Rafael E O Necromante

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Pode-se causar o mal por vários motivos.

Podemos fazê-lo por ignorância ou imprudência, podemos fazê-lo porque nossa fraqueza sucumbe ao nosso vicio e, nestes casos, o mal acontecera sem que seja realmente de nossa vontade.

Mas o verdadeiro Mal, o com letra maiúscula, necessita de plena consciência e vontade.

Todos os envolvidos nesta historia tinham perfeita consciência de seus atos e desejaram praticá-los.

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Se alguém olhasse pela janela - e ele sabia que sua mãe fazia isso constantemente - diria que era apenas um jovem muito religioso fazendo suas orações.

Rafael depositou o pesado livro sobre sua escrivaninha e o abriu, aparentemente de maneira aleatória.

Inclinando-se, deixou que sua testa tocasse as paginas. Sorriu. Aquilo sempre o fazia sentir-se forte. Não bastava saber-se poderoso: era necessário sentir o poder!

Era como ser o mágico e olhar do alto do palco para a plateia - Eu sei! Vocês não sabem!

Haviam riscos, claro! Ninguém conquista nada sem correr riscos. E quando seu inimigo é onipotente, onipresente e onisciente, os riscos tem de ser milimetricamente calculados. Mas os ganhos são infinitos, por isso existem aqueles que aceitam arriscar tanto.

Então, sem mais demora, pronunciou um encantamento numa língua que estava morta a séculos.

E os eventos daquela noite começaram.

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Não gostava daquelas missões esporádicas, mas sabia que a manutenção de seus privilégios - e de sua própria alma imortal - dependiam de cumpri-las com total eficiência.

Assim, quando fora contatado, sabia que não podia dizer não, especialmente sabendo quem era aquele que o convocara para aquela missão.

Quando as luzes começaram a piscar, ele soube que era hora de agir.

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A clínica utilizava-se de uma velha estratégia: para se esconder, estava exposta bem à vista de todos.

Aparentemente, apenas mais uma clínica de cirurgia plástica, modalidade amplamente dominada por cirurgiões brasileiros. O que ninguém sabia era com que objetivos estas plásticas eram realizadas.

Para os médicos e enfermeiros, ele era apenas o paciente 016/10, que havia se submetido à uma reconstrução completa da face, apesar de não ter motivos de saúde ou estéticos que justificassem sua cirurgia.

Para todos os que foram enganados por ele, era Pastor Manoel, um pilantra que infiltrara-se numa igreja evangélica e, abusando da confiança de muitos fiéis, fizera uma fortuna.

Para o Mal, ele era uma espécie de Tommaso Buscetta (1): sabia demais e estava disposto a negociar sua salvação em troca deste conhecimento.

Assim, para se livrar dos que o perseguiam neste mundo, estava mudando de face. Para se livrar dos que o perseguiriam no outro mundo, aprendera algo especial, uma palavra numa língua que não se pronunciava na terra desde o episódio dos filhos de Niphelim (2): a língua dos anjos. E a palavra que ele aprendera: Santuário.

Ao morrer, sua alma pronunciaria continuamente a palavra, o que traria anjos ao seu encontro. Então ele poderia negociar, pois sabia onde o filho do Cão estava escondido neste plano.

Um plano perfeito. Manoel estava apenas se recuperando da cirurgia. Logo iria morar no Caribe e depois, num lugar melhor ainda: passar o resto da eternidade no Paraíso.

Inconsciente da anestesia, não percebeu que as luzes começaram a piscar.

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Ele não precisava conhecer o lugar, tampouco precisava de planos elaborados - ele tinha uma ajuda especial para que tudo desse certo. Tudo que precisava era seguir em frente. E assim o fez.

O portão que deveria estar trancado abriu-se assim que ele o empurrou. Confusos pela falta de luz, nem os funcionários nem os seguranças da clínica perceberam a entrada daquele homem tão elegante, que carregava uma sacola plástica em uma das mãos.

As luzes de emergência haviam falhado vergonhosamente, mas ele caminhava pelos corredores escuros como se os conhecesse por toda a vida.

Nem parou em frente ao quarto, já foi empurrando a porta, sabia que era aquele mesmo. Mas, assim que entrou, as luzes se acenderam novamente. Agora, o cronômetro havia sido acionado para ele.

Puxou um objeto estranho da sacola plástica que trazia consigo: uma chapinha de alisar cabelo.

Ligou o aparelho à tomada e este aqueceu-se rapidamente. Aproveitando-se que Manoel estava mesmo anestesiado, puxou sua língua para fora e a prendeu entre as chapas de cerâmica.

O cheiro da carne queimada tomou conta do quarto.

Soltando a língua queimada da chapinha, o estranho pegou um estilete do bolso, cortou o freio da língua de Manoel e a empurrou para dentro da garganta do infeliz inconsciente.

Pousando o indicador direito sobre a boca de Manoel, ordenou em seu estranho sotaque:

- Eu zou o Necrromante. Eu roubo tua luz e te ordeno que zi cale parra todo o semprre!

Não houve resposta do corpo anestesiado.

Guardou tudo que trouxera na sacola e escondeu-se atrás da porta: se alguém entrasse, poderia atirar pelas costas. Obviamente estava armado, mas não podia simplesmente dar um tiro em Manoel. Era necessário que sua morte fosse natural. Enquanto esperava, olhava apreensivo para o monitor cardíaco. Os minutos passavam lentamente. Até que as linhas na tela do monitor cardíaco deixaram de subir e descer e passaram a um traço contínuo; os bips ritmados foram substituídos por um bip longo e contínuo.

As luzes se apagaram de novo. Ele estava livre para ir embora.

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Assim que seu cérebro privado de ar entrou em colapso, a alma de Manoel viu-se livre. E ele soube imediatamente que algo estava errado. Tentou com todas as suas forças gritar "Santuário!" na língua dos anjos, mas nenhum som brotou de seu corpo astral.

Debatia-se em pânico, pois sabia que seu tempo estava esgotado. E, de fato, em poucos segundos sentiu uma força enorme sugando-o para baixo, para um lugar onde haveria choro e ranger de dentes.

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Quando tomou consciência do destino de Manoel, Rafael finalmente se mexeu. Levantou-se da sua posição de oração, fechou o livro e o devolveu ao seu esconderijo.

Feliz, desceu para jantar com os pais. Havia uma ameaça a menos em seu caminho. Agora só faltava cuidar de Helena, sua irmã de criação, que seguia sua vida sem saber que o destino dos Céus e da Terra repousavam em suas mãos.

Mas isto ficaria para uma outra ocasião.

----FIM----

Notas do Autor

(1) Tommaso Buscetta foi um mafioso italiano que denunciou seus colegas e deu origem a uma das maiores derrotas sofridas pela Máfia italiana. Mais detalhes em http://pt.wikipedia.org/wiki/Tommaso_buscetta

(2) Episódio bíblico descrito no livro do Gênese que conta sobre filhos gerados do encontro entre anjos e humanos. Mais detalhes em http://pt.wikipedia.org/wiki/Nefilim



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