De Profundis

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De profundis clamavi ad te, Domine!
(Das profundezas, eu clamo a Ti, Senhor!)
Salmo 130

Inglaterra Pré Anglicana
Mosteiro de Santa Clara

Irmã Agatha era sobretudo uma mulher pragmática. Sob suas mãos de ferro, o mal não se atrevera a entrar em seu convento, até aquele momento. Apesar do isolamento da clausura, Irmã Agatha ouvira muitas histórias sobre outros conventos na Europa que haviam se tornado – Deus nos livre e guarde – verdadeiros prostíbulos para padres, bispos e até mesmo cardeais.

Ela olhava para o cadáver da jovem noviça, que jazia sobre a fria pedra, coberta por apenas um lençol; a seus pés, o pequeno volume de um filho que não deveria existir, que morrera com a mãe durante o parto, sem que houvesse tempo para o batismo.

"Pobre alma não nascida!" - pensou Irmã Agatha - "Agora está relegada ao limbo. Que a infinita misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Virgem Maria olhem por ela."

Irmã Agatha era uma mulher que não fugia jamais à realidade, mas a cena à sua frente desafiava seu equilíbrio emocional. Sentia-se como se estivesse olhando para um altar profanado, como se alguém houvesse entornado o balde de dejetos de seu quarto sobre um altar de igreja...

- Jesus Cristo! - exclamou, torcendo a cara em asco diante do pensamento que se infiltrara em sua mente. O demônio devia estar mesmo por perto, para que ela pensasse uma coisa suja daquelas.

O demônio! Isso a lembrava: era quase a hora de o amigo do Bispo Darius chegar. O estranho amigo sem nome do Bispo Darius. Aquilo não era nada bom. Mais um homem onde homem algum deveria ter entrado. Olhou novamente para o corpo inerte à sua frente: olhe só o estrago que o último havia causado...

E ela não gostava nada do Bispo Darius: era ao mesmo tempo um tolo e um fraco, um homem que convidaria o Diabo para entrar em casa, e que só subira na hierarquia da Igreja porque sua poderosa família assim o desejara e financiara.

Mas ele também era seu superior e se ele achava que o tal estranho devia ser admitido no interior da casa das noivas de Deus, então ela era obrigada a acatar aquilo.

E ela também queria saber como um homem passara por sua rígida vigilância e corrompera justamente a mais virtuosa de suas irmãs de ordem. Se o tal homem cujo nome deveria permanecer em segredo podia desvendar esse mistério, então ela toleraria sua presença.

Por ora.

*****

A carruagem com o estranho amigo do Bispo Darius chegou quando já era quase meia-noite.

Cansada, Irmã Agatha estava num humor ainda pior do que o habitual. Dirigiu-se aos pátio nos fundos do convento com extremo desagrado.

O homem que desceu da carruagem era bem vestido e parecia ser um homem de posses e bom gosto; sua idade deveria rondar os cinquenta e poucos anos e, embora seu cabelo fosse grisalho, parecia forte e disposto. Apesar das tantas horas de viagem, não demonstrava sinais de cansaço.

Mas a boa aparência do homem não lhe garantiu nenhuma simpatia por parte de Irmã Agatha. Seu estranho sotaque ao desejar boa noite só fez deixá-la ainda mais aborrecida. "Um estrangeiro, além de tudo!" Irmã Agatha se perguntava quando Deus voltaria novamente sua face para aquele convento porque, naquele momento, Ele parecia tê-las abandonado.

E, como para reforçar a sensação de abandono, mais um homem desceu da carruagem. Seu rosto estava parcialmente oculto pelo se capuz de suas vestes largas, não permitindo também deduzir nada sobre seu físico em geral.

Porém, percebendo que Irmã Agatha estava prestes a protestar quanto a presença de mais um homem em seu convento, o homem apressou-se a baixar o capuz e se identificar.

- Bispo Darius! - exclamou a freira, mostrando toda sua surpresa. O senhor não disse que viria...

- Irmã Agatha, é necessário que ninguém saiba de minha presença aqui esta noite. E meu amigo deve iniciar sua parte nesta história o mais breve possível. Leve-nos até a Irmã Mary Hellen, sem mais demoras.

Iluminada pelos archotes, a escada que levava ao porão do convento parecia ainda mais lúgubre.

Lá embaixo, o estranho não teve o menor pudor em remover o lençol que cobria os dois corpos. Irmã Agatha fez menção de protestar, mas o Bispo Darius fez um gesto para que se mantivesse quieta. E perguntou ao estranho, com indisfarçável ansiedade:

- E então, chegamos a tempo?

- Zim, mas nom temes mais nim um minute a perrderr.

Acenando com a mão, o bispo fez sinal para que Irmã Agatha se aproximasse mais.

- Por favor, Irmã, aproxime-se. Sua participação será vital neste momento.

- Qualquer coisa para que seu amigo descubra quem causou toda esta desgraça! Como posso ajudar?

- Sua participação será simples, apenas... morra!

Irmã Agatha foi pega completamente de surpresa. Sequer viu a faca que o Bispo Darius cravou em seu ventre, apenas sentiu a dor do ferimento tomar conta de seu ser e, com ela, a tenebrosa verdade que se descortinava à sua frente.

- Foi... você!

- Agatha, faça um favor ao mundo e morra em silêncio, bruxa velha...

Rapidamente, os dois homens colocaram a freira agonizante sobre a mesa, ao lado do corpo de Irmã Mary Hellen.

- Você... trouxe a desgraça... para nós... Darius... maldito!

E, com dificuldade, olhou para cima e recitou:

- Das profundezas... clamo a Ti... Senhor...

Olhando com impaciência para seu parceiro, o Bispo Darius perguntou:

- Não podemos ir mais rápido? Adoraria ver esta bruxa se calar de uma vez por todas...

O estranho sem nome apenas retirou de seu alforje uma taça dourada e, sacando de suas vestes uma faca de lâmina curta, mas extremamente afiada, cortou a garganta de Irmã Agatha e começou a recolher seu sangue na taça.

Cantando em uma língua que o Bispo Darius foi incapaz de identificar, o estranho sem nome aspergia o sangue de Irmã Agatha sobre os corpos de Irmã Mary Hellen e do bebê.

E o milagre negro do necromante se realizou mais uma vez: Irmã Mary Hellen e seu filho estavam novamente entre os vivos!

Os dois homens não perderam tempo e logo a mulher e a criança estavam vestidas e dentro da carruagem, que partiu sem demora em direção ao porto mais próximo, onde um navio de passageiros aguardava para levá-los ao continente.

Dada a rotina de isolamento entre as freiras e seu desconhecimento dos acontecimentos e da existência daquele porão, levaria dias até que o corpo de Irmã Agatha fosse encontrado.

Dentro da carruagem, o Bispo Darius abraçava uma apática Mary Hellen, que segurava em seus braços um bebê que mal dava sinais de vida.

- Necromante, o que acontece com eles? - Darius estava preocupado.

- Acalmeze, acabarram di voltarr do morrte, ainda estam se recuperrande. E vam prezizarr de mais zang... O da velha frerra foi poco e ela erra muito velha.

- Quer dizer que ainda precisarei dos seus préstimos?

- Nom, ela saberrá o que fazerr.

Darius deixou-se acalmar por aquelas palavras. O amor de uma mãe sempre saberia o que fazer, era claro! Assim que chegassem ao continente, ele já tinha tudo planejado: sua parte na fortuna da família já estava com ele. Mary Hellen e o filho teriam muito conforto e ele estaria livre da vida clerical que jamais desejara.

Ao chegarem ao porto, o necromante recebeu seu pagamento e seguiu seu rumo, enquanto um feliz Darius, agora ex-bispo, embarcava rumo ao continente e sua nova vida.

*****

Quando o capitão do Splendour não obteve respostas em todas as suas tentativas de se comunicar com o navio que aparentava estar à deriva, ordenou que um grupo de seus homens que o abordassem para tentar descobrir o que havia acontecido.

Seus homens não tardaram a retornar com o único sobrevivente, que afirmava que a esposa e o filho haviam voltado dos mortos e que ela matara toda a tripulação para, com o seu sangue, manter a si e ao seu filho vivos. Por fim, quando todos dentro do navio estavam mortos, ela se voltou contra ele, que não tivera outra saída a não ser matar a esposa e o filho cortando suas cabeças, pois nenhum outro ferimento que lhes houvesse sido infligido surtira qualquer efeito.

Dados os sinais claros de bruxaria, foi decisão do capitão que o homem fosse levado de volta e amarrado ao mastro principal do navio; e que fosse ateado fogo a tudo, para que nenhum dos participantes daquela história abominável voltassem a caminhar entre os homens tementes a Deus.

Enquanto o Splendour se afastava do navio em chamas, toda a tripulação pode ouvir os gritos do condenado:

- Das profundezas eu clamo a Ti, Senhor!

"Tarde demais!" - pensou consigo mesmo o capitão.

FIM



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