O Assassino da Cidade Histórica

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Era noite. O genial detetive vienense Guilherm Friederich Fritz, franzino, de cabelos levemente avermelhados e portador de óculos, usando seu eterno companheiro, um sobretudo preto, se encontrava sentado em uma mesa do lado externo de um restaurante de características coloniais, regado à luz de lampião. Junto dele, se encontrava o seu companheiro, o russo Alexandre Kajre , um homem levemente robusto, cabelo preto, portador de um bigode unido a um cavanhaque e portando roupas casuais, o eterno ajudante de Fritz.
Ambos se encontravam em um restaurante em uma pequena rua que ligava uma ponte de pedra a uma praça com todos os monumentos datados do século XVIII – inclusive o calçamento da pequena cidade, que eram pedregulhos colocados irregularmente. Ao fundo, um enorme paredão rochoso ocupava parte do cenário, parcialmente iluminado pela luz da lua cheia.
Não havia carros no local – fruto de determinação municipal, que impediu que veículos ocupassem o centro interior da pequena cidade de Tiradentes, no interior de Minas Gerais.
Fritz e Kajre se encontravam tomando um belíssimo vinho, enquanto conversavam animosamente sobre as férias no Brasil.
- Quando me disse que iria querer passar as férias no Brasil, logo achei que iria me enviar para praias ou para o Rio de Janeiro. – disse Kajre, em alemão, com seu característico pesado sotaque russo, chamando a atenção de todos no local
- Não – disse Fritz, enquanto levanta da mesa a taça de vinho que se encontrava à sua frente. O alemão na boca do vienense combina harmoniosamente. – Você, como russo, não aguentaria o calor das praias brasileiras. Acredito que as cidades coloniais têm um clima mais apropriado para gentleman como nós. Ainda mais no inverno. – completou, enquanto sorvia parte do conteúdo de sua taça
- De fato. – respondeu Kajre, enquanto igualmente levantava da mesa a outra taça de vinho repousada nela. Após sorver parte do vinho, olhou em volta a bela praça conhecida como Largo das Forras, tomada pela luz de lampiões e disse: - Aqui é bem acolhedor.
- Com certeza. – disse o vienense. – Esta região que nos encontramos possui belas cidades coloniais.
- Pena que não sei falar o idioma local. – brincou o russo.
Friz riu suavemente, antes de sorver mais um pouco do vinho de sua taça.
- Eu faço a tradução para você.
- Com licença. – disse um jovem vestido de garçom, aproximando-se da mesa com uma bandeja. Chegou ao lado de Fritz e, posteriormente, de Kajre e deixou às suas frentes um prato, para cada, de pedaços de frango mergulhados em um molho especial e ora-pro-nobis.
- Spasiba . – disse Kajre para o jovem garçom, que reagiu com o rosto, aparentemente não entendeu. Apenas sorriu, meneando positivamente a cabeça.
- Muito obrigado. – disse Fritz, para o garçom, em um português carregado de sotaque estrangeiro. O garçom gentilmente balançou a cabeça e se retirou.
- Você realmente conhece vários idiomas, Guilherm. – disse Kajre, voltando ao alemão, enquanto ambos passaram a deliciar o belo prato.
- É importante saber. – disse Fritz. – Nunca saberemos quando precisar.
- Verdade... – concordou o russo.
Passaram-se alguns minutos de completo silêncio entre a dupla de detetives. Ambos continuaram a se deliciar com o belo prato de frango com ora-pro-nobis. Contudo, já estavam acabando quando passaram a ouvir um grito vindo de longe.
- De onde é esse grito? – perguntou um surpreso Kajre, olhando para a ponte de pedra, na direção oposta do Largo das Forras
- Deve ser algum maluco. – respondeu Guilherm. – Dizem que há bastante por essas bandas.
- Sério? – perguntou um incrédulo Alexandre.
O grito foi aumentando rapidamente de volume, até ficar audível. Era um pedido de socorro. Poucos segundos depois, uma mulher de trinta e poucos anos, ligeiramente obesa, com as roupas como se colocadas às pressas - inclusive com a blusa do avesso -, com maquiagem borrada, adentra na ponte de pedra, desesperada e com as mãos para cima. Todos que se encontravam no restaurante onde a dupla de detetives se encontravam e nos restaurantes adjacentes viraram sua atenção para a mulher. Esta gritava continuadamente:
- Socorro. Socorro. Alguém me ajude. Meu marido foi assassinado.
- O que ela está gritando, Guilherm? – perguntou Kajre, para o detetive
- Parece que é um pedido de socorro. – respondeu. – Seu marido foi assassinado, ao que parece
- E por que ela não chama a Polícia, ao invés de vir correndo?
- Boa pergunta. – disse Fritz, enquanto se levantava
- Onde vai?
- Ver o que está acontecendo. – disse. Caminhou calmamente em direção à mulher e a parou quando esta se aproximou dele.
- O que aconteceu? – perguntou, novamente em um português carregado de sotaque
- O meu marido... foi assassinado... – disse a mulher. Começou a chorar generosamente.
- Isso a gente já entendeu. Precisamos saber o que podemos auxiliar.
- N... Não sei. Eu estou tão abalada que... nem sei...
- Já chamou a Polícia?
A mulher, debulhando-se em lágrimas, balançou negativamente a cabeça. De fato, parecia assustada suficientemente para deixar por completo de pensar com clareza.
- Então, já temos um ponto de partida.

Cerca de dez minutos depois, dois carros da Polícia se encontravam frontalmente a uma residência histórica no centro de Tiradentes. Era uma pequena rua de calçamento irregular, com uma pequena pracinha à frente desta e das demais que ocupavam o lado esquerdo do logradouro. Esta fazia um cruzamento com uma idêntica rua perpendicular, que margeava um pequeno fio de água a qual o chamavam de córrego, onde desembocava em uma ponte de pedra que dava, ao final, na rua onde se encontra o restaurante que Fritz e Kajre estavam.
- Pensei que iríamos estar de férias... – disse Kajre, para Fritz, enquanto atravessavam a multidão que queria saber o que havia acontecido.
- E estamos. Mas podemos trabalhar um pouquinho enquanto estamos de férias. – respondeu o detetive, enquanto chegavam à frente da multidão, esbarrando na linha amarela que impedia a aproximação de curiosos.
- Isso fere por completo a ideia de "férias" – murmurou Kajre, mais para si mesmo
- Ei, ei, ei – disse o policial que se encontrava do lado de fora da residência, empurrando Fritz para trás com a mão – Não pode ultrapassar a faixa amarela.
- Ele está comigo. – disse a mulher, na porta.
- Mas não podemos ninguém que tenha interesse na causa a entrar no local do crime. – disse o policial. Fritz enfiou a mão no interior do sobretudo e sacou uma pequena carteira profissional. Mostrou-o ao homem.
- Sou detetive particular. – respondeu. Ao fitar o nome de Fritz na carteira, sobressaltou-se. Sentiu uma paralisia subir pela coluna.
- Mil perdões, Dr. Fritz. Não sabia que era o senhor. Entre, entre. – disse o policial, enquanto levantava a faixa amarela para o detetive passar. – E o senhor deve ser Alexandre Kajre, o grande detetive companheiro de Fritz. Entrem, entrem.
Fritz e Kajre ultrapassam a faixa amarela. O último apenas sorri para o policial. Após, pergunta para o detetive:
- O que ele disse?
- Que você é Alexandre Kajre, meu empregado e mascote.
- Claro que ele não disse isso, Guilherm. Deixe de on... – disse Kajre, irritado.
- Shhh! – disse Fritz, enquanto ambos adentravam na residência. – Estamos entrando no local do crime. Silêncio. – e Kajre logo lhe obedeceu.
Fritz e Kajre ultrapassaram uma pequena sala de entrada, possuída por alguns móveis antigos. Guiados pela dona da casa, adentraram em um pequeno corredor, lotado de quadros históricos e entraram na segunda porta à esquerda. Enquanto Kajre se deliciava fitando ferozmente os quadros na parede, Fritz analisava o chão e os cantos.
Dentro do quarto, havia uma cama no centro, com uma cômoda ao lado, um guarda-roupa do lado oposto e uma cômoda, à direita. Além disso, ao lado do guarda-roupa, havia uma janela em formato colonial. Sobre a cama jazia um corpo de um homem de trinta e poucos anos. Estava nu, com as mãos posicionadas sobre as pernas. Possuía um disparo fatal por entre os olhos, o que fez com que seu rosto fosse mergulhado em sangue.
No interior do quarto, haviam alguns policiais e um homem de jaleco e luvas brancas. Este fitou a entrada de Fritz e Kajre e perguntou:
- E vocês, quem são?
- Fritz. – se apresentou o perito – E este é Kajre. – este apenas se apresentou com a cabeça.
O homem se surpreendeu.
- Fritz? Você fala Guilherm Fritz, o grande detetive?
- Sim, exatamente. – disse o homem, enquanto fitava com o canto dos olhos a cena do crime
- E o que devemos sua visita nesta tão distante terra?
- Na realidade, eu e Kajre estávamos de férias no Brasil e coincidentemente ocorreu o crime enquanto estávamos tomando um vinho e comendo um frango com alguma coisa muito deliciosa em um restaurante próximo da praça principal.
- Entendi. – disse o homem. Fitou a mulher, ainda bastante apreensiva – Ao que tudo indica, você deu uma grande sorte. Tenho certeza de que escolheu a melhor pessoa para solucionar o crime e que logo ele será solucionado.
A mulher apenas concordou com a cabeça. Ainda estava bastante apreensiva com a morte do marido.
- Venham. – disse o homem. Retirou a luva direita da mão e a estendeu à dupla. – Sou o Dr. Roberto, perito médico-legal da Comarca. – em seguida, cumprimentou a dupla
- Prazer. – disse Fritz
- Kajre. – respondeu apenas o companheiro
- Ele é calado assim mesmo? – perguntou Dr. Roberto, enquanto colocava a luva de volta na sua mão.
- Na realidade, ele não sabe falar português.
- Ah, sim. – respondeu o perito. – Venham. Como vocês podem ver, aparentemente a pessoa que matou o senhor Ronaldo era conhecido dele, pois o mesmo estava deitado e não esboçou reação.
- De fato. – respondeu Fritz, enquanto fitava o corpo. – Realmente não há nenhuma marca de tentativa de defesa por parte dele. – Fritz esticou a mão. O Dr. Roberto lhe entrega uma pinça e uma luva, a qual o detetive calça.
- O que você está achando até agora, Guilherm? – perguntou Kajre, em alemão
- Aparentemente, quem o matou fez sem que ele percebesse, pois não há nenhuma reação do mesmo. Ou isso, ou alguém colocou sua mão de forma a aparentar. – respondeu Fritz, no mesmo idioma
- Mas não há nenhuma marca de lesão de defesa, Guilherm.
- Verdade.
- O que ele perguntou? – perguntou o Dr. Roberto
- Expliquei a ele sua primeira hipótese.
- E o que ele respondeu?
- Não acrescentou nada de útil até o momento. – disse. Em seguida, o detetive abaixou-se sobre o cadáver e retirou com a pinça uma pequena linha posicionada ao lado do olho direito.
- O que é isso? – perguntaram Kajre e Dr. Roberto, quase simultaneamente, enquanto Fritz posicionava a linha próxima de seu olho
- Aparentemente, linha de tecido. – tocou com a mão enluvada. - Kajre – continuou a fala, virando-se para o companheiro e continuando em alemão. – Você que sempre é amordaçado pela sua esposa, não parece venda?
O homem se irrita, fechando o cenho.
- Deixe de palhaçada, Guilherm. – aproximou-se do detetive. Tocou-o com a mão. – Sim, parece tecido de venda
- O que vocês descobriram? – perguntou um ansioso Dr. Roberto
- A casa havia sido arrombada quando você entrou e descobriu seu marido morto? – perguntou Fritz, virando-se para a mulher e ignorando a pergunta do perito
- Não. Estava trancada, como sempre deixamos. – disse a mulher, ainda bastante abalada
- E mais alguém tem a chave de casa? – perguntou Fritz – Filhos, seus pais...?
- Não. Só eu e ela.
- Entendi. – disse o detetive.
- Eu tenho certeza que foi ela. – disse a mulher, entre lágrimas.
- Ela?! – perguntou Fritz.
- Ele tinha uma amante... semana passada eu descobri e discuti com ele. Ou ela, ou eu... ele terminou com ela... provavelmente ela voltou para se vingar.
- E você sabe onde essa amante reside? – perguntou um policial que também se encontrava na residência
A mulher meneou positivamente a cabeça.
- Ela mora na residência aqui, ao lado. – disse. – Os dois quintais são ligados...
- Então, vamos lá na casa dela! – disse o policial, saindo do interior da residência.
O policial saiu do interior do quarto, junto da mulher, aos gritos com outros policiais, mandando-os procurar a tal amante citada pela esposa. Fritz continuou no quarto e, ao perceber algo na janela, atravessou o quarto, desviando da cama e fitou o lado externo.
Era um quintal muito mal arrumado. Não tinha outras janelas visíveis e havia um muro de pouco mais de três metros de altura escondido entre as árvores que tomavam conta do quintal junto da alta e descuidada grama.
- Você não vai atrás deles? - perguntou Kajre
- Já vou. - disse Fritz, ainda fitando continuadamente o quintal
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Dr. Roberto, atrás da dupla
- Parece que vai acabar. - disse o detetive, dando as costas à janela.

Vinte e poucos minutos depois, Kajre, Fritz, a mulher, Dr. Roberto, o policial e mais alguns outros se encontravam no interior de uma sala de delegacia. Havia uma mesa, onde, de um lado, havia um homem de meia idade, vestido com roupa social, ao lado de uma moça jovem, sentada em frente a um computador; do outro, um senhor de seus sessenta e poucos anos, usando uma grossa jaqueta por cima de um pijama azul-claro e, ao fundo, Kajre, Fritz e a mulher.
- Desculpa lhe tirar de casa a essa hora, senhor Humberto, mas infelizmente estamos à frente de um horrendo crime que aconteceu na nossa cidade. - dizia o delegado
- Tudo bem. O senhor Ronaldo era um bom homem. Ele merece uma resposta para seu crime.
- Nossa... - soltou Fritz, em alemão, mais para si mesmo - Cidade pequena a notícia corre rápido mesmo...
Kajre riu. A mulher lhes fitaram, sem entender nada do que disseram.
- O senhor viu ou ouviu alguma coisa de estranho na casa do senhor Ronaldo na tarde de noite, senhor Humberto?
- Não. - respondeu o senhor Humberto. Parecia interessado em tentar se lembrar de algo. - Foi um dia normal, hoje. Lembro de estar na janela tomando meu café quando o senhor Ronaldo saiu para trabalhar, por volta das oito horas. Continuei em casa, com meus afazeres, até por volta das onze horas, quando minha esposa pediu para eu ir no mercado. Aí eu passei na loja onde ele trabalhava e vi seu semblante triste. Eu perguntei o que havia acontecido e ele disse apenas que fez uma merda gigante e que precisava resolver. Eu falei com ele que, se ele quisesse, eu poderia ajudá-lo, desde que não fosse dívida de tráfico ou agiota. Ele riu e disse que o problema era a mulher dele, que havia descoberto uma traição dele com a Camila, neta do seu Aquiles. Não imaginaria que ela o mataria logo depois...
- Você sabe que ela matou o senhor Ronaldo? - perguntou o delegado, desconfiado
- Vocês não falaram que ela matou?
- Não, não. Disse apenas que ela é a principal suspeita.
- Ah, sim.
- E qual o seu relacionamento com a senhorita Camila?
- Ela era neta do seu Aquiles, meu vizinho de mais de trinta anos. Ela estava lá, toda triste, no enterro dele. Agora, ela mora sozinha.
- E qual o comportamento dela? Você tem ideia?
- Ela sempre leva alguns homens para a casa dela, inclusive o senhor Ronaldo vivia na casa dela quando a Leda estava fora. Todo mundo na rua sabia do relacionamento amoroso de ambos. De uma semana para cá, ele parou de ir e ela só levava um rapaz novo e alguns outros homens.
- Nossa, ele realmente sabe da vida da rua inteira... - disse Fritz, em alemão
- E eu, aqui, sem entender nada... - respondeu Kajre
- Entendi. - disse o delegado. - E o senhor ouviu algum disparo ou barulho diferente na noite de hoje?
- Ouvi. Ouvi sim. Um estampido como se algo muito forte tivesse caído no chão. Ou um pneu tivesse estourado. Saí correndo na janela para ver o que era e não vi nada. Aí, voltei para dentro de casa porque está muito frio.
- E os gritos da senhora Leda, o senhor ouviu?
- Sim, sim. Ouvi. Foi uns dez, quinze minutos depois do estampido. Foi quando fiquei sabendo do crime.
- Está certo. - disse o delegado. - Alguma resposta, Dr. Fritz? - perguntou o delegado, virando-se para o detetive
Este meneou negativamente a cabeça.
- Está certo. - virou-se para a secretária - Pode imprimir.
Enquanto o senhor Humberto assinava um documento que trazia por escrito seu depoimento oral, Kajre pergunta para Fritz o que esse falou e este conta resumidamente.
- Alguma coisa que conseguiu pegar do depoimento dele, Guilherm? - perguntou Fritz, cochichando
Este apenas sorri para ele.
- Eu sabia. Você não é o cara à toa.

Pouco tempo depois, uma mulher de vinte e poucos anos, de cabelos negros e com pouco mais de um metro e meio de altura, usando roupas de casa, é trazida para o interior da sala algemada carregada por dois policiais, sendo colocada assentada à frente do delegado, na mesma cadeira utilizada anteriormente pelo senhor Humberto.
Ela gritava inocência e debatia-se incomensuravelmente, não sossegando mesmo sentada.
- E ela? Quem é? - perguntou Kajre, cochichando no ouvido de Fritz
- Segundo a mulher do finado, essa moça era amante dele e mora ao lado. O terreno dos dois são ligados, pois o muro é baixo e se colocar um calçamento igual o que vimos facilmente você pula de uma casa para a outra.
- Então, você acha que aquela moça usou o calçamento para pular pra casa dela de volta depois de matar o finado?
- Aparentemente, sim.
- Detesto quando você fica só no "aparentemente".
- Ao que tudo indica... – e riu. Kajre fecha o cenho.
- Eu não fiz nada! – disse a mulher, em completo desespero, para o delegado – Eu juro. Eu estava em casa...
- Mas você é amante do senhor Ronaldo, não é?
Neste momento, Dr. Roberto bate na porta da sala da delegacia. Fritz e Kajre olham para trás. Percebendo se tratar do perito, abrem a porta. Este entra.
- Licença. - disse, em voz alta - Só vim entregar um relatório preliminar da perícia. O laudo pericial completo sai em trinta dias.
- Pode deixar com o Dr. Fritz. Ele me entrega depois. - disse o delegado
- Certo. - disse o perito, antes de entregar a Fritz um documento e sair do local. Fritz postou-se a ler o documento.
- Alguma coisa de interessante, Guilherm? - perguntou Kajre
- Com certeza, há...
- Eu fui. - disse a mulher. - Na semana passada, ele disse que sua mulher descobriu sobre o nosso caso e ele preferiria manter o casamento.
- E você aceitou, assim, de boa?
- Eu já estava saindo com outro rapaz. Já iria terminar com ele de qualquer forma.
- E o tal rapaz sabia do seu envolvimento com o senhor Ronaldo?
- Não. Claro que não. – disse a mulher, desesperada
- Por que tamanho desespero?
- Eu não quero que ele descubra que eu estava com ele e com o Ronaldo ao mesmo tempo.
- Entendi. – disse o delegado. - E o que a senhora estava fazendo?
- Eu estava em casa, de bobeira. O meu namorado tinha ido lá mais cedo, mas ele foi embora. Aí eu estava conversando no Whatsapp com um amigo, marcando de ele ir lá em casa. Olhe - disse a mulher, mostrando a tela do celular para o delegado. - Eu estava teclando com ele até os gritos dessa maluca.
- Maluca não... - Leda começou a gritar, enlouquecida. Fritz, ao seu lado, segura a mulher, não a deixando avançar. - Olha aqui como você fala de mim.
- Calma. Calma. - Leda acabou por parar.
- Por favor... - disse o delegado
- Desculpa. - disse a mulher
- Bom... Alguma pergunta? - perguntou o delegado para a dupla de detetives, na qual Fritz meneia negativamente a cabeça. O delegado respirou fundo - Sendo assim... Liberaremos a senhora por ora porque não há motivo para prendê-la. Mas a senhora não poderá mudar de residência sem nos informar.
A mulher concorda com a cabeça. O delegado lhe entrega um papel para assinar e esta assina. Ao final, cumprimenta a todos com a cabeça - com exceção da esposa - e sai.
- Como assim, vocês não vão prendê-la? - perguntou a mulher, esbaforida - Ela mata meu marido e sai assim, pela porta da frente?
- Senhora Leda, então... - começou a dizer o delegado - Não há provas que foi ela.
- É claro que não há. - disse Fritz, chamando a atenção de todos para si. - Não foi ela a assassinada.
- E como o senhor sabe? - perguntou a mulher, irritada
- Elementar. Como que ela entraria na residência e sairia, se a porta estava trancada?
- Ora, meu marido poderia ter aberto...
- Para entrar. Para sair é meio complicado, já que ele estava meio... Morto. Até porque o tiro que ele recebeu foi certeiro na cabeça...
- E o muro? Lembra que te disse que o muro é baixo?
- Sim, claro. Mas há árvores e arbustos que atrapalham por completo alguém a passar. Fora que a senhorita Camila tem pouco mais de um metro e meio de altura e o muro tem três. Fora que ela tinha que estar teclando com uma pessoa e limpando a sujeira ao mesmo tempo.
- Que sujeira? - perguntou o delegado, surpreso
- Ora, a pessoa que matou o senhor Ronaldo estava transando com ele, certamente. Isso justifica a posição que ele se encontrava e a posição do disparo, que veio de cima para baixo em um posição angular. - enquanto falava, Fritz explicava com as mãos. - A pessoa que atirou estava sentada no colo dele. Como o senhor Ronaldo estava nu, de pênis ereto e a calcinha da moça assassina estava no chão, jogada ao lado da cama, deduz-se que ambos - assassino e vítima - estavam transando. A pessoa simplesmente aproveitou do sexo para vedar o pobre rapaz e ceifar a vida dele sem que ele percebesse o que estava acontecendo, já que ele não esboçou reação de defesa algum. Só descobriu o que estava acontecendo quando morreu mesmo... Logo depois da morte, a pessoa que assassinou, sabendo que os vizinhos ouviram o disparo e logo iriam bater na porta, tratou logo de limpar a prova do crime, retirar e esconder a venda, vestir a roupa - já que a pessoa provavelmente estava sem roupa -, esconder a arma no quintal e fingir que tudo estava bem. Isso em poucos minutos de intervalo, já que entre o disparo e seu grito se passaram dez ou quinze minutos. Nesse meio tempo, a pessoa percebeu que havia esquecido de guardar a calcinha e resolveu tentar disfarçar a jogando no quarto. Logo depois, saiu, para não ser vista no momento do crime. Só que se esqueceram de dois fatores... Um, se arrumar convenientemente, pois colocar a blusa com os detalhes para fora é um tiro na moda - disse, enquanto segurava a camisa de Leda e mostrando que a mesma se encontrava ao contrário - Dois, quando for se sujar de sangue, verifique se limpou direito as mãos. - continuou, apontando para os dedos da mulher. Esta fita sua mão. De fato, havia pequenas marcas de sangue em ambas as mãos, quase imperceptível.
Leda abaixou a cabeça.
- Você aproveitou da situação, percebeu que os vizinhos não foram até a porta da residência para investigarem do que se tratava e você aproveitou para enrolar um pouco, ficar dentro de casa para dar tempo suficiente para fingir que chegou em casa e viu seu marido já morto, dar aquela arrumada na cena do crime, colocar as mãos do falecido nas pernas. Pena que você esqueceu de conferir as unhas e a roupa... Só que não dava tempo suficiente para uma pessoa limpar a casa, guardar a arma e a venda, vestir a roupa, sair, você chegar sem ver essa pessoa e encontrar seu marido morto dentro de casa. Fora que o senhor Humberto, vizinho da sua casa, foi categórico em dizer que ninguém entrou ou saiu da sua residência naquela noite, exceto você mesma gritando pela morte do marido. Assim sendo, a pessoa assassinada só poderia estar dentro de casa... E o perito dizendo que foi uma grande sorte sua esbarrar justamente comigo aqui em Tiradentes... - debochou, ao final
A mulher fica cabisbaixa durante todo o último discurso de Fritz, como se estivesse ouvindo uma sentença de morte. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto ao final.
- E eu achando que o crime tinha sido perfeito.
- Não há crime perfeito... Principalmente para quem veste a blusa ao contrário. - brincou
- Quer contar com suas próprias palavras? - perguntou o delegado.
Leda balançou a cabeça.
- Pois bem. Policiais! - gritou. Dois policiais entraram no recinto. - Levem-na para a cela.
Os policiais estranharam o pedido, eis que a mesma entrou como vítima no recinto.
- Ela?! - um deles questionou
- Sim. Ela está sendo presa em flagrante pelos crimes de homicídio, fraude processual e denunciação caluniosa . Podem levá-la para a cela.
A mulher foi retirada da cela pelos policiais, em completo silêncio.
- Espera aí... - disse Kajre, em alemão - Como assim, a vítima foi presa? Que reviravolta foi essa que eu perdi?
- Vamos. Eu te explico no caminho do hotel. - disse Fritz, rindo

No dia seguinte, os jornais locais saem com a seguinte manchete, na capa principal:

"O GENIAL DETETIVE GUILHERM FRIEDERICH FRITZ, EM VISITA AO BRASIL, DESCOBRE O ASSASSINO NA HISTÓRICA TIRADENTES"



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