E Havia Trevas Sobre A Face Do Abismo

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Fora na volta do Carnaval.

Eduardo, de três anos, estava no banco de trás e finalmente dormira um pouco, dando a Dona Estela, sua avó, a oportunidade de sair do carro um minuto e esticar as pernas.

Estavam num restaurante de beira de estrada e Dona Estela aguardava Laura, sua filha, voltar do banheiro.

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O efeito do "rebite" passou e o caminhoneiro dormiu sobre o volante.

Atravessou a pista, atingiu dois carros e veio de frente contra um carro que estava parado no estacionamento de um restaurante a beira da estrada. O carro onde Eduardo dormia.

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Laura engoliu o quarto comprimido com desanimo. Nenhum comprimido iria trazer Eduardo de volta e ela odiava todos aqueles remédios, todas aquelas horas de terapia... Alguém acreditava que uma mãe poderia, em sã consciência, se recuperar de um desastre daqueles?

Eles podiam dopá-la quanto quisesse. Podiam falar o que quisessem. Nada que fizessem poderia curar a dor, o vazio, a angústia.

E, para piorar, havia agravantes: naquele momento fatídico, Laura havia descido do carro porque acabara de perder o controle: cansada por dirigir tantas horas, estressada pelo transito que não andava, irritada pelo choro de Eduardo, virou-se e deu um tapa no rosto do garoto.

Ato reflexo, Dona Estela dera um tapa na cara da filha, que freou bruscamente, quase baténdo no carro da frente.

Foi quando ela parou o carro no posto, desceu chorando e foi correndo para o banheiro. Não parou mais de chorar, desde então...

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Bruno era o namorado de Laura e muitos, especialmente os subordinados dela na agência de propaganda, se admiravam de como um cara tão gente boa como ele conseguia namorar uma criatura tão casca grossa como Laura.

Mas Bruno conseguia administrar o gênio ruim da namorada até que com certa facilidade. Pelo menos até a morte de Eduardo, conseguia.

Quando Eduardo era vivo, Bruno costumava brincar que o menino era gêmeo do rei, porque Laura tinha "o Rei na barriga".

Laura era terrível. Se havia uma coisa que ela não aceitava era um não. E não media consequências quando se sentia contrariada.

Talvez fosse até difícil para os outros acreditarem, mas Bruno acreditava que, quando não estava se debatendo pelo gênio ruim, Laura era do bem. Todos - incluindo a mãe, Dona Estela - já pensavam que a verdade era que o amor era cego...

Mas, depois da morte do filho, Laura andava cada vez mais contrariada. Como disse Bruno para Dona Estela:

- Estou preocupado, sogrinha... Tenho uma péssima impressão sobre o estado da Laura...
- E o que tanto te preocupa, meu filho?
- Eu sei que vai parecer piada, mas não é...
- Fala logo, Bruno!
- Acho que Laura pediu a Deus para ter o Dudu de volta. E Deus disse não para ela. E a senhora sabe como ela fica quando ouve um não, de quem quer que seja...

Dona Estela conhecia a filha. E sabia que, infelizmente, Bruno podia muito bem estar certo.

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Ela começou com videntes. Foi para benzedeiras, passou por terreiros de umbanda, centros espíritas, por todos os lugares onde um ser vivente pudesse ter uma mínima chance de fazer contato com alguém que se foi. Em todos os lugares, a mesma resposta:

- Dona Laura, seu filho, apesar de toda a tragédia, partiu em paz. Deixe que o pequeno descanse, continue com sua vida...

Essa resposta, Laura sempre interpretava como a insistência de Deus em lhe dizer "não".

E, na opinião de Laura, Deus fez um péssimo negócio ao lhe dizer não...

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Quem procura, acha. E Laura achou.

Tinha sido idéia do Bruno, ir à uma missa católica, procurar um pouco de conforto. No banco duro da igreja, no meio daquele senta-e-levanta da missa, Laura não se sentia nem um pouco confortável.

Na segunda leitura, um trecho do Levítico, Laura já estava de saco cheio de tudo aquilo. E a leitura não apenas não lhe trazia paz, como parecia lhe apontar na cara que tudo que andara fazendo ultimamente não passava de um imenso sacrilégio:

- "Quando, pois, algum homem ou mulher em si tiver um espírito de necromancia ou espírito de adivinhação, certamente morrerá; serão apedrejados; o seu sangue será sobre eles." – continuava a moça que lia no altar.

Laura queria dar um basta naquilo:

- Bruno, chega! Eu não agüento mais isso. Está tudo muito chato, estou me sentindo péssima e esse pessoal ainda fica falando coisas que eu não entendo...

- O que você não entendeu?

- Adivinhação eu conheço, mas o que é essa tal necromancia que a mulher falou agora pouco?

- Necromancia, Laura, é a magia dos mortos. Adivinhar as coisas invocando os mortos. Entendeu?

Laura não fez que sim, nem que não. Mas Bruno não gostou nada do olhar da namorada...

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Meses de pesquisa e finalmente, ela estava frente a frente com alguém que todos lhe reportavam como sendo legítimo. Ao contrário do que sempre imaginara, o homem à sua frente não se parecia nada com um daqueles mágicos de circo, ou daqueles magos de filme de fantasia. Era um homem no início de seus cinquenta anos, sacudido, um coroa enxuto, como Laura sabia que a mãe iria defini-lo, se o visse.

O terno bem talhado, as unhas bem cuidadas, um vocabulário culto, com um forte sotaque que ela não conseguia dizer de onde era, mas que soava muito charmoso. Não era nada do que tinha em mente quando ouviu a palavra necromancia pela primeira vez.

O homem, que insistia que seu nome não deveria ser revelado em hipótese alguma, insistiu de novo na mesma pergunta:

- Dona Laurra, a senhorra entend todos os riscos que esta operraçon envolv? Uma vez que comece, eu não poderrei mais parrar. E, se falharrmos, ficou clarro qual o prreço a ser pago? No mínimo, irremos parra a cadeia; no máximo, o inferrno nos esperra. Querr mesmo tentarr?

- O senhor não me conhece. Tudo que eu começo, levo às últimas consequências.

- Fiat voluntas tua...

- O que o senhor disse?

- Latim, Dona Laurra... Sej feita a vossa vontad.

- Sim, claro, claro...

- Prróxima sexta, enton? Neste mesmo enderreço...

- Estamos combinados!

E Laura entregou ao homem um grosso envelope repleto de dinheiro.

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Quando Laura se foi, o homem sorria para si mesmo. A mesma ladainha de sempre. A mesmíssima burrice em estado-da-arte. Ele teria se entediado, se não fosse tão divertido ver como eles marchavam para o abismo com um sorriso no rosto.

Amor não comunicado, amor não correspondido, culpa, necessidade de saber um segredo, incapacidade de lidar com a perda, tantos motivos, tantas desculpas... E sempre o mesmo trágico final! A Humanidade mereceria o prêmio Nobel da burrice, se existisse um.

Olhou novamente para o envelope, para as notas dentro dele. Não precisava daquilo, mas era bom ter dinheiro. Quanto os tolos não pagavam por um guia que os orientasse na estrada da perdição...

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Bruno, no começo, achou que talvez Laura o estivesse traindo, porque ela andava toda furtiva. O ciúme foi o estopim de ele começar a questioná-la. Quando, obviamente, ela se recusou a responder às suas perguntas, com aquele delicado jeitinho de dizer que se ele não estava satisfeito, que procurasse outra, ele fez o que todo cara bonzinho com baixa auto-estima faz: ao invés de resolver a própria vida, foi vasculhar a vida da amada.

Revirou Orkut, e-mail, celular... Como Laura não se dava muito bem com coisas tecnológicas, não sabia apagar seus rastros no mundo digital. Bastou uma pequena espiada no computador e no celular da namorada e Bruno descobriu o que ela estava tramando.

Estupefato, fez uma coisa que não fazia desde que deixara o exército, com patente de tenente: foi buscar a velha pistola automática que guardava em um armário na sala de bagunças que o pai tinha no fundo da garagem.

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O sonho de Laura tinha sido claro, muito claro. Mais claro, impossível.

Um sorridente Eduardo corria em direção à ela, a abraçava e beijava. Ria, sorria e festejava, dizendo:

- Fique bem, mamãe! Eu estou feliz, fique boazinha por mim, tá?

Laura acordou suando frio. O sonho, que talvez a devesse fazer feliz, a deixava mais agoniada.

- Desculpe, bebê. Mas não é mais por você. Agora é por mim...

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Naquela sexta-feira, Laura voltou ao apartamento que o tal homem misterioso definira como seu ateliê de trabalho. Sozinha, trazia na bolsa outro grosso envelope cheio de dinheiro.

Ao entrar, reparou num forte cheiro de cânfora que preenchia a sala. Sob este, um cheiro estranho, mais fraco, mas ainda presente. Um cheiro ao mesmo tempo desconhecido e ameaçador.

Ao lado do homem, outros dois sujeitos, mas estes não compartilhavam da mesma elegância que ele. Estavam suados, sujos de barro. Mas pareciam estranhamente felizes. Percebeu que o espaço entre seus lábios superiores e seus narizes estavam besuntados de uma substância oleosa, que ela deduziu ser cânfora, pelo cheiro do ambiente.

- Dona Laurra, que imensa satisfaçon! Temia que desistiss. – o estranho cheiro ambiente não parecia incomodar o gringo.

- Desistir não faz parte do meu dicionário! – Laura teve de fazer um certo esforço para não ser traída pelo cheiro que empesteava o ambiente.

- Ótimo, ótimo! Trouze a zegunda parrte do meu pagamento?

Laura retirou o envelope da bolsa e entregou ao elegante cavalheiro, que não se deu ao trabalho de verificar seu conteúdo.

- Ótimo, ótimo! Tudo como combinado. Está prronta?

Laura queria soltar um "nasci pronta", como sempre vira nos filmes. Mas estava muito nauseada, só conseguiu balançar a cabeça, concordando.

- Ótimo, ótimo! – Parecia que o homem não sabia dizer outra coisa – Vamos comezar!

E, virando-se para a mesa no centro da sala, coberta por um desses encerados que se usam para cobrir as cargas dos caminhões, ele começou um estranho canto, do qual ela não entendia nada. Ele persistia naquela cantilena estranha, enquanto os dois homens observavam com um sorriso sarcástico.

Mas o ambiente começou a ficar cada vez mais pesado, como se uma mão invisível começasse a apertar o pescoço de Laura e fosse aos poucos aumentando mais e mais a pressão. Os dois desconhecidos já não mantinham mais o sorriso sarcástico, parecendo perceber que algo maior do que eles estavam sendo libertado naquela sala. E algo que eles não iriam gostar...

De repente, aquela sensação sufocante começou a sugar as forças dos dois estranhos, que começaram a se desfazer, numa velocidade violenta, que não lhes permitiu sequer gritar. A pele foi como que arrancada dos músculos; os músculos, arrancados dos ossos; e os ossos se desfizeram em pó, que um estranho vento, vindo do nada, se apressou em juntar num torvelinho, e arrastar até a mesa no centro da sala, escondendo tudo sob o encerado, até o último grão.

Foi então que o homem parou com seu estranho cântico.

- Está prronta, Dona Laurra?

Laura estava incapaz de falar.

- Vou tomarr zeu zilêncio como um "zim"!

E o homem puxou a lona de caminhão para o chão.

Quando Laura viu o que a lona escondia, sentiu sua sanidade ser arrancada de si como se fosse sugada por um buraco negro...

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Do lado de fora do apartamento, Bruno esperava por uma deixa para entrar.

Sua deixa veio na forma de um grito de pavor que gelou sua alma: era Laura!

Chutou a porta, que não cedeu. Atirou contra a fechadura e correu para dentro, ignorando todas as regras que aprendera no exército sobre como se proteger numa hora daquelas. Mas nada do que aprendeu poderia protegê-lo da visão que o esperava no interior do apartamento.

Caminhando em direção a uma apavorada e ensandecida Laura, o cadáver decomposto de uma criança de três anos chorava:

- Não, mamãe, não, mamãe, não, mamãe...

Bruno atirou. E atirou. E atirou de novo. Descarregou todo um pente naquela coisa. Destroçou a cabeça daquele estranho corpo, que caiu ao chão, novamente morto.

Caída ao chão, em posição fetal, Laura descobria que havia coisas muito piores do que ter de engolir um não...

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Bruno disse à polícia que havia atirado no tal sujeito que enganara Laura e roubara o corpo de seu filho do túmulo. Atirara várias vezes, mas não conseguira acertá-lo. Não sabia como, mas o sujeito sumira, com todas as economias que Laura juntara durante a vida. Como não havia pistas sobre o paradeiro do tal estrangeiro, logo o caso caiu no esquecimento.

No seu quarto, no manicômio, Laura carregava agora sobre seus ombros um peso ainda pior que aquele que sentia depois da morte do filho: a dúvida de que se, tolamente, não havia colocado a alma de um inocente a perder.

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