A câmara de sacrifícios

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Aconteceu em 1987. Numa sexta-feira de março a mulher apareceu na redação por volta das 17 horas, completamente encharcada. Lá fora despencava uma chuva tão intensa que dava para se ouvir o roncar da enxurrada subindo pelo meio-fio, digladiando-se com as rodas dos carros estacionados, mordendo postes e árvores. Cinco da tarde e tão furioso temporal dava a impressão de já ser noite.

Ela parou em frente de Mônica, a editora-chefe do caderno de cultura e, sem se sentar na cadeira oferecida, abriu uma pasta de couro e dela sacou algumas folhas.

– Poemas – disse.

– Poemas... sei... – murmurou Mônica, pegando os papéis que lhe eram estendidos. Passou um rápido olhar nos trabalhos e indicou-me, editor-adjunto.

A mulher veio em minha direção. Os cabelos, talvez louros, grudavam-se no crânio ovalado e gotejavam em suas faces de ossatura proeminente; os imensos olhos negros pareciam um fumegante lago de lava – uma incandescência que chegava a incomodar. Trajava-se com uma blusinha marrom comprimindo os seios incipientes e uma saia selvagem, longa e rodada, cheia de babados e totalmente coberta de desenhos geométricos berrantemente coloridos.

Jogou as páginas sobre a escrivaninha e com um suspiro impaciente sentou-se na cadeira. Esperei que dissesse alguma coisa – só o silêncio de seus negros e penetrantes olhos de fogo falou. Fingi que lia os poemas – enquanto isso aqueles malditos olhos perfuravam-me a carne e espírito: eu estava singularmente perturbado.

– Pode deixá-los aqui para melhor analisá-los?

– Está bem – disse – e estendeu-me uma mão úmida e gelada, levantou-se e se foi – sem um sorriso nos lábios, uma ternura agradecida nos grandes olhos negros. Sim, ternura agradecida: raramente analisávamos e publicávamos poemas, mesmo de autores conhecidos, apesar de termos uma página dedicada à literatura; poderia tê-la despachado sumariamente com sua papelada. Através da vidraça vi-a afundar-se no aguaceiro que caía lá fora. Ficou dela uma sensação de savanas abrasivas, vulcões ativos de ilhas desérticas.

Não sei quanto tempo permaneci extático, fitando a chuva. Tirou-me daquela imobilidade hipnótica o nosso diagramador: era preciso diminuir o título de um artigo. Um tanto contrariado – estava mergulhado num estado mental tão mágico! – fiz o que o rapaz pedia e, depois, tentei retomar as rédeas do fascínio. Em vão. Tudo se fora. Reintegrado à realidade, resolvi ler os poemas: falavam de civilizações pré-colombianas, não sei se Asteca, Maia ou Inca – talvez de todas elas, numa mistura monumental. Uns poemas esquisitos, alguns incompreensíveis. Até o nome da autora era estranho: Felênia. Simplesmente Felênia, sem sobrenome. Bem, o fato é que já decidira pela publicação. Restava convencer Mônica. Olhei-a, ali em sua mesa, e me surpreendi de que não estivesse concentrada no trabalho. Fitava-me, uma ruga formando-se entre as sobrancelhas. Mônica tinha 45 anos, a mesma idade que eu, e fora responsável, ainda que indiretamente, pela dissolução de meu casamento: fôramos amantes e eu, tão apaixonado, divorciei-me pensando em nova união; não deu certo – o encanto de nosso relacionamento estava justamente no adultério. Peguei três poemas da tal Felênia e fui ter com Mônica.

*

Certa madrugada eu acabava de preparar algo para comer – um ovo frito, três salsichas, uma fatia de queijo e um pedaço de pão bisnaga – quando a campainha tocou. Não atinava quem poderia estar à minha porta às três da manhã – e Felênia, depois da publicação dos poemas, muito menos. Trajando a mesma vestimenta da tarde do dilúvio, calma, segura, imperturbável, Felênia adentrou o apartamento e lançou-se no sofá. Sorriu de meu ar desconcertado, remexeu em sua grande bolsa de palha e dela retirou uma barra de chocolate. Pôs-se a comer e entre um e outro mastigar, disse:

– Que bom que você tem um gato. Gosto desse bicho.

– Gato? Que gato? – indaguei. Entre ficar furioso ou boquiaberto, tomei fôlego, dirigi-lhe um olhar piedoso e voltei a perguntar: – Em que lugar você está vendo um gato?

– No quarto. Não ouve? Ele está brincando com um pé de meia. Não ouve o barulho?

– Barulho? Barulho de uma meia sendo arrastada no assoalho?

A mulher estava me gozando, só podia.

– Exatamente – ela confirmou. Tudo era absurdo. Eu odiava gatos desde que um deles comera meus peixinhos ornamentais amazônicos, isso quando tinha seis anos de idade.

– Aliás – completou Felênia –, o bichano está brincando com a meia em cima do tapete, ao lado da cama.

Mais para ter certeza de que aquela mulher estava se divertindo às minhas custas, fui ao quarto verificar – sobre o tapete um gatinho felpudo, amarelo, preto e cinza, dava cambalhotas esfiapando a meia. Um bichano desse tamaninho. Peguei o animal e voltei à sala. Só havia uma explicação para aquilo: a mulher trouxera o felino e, não sei como, introduzira-o no quarto.

– Toma seu bicho e não brinque mais assim – disse.

– Ele não é meu – retrucou Felênia. Pegou o gatinho, acarinhou-lhe a cabeça e voltou a soltá-lo. O filhote embarafustou-se por entre os móveis, em saltitante corrida, atrás de um inseto noturno.

– Eu não gostei da apresentação que você fez dos meus poemas – disse, tirando da bolsa a página do jornal. Depois acrescentou: – Além do mais, você os publicou numa letra muito miudinha.

Eu nada disse. Ora, não tinha que dar nenhuma satisfação àquela ingrata! Felênia ficou um instante pensativa, a seguir fez um trejeito labial de desprezo.

– Mas não tem importância, minha fase poética já passou. Agora sou pintora e mês que vem talvez me dedique à escultura.

Cravando-me aqueles flamejantes olhos negros, jogou a folha do jornal no meio da sala. Então, surpreendentemente, começou a tirar a roupa. Primeiro a blusa marrom, depois a saia colorida.

– Venha, convidou-me, enquanto arqueava os quadris para facilitar a remoção da calcinha.

*

E foi assim que Felênia entrou em minha vida. Não saberia determinar-lhe a idade. O corpo era anguloso, seco e, durante o sexo, frenético e jovialmente cônscio das infinitas possibilidades do prazer – mas a pele do rosto era cansada, como que torturada anos e anos pelo abuso de maquilagem; ao redor dos imensos olhos negros via-se uma cordilheira de rugas minúsculas e os dentes tinham o esmalte amarelecido, de gente que mastiga há uma eternidade alegrias, alimentos e decepções.

Não tinha dia certo para vir ao meu apartamento, e muito menos horário. Às vezes chegava às duas da madrugada, às oito da manhã, em qualquer momento nos meus dias de folga – sem nenhum aviso prévio. Tão inconstante, acabei dando-lhe uma duplicata da chave de minha morada. Apesar do convívio, eu nada sabia dela e nem a fórceps conseguiria arrancar-lhe confissões da vida pregressa. Uma mortalha envolvia seu passado e um véu o presente. Algumas manias de Felênia me irritavam profundamente. Uma delas: ficava horas seguidas sentada no chão em posição de ioga, os olhos perdidos sabe-se lá em que labirintos esotéricos, entoando mantras – um sussurro intermitente, agourento, rouco, assustador. Após, sorria para si mesma e dizia: A teus pés deposito minha alma, ó Mestre! – e seus olhos esbugalhavam-se, a cabeça girava lentamente em ângulos absurdos, como se perseguisse a luz fascinante de alguma miragem. Quando finalmente punha-se de pé, eu já nem fazia perguntas – sabia a resposta: Felênia acabara de entrar em contato com algum sacerdote, imperador, sei lá, alguma divindade de uma das civilizações pré-colombianas.

*

Numa manhã de domingo ensolarado, Cleide, minha ex-esposa, trouxe muito a contragosto nosso garoto de 10 anos, Juninho, para passar o dia comigo. Nem se dignou a ultrapassar o limiar da porta.

– Quero-o de volta às seis da tarde – disse-me, num autoritarismo ressentido. Virou-se e foi embora. Felênia em pouco estava na sala, querendo saber de quem nos visitava. Apresentei-a ao garoto. A simpatia de Felênia foi imediata: abraçou-o com ardor, sem ligar importância ao constrangimento do menino. Beijou-lhe as faces sardentas, penteou-lhe os cabelos com os dedos.

– Puxa, como você é forte! – exclamou. – Tire a camisa querido – pediu em seguida. Como o guri permanecesse atônito, ela mesma o desvencilhou da camiseta com a estampa do Batman e apalpou-lhe o tórax saudável.

– Você está com fome? – indagou. Não esperou pela resposta: – Vou lhe fazer um desjejum digno dos deuses! – exclamou.

– Já tomei o café da manhã – murmurou o guri.

– Não tem importância. O meu é especial. Vai ver. – E sem mais aquela retornou à cozinha. Juninho sorriu-me e disse, quase a medo: – Que dona mais maluca!

*

Após o café, Felênia já tinha seduzido o garoto com as histórias mirabolantes saídas de sua mente extraordinariamente fértil. O clímax da conquista foi atingido quando nos convidou para visitarmos sua chácara, a uns trinta quilômetros da cidade.

– Possui uma chácara? – perguntei, apenas para certificar-me de que ouvia direito.

– Oh, é uma coisa pequenina – disse ela. – Mas há tantas opções de lazer! – completou, empolgada. Eu também fiquei entusiasmado, era uma fresta que se abria no casulo de seu misterioso viver.

*

Fomos à chácara no veículo utilitário de Felênia, estacionado nas proximidades do meu apartamento. E eu sequer sabia que ela soubesse guiar... quanto mais possuir um carro!

Na propriedade campestre havia um lago piscoso, recoberto parcialmente por lírios d'água – em pontos estratégicos da orla, em meio aos arbustos, viam-se esculturas em diversos tamanhos de estranhos ídolos de alguma época perdida no tempo, trabalhos feitos por Felênia, naturalmente. Além da orla, um viveiro com alguns macaquinhos. O que chamou a atenção do garoto, no entanto, foram os animais domésticos – todos em miniatura. Vacas com 90 centímetros de altura, cavalinhos que, à distância, pareciam-se com cabritos.

– Cruzamentos genéticos, explicou Felênia, você acreditaria que uma vaquinha dessas vale uma fortuna?

Sorri-lhe, um ar de dúvida passeando pelo rosto.

– Não creio que elas dêem uma caneca de leite, ou três arrobas de carne.

– Ora, seu tonto! Elas não são criadas para isso, são para encantar o espírito! Enfeite, não percebe? Observe seu filho, está completamente fascinado!

De fato, Juninho corria pelo pasto, brincando com a minúscula criação de vacas e cavalos, como se esta fosse uma porção de dóceis cachorrinhos. Logo um homem muito velho – o caseiro? – aproximou-se do guri. Trazia às costas um pequeno arreio e depois de conversarem alegremente, foram separar um dos cavalinhos – um tordilhinho com manchas marrons nas ancas, à semelhança dos apalooses. O homem encilhou-o; num salto ágil o garoto pôs-se a cavaleiro no lombo do animalzinho. Felênia tirou-me daquele feliz estado contemplativo.

– Vamos entrar – disse. – Tenho lá dentro um vinho excelente.

– Alemão? – indaguei, pensando num bom Reno.

– Chileno.

– Ah!

Claro. Só podia ser..., afinal eu estava em companhia de uma sacerdotisa pré-colombiana. Onde eu estava com a cabeça para imaginar – heresia! – que ela fosse me servir vinho alemão?

*

Nas paredes da sala havia cerca de onze ou doze quadros, a maioria de autoria de Felênia, um conjunto de sofás de couro, castanho, uma mesinha de centro em mármore e, sobre ela, uma escultura de uns 30 centímetros de um deus feroz, todo adornado com rubis, esmeraldas, opalas, turquesas, pedras que podiam passar por verdadeiras a um olhar menos atento. Aquele deus certamente era algum maioral de uma das dinastias perdidas no tempo. Vendo-me observar a escultura, Felênia disse sucinta:

– Um dos meus Mestres.

– Um Mestre... Sei...

Mostrou-me a casa: os quartos, a cozinha, o banheiro. Só não entramos num cômodo que, em lugar da porta, tinha grossa, indevassável cortina tecida em fios de ouro e prata. Captando minha curiosidade, Felênia avisou, peremptória:

– Aqui ninguém, a não ser eu, pode entrar, entende?

– Por quê?

– Porque aqui é câmara de sacrifícios

A coisa ficava difícil de entender. Quem poderia impedir-me de invadir o local? Repeti em palavras o meu pensamento. Ela, desafiadora:

– Pois então tente.

Resoluto, avancei. A dois metros da cortina, senti bater-me no rosto uma labareda – não seria, a bem da verdade, uma labareda: era mais um bafio cáustico com fedor de amônia, breu e ovo podre, uma emanação mefítica que impregnava as vias respiratórias, causava náuseas. Afastei-me alguns passos e tudo voltou à normalidade: o ar era fresco, a luminosidade da casa, estonteante. Como sou um sujeito racional, cheguei à conclusão de que Felênia estava acionando em meu cérebro algum mecanismo de auto-sugestão. Mas, por via das dúvidas, abandonei a ideia de invadir o cômodo.

– Vamos tomar o vinho? – sugeri.

De volta à sala, Felênia trouxe-me uma garrafa com vinho pela metade. Como não tomava álcool, providenciou para si um cálice de guaraná. Ela serviu-me o vinho num copo de estanho, que coisa mais singular, eu disse pra mim mesmo. Após virar a primeira dose, alguma coisa aconteceu: minhas pálpebras caíam sobre os olhos com a violência de meteoritos. Eu lutava bravamente para manter-me acordado, em vão. Como meu cérebro mantinha-se claro como o gelo em manhãs de geada, compreendi que estava sendo dopado.

*

Quando recobrei a consciência, estava esparramado no sofá. Sentei-me, meti a cabeça explodindo de dor – um latejar profundo em nada comparável à ressaca – entre as mãos e naquele momento ouvi um som lamentoso espalhando-se pela casa.

Pus-me de pé, cambaleante segui as ondas do lamento e dei-me com a câmara misteriosa. Um medo irracional por alguns instantes paralisou-me os membros e, patético, fiquei olhando a rica cortina do cômodo – dali não mais emanavam os miasmas de horas antes, mas pressentimentos funestos, presságios terrificantes, agouros lúgubres.

Abri a cortina e entrei. O lugar, iluminado pelo sol vespertino, tinha nas paredes, acomodadas em prateleiras, esculturas de todos os tamanhos e cinzeladas nas mais estranhas conformações. Ao centro do quarto via-se um bloco maciço de mármore, quadrado, com uns dois metros de largura por um de altura – sobre ele o meu filho, nu, distendido de costas e aparentemente dopado. Junto ao bloco, sentada em posição de ioga e de frente para o sol, estava Felênia, os olhos fechados, murmurando aquele mantra soturno, gutural, tétrico. Tinha as mãos postas em frente ao peito e, entre elas, um punhal – o cabo era feito de polidas pedras brancas e negras, formando mosaicos, e a lâmina, comprida e fina, era de sílex.

Tremendo de pânico, peguei o menino nos braços e corri para o veículo de Felênia – deixando-a naquele estado de transe a entoar sua cantilena maldita. Acomodei o garoto no banco da frente, a cabeça sobre minhas pernas, profundamente aliviado ao ouvir seus lamentos sinalizando a recuperação dos sentidos. Então, após girar a chave na ignição, observei que no peito do Juninho havia um círculo de tinta quase da tonalidade da pele demarcando o lugar exato do coração.



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