Domingo sombrio

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DOMINGO SOMBRIO

"...Domingo é sombrio

Minhas horas são insônes

Queridas são as sombras

Sombrio é domingo

Com sombras eu passo ele todo

Meu coração e eu

Decidimos acabar com tudo..."

Gloomy Sunday de Rezső Seress

 

                Texto de Sophia Lednem, baseado na composição de Rezső Seress: " Gloomy Sunday" conhecida como " A música do suicídio"

                                                                                                      Domingo sombrio

"Sombrio é o domingo de sombras, não tenho mais nada!" assim dizia a canção que tocava na velha vitrola de meu avô, naquela manhã de domingo de 1978 em que resolvi, finalmente pôr em pratica um plano por mim anteriormente elaborado, pensado e repensado por dias e meses a fio: o de matar-me. Eu estava impaciente, a noite da véspera havia sido tortuosa e eu não dormira ao menos um minuto. Revirava-me de um lado a outro da cama e pusera-me de pé a andar vagarosamente pelo meio da casa feito alma penada por diversas vezes, sempre que, abatido pela insônia solene, me via a marejar os olhos, os olhos tristes, vermelhos e cálidos que eu passara a ter com o tempo. "Domingo é sombrio, insone são as horas, queridas são as sombras...'

Meu pensamento era um só: acabar-me! e a melancólica daquela música nos meus ouvidos me dizia exatamente aquilo o que eu queria gritar para o mundo. O mundo surdo que nunca ouvira meus gritos, meus gritos silenciosos de dor. Como angustiado prisioneiro que, de repente, não mais que de repente vi a cada dia tornar-me. ... "Em breve haverá velas e dirão orações tristes, eu sei...." E de fato seria assim, os amigos afastados pela minha auto reclusão viriam, e olhariam consternados o meu caixão. Diriam coisas, como: Ele era ainda tão jovem. Por que foi cometer tal loucura, Cristo? Por quê?

Sem alegria, sem esperanças, sem sonhos. Apenas a escuridão me cercava e litros de bebidas destiladas da melhor e pior estirpe que se esvaziavam diariamente e me induziam ao coma. O doce torpor de não saber mais das coisas, a alegria de embriagar-se... quem bem soubesse, não criticaria os alcóolatras, eles não têm culpa de sua compulsão. São almas acorrentadas na dependência de algo que as alivie da dor. Dê agua a quem tem sede e a sede cessará, dê tequila a um homem derrotado e perdido e ele se aliviará, é apenas uma questão de necessidades diferentes que as pessoas em sua lucidez e encantamento com a vida não compreendem bem, mas perdoemo-nos por isso.

Dessa forma que como se nota tornei-me um bêbado e um inútil, eu já não tinha porque manter a compostura, porque prender-me ao bom senso, porque render-me a fé e diversões tolas. Não há nada! É o mundo, ouça bem, caro leitor, é o mundo uma fábrica de mentiras e vergonhas e nenhuma alegria vale o preço da dor. Essa mesma dor que apoderou-se de mim durante esses anos em que acumulei tormentos e perdas. Uma das mais terríveis depois de minha família, a morte dela...ela, que nem ouso falar nestas linhas pois que não há mais palavras a serem ditas. Eu só tenho o vazio...e a dor.

Depois de tantas perdas e tantos desgostos, de buscar afeto onde só havia desprezo, depois de amizades que se revelaram traiçoeiras e hostis, o que eu poderia esperar mais desse mundo de que hoje me despeço? Nada! A carta de um suicida, diria certamente as razões pelas quais ele não suporta mais a sua dolorosa vida. Mas eu direi mais, direi a ti que minha decisão não foi fruto de desespero ou doença ou um simplório medo que assola a todos deliberadamente pela metade de uma vida farta. Não meus motivos certamente diferem de tal método comum e vem a ser, no mínimo, incomum. Tomei essa decisão há alguns anos e venho adiando tal plano para aperfeiçoar lhe as ideias na mente e para que assim, conseguisse eu, quem sabe, ao menos uma morte mais digna e menos dolorosa.

Se eu estava sofrendo? Sim, sofria. Se estava sem esperanças de um futuro acolhedor? Sim, Certamente. Mas o meu desespero era apenas um elemento transcendente. Minha decisão estava relacionada a algo mais profundo que me prendera pela mão e a alma toda nos primórdios de minha juventude. Um pacto! Sim, um pacto de mim para mim mesmo de que minha existência não se prolongaria quando eu olhasse o mundo e o visse assim tão sem sentido. Eu fugia de mim mesmo, eu me via como a um miserável e fui responsável para que essa imagem passasse a ser creditada por muitos que outrora me tinham como um herói, um homem de valor e honrado. Mas eu agora estava me acabando, tudo o que tinha em minha alma era o desgosto e todo o desgosto fora ocasionado por escolhas, terríveis escolhas uma mais insensata que a outra. No entanto o que vemos? Um mundo moribundo assim como eu, um mundo sem grandes esperanças eu diria. Meu coração e eu decidimos acabar com tudo. E ele dói tanto, está aqui dentro tão cansado e tão calejado dessa vida que sinto que ele iria mesmo acabar com tudo sozinho. Sem eu ao menos precisar recorrer ao suicídio. Uma ajuda ...uma pequena ajuda lhe será dada agora para que possa novamente descansar em paz.

E assim, o cálice com o vinho derrama-se vagarosamente nos meus lábios entre abertos e eu bebo aquele liquido como quem bebe o próprio sangue, estático e enojado, aterrorizado. O mundo escureceu aos poucos como todas as noites quando entro no meu costumeiro coma, mas este, este, este não terá um fim a chegada da alvorada. E, sonolento, eu durmo, fecho os olhos para mergulhar na escura e fria eternidade....

Mas que infâmia, acordo na miserável cama de um hospital, deu-se que, pelo que soube, algum infeliz a quem eu chamava de amigo, resolveu visitar-me e, cansado e preocupado de sempre dar com a cara nas portas atravancadas, decidiu bater, e bater e bater e não tendo novamente nenhum resultado em suas investidas eis que, desgraçadamente, este se sentiu no direito de arrombar a porta de minha casa. Achou-me no meu quarto, em minha cama, desacordado, eu tinha a tez gelada, mas ainda se sentia certa pulsação em minhas veias, embora muito fraca. Levou-me ao hospital, e cá estou agora a escrever essas fracassadas investidas de livramento.

Fizeram uma limpeza no estomago e estou miseravelmente vivo, e forte como um touro, foi o que ainda ouvi um enfermeiro dizer a meu amigo que recebeu de agradecimento de minha parte antipatia e minha gentil mudez.

Me reestabeleci rapidamente e, hoje mesmo terei alta dessa espelunca em que me arrastaram, tirando-me da opulência que me aguardava na terra. Estou tão feliz, meu amigo e salvador estará em breve aqui para apanhar-me. Tomei um banho, vesti-me elegantemente com as roupas que ele me deixou mais cedo. Estamos no 8º andar desse edifício médico que se subdivide em várias instâncias e atende a diversas moléstias. É novamente um domingo, e faz-se hoje o primeiro dia de outono, as plantas estão perdendo suas folhas e o clima faz-se mais ameno e sem vida.

Eu me aproximo mais da janela, que aberta permite que a brisa me atinja o rosto trazendo o cheiro daquela terra que em breve estará coberta de neve e terá um solo gelado, macio e acolhedor. Eu me aproximo mais da janela, só mais um pouco, meu amigo está quase chegando e vem me buscar, preciso aproveitar mais um pouco, apenas mais um pouco, essa brisa suave que acaricia meu rosto como ela um dia o fez. Então, eu perco o equilíbrio por um instante, apenas um instante e tudo ao meu redor parece estar girando em câmera lenta, o gelo na espinha, um grito aterrador, e o baque, seco, fatal. Sonhando, eu estava apenas sonhando? "Eu acordo e encontro você dormindo no fundo do meu coração, aqui querida, espero que o meu sonho nunca assombre você... A morte não é um sonho, pois na morte eu acaricio você, com o último suspiro da minha alma eu acaricio você..."

                                              .......................................................Domingo sombrio.........................................................

 



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Comentários   

0 # Paulo Francisco 02-10-2017 21:41
Tem o melhor tempo para fazer planos para o futuro e tem
tempo para ser feliz. Tenho ler este post e se eu pudesse
eu desejam sugerir-lhe alguns coisas interessantes ou dicas.

Talvez pode escrever próximos artigos referindo-se
a este artigo. Eu desejam ler mais coisas nele!



meu local ... linconsousa.com : http://www.linconsousa.com/
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0 # João João Lucas 01-10-2017 18:22
Somos um grupo de voluntários e abertura um
novo regime de nossa comunidade. Seu local ofereceu nos com
valioso informação para trabalhar em. Você tem feito uma impressionante trabalho e
nosso toda comunidade será grato para você.


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0 # Pedro Enzo Gabriel 29-09-2017 23:56
Obrigado para outro informativo local. O
lugar mais pode Estou ficando que meio informação escrito em tal um perfeito forma ?
Tenho um desafio que eu sou simplesmente agora executando ,
e Tenho foi na relance fora para tal informações .


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