Apocalipse 13:18

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"Eis aqui a sabedoria! Quem tiver inteligência, calcule o número da Besta, porque é um número humano, e esse número é seiscentos e sessenta e seis."

Apocalipse 13:18

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Quando o grande cão negro apareceu pela primeira vez na vizinhança, ninguém deu muita atenção. São Paulo sempre foi uma cidade de muitos cães, de todas as cores e tamanhos, então um cão a mais não fazia nenhuma diferença.

Para Dona Norma, também não havia mais nenhum motivo para aquele cão ser diferente de todos os outros: mais um para querer se aproveitar do vão largo entre as duas folhas do portão e vir escavocar seu lindo gramado. Dona Norma sempre esbravejava e, como sempre, Seu Emílio - o vizinho da frente, aposentado há muitos anos e sem poder fugir das lamúrias de Dona Norma devido a gota que destruía dolorosamente seus joelhos - ouvia pacientemente.

- Ah, Seu Emílio, eu paguei tão caro por esse portão! Uma fortuna, Seu Emílio, uma fortuna. Maldito serralheiro! Largou essa brecha enorme pra esses filhos de uma cadela virem revirar meu gramado!

Apaixonada pelas casas que via nos filmes americanos, a velha solteirona morava dentro de um terreno enorme, mas mandara erguer uma casa pequena. Assim, apertando-se para poder deixar vazio o máximo possível do terreno, fizera um gigantesco e esplendidamente bem cuidado gramado em frente a casa.

Cuidava do gramado de forma obsessiva. Chegara até a comprar um daqueles cortadores de grama que sempre vira nos filmes, economizando com muito custo o pequeno salário de funcionária pública: era bibliotecária na biblioteca do bairro há muitos anos.

Dona Norma bem que tentara deixar seu terreno sem muros, queria no máximo uma cerca viva. Mas desde que começara a construir a casa, o amplo espaço aberto virava uma campo de futebol para os moleques, uma enorme caixa de areia para os gatos e uma enorme dispensa para que os cães enterrassem o que bem entendessem.

Assim, ela mandou murar seu terreno e encomendou a um serralheiro que fizesse um portão bem grande, para proteger seu futuro lindo gramado. Pagou adiantado pelo serviço e foi visitar a família no interior de Minas.

Na volta, quase caiu dura quando viu o resultado da obra. Curtido na cachaça, desfrutando da absoluta falta de supervisão, o tal serralheiro fez o portão sem dar grande atenção às medidas. Assim, o portão enorme também apresentava uma enorme abertura entre as duas folhas, por onde todos os indesejáveis continuavam entrando.

Obviamente, Dona Norma nunca mais teve notícias do serralheiro.

Assim, somaram-se mais duas às não poucas manias que a solteirona já mantinha: expulsar os moleques com o habilidoso manejo do cabo de vassoura e expulsar cães e gatos com o exemplar do dia d'O Estado de São Paulo - do qual ela fizera a assinatura apenas para garantir ter sempre um grosso rolo de jornal para atacar os animais atrevidos.

O enorme cão negro porém, não ousou invadir o território que Dona Norma guardava com uma disciplina de deixar muito militar com inveja. Aproximava-se do portão e ficava olhando para dentro da casa, farejando insistente, como se procurasse alguma coisa. Mas nunca ultrapassou o portão. Talvez por isso Dona Norma não tenha lhe dado mais atenção.

Porém, ao voltar da feira naquele sábado, Dona Norma chegou a sua casa e encontrou o cão parado em frente ao seu portão, bloqueando sua passagem.

Desprotegida sem sua edição diária d'O Estadão, restou a Dona Norma esconder-se atrás de seu carrinho de feira e avançar lentamente para frente, rezando para que o bicho não resolvesse atacá-la.

Parecendo absolutamente desinteressado, o cão saiu de lado e deixou-a passar. Mas quando Dona Norma foi obrigada a virar-se para usar a chave, o cão subiu em suas costas e, agarrando-a com as patas dianteiras, começou a esfregar-se na pobre mulher, que sentia o pênis do cão ficar cada vez maior e mais duro.

Os gritos de desespero da mulher chamaram a atenção dos transeuntes. Enquanto alguns, em geral adultos, corriam para ajudá-la, os mais novos tratavam de puxar seus celulares para filmar aquela cena insólita.

Foram necessários vários baldes de água fria e muitas pancadas para que o enorme cão deixasse Dona Norma em paz. Assim que soltou-se de sua vítima, o cão desvencilhou-se de seus agressores com grande agilidade e desapareceu.

Dona Norma caíra ao chão com o peso do cão. Estava zonza, porque batera a cabeça na queda; tinha o corpo dolorido, pois a fera a agitara com força durante seu ataque. Mas nada comparava-se a humilhação: apesar da não ter conseguido penetrá-la, a fera rasgara sua saia e ela podia sentir o calor do sêmen do bicho empapando sua calcinha e suas pernas. O cheiro que subia ao seu nariz era nauseante, não foi capaz de conter o vômito quando a levantaram.

Levada ao posto de saúde, teve seus ferimentos tratados e foi mandada de volta para casa, onde seu inferno pessoal tomava contornos cada vez mas absurdos: filmada por muitos celulares em sua hora de dor e desespero, os vídeos chegaram a internet e, de lá, ganharam a boca do povo e os jornais.

Dona Norma ainda bem que tentou retomar sua vida normal, mas foi impossível. Perseguida implacavelmente por causa da fama indesejada, não lhe restou outra saída a não ser dar entrada na aposentadoria que adiara por tantos anos e esconder-se dentro de casa.

Sem os cuidados habituais, a grama começou a crescer de forma desordenada. Vieram o capim e as plantas daninhas. E o antes impecável gramado passou a anunciar que o Mal crescia dentro daquela casa, de forma silenciosa.

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Dona Norma não contara a ninguém, pois não tinha mesmo ninguém com quem partilhar os segredos de sua vida. Seu jeito amargo e reclamão sempre afastara possíveis amigos. A mãe já era falecida e mesmo em vida jamais fora o tipo da mãe amiga e confidente. O pai morrera cedo, ela ainda muito criança, e os irmãos, por mais que fossem casados, jamais seriam capazes de demonstrar a sensibilidade necessária para lidar com um assunto daqueles: no dia em que o cão aparecera no bairro, Dona Norma havia menstruado pela primeira vez em sua vida!

Devido ao medo de ter uma filha "manuseada", os pais de Dona Norma nunca a levaram ao médico. A falta da vinda das regras mostrava que ela era "seca" - estéril. E ela nunca realmente desenvolveu um corpo desejável de mulher, sempre tivera quase nada de seios, suas ancas não se abriram, seu corpo parecia o de uma criança que envelheceu.

Dona Norma só ficou sabendo detalhes de sua infertilidade muitos anos depois, quando já morava em São Paulo e precisou fazer um ultrassom do abdômen por causa de outros problemas. O ultrassom revelou que seus ovários eram mirrados, mal desenvolvidos e que seu útero era extremamente deformado. Tão deformado que jamais poderia abrigar uma gravidez.

Já amarga pela falta de atenção que a família e os homens lhe devotavam - quem iria querer dar carinho a uma filha que não daria netos? Que homem desejaria uma mulher tão desprovida de atrativos? - saber detalhes que não perguntara sobre sua desgraça só serviu para deixar Dona Norma ainda mais amarga. Amarga e isolada do mundo.

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Prova de que o ser humano se acostuma realmente com tudo, Seu Emílio foi o único a realmente sentir falta de Dona Norma, quando esta isolou-se dentro de casa.

Ele até que tentou falar com a vizinha, mas ela se recusava a atender quem quer que fosse.

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Bem que a mãe do Ary avisara: quando ele começasse a trabalhar, ele ia ver de tudo na vida. E no primeiro dia, ele já vira algo fantástico. Voltando com a kombi em que fazia as entregas do supermercado, ele não via a hora de encontrar os colegas.

Quando parou a kombi nos fundos do mercado, a ansiedade era tanta que ele quase esqueceu de fechar a porta da kombi.

- Vitão! Vitão! - Ary entrou esbaforido, quase atropelando o coitado do Vitor, que estava arrumando uma prateleira no setor de produtos de limpeza.

- O moleque, toma cuidado...

- Desculpa, Vitão, mas essa eu tinha que te contar. Sabe a velha esquisita, aquela que pede as coisas sempre no ultimo horário?

- A que se esconde pra gente não ver a cara dela? O quê é que tem?

- Bom, eu deixei a mercadoria dela na frente da porta, que nem você falou que ela ia mandar fazer. Só que na hora que eu fui até a porta pegar o dinheiro... Meu, não dá nem pra acreditar...

- Fala logo, moleque...

- Bom, ela se confundiu nas contas e me deu dinheiro a menos. Eu chiei e aí ela foi buscar o tanto que faltava. Só que nisso ela se descuidou e a porta abriu mais do que ela queria.

- E aí?

- Mano, maior estranho... A véia não mostra a cara mesmo porque ela é muito esquisita.

- Como esquisita?

- Bom, ela é muuuito véia, enrugada, baixinha e sem peito... E meu, se não fosse impossível pra uma véia daquela idade, eu ia jurar que ela tava grávida, porque ela é magrelinha mas tem um puta dum barrigão enorme...

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Dona Norma estava cada dia pior, cada dia mais confusa e desesperada. Fora praticamente estuprada por um cão na porta de sua casa... e agora, ainda virgem como sempre fora por toda sua vida, ela tinha certeza de que estava grávida!

Como se pede ajuda numa hora dessas? Como pedir socorro, como se conta um absurdo desses pra alguém? Ela já não conseguia mais conversar com ninguém depois do episódio do cão. Isolada em casa, depois de uma menstruação absurda que não se repetiu mais, vieram os enjôos, a barriga começou a crescer e os pesadelos ficaram cada vez mais intensos.

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Nos seus pesadelos, aquele cão maldito aparecia montado por um pequeno menino, de cabelos muito negros, tal qual o pêlo do cão. Multidões se reuniam para contemplar o menino e sua estranha montaria. Quando a dupla passava pelas multidões, o céu tomava cores que iam do vermelho terra ao cinza. Neste céu, lua e sol dividiam o firmamento no mesmo horário, e sangravam diante da passagem do menino e do cão. Então, multidões caiam mortas como moscas, mas nessa loucura sem fim, os mortos se convulsionavam e suas almas escorriam como líquido e se esvaiam para dentro das rachaduras do solo... e os mortos gritavam em agonia!

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Ao acordar naquele que seria o primeiro dia do sétimo mês de sua insólita gravidez, Dona Norma percebeu que havia mais alguma coisa errada.

Ela estava amarrada a cama e estava amordaçada. Um pedaço de bambu estava preso entre seus dentes e fora amarrado com forca a sua nuca, ela sentia agora o nó a incomodá-la. Seus braços estavam amarrados aos pés da cama. As pernas estavam atadas fortemente uma à outra e seus pés, presos a cabeceira da cama. Vista de cima, ela parecia ter sido crucificada de cabeça para baixo.

A sua volta, dois homens e duas mulheres a observavam atentamente, mantendo entre si o mais absoluto silêncio. Haviam trazido para o quarto as cadeiras da cozinha e nela estavam sentados.

A confusão mental com uma cena tão absurda foi interrompida pelas contrações que começavam dolorosamente.

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Seu Emílio ficou preocupado. Andando com a maior velocidade que seu joelho permitia, foi até a frente do portão da vizinha e confirmou: era de lá mesmo que vinha o mau cheiro. Sacou de seu celular e chamou a policia.

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O suicídio de Dona Norma causou grande burburinho no bairro. Muita gente comentou, mas ninguém quis admitir publicamente que tinha feito um vídeo do avanço do cão e publicado na internet. Ninguém quis admitir, para os outros e para si mesmos, que havia colaborado para aquela morte, ainda que indiretamente.

Enojado com aquela gente, Seu Emílio mudou-se do bairro. Depois disso, a história da Dona Norma caiu no mais completo esquecimento.

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O médico legista lamentava, mas as ordens haviam sido claras: tudo devia indicar que a morte da velha tinha sido suicídio. Então, se você abrisse a pasta do caso de Dona Norma, encontraria apenas as fotos dos profundos cortes nos pulsos, por onde o sangue todo do corpo escorrera. No relatório do legista, a causa da morte constava como profunda hemorragia causada por lacerações nos pulsos, auto infligidas pela vítima.

Já que não estava entre os que iriam ter a honra de cuidar do menino, tendo ainda lhe sido ordenado que jamais o procura-se em hipótese alguma, ele bem que gostaria de guardar uma lembrancinha de ter participado do nascimento de um ser assim tão glorioso. Mas não se atraveria a desobedecer: sabia que aquilo poderia lhe custar muito caro.

Com uma grande tristeza, ele agora jogava para dentro do incinerador as fotos que mostravam a imensa laceração causada ao abdômen de Dona Norma quando o pequeno ser abrira a dentadas o seu caminho para este mundo. Jogava também sacos plásticos, onde foram recolhidos os grandes tufos de pêlo de cachorro que se encontravam dentro da falecida e se espalharam pelo quarto no momento do nascimento.

Mas o que mais lhe entristecia jogar fora era o pequeno pedaço de tecido retirado da mucosa do útero de Dona Norma. O pequeno pedaço onde se via, com toda a clareza, agrupados formando um círculo, uma seqüência de três números seis.

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