O monstro das sombras

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Descalça e com minha alma gritando, aproximo-me do gigantesco rio. Posso ouvir todos os gritos que vêm de suas profundezas. Cambaleante, chego à margem de natureza exótica. A cena me faz querer vomitar. Centenas de pássaros brancos encontram-se ali. Todos mortos. Seu sangue banha as águas paradas daquele rio de forma a transformá-lo num rio vermelho. Consumida e infectada pela escuridão, lentamente entro nas águas vermelhas. Ao submergir por completo, sinto uma dor estonteante. E então... escuridão. Ainda assim, consigo ouvir aquelas vozes. Sussurrando... Acordo repentinamente em meu quarto. A televisão ligada transmite um documentário sobre morcegos. A desligo e caminho em direção ao banheiro ao banheiro no fim do corredor. A cada passo, percebo que meu corpo reage com medo. Todos os pelos da minha nuca se arrepiam. Meu estômago se revira por completo. Mas porque tudo isso? Eu moro sozinha. Não faz sentido. A caminhada parece interminável. Então, ainda atravessando o corredor, eu ouço um som indecifrável vindo do antigo quarto da minha mãe. Um som animalesco. Fantasmagórico. Corro para o fim do corredor e me tranco no banheiro. Não pode ser real. Nada disso pode estar acontecendo. Não de novo. Parada em frente ao espelho do banheiro, vagarosamente retiro minha fina camisa e então vejo... Inúmeras marcas de cortes percorrendo todo o meu corpo. Marcas semelhantes à arranhões. Vagarosamente minha mente chega à terrível conclusão: O monstro está solto novamente. O barulho no cômodo ao lado aumenta, no momento em que lembranças surgem em minha mente... Uma jovem magra e pálida, com um vestido florido colorido e longos cabelos cacheados anda cambaleante em minha direção. Sinto a dor dos arranhões. Então ela cai. Transformada e consumida pelo monstro interior, saio do quarto e desço as escadas. Abro a caixa de ferramentas e retiro um objeto de madeira com uma extremidade metálica. Um martelo. Subo as escadas. Espero ao lado da porta e destranco-a. Numa explosão de fúria, a jovem de minhas lembranças surge gritando. Mas ela se vira para o lado oposto a mim. Ao ver sua nuca exposta, sinto um impulso animal. Um ímpeto de pular em cima de minha vítima e destroçar seu pescoço com meus dentes. Sentir o seu sangue levemente amargo jorrando para dentro de minha garganta. Ainda assim, não o faço. Com um movimento rápido, acerto o martelo em sua cabeça com uma força descomunal. Forte demais. Não há mais vida aqui. Lentamente minha mente escurece. Vejo milhões de pensamentos flutuando sem saber qual pertence a mim. Sinto o cheiro da vida, mas o cheiro é exatamente igual ao da morte. Então acordei. Percebi o que tinha feito. Novamente, vejo um rastro de morte em minha frente. Não sou eu, nunca serei. Mas já não posso ser outra pessoa. Caminho até meu banheiro e preparo a banheira. Tomo em mãos inúmeros comprimidos e me deito sob a água. Sinto todo o sangue derramado me sufocando, mas só há água ali. Tomo os comprimidos e decido dar uma última volta na casa. Saio do banheiro e então não vejo mais nada. Não há sangue no corredor. Não há uma vítima. Não há ninguém. Não há nada. Não há morte senão minha própria. Sento-me perdida no meio do corredor antes de, subitamente, cair no gélido chão de minha loucura. Meu coração não mais batia, mas meu corpo ainda o carregava. Assim como as luzes da noite carregavam inúmeras almas dançantes e sem vida.



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