Lâminas de sangue

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 Trabalho a seis anos na mesma empresa, como o salário é bom e o ambiente agradável, não há muita rotatividade de pessoas, assim todos nos conhecemos bem. Todos os anos, no dias das bruxas, a empresa nos prega uma pequena peça, os portões são trancados às 19 horas – horário que geralmente saímos – as luzes se apagam e somos liberados apenas a meia noite. Já acostumados com tal ato da empresa, apenas nos reunimos e ficamos aguardando a abertura dos portões comendo e contando historias de terror. Porém este ano foi diferente, às 18 horas os portões se trancaram inexplicavelmente e os guardas sumiram, certa de que é parte da tradição da empresa, ignorei a antecipação e notei que todos fizeram o mesmo. Pontualmente às 19 horas nos reunimos em nossas respectivas áreas de trabalho, eu fui para o laboratório de pesquisa, meus colegas estavam sentados no chão conversando tranquilamente com algumas velas acesas.
-Demorou Gabriela.
Meu chefe – Jhonatan – magro, alto, cabelo loiro, óculos, barba por fazer, é cobiçado por muitas garotas mas parece não estar interessado em relacionamento. Fascinado por DNA humano e mutação genética ele ignora qualquer coisa que não venha de dentro de um laboratório. Bonito mas tedioso. Ele estendeu a mão, me entregou um pacote de salgadinho e começou a contar uma historia de terror, me sentei ao seu lado e observei atenciosamente meus colegas. Márcia se encolhia, parecia uma criança amedrontada, ruiva, alta, tinha um sotaque do sul e parecia interessada no chefe. Caio encostou-se à parede e ignorou a conversa toda, conferia o celular de cinco em cinco minutos. Ele é moreno, cabelo cheio de química penteado para cima, não é bonito mas tem seu charme. O último da sala é o Victor, baixo, um pouco acima do peso, inteligente e muito tímido. Todas suas histórias me arrepiavam, tinha um tom sádico e agressivo. Mas hoje ele está quieto, olhava ao redor como se escondesse algo, apertava os punhos demonstrando estar incomodado. Ficamos sentados em círculo conversando, competindo quem contaria a pior historia de terror, e contando nossas piores viagens. Quando o relógio marcou meia noite nada aconteceu, as luzes não acenderam, as portas não se abriram, apenas silêncio.
-O que aconteceu? – Márcia sussurrou – Por que estamos aqui ainda?
Ficamos olhando ao redor como se esperássemos a resposta vir de qualquer buraco da parede ou do teto, não sabíamos exatamente o que procurar e onde. Isso nunca aconteceu antes.
-Deve ser parte da pegadinha da empresa, vocês perceberam que os portões se fecharam mais cedo hoje, vamos esperar algumas horas.
Não acreditei muito no que eu estava dizendo, mas tentei, afinal desespero não é uma boa opção agora.
-Vamos esperar até quando? – Márcia fez uma pausa, ela estava claramente se alterando.- Ninguém acredita em você, nem você acredita.
-Esta falando sobre o que? – gritei – a falta de luz, os portões ou aquela maldita pesquisa que você insiste em me acusar de ter tirado vantagem?
-Gabi, chega.
Atendi ao pedido de Jhonatan, dei as costas e fui ao banheiro, abri a torneira, enfiei a mão em baixo da água e joguei no rosto. Fiquei com o corpo inclinado olhando para dentro da pia, minha cabeça estava dolorida e meu rosto queimava. Levantei o rosto e encarei minha imagem no espelho, de repente senti um cheiro estranho, girei o rosto e em baixo do vaso sanitário tinha um casaco jogado. Inclinei o corpo e puxei o casado, tinha um braço humano amputado na altura no cotovelo, o sangue estava seco, mas não estava totalmente frio. Joguei meu corpo para trás e bati na parede, estava sem voz, derrubei um copo que estava sobre a pia o barulho chamou atenção dos meus colegas, a porta se abriu e eles entraram.
-É um – fiz uma pausa controlando a respiração apontando para o chão – é um...
-Braço – Caio sussurrou – é um braço humano.
-É claro que é um braço seu idiota.
A agressividade de Victor me incomodou, olhei para seu rosto que estava tranqüilo de mais para alguém que via aquele braço pela primeira vez.
- Esse braço só está aqui há algumas horas, e os portões estão fechados a tempo de mais, seja lá quem cortou e de quem foi cortado, não saíram daqui.
Todos ficamos em silêncio, estava claro o que Jhonatan disse, eles estão aqui, o dono do braço e quem o cortou, perto de nós, ou pior junto de nós. Passei os olhos sobre meus colegas e todos expressaram a mesma feição, todos tinham certeza de que um de nós cortou o braço de alguém. Conhecemos-nos há tanto tempo que somos praticamente uma família, eu não conseguia imaginar alguém fazendo algo assim. Márcia a essa altura já estava desmaiada, não tem como ser ela, então me resta Caio, Jhonatan e Victor. Ficamos sentados nos encarando, levantando possibilidades, evitando acusações, parecia aquele jogo de polícia e ladrão, só faltou às piscadas de olho. Não tinha como sair, não tinha sinal de celular, não podíamos confiar em ninguém, parece algo impossível de se acontecer com um grupo de nerd. Sorri com meu pensamento estranho.
-Está rindo de que? – Márcia gritou – Tem alguém morto por aí, e o assassino pode estar bem aqui, você acha isso engraçado?
Ela me atacou porque imagina que eu seja o tal do assassino, desde que roubaram a pesquisa dela e venderam para um laboratório concorrente, no meu nome, ela acha que eu posso ser capaz de fazer qualquer coisa.
-Engraçado você com tanto dinheiro que ganhou vendendo aquela pesquisa, estar presa aqui com todos nos, e pode ser morta por um de nos.
-Eu não vendi a pesquisa – ela gritou comigo ainda mais alto.
-Então você acha que eu seria tão idiota de fazer isso no meu próprio nome? E acha que eu ainda estaria aqui olhando para essa sua cara de bunda? E como você sabe que o dono do braço esta morto? Até onde eu sei, você também pode ser o assassino.
-Será que dá para vocês duas pararem com essa briga idiota – Jhonatan gritou irritado – Esqueçam suas diferenças por um minuto e nos ajudem a pensar como vamos sair daqui.
Jhonatan nos separou, eu e Caio fomos para o piso de baixo, enquanto os outros se espalharam no piso de cima, caminhei lentamente pelo corredor escuro cheio de portas trancadas me perguntando até quando isso se estenderia.
-Acha que foi o Victor?
A pergunta de Caio foi direta e mereceu uma resposta igualmente direta.
-Sim. E você?
-Jhonatan – ele fez uma pausa – a forma como a vida dele gira em torno desse laboratório, ele com certeza mataria qualquer um que entrasse em seu caminho.
Ponto de vista interessante, mas me fez pensar se seria uma forma de me manipular, e se for ele – Caio – ele é delicado e gentil, sempre esforçado, ninguém desconfia dele.
- Com certeza não foi a Márcia – Caio sussurrou – Ela desmaiaria antes de chegar à pessoa.
Eu sorri, mas me afastei dele, entrei em outro laboratório que estava aberto, em cima da mesa tinha um corpo sem o braço direito, era o diretor da empresa, foi esfaqueado diversas vezes, arrancaram seus olhos, cortaram a lateral de sua boca, abriram sua barriga e arrancaram seus órgãos internos – estava espalhado pelo chão- tinha pegadas no chão que saiam de perto do corpo e terminavam em baixo dos meus pés.
-Caio – gritei – Caio?
Corri pelo corredor e voltei ao laboratório, os outros estavam assustados, trêmulos.
- O que foi? – questionei me aproximando.
Caio estava no chão, esfaqueado, cortaram o pescoço dele e puxaram sua língua para fora, estava com os olhos arregalados e faltavam alguns dedos.
-Como isso aconteceu? – gritei.
-Você não viu nada?
A pergunta sugestiva de Márcia chegou a mim como um tapa.
-Claro que não – reagi – ele estava comigo, de repente ele sumiu. Agora ele está morto.
Procurei Victor que não estava no laboratório. Agora é oficial, um de nós é um assassino.
-O Victor- fiz uma pausa – onde está o Victor?
Corri para o andar de cima, Victor estava ajoelhado, amarrado com cordas, inclinado para frente com o rosto encostado no chão, sem roupas. Ele tinha marcas de queimadura pelo corpo, sua orelha esquerda estava cortada no chão, ele cuspiu alguns insetos que usávamos para as pesquisas.
-Não é o Victor – sussurrei.
Ele olhou para mim e se desesperou, tentou escapar das cordas mas um pedaço de madeira que estava amarrada a janela escapou e bateu na cabeça dele, quebrou seu pescoço, seu corpo caiu sem vida e uma poça de sangue se formou em baixo da sua cabeça. Ouvi Márcia gritar e corri para o laboratório novamente, só pode ser o Jhonatan, adentrei e ela estava desmaiada, Jhonatan não estava lá. Arrastei-a até o banheiro e tranquei a porta.
-Calma – sussurrei – vou tirar a gente daqui.
Sai do banheiro me preparando para enfrentar Jhonatan, abri as portas dos armários, olhei em baixo da mesa, onde ele está? Ouvi um barulho no banheiro e corri para lá, estava escuro, tinha um cheiro estranho, caminhei até a parede e Márcia não estava no chão, girei o rosto e diante de mim surgiu à assassina, roupa suja de sangue, com uma faca na mão, olhar sínico, um leve sorriso no rosto. Ela me olhava com desprezo, como eu poderia imaginar que seria ela? Dei um passo par frente e chutei o espelho.
-Você estava certa o tempo todo, roubei sua pesquisa, vendi em meu próprio nome, fiquei rica e agora – sussurrei gargalhando – eu estou apagando os arquivos. Sim – girei o rosto e Márcia estava no chão atrás de mim amarrada e chorando – eu sou a assassina. Não deveria ter dito para todos eles sobre a pesquisa, mas deveria ter me denunciado. Agora estão todos mortos e a culta é sua.
Aproximei-me, ajoelhei diante dela, enfiei a faca no pescoço dela, vi seu último suspiro, vi a dor escorrer em seu rosto em forma de lágrimas, vi o sangue descer por seu corpo e molhar uma lâmina que estava no chão.
-Dói né – sussurrei com o sorriso mais sádico – saber que o amor da sua vida morreu por sua causa, e vai ser a ultima coisa que você vai ver.
Levantei, puxei o corpo do Jhonatan que estava atrás da porta, dei as costas e sai do prédio, enfiei a faca na minha própria perna e me arrastei até um policial que estava fazendo uma ronda pela vizinhança.
-O que aconteceu moça?
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa o prédio explodiu com todos os corpos dentro, dos seguranças, dos meus colegas, dos outros trabalhadores, todos queimaram apagando qualquer prova que poderiam ter contra mim.
-Me ajuda – chorei – tentaram me matar.
Fui para o hospital e forcei o choro diversas vezes, ganhei uma indenização enorme da empresa por ter acusado o diretor como assassino, final perfeito.
-Caramba Gabi – Jhonatan gritou assustado – você assassina? Todos temos que concordas que foi a melhor história de terror.
-Você não me mataria não é Gabi – Márcia me abraçou.
-Claro que não amiga, coloquei até um nome nessa historia, "lâminas de sangue".
Todos me aplaudiram impressionados, o relógio marcou meia noite e os portões se abriram.
-Ano que vem eu ganho – Victor gritou.
Me despedi, abri a porta do armário, peguei minha bolsa, tirei um cheque do bolso que ganhei do laboratorio concorrente e joguei dentro da bolsa. Girei o rosto e avistei meus colegas se afastando. Um sorriso sádico atravessou meu rosto.
-Esse dia vai chegar- sussurrei – vocês serão apenas lâminas de sangue.

 

Autoria de Ashira Psycho

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