PORÃO

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   São quase duas da manhã. A madrugada lá fora está fria. Aqui dentro, nem tanto. No entanto, estou com frio. Muito frio. Estou com fome. Estou com sede. Mas nada disso importa para aquele filho da puta. Tudo o que lhe interessa é a satisfação crescente de poder olhar nos meus olhos e contemplar meu desespero. Está quase na hora da visita noturna. O relógio não para. E o tempo parece esmagar, cada vez mais, qualquer resquício de esperança que ainda sobreviva aqui dentro. Na noite passada, ele arrancou a unha do meu dedão esquerdo. Meu pé ainda lateja só de lembrar daquele agonizante momento. Mas isso não foi pior que das outras vezes. Semana passada, ele estourou meu supercílio e cortou um pequeno pedaço da minha língua. Maldito! Doente! Que um raio o parta em dois. Não, em dois não. Em mil pedacinhos. E isso é só um pouco do que ele merece.

   Faltam cinco minutos apenas. Apenas cinco minutos para mais uma sessão de tortura. As correntes apertadas já nem fazem mais tanta diferença. Já estou acostumada. Tanto tempo convivendo face a face com a dor e você acaba, de certa forma, se habituando à ela. Dois minutos. Está chegando. Ele está chegando. Eu poderia sentir seu cheiro podre a quilômetros de distância. Seu andar é como o de um psicopata. Seu olhar como de um demônio sádico. Tem a meticulosidade correndo nas veias. Sabe cada passo que é capaz de dar. E é bem criativo quando se trata do que fazer comigo.

   Ele está descendo. Ouço seus passos até o porão. Está descendo. Louco para mais um momento de prazer e divertimento. E seu brinquedo sou eu. Malditas correntes! Se eu ao menos conseguisse me soltar...Poderia tentar correr e pedir ajuda. Mas de que adiantaria? Afinal de contas, ninguém me ouviria. Pelo tempo que estou aqui, pude perceber nitidamente que se trata de um lugar isolado, sem muitos recursos. Ele se aproxima. Posso sentir o medo penetrar meu corpo antecipadamente. O desespero corre em minhas veias. Mais uma noite de "amor", como diz ele. Mais uma noite de "carinho". Psicopata maldito! Filho da puta! Tirano! Posso ver claramente seu rosto agora. Num misto de excitação e tirania. Seus olhos brilham. Seus malditos olhos brilham ao encarar meu rosto, já todo arranhado. Desgraçado! Já não aguento mais aquele sorrisinho sínico, estampado descaradamente em seu rosto pálido.

   Desta vez ele traz uma faca. Grande. Capaz de rasgar um animal ao meio. O meu medo é de que talvez, esta noite, eu seja esse animal. Ele caminha até a pequena mesa do porão, a mais ou menos três metros de onde estou, e começa a amolar a faca, como se num sinal do que me espera. É como se ele dissesse pra mim: "Ah, meu amor! Você não perde por esperar..." Ele deu pra me chamar assim depois de um tempo. "Meu amor". Filho da puta, desgraçado! O que ele sabe sobre amor? Não é capaz de amar nem a si próprio. Ele caminha lentamente em direção a mim. Um animal faminto prestes a matar a fome. Ele se abaixa bem na minha frente, e começa a deslizar a faca delicadamente pelas minhas pernas e coxas; se divertindo com aquilo.

   Mais uma noite. Mais um tormento. Já não sei mais por quanto tempo meu corpo é capaz de suportar. Acho que já cheguei no meu limite há muito tempo. Tudo o que me resta é fechar os olhos e rezar para que tudo isso termine logo. Que todo esse pesadelo tenha um fim, por pior que seja. A faca agora introduz minha vagina. As gotas de sangue começam a pingar. Mas eu já não grito como antes. Dou apenas alguns gemidos contidos. A faca sobe das regiões pélvicas para o meu abdômen. E depois passeia entre meus seios. Minha camiseta rasgada. Minha calça aberta. E toda minha intimidade à mostra. Ele desenha um coração em um dos meus seios. O sangue escorrendo sutilmente até o chão. Depois, ele pega meu cabelo, e cheira. Cheira como um viciado em heroína. Por fim, ele se despede em seu tom ameaçador e doentio:

— Descanse, meu amor. Amanhã é outro dia.

   E então, ele sai. Começa a subir as velhas escadas. E chegando lá em cima, pouco antes de fechar a porta e me abandonar naquele porão novamente, ele para por um breve instante e só para não perder o costume, arremessa escada abaixo uma pequena concha. E eu novamente me estico entre as correntes, tomando nas mãos aquela linda concha. Mais uma para minha coleção. E essa é um número "especial". E isso me faz cair no choro. Faz-me entregar ao desespero. 7-6-6-5. Estes são os números atuais de minha sentença. Sim, eu contei. 7665 conchas até então. Hoje comemoro em lágrimas e soluços todo o meu tormento. Pra você pode ser apenas um número, como outro qualquer. Mas para mim...Para mim isso significa a dura realidade que agora tenho que enfrentar.

Hoje faz exatos 21 anos que estou aqui.

21 anos nesse inferno!

 

 



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