A Bruxa de Belo Monte

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Foi numa das épocas mais remotas do século XX que um punhado de anotações e fotografias chamaram a atenção de Francisco Hélio Pereira, um intelectual de renome em Belo Monte. As mentes mais sofisticadas devem tomar o caso como simples superstição local, mas é inegável a morbidez e as coisas estranhas encontradas naquele armário velho. Francisco já havia passado um bom período recluso em sua casa, sofrendo de um dos males mais terríveis da face da terra: A depressão. Tal encontro com o material mórbido encontrado na velha casa de Inês Faria, uma moradora de Belo Monte, fez seu quadro piorar e o mesmo acabou, infelizmente, optando pelo suicídio para acabar com sua dor.

Mas não foi só na depressão que a piora aconteceu. Foi encontrado na casa de Francisco um diário cujas anotações mais recentes relatam sonhos e visões aterradoras, imagens que só podem ter saído do inferno ou de uma mente muito perturbada. No fim, o caso foi apenas taxado como suicídio. Mas algumas pessoas de Belo Monte não deixaram de notar a estranha circunstância da morte de Francisco. O mesmo foi encontrado ajoelhado, com um lençol amarrado no pescoço e na grade da janela ao lado. Suas mãos, crispadas, agarravam o lençol com força. Seus olhos, esbugalhados, fitavam algo com aparente terror na parede da casa.

Os conhecidos e família de Francisco Hélio imediatamente estranharam o caso. Pois, mesmo com depressão, Francisco possuía uma índole inabalável, era protetor da vida e inimigo da morte, prometendo nunca ceder à mesma até que o dia definitivo de seu fim chegasse. É estranho como Francisco, de uma hora para outra, negou toda a sua ideologia formada em anos e se entregou a morte, com tão pouco tempo. Os familiares suspeitam de duas coisas: ou Francisco foi assassinado, o que é pouco provável, ou as forças que o fizeram cometer o ato foram mais fortes do que a mente humana consegue imaginar.

Antes de sua morte, Francisco teve uma conversa séria com o doutor Azevedo, qual prescreveu alguns medicamentos e terapias que Francisco utilizou por pouco tempo. O conteúdo da conversa em si, é guardado a sete chaves por Azevedo. Mas o mesmo, numa entrevista ao jornal Gazeta, citou poucas palavras sobre o caso. Segundo ele, Francisco estava "tomado por forças desconhecidas e negras, além de poderosas.", o conteúdo da conversa, segundo ele, era mórbido demais para ser revelado sem causar um escândalo.

Pouco se sabe sobre o que levou Francisco a visitar a já abandonada casa de Inês Faria, mas está explicado em seu diário que um leve interesse de comprar a casa já existia dentro dele. Isto é mais uma vez estranho, pois Francisco não era de visitar lugares de má fama, e a casa de Inês era e é um lugar de má fama. A história da mesma é cheia de lacunas e detalhes que fazem arrepiar o mais sábio dos homens de Belo Monte, e as histórias sobre ela não é algo que uma mãe contaria para o filho antes de dormir.

Inês era descendente de africanos e viera a Belo Monte à procura de emprego. Tal fato nunca incomodou os habitantes, que não eram racistas nem preconceituosos, mas os hábitos rotineiros de Inês eram no mínimo excêntricos. À noite, saía para passeios á lugares estranhos, como a mata e o cemitério, e era lá que Inês ficava até alta noite. Sua casa era decorada de maneira curiosa. Na janela, jarros e vasos com conteúdo mal cheiroso eram postos como uma planta é exposta ao sol e aos passantes.

De vez em quando Inês tinha seus famosos surtos. Não falava com ninguém e não respondia ninguém, como se fosse mouca e muda, mesmo andando pela cidade e fazendo seus negócios com tranqüilidade. Um dia, fora pega conversando com uma criança. A mesma mudou de hábitos e passou a se comportar estranhamente. Batia nos colegas e falava de coisas que as mentes mais mórbidas de Belo Monte não conseguiriam imaginar. Algum tempos depois, a criança sumiu, do nada. Saiu de casa para ir brincar e simplesmente nunca mais voltou.

A mãe da criança jogou a culpa em Inês e tal fato causou um escândalo em Belo Monte, algo que logo foi abafado pelos mais conservadores. Inês continuou no seu emprego em Belo Monte até se aposentar, e foi aí que as coisas pioraram. Pela noite, eram escutados da casa de Inês gritos e urros, além de um falatório em uma língua que até o mais intelectual de Belo Monte não conseguiria reconhecer. Inês agora era vista com mais freqüência no cemitério, E passeava e cantarolava pelo mesmo como alguém passeia num jardim. Falava pouco, e quando falava era para praguejar coisas incompreensíveis. Sua fama de bruxa subiu. Agora, Inês era mais do que mal vista em Belo Monte.

De repente, do nada, Inês sumiu. Não era mais vista nem na rua nem no cemitério, muito menos na mata. Tal caso gerou as mais variadas especulações em Belo Monte. Teria Inês fugido? Mas não foi isso que aconteceu. Depois de certo tempo, um mau odor passou a escapar das brechas das janelas da casa de Inês Faria. Um dia, sem agüentarem mais, os vizinhos arrombaram a porta da casa de Inês. O que encontraram, além do odor pútrido, foi apenas metade do corpo já em avançado estado de decomposição de Inês. Sim, apenas a metade. A parte da cintura pra baixo de Inês nunca foi encontrada, e no limiar das duas partes havia um corte com precisão cirúrgica.

Muito se especulou após o enterro do Inês. Alguns diziam que a mesma foi pega pelo diabo, outros, mais conservadores, diriam que ela foi assassinada. Mas como o assassino trancou a casa por dentro e fugiu, ninguém, sabe. Inês Faria agora era um mistério não resolvido em Belo Monte, uma lacuna não preenchida. Sua casa ficou abandonada por anos e anos, até ser posta à venda por um parente de índole desconhecida vindo de longe. Seu nome, ninguém sabia, o que se sabe é que ele passou pouco tempo na cidade e logo foi embora, deixando seu contato.

E, pelo jeito, foi essa proposta que atiçou a curiosidade de Francisco. Ele fizera fama ao mostrar explicitamente para os moradores que falava cinco línguas, fizera negócios no exterior e agora voltava, rico, para Belo Monte, sua cidade natal. Mas o estranho era que ninguém lembrava de Francisco. Talvez porque as mentes mais antigas já tivessem morrido, e a nova geração pouco sabia sobre ele.

O que levou Francisco a comprar a velha casa de Inês Faria, era um mistério. Talvez ele quisesse transformar a casa num alugado, e assim ganhar dinheiro com ela. Mas, o que mais é questionado, é o fato de porque Francisco queria mais dinheiro do que já possuía. Ambição? Talvez... O que se sabe é que a primeira visita à casa, datada de junho, aconteceu pela noite. No diário de Francisco, o mesmo relata que a casa passava um ar pesado, porém chamativo, e seria preciso algumas faxinas para tirar o odor fétido de lá.

Depois desse dia, relatam as testemunhas, Francisco deixou de fazer suas visitas diárias à biblioteca para visitar todos os dias a casa, e esse fato foi muito comentado na pequena cidade. Na segunda anotação sobre a visita na casa, no diário de Francisco, o mesmo relata ter encontrado no armário uma velha folha de papel com algumas anotações. Tal inscrição estava numa língua estranha, desconhecida, mas que chamava muito a atenção.

"To HelDiab Gova PeTak UVc". Era tudo isso que estava escrito, e nada mais. Uma escrita curiosa, assim se pode dizer. Francisco passou a noite tentando decifrar a frase, mas não obteve sucesso. O mesmo se mostrou desapontado após isso, e Francisco foi visto andando com semblante desanimado pelas ruas.

O que mais chama a atenção, na anotação seguinte do diário, foi o sonho que Francisco teve naquela noite. Segundo ele, um sonho "aterrador e que saiu do inferno". No sonho, um monstro colossal parecido com um lagarto dotado de asas o pegava com suas mãos gigantescas e o levava à boca, onde era mastigado repetidas vezes pela criatura. E como doía cada vez que aqueles dentes em formas de agulhas perfuravam sua carne e faziam o seu sangue jorrar! Parecia tão real... Tudo isso Francisco conta em detalhes no seu diário.

Na quarta anotação, Francisco escreve de um jeito mais formal e deprimente. Ele encontrou então, na casa, mais anotações e um punhado de fotografias. As anotações falavam sobre como invocar um certo Deus Aljar, o senhor da mente. Tal Deus tinha o poder de mexer na mente humana e causar nela os piores terrores. Francisco leu com avidez as anotações, e o ritual simples o chamou a atenção. Mas as fotografias o fizeram tremer de medo.

Em uma delas, via-se um trecho da mata de Belo Monte, mas havia algo errado... Um vulto era visto passando por detrás de uma árvore, e podiam se ver... Olhos! Isso, mesmo, olhos em fogo, fitando a câmera com seu ar maligno. Francisco sentiu um arrepio na espinha. Onde e quando essa foto foi tirada, ninguém sabe. Outra mostra uma criança sentada no jardim de casa fitando algo no céu. Essa fotografia não tinha nada de mais, mas... Como Inês havia conseguido ela? Invadindo a casa de alguém?

Foi então que Francisco passou para a terceira fotografia. Com calma a virou em sua direção. A fitou por alguns segundos, e então arregalou os olhos. Passou segundos estático, como se estivesse paralisado. Foi então, que, num grito de horror, quase saiu correndo dali. A fotografia mostrava, em boa qualidade, Francisco em pé segurando um papel. Atrás dele, a visão da mesma casa abandonada onde ele estava. Ele saiu correndo dali e foi para a casa correndo. Passou a noite no quarto, pensando.

Agora ele entendia a má fama de Inês, mas a casa ainda o atraía... Como um bife para um cão, Francisco passou a visitar a casa todos os dias. De dentro dela, os vizinhos escutavam altas risadas e gritos de horror. Francisco agora tinha fama de louco. Passou a se consultar com o Doutor Azevedo, e o mesmo falou para um seleto grupo de intelectuais que Francisco era um paciente que assustava.

As consultas foram suspensas, e Francisco continuou no seu mundo recluso. Agora era visto rindo e falando o nome de Inês, além de citar várias vezes o Deus Aljar. Francisco ficou assim até seu suicídio, em meados de agosto daquele ano. Muito se especulou depois, tanto como Francisco como Inês, e os túmulos dos dois passaram a ser visitados com freqüência.

A casa de Inês agora era amaldiçoada, e poucos se arriscavam a entrar lá. Apenas alguns jovens arruaceiros resolveram invadir a casa, e tempos depois os mesmos relatavam uma série de sonhos estranhos. Os sonhos iam de vagar pelo espaço sideral, sozinho na imensidão do cosmos, até ser morto por criaturas com fisionomia que desafiavam a lógica humana.

Inês agora era mais do que um mistério em Belo Monte, e não havia mais dúvida que Aljar era o deus que ela tanto adorava em seus passeios noturnos. Ela agora é a única bruxa registrada em Belo Monte, e mesmo com sua fama as histórias sobre ela são contadas com considerável discrição. A história de Inês e Francisco é uma lacuna que aterroriza a mente de quem nela pensa, e agora tudo isso virou uma história de horror contada pela noite, dos mais velhos para os jovens.

Se Francisco ficou louco de verdade, isso ninguém sabe. O doutor Azevedo reconheceu que sua índole estava mórbida e com pouca lógica, mas ele ainda falava e respondia como um bom humano em sã consciência. Agora, seu fantasma vaga pelas bocas dos mais incrédulos, como uma história que não pode ser contada, mas ao mesmo tempo é sussurrada nos ouvidos dos mais curiosos. Inês e ele agora são lendas, e deixaram seu legado de loucura em Belo Monte. Ela, bruxa, ele, louco. A causa e a conseqüência, unindo-se como se fossem feitos para esse.

É inegável que certas coisas soam loucura ao serem contadas, mas é preciso aceitar que são verdades. Hoje, ambas as casas estão destruídas. Não pelos homens, mas pelo tempo. As casas dos dois se tornaram consideravelmente frágeis e foram cedendo às chuvas e ventos violentos que acometeram Belo Monte tempos após o caso de Francisco. Mas as lendas não podem ser destruídas, elas vivem como um sussurro nas trevas, sendo falado de boca em boca. É a língua que as fazem sobreviver, e, enquanto Belo Monte existir, elas nunca serão apagadas.



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Comentários   

0 # Rosaline 27-11-2017 11:05
Que texto bacana! Já entrei no seu site outras vezes, entretanto essa é a primeira vez que escrevo um comentário.
Inseri teu blog nos meus favoritos para eu não perder os
próximos artigos. Um abraço e sucesso!

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