O Necromante

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Eleutério só teve tempo de se jogar atrás do sofá. A poeira e os pedaços de tijolos que a rajada do AK-45 arrancaram da parede caíram sobre ele, dificultando sua respiração. Havia caído por cima das suas muletas, e isso doera muito.

Ele não sabia se eram traficantes, milicianos ou a polícia. Fosse quem fosse, ele sabia que ia ser torturado e morto. Talvez fosse melhor ter sido atingido por um tiro logo de cara, mas o instinto foi mais rápido, por isso ele se jogou. Mas sabia que ia ser inútil.

Comprovando que seu habitual pessimismo acertara de novo, sentiu quando uma mão forte agarrou seus cabelos e o levantou do chão. Franzino do jeito que ele era, o sujeito nem precisava ser muito forte pra fazer aquela proeza.

A partir dali, sabia que o diabo estava rindo dele em algum lugar. E acertou em cheio a pergunta que abriria para ele os portões do inferno:

_ Aí, fila da puta, cadê a porra do dinheiro?

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Aquilo já começou errado quando arrancaram o capuz da cabeça do gringo.

Normalmente, o sujeito faz aquela cara de quem tá se borrando de medo, olha confuso pra todo lado. Alguns tentam não olhar, pedem pra pôr o capuz de volta, pra não ver a cara de ninguém e tentar negociar para serem devolvidos à família com vida.

Pois bem: o gringo estava impassível. O capuz sequer lhe bagunçara o cabelo. Continuava na mesma elegância: havia sido apanhado na entrada do restaurante, onde iria participar de um jantar de negócios.

Seu terno impecável contrastava com a miséria do barraco. O gringo olhou a sua volta botando toda a banca, olhando todo mundo de alto a baixo com indisfarçado desprezo. Parecia que era ele quem estava sequestrando todos ali.

- Senhorres, eu acrredito que non tenham noçam da besterra que estam fazende...

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Eleutério tinha um irmão. O nome de batismo dele era Elenílson, mas todo mundo só o conhecia como Nilsinho Porco. Ele era burro o suficiente para achar que o apelido vinha do fato de ser palmeirense, mas na verdade todo mundo sabia que era por causa que ele sempre fazia serviço "porco" e que só chegara aonde chegara porque tinha o irmão mais novo, que sempre fizera o trabalho cerebral. Assim, Nilsinho Porco podia se concentrar na parte da força, que era a língua que ele dominava e que todo mundo entendia.

Nilsinho se dera bem porque, mal começara na vida do crime, teve a sorte de estar no lugar certo na hora certa. Quando a polícia prendeu o Homem, ele estava por perto para salvar o dia. Mal tiveram tempo de comemorar a captura, porque Nilsinho chegou mandando bala.

Ganhou a confiança do sujeito e subiu alto. Apoiado na inteligência do irmão, era o dono do morro onde moravam e tomava conta de tudo para o Homem.

Eleutério, ou Leléu, como todo mundo o chamava, odiava o ambiente onde vivia. Odiava aquela pobreza; odiava o pai que abandonara a ele, o irmão e a mãe; odiava a mãe, uma bêbada inútil que não lhe dera as vacinas devidas porque estava ocupada demais se afundando na cachaça; odiava a poliomielite, que lhe roubara a mobilidade das pernas. E, sobretudo, odiava o irmão mais velho, que enfiara os dois naquela vida de crime.

A grande merda começou quando Nilsinho ficara responsável por guardar o dinheiro que ia ser usado em uma grande compra de armas que o Homem estava negociando com traficantes paraguaios. Sabendo que aquele monte de dinheiro ia chamar atenção, encarregou o irmão de esconder a grana. E o irmão morreu logo depois de esconder o dinheiro da operação.

Escondeu tão bem que ninguém foi capaz de encontrar. Muito menos Nilsinho Porco.

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A única hora que a cara do gringo mudou um pouco de expressão foi quando viu o corpo de Leléu em cima de uma mesa. Mas o cara não se assustou com o defunto, não. Ao contrário, explodiu de rir, como se tivesse ouvido a melhor piada de sua vida:

- Eu non posso crrêr como vozês sam burrros...Ah, ah, ah... burrros, non tem idêa da merrrda que estam fazende...ah, ah, ah.

Nilsinho rapidamente esbofeteou a cara do gringo.

- Escuta aqui, gringo de merda, tô aqui pra tu curtir ca minha cara, não. Eu preciso de informação e tu vai me dá o que eu preciso.

O gringo olhou para Nilsinho Porco com uma expressão de desprezo tão profunda que ele se lembrou do olhar da mãe, quando ele mijava na cama.

- Deixa eu advinharrr, o informaçon que vozê quêr está com aquel cadáver, azerrtei?

- É isso aí, gringo de merda. Eu virei metade da cidade pra te achar, porque me bateram que cê manja de tirá informação de defunto. E esse aí sabe onde tá uma coisa que eu preciso...

Se borrando de medo do que sabia que o Homem ia fazer com ele se o dinheiro não aparecesse, Nilsinho Porco escavou o morro todo. Quando teve certeza de que não ia achar nada daquele jeito, apelou para o lado espiritual. Foi a todos os terreiros de macumba, a todos os centros espíritas e todo e qualquer um que pudesse fazer contato com Leléu. Nada deu certo. Mas, em sua procura, ficara sabendo da existência daquele gringo.

- Vôzê cherra a medo...

- Medo o caralho, filho da puta! Medo é o que cê já devia tá sentindo se num tivesse merda na cabeça! Porque daqui a pouco tu vai tá se borrando com as coisinhas que eu preparei pr'ocê.

- Acrredit, vozê non sabe o que é medo. Mas non se prreocupe. Ele vai te dar o que vozê pediu.

Normalmente, Nilsinho iria torturar muito primeiro e voltar a perguntar depois. Sabia que muita gente finge cooperar no começo, pra tentar evitar a tortura. E, como era experiente no ofício, sabia que informação dada nessa hora não valia nada. Mas o cara tinha razão: ele estava com tanto medo do Homem que devia estar até fácil de sentir o cheiro. Decidiu dar uma chance ao gringo.

- E aí, o que é que tu precisa pra fazer o defunto falar?

- Um marrtel, uma faca grrande que nunca tenha zido usada e um prrego, também bem grrande.

Dez minutos depois, o gringo estava sendo solto e recebendo os seus apetrechos.

- Olha lá, fila da puta, tem trêis AK apontado pra tu, hein? Banca o esperto e tu vai pros quintos...

O gringo sequer se deu ao trabalho de responder. Pegou o martelo e pregou o imenso prego em uma das paredes do barraco. Voltando-se para o cadáver de Leléu sobre a mesa, apanhou a faca e cortou-lhe o pescoço com um único golpe, executado com tanta perícia que causou medo mas também admiração nos traficantes.

Ignorando tudo a sua volta, o gringo continuou com o ritual. Encostando sua testa a testa de Leléu, segurando a cabeça pelas orelhas, o gringo recitava:

- Eu zou o Necromante...Eu zou o que trrilha o camin entrre a luz e a trreva... eu roubo tua luz e te orrdeno que volte!

A seguir, o gringo deu um longo beijo na boca daquela cabeça, quase matando de nojo os traficantes que olhavam tudo, sem entender bem o que viam. Em seguida, cravou com violência a cabeça decepada no prego que fixara na parede.

Abrindo a boca de Leléu, cortou-lhe o freio da língua, que se desenrolou, enorme, para fora da boca.

- Eu zou o Necromant... e eu te ordeno que fale!

Leléu abriu os olhos como se estivesse acordando com uma grande ressaca. Por alguns segundos, ele olhou em volta, sem se dar bem conta do que acontecia. E quando entendeu, soltou um grito que gelou a alma dos homens do tráfico.

- Nílsooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooonnnnnnnnnnn!

Os comparsas, nessa altura, já haviam saído correndo. Nilsinho Porco que desse fim naquela aberração que ele tinha começado. Ele caiu de joelhos, em frente a cabeça do irmão.

- Leléu, porra, desculpa... eu... Leléu... eu .... merda... Leléu, cadê o dinheiro do Homem, Leléu?

A face de Leléu se contorceu numa horrível careta de ódio.

- Maldito imbecil! Burro! Burro! Burro! Fila da puta miserável... Tu me trouxe de volta da morte pra salvar o teu rabo, né? Tem idéia da merda que tu fez, imbecil?

- Mas Leléu, se eu não tiver com o dinheiro da transação, tu sabe que o Homem me mata...

- Imbecil! Você nunca aprende nada, né? Ninguém mais trabalha com dinheiro vivo, idiota! Já te disse mil vezes! Eu fiz o procedimento... eu lavei o dinheiro, tava esperando chegar a carga e o número da conta do depósito. O Homem nunca ficou sem o dinheiro dele. Tá tudo no banco, imbecil! Mesmo que o negócio não dê certo, ele pega tudo de volta. Mas você não falou com ele porque tava com medo, né?

- Leléu, eu... eu... eu...

Sem saber o que dizer, Nilsinho Porco percebeu que fizera o serviço mais porco de toda sua vida. Confuso, olhou a sua volta e percebeu que os comparsas não estavam mais lá. Nem o tal gringo.

Mas não percebeu que o corpo do irmão se levantara da mesa. Não percebeu até ser tarde demais, quando sentiu que as mãos do falecido se fechavam em torno de seu pescoço com uma força descomunal.

- Leléu, não...

- Seu filho da puta! Você não tem idéia do que isso vai nos custar, tem?

Nilsinho não podia falar. Esganado pelas mãos do corpo sem vida de seu irmão, escutou a última explicação que ouviria dele neste mundo:

- Isso vai nos custar as nossas almas!

----FIM----



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