REGISTRO DE MEMÓRIA Nº 15.891, SALA 103, ALA 4 – SOPHIA LEDNEM- 17/08/1989- 12/02/2072

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REGISTRO DE MEMÓRIA Nº 15.891, SALA 103, ALA 4 – SOPHIA LEDNEM- 17/08/1989- 12/02/2072

"Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade

da bela mulher a quem amamos. Cuidado, leitor, ao voltar esta

página!"

Poemas Malditos; Álvares de Azevedo

Por: Sophia Lednem

Meu nome é Sophia, e aqui gostaria na verdade de retratar algumas memórias que teimam em esvanecer de minha mente devido a densidade das horas, as muitas horas que se acumularam por todos esses anos em que minha vida se prolongou. É difícil, é difícil para mim recordar aqui minha juventude perdida  há tanto tempo. Hoje contemplo minha face no espelho e sinto uma vontade de quebrá-lo. Eu era tão diferente desta que hoje contemplo entristecida. Engraçado, eu não me achava nada bela, eu tinha meus muitos complexos de inferioridade, entre eles o de me achar feia. Eu não era, pelo menos não tanto como me achara. Mas, só descobri isso depois, muitos anos depois quando tudo o que podia me servir de provas e argumentos eram as fotos antigas e a comparação que fazia injustamente e desoladamente com a maldita imagem de hoje.

Mas, vamos parar de falar um pouco sobre minha triste imagem atual e minha tardia alegria com a beleza de outrora. Meu intuito aqui não é tanto falar sobre mim, mas sobre ele. Ele? quantos eles devem haver na história da humanidade? Quantos amores, amizades, sociedades e relações turbulentas e belas entre tantas elas e tantos eles que simplesmente caíram no esquecimento? A minha, a dele, é só mais uma. Mas acontece que minha pouca visão e minha respiração ofegante de cansaço, o cansaço do qual em breve me livrarei, me induzem a escrever o que ainda resta de consciência nos meus momentos de sólida lucidez. Lucidez essa que hoje, devido aos remédios e em meio a demência nem sempre me faz companhia, de modo que, por vezes, eu nem mesmo sei o meu nome, ou quem eu sou.

Eu era jovem, mas já me sentia velha. E, de fato eu era devido as minhas muitas decepções e amarguras que me faziam sentir como se já tivesse vivido séculos inteiros e ininterruptos, cercados de voraz sede e fome de existir. Sim, eu era a própria chama que consome a si mesma. Aquele tipo de luz que brilha e é por si só capaz de clarear tudo a seu redor mas, que no fim, apenas consome a si mesma. E nessa juventude velha estava eu, imersa em pensamentos sombrios e macabros. Ideias de vingança apenas me atrelavam a mente que adoecia com o tempo e as consequências de meus próprios atos impensados. Foi quando ele veio. Veio como um anjo que surge para salvar uma vida e que muitos, por não o verem, afirmam ser acaso ou apenas sorte. Veio como vêm as melhores e as piores coisas da vida, de sobressalto e sem prévio aviso. Em outras palavras, apenas veio, passou um tempo e entediado com a vida e consigo mesmo, com a mesma sutileza com que veio ele se foi.

Era uma manhã estranha e torpe. Meu coração batia nada calmo, embora minha face permanecesse inabalável. Eu era uma atriz, talvez não de profissão mas, de alma, certamente eu era. Entrei na sala com aquela segurança que eu sempre fingi tão bem ter. Eu disse sempre? Que mentira! E como estas linhas ficarão após minha ida para o vazio eu prefiro não mais mentir, nem fingir coisa alguma. Eu não era assim. Eu era um poço profundo de medo e incerteza que cautelosamente coberto por madeira e folhas se escondia num jardim florido e tranquilo onde a paz aparentemente reinava absoluta. Mas não. Eu era a treva e estrada tortuosa que ninguém conhecia, talvez, por medo de trilhar, talvez por desinteresse ou preguiça, mas era atrativa e intacta como uma virgem em sua noite nupcial.

Mas a sala daquela universidade estava repleta de mentes brilhantes em mais uma bela manhã de sol e eu, como sempre de preto me destaquei com minha luz trevosa, iluminado com minha escuridão. Eu tinha um poder que não fazia ideia nesse período mas, talvez fizesse. Apenas não o reconhecia. E a turma era acolhedora, cheios de dúvidas e cheios da mesma curiosidade que eu via em mim há alguns anos. De cara, não me surpreendi mais a não ser pelo ávido gosto pela leitura demonstrada por meus gentis pupilos. Mas até ai, nenhuma estranheza maior. Os dias se passavam ...um a um... as batidas do relógio, muitas mensagens desesperadoras do passado no meu watssap me assombravam e roubavam a paz, watssap? caso você, caro leitor não conhecedor de história das antigas redes sociais e tecnologias do início do século, não saiba era uma rede social de mensagens por o que costumávamos chamar de wi fi, a internet original, tão ultrapassada hoje e tão moderna para nós naquela época. A ponto de corromper tantos de uma mesma ou muitas gerações.

Mas, voltando a tal manhã de sol que eu relatava.... lá estava ele, aparentemente normal em suas vestes comuns em um local onde ainda se usava uniformes iguais com uma forma rudimentarmente moderna de padronizar as pessoas. Pareciam, olhando de longe, uma coisa só. Uma massa uniforme e azul de rapazes e moças que não podiam ali manifestar sua diversidade ou, pior ainda, sua essência. Ele era igual e eu levei meses, sim, meses para notar que na verdade eu estava lidando com um ser diferente dos muitos ao meu redor. A minha disciplina, literatura antiga, romantismo, ultrarromantismo, Lorde Byron, Poe, Alvares de Azevedo, que, para muitos, era chata e rotineira despertava nele um fascínio incomum. Tal coisa nos aproximou em muitas situações em que pude pela primeira vez olhar de fato o rapaz a minha frente. Era normal, aparência normal, não era bonito, nem feio, não era alto, nem baixo, não era homem, nem menino. Todo aquele jogo do sim e do não me chamavam a atenção lentamente, lentamente até que, quando percebi, já éramos mais que simples conhecidos. Nos tornamos colegas, e, por fim, eu já o via como a um igual, o considerava mais próximo que os demais e isso, despertava os ciúmes de muitos.

Lembro do primeiro contato que tive com sua literatura, sim, o tal rapaz também escrevia! Eu li e achei extremamente pessoal para ser publicada, mas após algum tempo me dei conta do quanto meus próprios textos, como este que escrevo aqui também o eram. Mais incomum que o seu fascínio pelo macabro era o modo como ele mesmo me causava tal fascínio. Fazia tempo que não me via nas palavras de ninguém, fazia tempo que eu não me reconhecia em outra face. Quanto tempo? Não sei. Meses, anos, uma vida inteira quem sabe. O fato é que eu apreciava sua companhia e admirava a sua sombria inteligência. Ele tinha pensamentos mórbidos e falava bastante sobre morte. Os seus amigos se assustavam e em seus mundos repletos de falsas rosas e céus azuis fingiam não ver o quão sincera era a sua sombria verdade. Ele me dizia: todos me chamam de estranho: "você é muito estranho, cara". Eu apenas ria daquilo e de todos que se assombravam com sua singularidade. Se eu achava ele estranho? Não mesmo. Eu o achava perfeitamente comum. Bom, pelo menos no meu mundo sem hologramas de anjos brilhando no céu da manhã ele era comum, comum e agradável.

Se hoje o mundo está repleto de anarquia moderna com cara de nova idade média no qual a moribunda igreja já não manda em nada. O novo sistema  controla o new malleus maleficarum, naquele tempo as coisas eram piores. Ao menos se podia respirar de graça, você me diria, sim. De fato. Mas a que preço caro leitor? A que preço? Nossa liberdade estava mascarada de falsas verdades e nossos pensamentos eram manipulados por sistemas de computadores e propagandas que nos levavam a querer e a também vender uma imagem de "perfeição" e "felicidade". Nós não sabíamos, mas estávamos sendo controlados e vigiados em tudo, e era conveniente que fosse assim. Era conveniente que nos mantivéssemos felizes e consumindo cada vez mais.

A felicidade estava a poucos créditos de distância e adquiri-la era tão simples. Mas era um mundo desigual, eu digo era, como se o de hoje tivesse evoluído nisso, e nós sabemos bem que não. Hoje mesmo nessa cama de hospital com esse aparelho de memórias eu sei que estou sendo observada daqui. Mas eu sou apenas uma inútil e o meu tempo acabou. Tudo o que tenho são histórias para contar num mundo onde os sonhos e as histórias não têm mais valor ou importância alguma e cada um vale apenas o que produz. Portanto, eu já não valho nada. Ao menos meu corpo servirá de fagulha de energia térmica e no fim ainda lucrarão com minha morte. Eu servirei para acender uma lâmpada. Apenas uma lâmpada, no fim.

O torpor de outra dose de morfina me abala as memórias, eu sinto vontade de chorar, mas eu não sou mais capaz de controlar meus olhos ou talvez, eu já não tenha lágrimas. Devo ter gasto todas nesses longos anos de dor. Parece que posso ver o rosto dele aqui, me encarando efusivamente e sussurrando em meus ouvidos uma bobagem qualquer, como ele adorava fazer e ríamos sem ao menos saber a razão. O leitor deve estar pensando que eu o amei. Deve certamente imaginar tortuosos momentos de ternura e luxúrias que nunca chegaram a existir. A não ser, talvez na torpe imaginação juvenil que a beleza da idade nos permitia manter. Há tantos rostos impregnados na memória das minhas retinas cansadas, tantos amores, casos de amor e ódio alguns quentes com o fogo e tão perigosos quanto, tantas histórias que não levarei para o túmulo apenas pelo fato de que não terei um. Tantas coisas que queria ter feito. Tanta vida que eu não vivi, não por medo mas, porque teimamos em querer ser certos e aceitos e com isso, perdemos a oportunidades de fazer o que de fato era certo e de ser aceito não por pessoas insignificantes, mas por nós mesmos. Quanto eu deixei para trás. Quantas coisas eu deixei de viver por causa da consciência social, a mesma medíocre consciência social que nos trouxe a esse abominável e admirável mundo novo.

Meu coração está acelerando agora, sinto que o fim nunca esteve tão próximo. O sistema de memórias a meu lado está mostrando em hologramas os registros visuais e audíveis de minha inútil existência nesse buraco a que chamam de Terra. E de tantas imagens, o meu amante amado e igualmente odiado, a minha mãe, meus avós, meu pai, meus amigos, estão todos aí em imagens que se sucedem com as minhas músicas preferidas da juventude, começa a tocar a música final, eu sinto pela dor que me cerca e a dificuldade em raciocinar essas últimas palavras. É a voz de Emy Lee e ela diz, estou tão cansada de estar aqui....uma lágrima doída finalmente cai de minha face enrugada e flácida, estou com a pele fria, e agora, apenas minha mente continua a funcionar teimosamente como que para não deixar esse texto sem um final, mesmo que seja um final ruim. Ela está tão linda toda de preto no vídeo, o preto que desejei usar no meu casamento se esse tivesse acontecido...as trevas que muitos abominam e que eu e meu amigo sombrio amávamos...e na qual agora irei mergulhar.

Fotos...mais fotos...a música tocando sem eu saber mais de onde vinha o som....e apesar de tudo você ainda tem tudo de mim ....ela dizia...tudo de mim. Está escuro demais para ver qualquer coisa, mas a última foto na tela me mostra um sereno espectador, me pergunto se de fato estaria morto, como foi noticiado há muitos anos, mas nenhum corpo foi encontrado, nenhuma prova de morte, homicídio ou suicídio, nada comprovado. A verdade é que certamente já está cansado de me esperar, a tantos anos do outro lado da vida, do outro lado da morte, no lugar incerto para onde eu ainda quero acreditar que vou. Quem diria, a última imagem que meus olhos contemplaram nessa vida. O rosto del....................................................................................................................................

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Em algum lugar sombrio na cidade de Estiword, uma lâmpada  acende em um celeiro velho e abandonado. Um homem barbado fuma seu cigarro olhando a lâmpada, que pisca macabramente como algo sobrenatural, ele sopra a fumaça, de forma mecânica, volta a olhar o nada e a lâmpada se apaga novamente.

 



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Comentários   

0 # Pedro Emanuel 28-09-2017 19:55
certamente como seu web site no entanto você precisa teste a ortografia em vários de seus posts.
Diversos de eles estão repleto de ortografia questões
e eu encontrar muito incómodos informar a verdade
, no entanto, I'll certamente vem volta novamente.

Aqui é meu weblog :: webpage: http://www.linconsousa.com/
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0 # Maria Rafaela 28-09-2017 11:55
Bom dia! Podia jurar que foi para este blog antes,
mas depois olhando alguns da posts percebi que é novo para mim.
Não obstante eu sou certamente satisfeito Me deparei com e eu vou ser bookmarking e checando
regularmente !

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