Nos juntamos às vivas pelas causas das vivas, e ajudamos uma instituição religiosa – muitas religiões juntas pelo mesmo objetivo - que busca a libertação das pessoas, buscamos liberdade das almas que se escondem nas profundezas das sombras. Quando abrimos o nosso próprio escritório recebemos a visita de centenas de borboletas que voaram e pousaram em todos os lugares.
-Dizem que borboletas é sinal de boa sorte. – Megan sussurrou orgulhosa.
-É sinal de aprovação – respondi.
Ela me jogou um olhar confuso mas desfez quando viu seu filho chegando com seu marido.
-Nos vemos amanha Nick?
-Até amanhã Megan – sorri com os olhos lacrimejando.
Ela deu as costas e saiu com seu filho no colo e seu marido, e uma borboleta a seguiu, as outras voaram ao meu redor. Sai do escritório e observei a placa "Escritório diário das almas", dei as costas e entrei no carro ouvindo um coral bem distante cantando enquanto eu me afastava para casa.
- "Unam-se enquanto estão vivas, pelas causas das vivas. E busquem a liberdade das almas que se escondem nas profundezas das sombras."

Autoria de Ashira Psycho

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