Seus olhos. Meus olhos.

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Atordoado pelo gigantesco vórtex do vazio, minha natureza grita. Mas ao lhe dar voz, percebo que seus gritos não são discerníveis. Seria o grito de minha alma? Mas e se eu não tiver uma alma? Seria então o grito desesperado de todos? O grito desesperado por ajuda? O grito desesperado para espantar o vazio? Ou seria a própria escuridão interior me chamando?

Na busca por respostas sinto no meu ombro esquerdo um toque frio como as águas abaixo do gelo polar. Antes de me virar sinto um toque quente como o fogo vivo que marcava a pele dos escravos. Estou paralisado. Não posso me virar. Ouço uma voz me chamando pelo nome. Mas o som não parece natural. É como se infinitas vozes gritassem em desespero me chamando. Meus pelos se arrepiam. A náusea é quase insuportável. Mas mesmo assim parece que estou enfeitiçado.

Me viro lentamente e vejo uma jovem pálida com longos cabelos cacheados pretos. Pelo vazio de seus olhos, ela parece cega. Consigo ver em seu lábio inferior duas enormes cicatrizes mal feitas e recentes que descem em diagonal até se cruzarem no queixo. Parecem cortes de faca. Paralisado pelo encontro inesperado, coloco minha mão no bolso em busca do meu celular. A jovem se afasta em direção à janela do meu apartamento e tira uma faca de dentro de sua calça. Antes que eu pudesse chamar a polícia, ela lentamente encosta a faca em seu rosto e começa a rasgar sua face no mesmo sentido da cicatriz. Sangue negro escorre de seu rosto antes de ela inclinar seu rosto para a esquerda e gargalhar.

A jovem então se vira em direção à sacada e foi aí que vi o mais estranho de tudo. Na parte de trás de sua cabeça, um enorme olho castanho me observava. E então ele piscou... E eu não estava mais no meu quarto. E ela não estava mais lá.

O local era escuro e tinha um cheiro enorme de podridão. Caminhei lentamente em linha reta até chutar algo no chão. Me abaixei tentando ver algo mas a escuridão era maior. Foi então que escutei vindo da mesma direção uma voz.

-Fuja enquanto pode... Se ele olhar para você será tarde demais. Fuja. FUJA!
Me levantei assustado e tateei na parede em busca de um interruptor. Ao iluminar o ambiente, vi a morte viva. 3 Corpos sem vida pendurados em correntes. Suas cabeças se encontravam abaixo dos mesmos. Marcas de cortes percorriam todos o corpos e o sangue se espalhava por todo o ambiente. Procurei a saída o mais rápido possível, mas antes que eu pudesse abrir a porta aquelas mãos novamente me alcançaram. Senti o frio e o calor. Me paralisei. Num súbito de força consegui abrir a porta e mudar de ambiente.Ao chegar na sala seguinte, aquele olho castanho estava no centro me encarando. Então meu corpo caiu.

Acordei suado na minha cama. Não passara de um pesadelo. Me levantei calmamente e fui ao banheiro lavar meu rosto. Abaixei a cabeça e deixei a água escorrer na parte de trás da mesma. Foi então que senti uma sensação estranha como se estivesse entrando debaixo d'água. Levantei meu rosto num súbito e então vi. Duas cicatrizes enormes que vinham desde meu lábio inferior até se cruzarem no meu queixo. E ao abrir o armário encontrei a mesma faca que a jovem carregava. Foi então que percebi. Naquele momento eu sabia a verdade. Naquele momento eu entendia todo o vazio. Mas eu o entendia porque eu era o próprio vazio.



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