Criatura Das Trevas

1 1 1 1 1 Rating 0.00 (0 Votes)


Para compartilhar nas redes sociais, clique aqui:

Ela desceu as escadas como sempre: com medo. Mas desta vez, seu medo havia mudado. Helena não sentia mais uma cisma de criança, influenciada pela avó, com medo da vizinha que praticava uma religião que ela não entendia. Ela ainda era criança, mas o medo era real. Era um medo diferente, mais intenso. Ela não sabia porque, mas parecia que estava sem proteção, indefesa. Era como se tivesse perdido seu anjo da guarda.

----xxxx----

Helena não gostava das visitas à casa da avó. Quando o avô era vivo, ela ia por causa dele. Seu Herculano sempre mimara a única neta mulher, adorava contar histórias dos tempos idos, sempre tinha doces e alguma lembrancinha para dar a neta quando esta ia visitá-lo. Quando ela começou a ficar mais velha, o avô passou a lhe ensinar dança de salão e juntos dançavam, dizia ele que estavam treinando para sua festa de 15 anos.

Pela avó, Dona Elvira, a neta já não nutria o mesmo afeto. Não que a avó fosse má ou tivesse feito alguma coisa em particular para desagradá-la. Mas a extrema religiosidade e a extrema ambição da velha senhora eram um teste de paciência tremendo para qualquer um. Quando não estava falando bem da igreja que frequentava – o que geralmente implicava falar mal de todas as outras – Dona Elvira estava falando dos bons tempos, quando Seu Herculano ainda era um industrial respeitável e de como ele tivera a capacidade de perder tudo. Agora estavam ali, jogados à míngua, morando num bairro horroroso, cercados de gente pobre e, coitados de quem fosse visitá-los, ainda teriam de passar em frente a porta da Velha Adoradora do Inimigo.

A dita Velha Adoradora do Inimigo era Dona Wilma, uma senhora de muita idade e mãe-de-santo. Era outra coisa que desgostava Helena em visitar os avós. Como moravam em uma pequena viela – "Um cortiço, um verdadeiro cortiço", dizia sempre Dona Elvira – quem tentasse chegar a casa dos avós de Helena tinha obrigatoriamente de descer uma longa escada de muitos degraus e passar em frente à casa de Dona Wilma. Como criava galinhas d'Angola no quintal, o cheiro do galinheiro sempre revoltava o estômago de Helena, sem falar no medo que ela sentia da Louca do Brejo, como às vezes Dona Elvira se referia à vizinha. Quando ia visitar os avós e a velha senhora estava reunida com seus filhos de santo, o som dos atabaques e o cheiro do defumador apavoravam Helena.

Ao avô, nada daquilo o incomodava. Ele sempre tentava ensinar a Helena o valor da tolerância, especialmente com tantos maus exemplos que sua esposa não se incomodava em fornecer. E, depois de tanto tempo ainda casado com Dona Elvira, aturando seu mau gênio – que nunca fora bom, nem nos tempos em que ela fora uma das vedetes mais bonitas do teatro de revista de São Paulo e Seu Herculano, encantado com a beleza daquela mulher, tolerava não apenas seu mau gênio, mas também sua ignorância – adorava dar palpites, geralmente estúpidos, sobre assuntos que não entendia. Aturava silenciosamente sua necessidade de gastar – ele nunca lhe negara nada, e foi isso o que os levara a perder tudo. A mulher gastara sua fortuna toda, o culpava pela pobreza em que viviam agora em seus últimos anos, mas ele tolerava tudo em silêncio pelo amor que sentia por ela.

As fotos antigas da avó mostravam o quanto ela fora bonita em sua época. Espalhadas pela pequena casa, ou guardadas em álbuns luxuosos, mostravam uma mulher bela, da qual só sobraram os imensos olhos verdes, ainda brilhantes. No mais, o tempo passara para Dona Elvira como passara para todo o resto da Humanidade.

Helena tinha certeza de que Dona Elvira só permanecera junto a seu avô por pura falta de opção. A falência do avô acontecera com o casal já às portas da terceira idade. Se tivesse ocorrido quando a beleza da avó ainda estivesse num mínimo aceitável, ela teria dado um jeito de se arrumar com um daqueles homens, todos donos de grandes fortunas, que formavam o círculo de amizades do casal na época de riqueza. Não se importaria se fosse para ser esposa ou amante de um deles, afinal a avó só começara sua cruzada pela moral e bons costumes depois que ela mesma não tinha mais atrativos para desviar os homens do bom caminho. E seu mundo, que antes ia da mansão da família para as festas mais badaladas de sua época, agora se resumia entre cuidar da pequena casa e frequentar a igreja a que se convertera nos últimos anos.

Helena jamais admitiria, ninguém jamais admite uma coisa dessas, mas no fundo ela sabia que a implicância sua com Dona Wilma – e com mais certeza ainda a implicância nutrida e demonstrada pela avó – tinham um grande fundo de racismo. Helena, assim como a avó, tinha uma pele muito branca, olhos de um verde profundo e um cabelo ruivo de vermelho vivo, coisa rara num país de negros e mulatos. Tinha muito orgulho disso, só não percebia que do outro lado deste orgulho se revelava uma ponta de desprezo pelos que não eram como ela.

A mãe de Helena, Dona Luísa, tinha um espírito mais parecido com o de Seu Herculano. Tanto que, ainda na época mais abastada da família, tinha rompido com a mãe, porque desejara se casar com um homem de classe social mais baixa que a da família. Dona Elvira, quando de seus ataques de mau humor, não perdia uma oportunidade de alfinetar a filha: se a desmiolada não tivesse se casado com aquele pobre, teria condições de cuidar dos pais, agora velhos e necessitados. Desnecessário dizer que, depois da morte de seu Herculano, Dona Luísa só continuava visitando a mãe por pura obrigação.

Sobre Dona Wilma, ninguém da família sabia muita coisa e fazia questão de não saber. Já bastavam o fedor das galinhas, do defumador, o barulho incômodo dos atabaques, rituais de macumba amedrontando a pequena Helena.

A morte do avô se deveu a uma fatalidade. Distraído, Seu Herculano errara na dose e tomara o mesmo remédio duas vezes. A dose excessiva do medicamento foi fatal.

Com a morte de Seu Herculano, Dona Elvira afundou-se ainda mais nas obras da igreja e, a pedido do pastor, passara a cuidar de um bebê que ficara órfão. Foi na visita para conhecer o tal garoto que, pela primeira vez, Helena ficou frente a frente com Dona Wilma.

Naquele dia, Helena estava no pequeno quintal nos fundos da casa da avó, tomando conta do pequeno Rafael. Era um menino muito bonito, Helena até dissera para avó que esta devia colocá-lo para ser modelo mirim. Tinha um cabelo de uma cor negra, muito escura, muito macio e brilhante. Helena estava adorando a idéia de a avó cuidar de Rafael. Quem sabe assim ela não ficava um pouco mais tolerável?

Em um momento em que se sentiu desagradado, Rafael atirou longe o chocalho com que Helena tentava entretê-lo. Com uma força incomum para um bebê de sua idade, o chocalho foi parar longe, do outro lado do muro.

- Ai, Rafael! Mas logo no quintal da Louca do Brejo? Que saco!

Ela precisava fazer alguma coisa. Se a avó desse falta do tal chocalho, ia dar um dos seus pitis habituais.

Helena subiu em um caixote e olhou por cima do muro, tentando localizar o chocalho. "Como esse menino é forte!", pensava consigo mesma, enquanto vasculhava o quintal da vizinha em busca do brinquedo. Havia muitas plantas, que atrapalhavam sua busca. Será que ia ter de pular o muro e entrar naquele quintal, onde tantos rituais de macumba já haviam sido celebrados? "Urgh!" – pensou Helena – "tenho medo só de pensar..."

- Acho que isto aqui é o que você está procurando, não é, minha filha?

O susto quase derrubou Helena do caixote. Saindo detrás de uma frondosa e comprida samambaia, que a havia ocultado das vistas da menina, Dona Wilma trazia em suas mãos o chocalho e nos lábios um suave sorriso.

- Desculpe, minha menina, eu não queria assustá-la. Tome aqui, esse brinquedinho é seu, não é?

- Meu, não! Não sou bebê prá brincar com uma coisa dessas! Não sou nem mais criança! Tenho dez anos, já sou teen! – e Helena empinou-se toda, empertigada em sua auto-afirmação.

O sorriso de Dona Wilma só fez ampliar-se.

- Puxa, que bom que me contou tudo isso. Agora que conversou comigo e conheço você melhor, nunca mais vou dizer que você é uma criança. Já sei que você é teen.

Helena ficou nas nuvens. Difícil um adulto concordar com ela daquele jeito. Mas acabou tendo uma surpresa inesperada:

- Agora que você conversou comigo e também já me conhece melhor, pode ver que não sou louca e que também não venho de nenhum brejo. Agradeceria se não falasse mais essas inverdades a meu respeito. Tenha uma boa tarde, mocinha!

Virando-se em seus calcanhares, a velhinha dirigiu-se para o interior de sua casa, deixando para trás uma Helena bestificada, paralisada sobre o caixote, segurando um chocalho com ar extremamente abobalhado.

----xxxx----

Helena era uma menina inteligente. Apesar de num primeiro momento ter ficado fula da vida com o passa fora que tomara de Dona Wilma, reconheceu que a errada da história era ela. Embarcara nos preconceitos da avó e passara o maior carão.

Na verdade, a velhinha se mostrava admirável. Esculhambara com ela sem perder a classe, falando com doçura e inteligência. Fora muito mais doído daquele jeito. Helena também ficara surpresa com o bom português da mulher. Achou que ela só tratasse os outros por "mizifio" e "mizifia", como as escravas que via nos filmes e nas novelas de época, mas a mulher falava com uma elegância e fluência que lembravam muito seu falecido avô. Sabia até o que era "teen"!

Sentiu uma imensa curiosidade para saber mais sobre aquela mulher.

----xxxx----

Dona Elvira começara a tomar conta de Rafael no final daquele mês de julho. Agosto chegou e com ele, a volta às aulas. Os professores pareciam pensar que, já que voltavam descansados das férias, era hora de cansar os alunos de novo. Atulhada de lição de casa até o pescoço, Helena nem sequer teve tempo de pensar na vizinha de sua avó.

Já Dona Luíza começou uma espécie de jornada dobrada, tentando ajudar a mãe a cuidar de seu "irmãozinho". Deixava Helena na escola de manhã cedo e ia para a casa da mãe. Na volta, no fim da tarde, voltava para buscar Helena e cuidar da casa.

Nos finais de semana, o pastor mandava alguém da igreja ajudar Dona Elvira com o menino, que crescia cada vez mais, estava lindo, carinhoso e inteligente.

Nesse período que ficou sem ver a avó, Helena um dia escutou um trecho de uma conversa entre a mãe e o pai.

- E então, Luíza, como está seu "irmãozinho caçula"?

- Ah, Jaime, ele está maravilhoso. É tão risonho, tão inteligente. Dá gosto ver um garotinho tão lindo! Só que está pegando a mania da mamãe de ficar medindo os outros de alto a baixo. Isso é muito feio!

- Tá brincando!

- Não, é verdade. Mamãe e eu fomos ao mercado ontem e levamos o Rafael com a gente. Passamos por um mendigo no meio do caminho e lógico que mamãe olhou o pobre infeliz com o maior desprezo. Mas minha surpresa foi ver o Rafinha fazer a mesma coisa... Dei a maior bronca na mamãe! Pensa, tão pequenininho e fazendo uma coisa feia dessas!

- É, a velha já está sendo uma má influência para a criança.

- Mas sabe, Jaime, para ela esse menino está sendo uma benção. Em toda minha vida, eu nunca vi mamãe passar mais de cinco minutos sem reclamar de alguma coisa. Nestes últimos dias, ela está sempre sorrindo, sempre cheia de cuidados com o Rafa. Acredita que ela está até cantando?

- Então é melhor chamar a polícia, porque alguém deve ter sequestrado sua mãe e colocado uma impostora no lugar... pensando bem, não chama, não. Melhor deixar a velha onde está. Coitados dos sequestradores!

- Jaime! Já falei pra não falar assim da minha mãe... por mais que ela mereça!

- Tudo bem, meu amor, tudo bem. Desculpe. Não pude resistir.

- Sabe, o menino está fazendo tanto bem para ela que parece até que ela... – Dona Luíza interrompeu sua fala e balançou a cabeça, como se afastando um pensamento ruim.

- Fala, amor, o que tem a sua mãe?

- Ela parece cada dia mais jovem.

- Ora, isso é bom, não é? Sinal de felicidade.

- Não é isso, Jaime. Eu sei que vou parecer uma louca falando isso, mas não é de jovem de espírito. Ela parece mais jovem... fisicamente!

- Tem razão...

- O quê??

- Tem razão. Você disse que ia parecer uma louca falando isso e pareceu mesmo...rs.

- Ah, Jaime!
----xxxx----

O grande cão negro cruzou as ruas desertas naquele 31 de outubro sem fazer alarde. A grande maioria da população viajara para curtir o feriado prolongado. As poucas pessoas que encontrou perdidas pelas ruas naquela hora mal repararam nele, apesar de seu enorme tamanho e seu ar ameaçador.

Quando chegou aquele bairro da periferia, fez uma pausa antes de descer a longa ladeira que o separava de seu objetivo. Farejava o ar continuamente e o cheiro não lhe dava margem para dúvidas: estava perto agora, bem perto.

Desceu a ladeira mantendo um ar imponente, altivo. Como se fosse um rei passando em revista seus súditos, aguardando deles a devida reverência. Mas ao chegar ao fim da ladeira, quando estava atravessando a rua, foi repentinamente obrigado a parar.

Um ar de espanto tomou conta de seu semblante. Começou a farejar o ar com força, chegando a fazer um barulho forte com sua respiração. Aos poucos, foi sendo tomado por uma raiva incontrolável. Primeiro, começou rosnando, cada vez mais alto, até que começou a latir e a pular, como se fosse atacar um ser invisível à sua frente. Insistiu nisso até ficar cansado. Podia agora ouvir os moradores dentro das casas, reclamando de seu barulho.

Resignado, virou as costas e voltou a se misturar à escuridão da noite.

----xxxx----

Um pouco menos atarefada naquela semana, Helena se ofereceu para ajudar Dona Luísa a tomar conta do pequeno Rafael naquele domingo. Dona Luísa aceitou de bom grado. Como era Dia de Finados, a mãe queria levar a avó ao cemitério para visitar o túmulo de Seu Herculano. Seria bom se alguém pudesse ficar com o Rafinha enquanto isso. Helena, apesar da pouca idade, era muito responsável. A mãe sabia que podia confiar nela.

Pouco depois da mãe e da avó terem saído, Rafinha estava dormindo no berço e Helena foi até a porta de casa, ver se encontrava Dona Wilma. Encontrou-a descendo as escadas com razoável dificuldade e correu até ela para oferecer ajuda.

- Oh, my little teen friend! (Oh, minha pequena amiguinha adolescente!)

Helena não conseguiu esconder o espanto:

- Nossa, a senhora fala até Inglês!

Apoiando-se na mão que Helena lhe oferecia, Dona Wilma terminou de descer as escadas.

- Estudei muito, minha filha. Estudei muito quando era mocinha. Meu sonho era ser professora, mas os orixás tinham outro caminho pra mim.

- Ah, tá, que se eu quisesse alguma coisa ia ter orixá pra me mandar fazer outra!

Dona Wilma apenas riu da descortesia de Helena. Gostava cada vez mais daquela criança. Apesar de bocuda, podia sentir que havia bondade no coração da menina. E ela também fora espontânea daquele jeito, quando criança.

- Não, querida. Ninguém me fez desistir de nada. Não fui forçada a nada, embora também tenha pensado isso no começo. Na verdade, me ajudaram muito. Me ajudaram a encontrar minha verdadeira vocação. Ajudo menos pessoas hoje do que se fosse dar aula, mas ajudo de uma forma muito mais profunda. E sou muito mais feliz assim.

- Ah, então tá bom! O que é esse pacotão no bolso do seu vestido ?

- Sal grosso.

- Vai fazer churrasco?

Dona Wilma deu risada.

-Não, meu anjo. É pra proteger do mal.

- A gente tem sempre que andar com isso?

- Não, querida. Eu só espalhei um pouquinho em volta do quarteirão, enquanto fazia minha caminhada de todas as manhãs. Assim ficamos todos protegidos.

- Tem alguém querendo nos fazer mal?

Por um instante, o rosto de Dona Wilma assumiu um ar preocupado, mas ela logo voltou a sorrir.

- Não, não. Precaução, apenas precaução.

----xxxx----

Eram mais de duas horas da madrugada quando Arlindo acordou para ir ao banheiro. Levantou-se sem acender a luz, para não acordar a mulher. Pensava também se dava ou não descarga, para não acordá-la. Dona Aurora ficava uma fera quando alguém interrompia seu sono.

Fez seu xixi e baixou vagarosamente a tampa do vaso. Não deu descarga. Melhor uma pequena porquice do que uma briga com a mulher naquele horário. Lavou as mãos e, distraído, olhou pela janela do banheiro. Deu de cara com uma cena insólita.

Era aquela chata da Dona Elvira. Mas por que a mulher resolvera varrer a rua àquela hora da madrugada?

----xxxx----

Eram três horas da madrugada. A chamada Hora Negra, em oposição às três da tarde, hora da morte de Jesus Cristo. A hora em que os espíritos malignos se espalham pelo mundo.

Desta vez, o cão não parou enquanto atravessava a rua. Desceu as escadas que levavam a viela de baixo e parou por um momento em frente ao portão da casa de Dona Wilma. Olhou, farejou o ar, depois seguiu em frente, até o portão de Dona Elvira. Com um salto espetacular, deixou para trás o portão. Caiu sobre as quatro patas sem fazer sequer um ruído. Apoiando-se nas patas traseiras, empurrou a maçaneta da porta de entrada para baixo. A porta abriu-se lentamente.

Sem se importar com a escuridão, o cão dirigiu-se até o quarto de Rafael. Mais uma vez, levantou-se nas patas traseiras, apoiando as dianteiras na lateral do berço. Por alguns instantes, ficou parado, como que observando o menino, que acordou suavemente.

Ao invés de chorar, o menino abriu-se num enorme sorriso de alegria ao ver o cão. Sem nenhuma intervenção visível, a lateral do berço abriu-se e, com uma desenvoltura absolutamente incompatível para sua idade, Rafael montou às costas do cão.

Juntos, o menino e o cão foram até a cozinha. A um olhar de Rafael, todos os botões do fogão giraram. O gás do botijão começou a espalhar-se pela casa.

----xxxx----

Dona Elvira acordou ao sentir o forte cheiro de gás. Amaldiçoou-se mil vezes. Não poderia ter dormido, não naquela noite.

Dirigiu-se o mais rápido que pode até a cozinha, para ver a causa daquele cheiro de gás. Deu de cara com o menino, montado sobre o cachorro.

Dona Elvira caiu de joelhos.

- Não, espere! Por favor! Eu te servi bem, tomei conta do menino como se fosse meu.

Recebeu como resposta apenas um silencio sepulcral.

Dona Elvira sentia-se tonta por causa do gás. Caída ao chão, ia aos poucos perdendo a consciência. Aquele era seu pagamento pelos serviços prestados: estava realmente rejuvenescendo e voltando a ser bela. Mas o acordo não dizia por quanto tempo este encantamento deveria durar. Nem que ela voltaria realmente a ter todo o esplendor de sua beleza. Nem que deveria terminar viva. E muito menos que sua alma seria bem recebida no Inferno.

O cão passou por cima de Dona Elvira e devolveu Rafael ao berço. Olharam-se nos olhos, como que se despedindo. O cão então saiu correndo. Ao passar pela porta de entrada, esta fechou-se atrás dele, sem fazer barulho.

Sentado em seu berço, Rafael apresentava-se impassível. Seu rostinho estava completamente desprovido de emoções. Levantando uma das mãos, fez mais uma proeza impossível para alguém de sua idade: estalou os dedos. E uma faísca surgiu...

----xxxx----

Dona Wilma despertou do pesadelo que a atormentava e o cheiro de gás comprovou seu temor: aquilo era real. Haviam furado seu bloqueio. Agora era tarde demais.

Elevou seus pensamentos em oração e entregou sua alma aos seus orixás. Lembrou-se com carinho de Helena e de Edmilson, um menino que ela havia treinado para ser seu substituto no trato das coisas espirituais. Pediu que eles tivessem forças, porque iriam passar por grandes provações.

Sentia-se pronta, partia feliz. Ajudara a muitos durante sua vida, o que mais alguém poderia querer, mais do que terminar a vida sabendo que ela teve sentido e significado.

Mais uma vez, seu simpático sorriso brotou em seus lábios.

E veio o enorme clarão.

----xxxx----

Ela desceu as escadas como sempre: com medo. Mas desta vez, seu medo havia mudado. Helena não sentia mais uma cisma de criança, influenciada pela avó, com medo da vizinha que praticava uma religião que ela não entendia. Ela ainda era criança, mas o medo era real. Era um medo diferente, mais intenso. Ela não sabia porque, mas parecia que estava sem proteção, indefesa. Era como se tivesse perdido seu anjo da guarda.

Chegou até o limite dos escombros das casas destruídas na explosão. Era um milagre que Rafael houvesse sobrevivido daquela forma, completamente ileso. O bombeiro que o resgatou foi fotografado, saindo dos escombros do que antes eram quatro pequenas casas, aos prantos. A foto se espalhara nos noticiários e um casal muito rico, muito influente e poderoso se interessara por adotar Rafael. Dona Luíza explicara a Helena que a avó tinha apenas a guarda provisória do menino, o que significava que o casal podia, sim, querer ficar com o pequeno Rafa. E, pensando bem, ele teria um futuro muito melhor com eles. Donos de um grande império financeiro, a nova família de Rafael tinha redes de televisão, rádio, jornais. Seu Jaime falara que o homem também era muito poderoso no ramo do direito, tinha um escritório de advocacia muito famoso. Diziam que às vezes o Presidente da República se aconselhava com ele. Quem sabe o Rafinha não virava presidente quando crescesse?

Helena não tinha certeza de nada, só aquele medo inexplicável que não passava. Sentia falta da avó, sentia falta de Dona Wilma, por quem começara a sentir tanto carinho, já estava sentindo falta de Rafael.

Voltou-se para subir as escadas. Os pais a esperavam lá em cima, no carro. Insensível a tudo, a vida continuava.

----FIM----



Para compartilhar nas redes sociais, clique aqui:

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar

© Contos de Terror - Letras de Sangue | Design by: LernVid.com