O novato

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                                                                                              O novato

Sei que relutei por bastante tempo antes de aceitar aquele encontro com o tal moço do facão, sim foi assim que eu o chamei no dia em que ele me contou, com face impertubável, que havia passado a faca no braço, porque queria ver sangue. "faca não, facão" Consertou ele, inrredutível da ideia de que aquilo era absolutamente normal. Eu já desconfiava de tal caracteristica sua e, na verdade, nada ali me parecia novo. Desde a primeira visão que tive dele quando ele chegou, o tal aluno novato que entrara no meio do ano letivo, as unhas pretas, os óculos de grau forte, a cara de quem desdenha o mundo e o seu aparente desprezo pelas pessoas. Eu já pude sentir a essência trevosa dos que se destacam sem se destacar. Eu me sentava no fundo da sala e ele sentou-se perto de mim sem ao menos olhar para os lados. Nós tinhamos cerca de 17 anos na época e éramos jovens e tolos o bastante para ainda acreditar que o mundo era nosso. Não demorou para que aquele rapaz esquisito se aproximasse de mim, talvez por eu ser esquisita também.

A primeira conversa ( pela internet) foi legal, nunca tinha visto na minha vida alguém responder mais rápido do que eu e com mais textos também, aquilo era novo e me agradava, tão diferente das meias respostas e vácuos que eu recebia quase sempre de pessoas que provavelmente eram as que eu mais gostava de conversar. Mas ele não. Ele era direto e falava exatamente o que pensava e o que queria, ventura sua essa por, assim, tirar-me o sono uma ou muitas vezes, pois que ele trocava o dia pela noite, mas eu não. Eu era diurna, geralmente estava exausta e com sono mesmo que cedo da noite, ainda assim ele quase sempre me convencia a ficar mais um pouco, ou eu mesma acabava por me convencer de que valia a pena ficar mais um pouco, e mais um pouco.

Lembro que certa vez eu estava no meu "covio" ou a "taverna" um lugar afastado onde costumo ir para beber e pensar, mesmo que acompanhada de colegas, eles eram mais a desculpa para estar ali e estar "só" apesar de acompahada. E num destes dias cai na loucura de levar meu notebook. Ele, ao me ver online, puxou conversa como sempre fazia e perguntou onde eu estava, queria ir me ver, queria mesmo me ver a qualquer custo. Era o que ele dizia, se era verdade ou se estava apenas zombando de mim eu nunca saberei, mas ele insistia que deviamos nos ver naquele dia. Eu não podia, de fato eu não podia mesmo ir ao encontro dele. Eu tinha alguns trabalhos escolares para entregar no dia seguinte e precisava ainda terminar algumas coisas que faltavam. Dificil foi fazer ele aceitar o meu não, embora fosse apenas um não tão facil e simples ele o recusara veementemente como se aquilo lhe fosse uma afronta.

Em um outro momento, estava eu sentada descansando em um local próximo à minha casa e ele me viu, veio falar comigo, eu estava sentada e o convidei a sentar, mas ele permanceu de pé, contra o sol o que dava-lhe uma aparencia sinsitra pois a luz não apenas o circundava, como parecia atravessá-lo de um lado a outro fazendo-o parecer transparente. Seus labios estavam um pouco arroxeados e ele tinha olheiras, resultado das suas muitas noites em claro, e hábitos vampirescos que adotara assim que entrou na adolescencia, e teve, por fim, consciência do que era.

Ele me olhava nos olhos enquanto falava e eu odiava isso. Dizem que da para ver a alma das pessoas ao olhá-las profundamente nos olhos assim por tanto tempo. Eu temia isso, ser vista, ser conhecida, nunca me importei, ou já não me importava com o que diziam ou pensavam sobre mim, o que de fato me incomodava era que alguém pudesse descobrir quem eu realmente era, longe das fábulas maquiavélicas que se formavam a meu respeito, longe de vagas especulações de minha vida, mas a verdade, a mais pura verdade guardada por uma porta trancada a chave, numa velha casa que ninguém sabe onde fica. E assim ficamos, ele me olhando e falando amenidades e coisas das quais eu nem mesmo me recordo, porque não ouvia nada que saia de sua boca, estava encantada com como a luz sutilmente atravessava aquele belo fantasma à minha frente. Um fantasma? um vampiro? um demônio? coisa nenhuma, era só um rapaz de óculos, alguns cortes e hematomas pelo corpo e pensamentos loucos na cabeça, era só um rapaz a quem eu conhecia pouco, mas do qual eu sabia muito por pura empatia de personalidades ou talvez de almas.

E então, outro convite, "vamos ver o brilho da lua refletindo nos brancos túmulos do cemiterio, my lady? Eu ri daquilo, mas a verdade é que eu gostava sim de cemitérios, embora eu preferisse ir durante o dia, à tardinha, geralmente. Eu já havia recusado este mesmo convite em vezes anteriores mas, desta vez, resolvi arriscar, afinal o que eu teria a perder? Nada! Combinamos o horário e o dia, nos despedimos e ele saiu com um ar de satisfação, como se tivesse ali conquistado parte de uma série de missões. Essa era mais uma delas e eu pude ver, de relance, o brilho do seu meio sorriso quando ele dobrava à esquina.

Estava tudo combinado e coincidentemente era uma sexta feira, dia 13 de abril, quando fomos nos reunir no cemitério. Ele levou vinho e alguns cigarros pretos, embora fosse noite e já estivesse tarde, já passava das dez, o local estava iluminado, uma luminosidade sutil e peculiar, porém o suficiente para que pudessemos conversar e beber tranquilamente e nos ver à luz da lua que reinava num céu enegrecido e pálido. Ele me contava histórias de sua vida, falava sobre o que pensava acerca de si e do caos que reinava ao nosso redor, aquilo a que chamamos mundo e consequentemente nosso mundo, seja ele externo ou interno.

Estávamos ouvindo música no celular, tocava scream, de uma banda que eu gostava muito na época e na verdade ainda gosto. O refrão dizia, "grite, mal posso esperar até te ouvir gritar, grite!" Então ele disse: "você quer gritar, my layde?". Eu apenas sorri, meio sem graça e um pouco inebriada com o vinho e a nicotina. Ele repetiu: "grite!" Nesse momento notei que ele estava com uma faca na mão esquerda e o copo de vinho na mão direita e ele me encarava, sério. Foi quando eu respondi: "Eu poderia, não é? Gritar, acordar a vizinhança, fazê-los correr aqui e te prenderem, mas se de fato o que desejas é a minha morte, de nada adiantaria, eu já estaria morta ou agonizando quando chegassem. Sei que haveria tempo o suficiente para você dar cabo de mim e ainda fugir pela escuridão. Logo, se quer mesmo me matar, vá em frente! Eu não vou gritar! Apenas faça!"

Eu disse essas palavras com uma calma absurda e ilógica, afinal, eu estava prestes a morrer e eu não sentia medo.Eu estava prestes a ser vítima de um homicida e não sentia medo. Nem dele, nem da morte que me espreitava num local, digamos, no mínimo, apropriado. Eu estava insanamente calma e o olhava diretamente nos olhos. Era como se a embriaguez do vinho fosse também a embriaguez de minha razão e então eu estivesse louca e disposta a partir sem nem ao menos me opor ao que o destino me impusera.

Ele se aproximou mais de mim, e mais. Eu podia sentir sua respiração ofegante, estava diante de mim, fazia frio. Ele aproximou sua face da minha ao ponto de eu poder sentir quase o toque de seu rosto no meu. Com as mãos sobre meus ombros e a faca em riste, ele beijou-me a testa, abaixou as mãos e nada fez. Abraçou-me. Eu permanecia imóvel, seria esse abraço a tortura final antes de sentir a fria lâmina na minha carne quente? Parecia que sim, num ritual sádico ele me enlaçou pela cintura e repousou sua cabeça em meu ombro. Eu não me movia. Apenas esperava o porvir de tamanha perversão psicótica, paralisada, ouvindo a sua respiração e nossos corações acelerados batendo em compasso.

Ele soltou a faca e eu a ouvir zinir quando caiu sobre uma das lapides em que nos recostamos, não iria me matar. Largou-me ali e afastou-se, enquanto dizia, sem olhar para trás " Eu não posso te matar. Eu sabia que não poderia, mas fiz questão de tentar e ter certeza. Agora eu tenho certeza e por isso eu nunca mais quero te ver". Eu entendia inconscientemente o que ele me dizia como se fosse quase o mesmo que eu sentira quando ele me olhava nos olhos. Ele era perigoso para mim, uma catástrofe, e eu, eu era veneno para ele, terminaria por matá-lo um dia, se metaforicamente ou de fato, nós não sabiamos, mas seria melhor assim.

Ele nunca mais apareceu. A família, dias depois acionou a policia pelo seu desaparecimento, fizeram-se buscas, fizeram-se campanhas para ajudar a encontrar o filho desaparecido, mas todos os esforços foram em vão, não se sabe para onde ele foi, se estaria vivo ou morto, não se sabe que rumo tomou sua vida.Ninguém nunca soube que eu fui a ultima pessoa que esteve com ele. Ninguém nunca soube que, por alguma razão, ele havia decidido partir depois de estar comigo aquela noite, naquele cemitério. Quanto a mim, segui minha vida e voltei a olhar para o vazio, e ter espasmos de melancolia. Voltei a frequentar o "covil" e a consumir vinho e cigarros pretos com menos moderação, mas a fumaça, amaciada pela bebida, naquela noite, formava agora no ar contornos pertubavelmente macabros, como que eu visse seu rosto esvaindo-se pelo céu, até perder-se na imensidão do vazio.

Por SOPHIA LEDNEM



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