Um Lobisomem Francês Em Londres

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Fora muito azar. Graças à sua necessidade de estar sempre se mudando, Jean Pierre de Grenouille sabia que mais cedo ou mais tarde iria parar na Inglaterra. E isso não podia ter acontecido em época pior.

 

Londres estava muito ocupada caçando seus próprios monstros, mas isso não ajudava em nada. Apenas fazia com que um francês indesejado perambulando por suas ruas se tornasse ainda mais indesejado. Pior ainda se estivesse nas ruas sujas e escuras de Whitechapel, palco dos monstruosos crimes do auto intitulado Jack, o Estripador.

 

Era a quarta vez aquela semana que a polícia o interpelava para um longo, entediante e ofensivo interrogatório. Se não fosse a proximidade da chegada da lua cheia, Jean Pierre já teria deixado Londres. Mas, quando se é um lobisomem, viajar requer muitos preparativos complicados e ele não teria tempo para fazê-los. O jeito era se conformar com o aborrecimento e se preparar para a longa semana seguinte, que passaria escondido no armazém que alugara ali, no pior bairro de Londres. Preços baixos e poucas perguntas fizeram o lugar parecer ótimo. Mas os crimes do Estripador haviam invertido completamente a situação, chamando atenção até da nobreza para um bairro que todos preferiam evitar.

 

Sua única preocupação era sofrer uma nova detenção para averiguação na semana da lua cheia. Apesar de não gostar dos ingleses, não teria nenhum prazer em deixar sua besta interior devorá-los.

 

Como todo morador de Londres, Jean Pierre também se perguntava quem estava cometendo aqueles crimes hediondos. Ele sabia que também era um assassino, mas de uma forma completamente involuntária. Não conseguia entender como alguém poderia matar assim, de uma forma metódica, cruel e proposital.

 

Imerso em seus soturnos pensamentos, chocou-se com mais uma das muitas prostitutas que faziam do bairro seu ponto de trabalho. Pega de surpresa com aquela trombada, a mulher caiu sentada sobre a calçada, provocando risadas em um grupo de vagabundos, que estavam reunidos em frente a um dos nojentos pubs onde a ralé se dirigia para beber.

 

Instintivamente, Jean Pierre estendeu a mão para ajudá-la.

 

- Pardon moi. Não tive intenção...

 

A mão foi repelida com um tapa.

 

- Olha por onde anda, filho da puta!

 

Jean Pierre ficou abismado. Não pela grosseria da resposta, absolutamente normal naquela região. Nem tampouco pela inusitada beleza revelada pela mulher, ainda mais incrível se levarmos em consideração que as prostitutas de Whitechapel não eram exatamente famosas por sua formosura.

 

Jean Pierre ficou fascinado porque voltava a ver uma face que lhe fora tão conhecida e tão amada.

 

- O que foi, idiota? Você é algum tipo de retardado mental? - a bela face continuava se esmerando em cuspir impropérios - Se não quiser dar uma trepada, desapareça daqui! Quinn! Quinn! Cadê você, besta inútil? Faça alguma coisa!

 

- Essa bicha francesa está incomodando você, querida? - perguntou Quinn, um verdadeiro troglossauro, saindo do pub. Os vagabundos que se divertiam com os impropérios da prostituta e a cara de idiota do francês, agora explodiam em gritos e comemorações: teriam uma briga para se divertir.

 

Jean Pierre continuava estático, como se tivesse visto um fantasma. E teria sido violentamente atingido pelo soco inglês do troglossauro se não fosse o instinto de preservação do lobisomem. Desviou a cabeça no ultimo instante e, num ato reflexo, agarrou-lhe a mão e torceu com violência, quebrando seu pulso.

 

O urro de dor trouxe Jean Pierre de volta a realidade, o que foi muito bom, pois os colegas do troglossauro vinham em sua direção para vingá-lo.

 

Sem hesitar, Jean Pierre agarrou a mão da prostituta e a puxou consigo.

 

- Venha!

- Mas nem fodendo! Eu... -  Não pôde terminar a frase. Jean Pierre a arrastou consigo com grande força.

- Para! Vou cair...

 

Sem sequer olhar para trás, como se fossem um par de dançarinos com muitas horas de ensaio, Jean Pierre fez com que a mulher rodopiasse e viesse parar em seu colo. Tudo isso sem parar de correr. Com a mulher nos braços, desapareceu entre as vielas sujas de Whitechapel.

 

Impressionados com a velocidade do francês e com a habilidade com que ele desparecera, carregando uma mulher nos braços, a turba começou a gritaria: só podia ser o Estripador! Só um amaldiçoado como ele poderia fazer aquilo.

 

Esquecido no chão, Quinn continuava urrando de dor. Mas ninguém mais estava preocupado com isso.

 

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Assim como a multidão que haviam deixado para trás, a prostituta também acreditava que o homem que a carregava com tanta facilidade e tamanha velocidade só podia ser Jack, o Estripador. Golpeava-o com toda força e nada acontecia.

 

- Me larga! Me larga, estripador maldito!

 

Mas Jean Pierre não parou até que estivessem seguros dentro do armazém que alugara para se esconder durante o período da lua cheia.

 

Depositou-a sobre algumas caixas cobertas de poeira. A mulher estava lívida e continuava a agredí-lo.

 

- Socorro! Estripador! Carniceiro!

 

Jean Pierre tampou-lhe a boca.

 

- Não sou o estripador e tampouco pretendo fazer-lhe mal. Vou soltá-la mas, por favor, não grite, cherie.

 

Ela acenou que sim com a cabeça e Jean Pierre afrouxou sua mão.

 

- Se você não é o Estripador, quem é você? E o que quer comigo? - Perguntas simples. Pena que as respostas também não o fossem.

 

- Digamos apenas que você parece muito com alguém que eu conheço e não vejo mais há muito, muito tempo.

 

- E como foi que você fez estas coisas tão fantásticas?

 

- Do que esta falando?

 

- Por exemplo, como conseguiu quebrar a mão do Quinn? Ele tem o dobro do seu tamanho.

 

- Olha, eu... Eu sinto muito por toda essa confusão e pela mão do seu amigo...

 

O olhar desolado de Jean Pierre mexeu com a moça.

 

- E quem era essa moça que eu te lembro? Devia ser alguém muito especial para você...

 

Jean Pierre preferiu ficar em silêncio. Aliás, precisava descobrir o que iria fazer agora. "Merde! - pensou irritado - Como se as coisas já não estivessem difíceis o suficiente..."

 

- Eu posso ir embora? Já que você não vai me matar e nem vai falar comigo, acho que não tem problema, não é?

 

Jean Pierre sentiu-se culpado. E, honestamente, não sabia o que fazer.

 

- Não sei. Honestamente, não sei.

 

Marie, percebendo que o sujeito a sua frente não lhe oferecia perigo, acabou sentindo pena dele.

 

- Bom, já que você não é Jack, qual é o seu nome? - o tom de inocência que embalava a pergunta era comovente.

 

- Jean Pierre de Grenouille, às suas ordens!

 

Desacostumada com aquelas gentilezas, ela riu, bateu palmas e respondeu fazendo uma mesura exagerada:

 

- Muito prazer, messieur! Sou Marie Jeanette, uma sua criada!

 

Ao erguer novamente a cabeça, ela viu que Jean Pierre novamentea olhava da mesma forma patética.

 

- Ne peuvent pas! (Não é possível!) O mesmo nome!

 

Marie Jeanette não entendeu nada.

 

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Ele cozinhava para relaxar; concentrar-se na frigideira à sua frente fazia com que recuperasse um pouco da paz interior perdida desde sua iluminação.

 

Passar o dia olhando para sua extensa coleção de instrumentos cirúrgicos só fazia piorar o crescente sentimento de ansiedade que o invadia. Embora sua face não transparecesse, sua alma estava inquieta. Desde que começara, cada dia se tornava mais urgente, mais necessário, mais desesperador calar aquela ansiedade avassaladora que o dominava. Só encontrava paz quando via nos olhos da vagabunda a expressão de surpresa com o rumo inesperado dos acontecimentos.

 

Queria demais matar naquela noite. Como não podia, decidira cozinhar.

 

Haviam compromissos inadiáveis, responsabilidades a cumprir, para manter uma aparência de civilidade .

 

Civilidade. Ai estava um conceito que o desafiava. Não acreditava nele, mas não podia negar que a insistência dos que se apegavam a um conceito tão estúpido fazia com que sua missão ganhasse um sabor todo especial.

 

Ao pensar em sabor, voltou novamente sua atenção ao seu desafio culinário daquele momento.

 

Afinal de contas, um rim humano fica melhor bem ou mal passado?

 

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Apesar de terem começado com o pé esquerdo, Jean Pierre e Marie Jeanette estavam se entendendo maravilhosamente.

 

Ela estava chateada com a insistência dele de não falar sobre a tal mulher com quem ela se parecia tanto, mas ser tratada como uma verdadeira dama por um cavalheiro tão bem apessoado como Jean Pierre era um prazer delicioso, que ela não podia perder. Tivera tão poucos prazeres em toda a sua vida. E todos sempre ligados à França.

 

Fora um cliente especial, um afeminado que pagara as custas de uma semana de estadia na França, com a condição que Marie fingisse ser sua esposa e dissesse que haviam se casado às pressas em Londres porque ela havia engravidado.

 

O afeminado cuidou de todos os detalhes, tudo correu perfeitamente e todos ficaram felizes: Marie pode se fartar com a viagem, a família acreditou que seu primogênito havia perpetuado o nome da família e o sujeito pode fingir, depois de voltarem para Londres,que a esposa havia morrido no parto, deixando-lhe um filhinho e um amor tão grande que ele jurara não voltar jamais a se casar.

 

Na verdade, ele adotou como seu o filho de uma das colegas de profissão de Marie. E passou a criá-lo na casa que dividia com seu amante, um belo rapaz italiano que amou ser "mãe" de um bebezinho tão lindo.

 

Mentiras, mentiras, mentiras. Eram tantas na vida de Marie. Ela nem se chamava Marie realmente. Seu nome real era Mary Jane Kelly, ela se tornara Marie Jeanette depois da viagem a França. Mas seus velhos conhecidos das ruas de Whitechapel ainda a chamavam de Ginger.

 

Quando não eram as mentiras, eram os segredos. E um em particular a atormentava: deveria contar a Jean Pierre que estava marcada para morrer porque trombara com o Estripador?

 

Como já vira a capacidade que Jean Pierre tinha de se defender, achou melhor não falar nada.Tinha certeza que ele saberia se proteger. O que temia era que, como diversos homens que amara em sua vida, ele preferisse se livrar do problema, livrando-se dela. E ela estava tão feliz...

 

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Fora na noite do "Evento Duplo" - 30 de setembro de 1888. Marie acabara de atender um cliente particularmente nojento e estava desesperada por uma bebida no The Ten Bells. Ajudava a se "desinfetar" de sujeitos como aquele.

 

Em sua pressa, resolveu arriscar a sorte e descia pela Berner Street, disposta a encarar a escuridão de Dutfield's Yard para chegar mais rápido ao pub. Era quase uma hora da manha.

 

Ao perceber o casal abraçado na Dutfield's Yard, não quis nem saber: a menos que o homem se assustasse e brochasse, sua passagem não iria incomodar ninguém.

 

O problema foi que eles não estavam transando; estavam lutando. E o homem puxou uma longa faca e cortou a garganta da mulher, atingindo sua artéria e um forte jorro de sangue tingiu a calçada de vermelho.

 

Marie gritou. O homem virou-se em sua direção, mas ela não pode ver seu rosto. Ele, porém, pode vê-la com perfeição, pois seu grito fez com que uma janela fosse aberta e a luz vinda dela iluminou completamente o rosto de Marie.

 

O homem fugiu. Mais tarde, ela soube que ele fizera uma nova vítima bem longe dali, na Mitre Square.

 

Como todas as prostitutas, Marie também não gostava da polícia e não acreditava que eles pudessem ou quisessem protegê-la. Também não tinha recursos para desaparecer de Londres. Assim, apesar do medo, fez a única coisa que alguém na sua situação podia fazer: continuou vivendo um dia de cada vez.

 

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Whitechapel era um mundo repleto de pessoas necessitadas de tudo. Imigrantes irlandeses se acotovelavam com judeus fugidos da Rússia e do Leste Europeu. Num mundo assim, algumas moedas eram suficientes para abrir algumas bocas e sempre podia se saber o que quisesse, se estivesse disposto a pagar.

 

Foi assim que ele ficou sabendo quem era ela e onde morava, um quartinho imundo na Dorset Street, em Spitalfields.

 

E foi para lá que ele se dirigiu na noite daquela sexta-feira, 9 de novembro de 1888.

 

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A próxima lua cheia seria no dia 16  de novembro, o que tornava a vida de Jean Pierre um pequeno pesadelo logístico.

 

Carregar uma longa e grossa corrente feita de prata para um armazém de Whitechapel, com a polícia revirando todos os cantos, em plena caçada por Jack, o Estripador, não havia sido fácil. Mas ele conseguira.

 

O pior é que não tinha tido tempo para procurar por Marie durante os últimos três dias. Assim, apesar do risco de que alguém se lembrasse devido à luta com Quinn, Jean Pierre tomou a direção de Spitalfield naquela madrugada de sábado.

 

Eram pouco mais de seis horas quando ele chegou ao quarto que Marie alugava. Estranhou que a porta estivesse semi aberta.

 

O olfato, aguçado pela proximidade da lua cheia, detectou o cheiro antes mesmo que ele abrisse a porta: sangue e carne em decomposição.

 

Assim avisado pelo seu olfato, entrou no quarto e encontrou mais uma cena de carnificina, como muitas que presenciara desde que completara treze anos de idade e começara a se transformar nas noites de lua cheia. A única diferença era que, desta vez, ele não era o responsável.

 

Sobre a cama, jazia o que antes fora a bela Marie Jeanette. No criado mudo e sobre uma pequena cômoda, encontravam-se os órgãos que antes preenchiam seu abdômen.

 

Jean Pierre sabia que não tinha tempo para ficar chocado ou chorar naquela hora. Precisava sair dali antes que alguém o visse. Aspirou profundamente o ar do quarto e fugiu da vizinhança o mais rápido que pôde.

 

Analisando o ar aspirado no quarto, encontrou o cheiro do assassino. Era alguém que ele não conhecia, mas não descansaria até que o encontrasse.

 

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Ele estava neste mundo para ser o predador. O que veio ao mundo para corrigir os erros da criação, os erros crassos d'Aquele que diziam escrever certo por linhas tortas. Ele via as linhas tortas, mas  o que estava escrito nelas era a comédia concebida por um louco, dotado de um senso de humor doentio.

 

Erros estúpidos, como permitir a existência das baratas. De todos os tipos de baratas, especialmente aquelas de aparência humana mas desprovidas de dignidade, capazes de se alimentar do esgoto da podridão humana.

 

Seu pai se revelara uma daquelas baratas. Apesar de ser um lorde, casado com uma das mais belas e gentis mulheres da nobreza do Império Britânico, não fora capaz de conter seus desejos imundos e, como um porco no chiqueiro, fora charfundar na lama de Whitechapel, fornicando com aquelas mulheres imundas.

 

Médico e militar, o filho voltara condecorado da Guerra da Criméia, onde fora enviado como um dos mais jovens e mais brilhantes oficiais do exército de Sua Majestade, para encontrar a desgraça incrustada no seio de sua família tal qual um câncer.

 

O pai contraíra sífilis nas suas andanças noturnas e morrera, deixando para trás uma mulher enlouquecida pelas seqüelas da doença. Diferente do pai, sua mãe ainda duraria muitos anos, e ele dedicou toda a sua vida a cuidar dela. Até que ela morreu em 1887.

 

Apesar de saber que sua causa era perdida, perder sua mãe daquela forma fora mais do que sua mente racional poderia administrar. E a necessidade de corrigir os erros dessa criação doentia preencheu seu coração de ódio. Se o mundo estava enfermo, ele era médico e possuía os instrumentos para curá-lo. Ele iria extirpar todas as metástases daquele câncer. E começaria sua missão por Whitechapel.

 

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Jean Pierre buscava ao máximo evitar a criação de vínculos, não porque ele não os desejasse, mas  porque se sabia incapaz de mantê-los. A morte de Marie Jeannete vinha esbofetear sua face, lembrando dolorosamente que ele estava destinado a ver e a fazer perecer aqueles que dele se aproximassem.

 

Naquela noite a lua cheia iria brilhar nos céus de Londres, mas Jean Pierre não estava preocupado com isso. As grossas correntes de prata que deveriam contê-lo quando a lua libertasse a besta-fera continuavam guardadas.

 

Naquela noite, ele não temia as dores da transformação, na verdade estava ansioso por elas.

 

Naquela noite, ele libertaria mais uma vez a fera para que ela fosse seu anjo vingador.

 

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Tanto trabalho, tão pouco tempo!

 

Ele olhou de novo para se garantir de que ninguém estava se aproximando e voltou para a prostituta que o aguardava, encostada numa das paredes que formava o beco.

 

- Por favor, senhor, seja breve! Preciso de pelo menos outros três clientes, meu aluguel vence hoje! -   a mulher fingia lutar para ajeitar suas anáguas para o ato, enquanto na verdade disfarçava para que o distinto cliente tivesse a perfeita sensação de uma deliciosa penetração. Mas ela não tinha a menor intenção de deixar que ele a penetrasse.

 

Ele estava ciente desses truques, mas pouco se importava.

 

Sorriu, gesto que ela não percebeu por conta da má iluminação. Ia se aproximando e se preparando para estrangulá-la, quando uma gigantesca pilha de caixotes no fundo do beco desabou.

 

O estrondo das caixas caindo assustou a prostituta, que se pôs a correr em movimentos atrapalhados, enroscando-se em suas calçolas, saias e anáguas.

 

- Valha-me, Deus! Só pode ser o maldito Jack! Socorro! Socorro!

 

Ele também ia deixando o lugar, seria péssimo se fosse visto ali. Mas quando uma nuvem permitiu que a luz da lua cheia clareasse o beco, ele viu quem derrubara os caixotes. E não pode acreditar em seus olhos.

 

- Eu não acredi...

 

Não chegou a completar a frase. A fera pulou sobre ele, pronta a estraçalhá-lo, contando com o estímulo extra do ódio que seu alter-ego humano nutria pelo homem à sua frente.

 

Mas não ia ser tão simples. Sua vítima possuía treinamento militar, profundos conhecimentos no manejo de lâminas de todos os tipos e uma motivação inabalável, que só os loucos podem ter.

 

Onde tantos outros congelaram de pavor, ele desviou-se habilmente do ataque do lobisomem e, puxando de dentro da manga do casaco a lâmina antes reservada às prostitutas, abriu um generoso rasgo no flanco esquerdo de seu oponente.

 

A fera, desacostumada a ver suas vitimas reagirem, soltou um urro pavoroso. A dor do corte fez com que seus olhos brilhassem de ódio e partisse para um novo ataque. Mas, ao girar para voltar a encarar o Estripador, a fera percebeu decepcionada que este desaparecera.

 

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Para a infelicidade de Jack, o Estripador, suas lâminas eram de aço, não de prata. E seu perseguidor possuía um faro aguçado.

 

Apesar de ser um profundo conhecedor dos becos e vielas imundas de Whitechapel e adjacências, cada vez que acreditava ter despistado a criatura, esta ressurgia e tornava a surpreendê-lo.

 

Cansado pelo jogo de gato-e-rato, o Estripador tentou uma última investida. Sua lâmina atravessou o coração do lobisomem. Mas, por mais perfeito que tenha sido seu golpe, ele simplesmente não tinha como vencer.

 

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O navio se afastava lentamente do porto, numa velocidade inversamente proporcional à tristeza que sentia.

 

O único consolo que possuía era que, ao menos desta vez, ele não era o responsável. Mas não compensava nem um pouco sua frustração. Ele a tivera ali a sua frente e a perdera de novo.

 

Ele vingara a morte de Marie Jeanette. Mas a vingança, embora traga um alivio profundo, este se dissipa rápido demais.

 

Dentro de si, aquele que entraria para a história como Jack, o Estripador, estava sendo digerido. Jean Pierre não sabia quem ele era e pouco lhe importava.

 

O que lhe importava era que, naquela tarde, numa das ruas imundas de Whitechapel, ele pudera encontrá-la e passar algum tempo com ela.

 

Mary Jane Kelly morreu sem saber que era a reencarnação de Marie Jeanette de Grenouille, a mãe de Jean Pierre!

 

----FIM----

 


NOTAS

 

 

1 – As informações sobre Jack, o Estripador, são verídicas e foram retiradas da Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jack_o_Estripador), mas o que foi contado sobre sua suposta família, motivações para matar e – obviamente – sobre a forma como teria morrido, é completamente ficcional.

 

2 – Apesar da tentação de mudar algumas coisas em prol da narrativa, o calendário lunar foi respeitado rigorosamente.

( http://www.rodurago.net/en/index.php?month=11&year=1888&geodata=51.31%2C-0.05%2C0&site=details&link=calendar&rck=627f9969819508e1b0b7b4f8e49b8c31#showcalendar)



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