O Homem É O Lobo Do Homem

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Os juramentos costumam ter um grande problema. Da mesma forma que trazem a honra dos que com ele se comprometem, mais cedo ou mais tarde trazem para si também a sombra dos perjuros, dos malditos para quem a palavra é dada apenas para ser quebrada.

 

A situação política nunca fora tão reversa aos Cavaleiros Templários como naquela época. Poucas semanas antes, uma bula papal excomungara os outrora poderosos cavaleiros e os transformara em párias, que deveriam ser localizados e exterminados por todos os cristãos e homens de bem daquela época.

 

Não fora diferente naquela pequena localidade do sul da França. Escondidos em uma caverna cuja localização só era conhecida pelos membros da ordem, os quinze sobreviventes aguardavam a chegada de um barco que os levaria ao norte da África, onde se esconderiam entre os mouros para que pudessem continuar guardando os segredos que juraram proteger.

 

De todos os cavaleiros ali escondidos, Jean Pierre de Grenouille era o mais angustiado. Os demais creditavam isso ao fato de ser o mais novo, não apenas em idade, mas também o que havia se tornado Templário há menos tempo.

 

Ainda que fosse o mais jovem, conquistara a confiança dos Cavaleiros Templários por não medir esforços para praticar o bem. Além da suas boas obras, Jean Pierre tinha o hábito de se exilar da companhia dos homens, todos os meses. Alegava que nestes dias praticava o jejum e a penitência pelos seus muitos pecados cometidos.

 

- Acalma-te, irmão! A vida de um Templário serve a segurança do segredo, não à segurança de si mesmo. De certa forma, tens um privilégio: tua fé é posta à prova logo em tua chegada à nossa Ordem!

 

- Irmão Sebastian, o que me aflige não é a minha segurança, mas o bem que não poderei fazer para expiar os muitos pecados que mancham minha alma.

 

- O anonimato ocultará tua identidade dos homens, mas todo bem que fizeres não ficará oculto dos olhos de Nosso Senhor.

 

Mas o debate não pode seguir adiante; luzes de tochas iluminaram fartamente a escura caverna, revelando os cavaleiros escondidos e a voz forte do capitão da guarda local ecoou por todos os cantos:

 

- Alto, hereges! Pelo poder investido a mim por Sua Santidade, o Papa, estais todos presos!

 

- Pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo! - a cólera de Sebastian, líder local dos Templários, fervia em sua voz - Como foi possível que nos encontrassem?

 

Não precisou esperar muito pela resposta. Com os bravos cavaleiros cercados pela guarda, um homem sentiu-se plenamente seguro para tomar à frente.

 

O ódio substituiu a surpresa no olhar dos Cavaleiros.

 

- Belasco! Tu nos traiste! Por quê?

 

Belasco apenas sorriu em escárnio.

 

- Quando estiverem apodrecendo no inferno, perguntem à Judas porque traiu Jesus. De meus motivos, basta saberem que o homem é o lobo do homem.

 

A uma ordem do capitão da guarda, os quinze valentes cavaleiros foram amarrados e levados ao quartel general, onde foram barbaramente torturados e mortos. Seus cadáveres foram jogados de volta na caverna secreta, como que zombando da segurança que acreditavam ter nela. Ninguém nunca mais entrou lá. Se tivesse entrado, teria percebido que apenas quatorze corpos continuaram lá em seu repouso eterno.

 

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Entre outras regalias, Belasco ganhara terras fartas, sobre as quais reinava de forma tirânica. E as últimas notícias vindas de seus pastos haviam custado a vida do pastor que as trouxera.

 

- Estou cercado de tolos! Estou cercado de incompetentes! Na lua cheia passada, foram-se todas as minhas cabras devoradas pelos lobos. E agora meus bois premiados! Um senhor de terras não precisa de inimigos para sua desgraça! Basta estar cercado de servos imbecis como vós!

 

Os pastores mantinham suas cabeças baixas, não ousando levantar a voz. O corpo do pastor que noticiara a morte dos bois premiados ainda estava acorrentado no centro do salão de banquetes, onde fora chicoteado até a morte.

 

- Vão, malditos incompetentes! E vocês também, que se dizem guardas de minha propriedade! Cacem a maldita matilha que está destruindo minha riqueza.

 

Se tivesse disposto a ouvir seus servos, Belasco teria sido informado que os rastros não indicavam a presença de uma matilha, mas de apenas um lobo. Mas aqueles que traem a palavra não confiam na palavra, por isso não a escutam.

 

Os ciclos lunares se sucediam e a cada um que se encerrava, mais se aprofundavam os dissabores nas terras de Belasco. Mas, quando os corpo dos homens de sua guarda de honra foram encontrados destroçados nos seus alojamentos, a coragem do tirano tomou o rumo de outras terras.

 

A cena era dantesca: guerreiros bem armados e bem treinados jaziam sobre o solo e as camas de seus alojamentos. Haviam lutado, sim. Eram evidentes os sinais de luta. Mas o exército que invadira a casa da guarda - e só podia ser um exército, Belasco pensava consigo mesmo - havia sido impiedoso e desonrado. Desonrado, pois guerreiros de honra não mutilariam daquela forma os corpos de seus oponentes derrotados.

 

Temeroso por sua vida, o traidor resolveu dormir naquela noite em uma sala secreta, destinada à sua proteção caso o castelo fosse invadido. Mas, ainda que protegido pelo segredo da localização daqueles aposentos, acordou de madrugada, atormentado por pesadelos.

 

A visão que se descortinou quando abriu os olhos foi pior do que os pesadelos que atormentaram seu sono. Havia uma espada apontada para seu pescoço e quem a empunhava só podia ser um fantasma: o fantasma de Jean Pierre de Grenouille!

 

- Mas com todos os diabos...

 

- Não serão necessários todos, Belasco. Temos aqui nós dois, será mais do que suficiente!

 

- Como sobreviveste? Subornaste alguém para que te poupasse? Mas como, se vi teu corpo entre sendo arremessado ao fundo da caverna, junto com o dos outros?

 

- Sempre disse aos meus irmãos Templários que tinha enormes males para expiar. Nunca exagerei sobre este fato. O mal que me aflige me dá poderes para atravessar até os negros mares da morte.

 

- Mas tu és apenas um homem!

 

- Não, Belasco! Errado de novo! Dissestes que o homem é o lobo do homem, mas nada sabes de homens, porque tu não passas de um verme que rasteja na terra, a agourar os homens de verdade!

 

Através de uma fresta feita para permitir a entrada do ar, a luz da lua cheia aproveitava para também entrar no aposento. Agarrando Belasco pelas vestes, Jean Pierre arrastou-o até que ambos fossem iluminados pelo luar. E ali, sob a luz da lua, olhando para um apavorado traidor, declarou:

 

- Esta noite, Belasco, eu te provarei que também não sabes nada sobre lobos!

 

E a transformação começou...

 

 

----FIM----

 

 



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Comentários   

0 # João Nicolas 26-06-2017 04:21
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