A Lenda da Prata do Lobisomem

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Paris, 1925.

O bar era sujo, como a alma de seus freqüentadores.

Jerome era particularmente cuidadoso quando entrava naquele tipo de lugar.

Franzino, só era respeitado entre os criminosos com quem trabalhava por sua inteligência. Mas, num lugar como aquele, onde ninguém o conhecia, era muito provável que lhe arrebentassem a cara antes que pudesse fazer ou falar alguma coisa.

Discretamente, foi vasculhando o lugar até encontrar o que procurava: o velho de mãos trêmulas que bebia sozinho, numa mesa no fundo do salão.

Dirigiu-se até ele:

- Alphonse Deschamps, eu presumo!

O velho lhe dirigiu um olhar azedo:

- Se é outro imbecil atrás de ouvir minha história apenas para rir de mim, não estou interessado.

Jerome apenas acenou negativamente com a cabeça:

- Não, Monsieur Deschamps, estou aqui porque, ao contrário da maioria, eu acredito no senhor.

Ainda com cara de poucos amigos, o velho fez sinal para que Jerome sentasse.

- O que quer?

- O óbvio: eu quero as duas grossas correntes de prata que você disse ter visto aquela noite no armazém. Estivessem elas prendendo um lobisomem ou não!

O velho continuou olhando desconfiado para Jerome:

- Esta história do lobisomem foi a desgraça de minha vida, rapaz! Seria melhor se o maldito tivesse me estraçalhado no dia em que o encontrei, a ficar me destruindo aos poucos desse jeito!

- Mal posso imaginar o seu sofrimento. Ter a reputação destruída dessa forma...

- Maldito DuLac! Aquele jornalista desgraçado! - o velho levou as mãos ao rosto, em desespero - Mais azar que encontrar um lobisomem, foi encontrar um jornalista.

Jerome sabia toda a história. Deschamps havia sido rico, muito rico, dono de vários galpões . Mas uma noite, em que trabalhara até mais tarde, abriu uma caixa que estava armazenada em seu depósito principal, alegando ter visto uma luz azulada saindo dela.

Ao abrir a caixa, deu de cara com um sujeito se transformando em lobisomem. E a criatura só não o atacou por estar envolvida em duas grossas correntes de prata.

Transtornado, Deschamps correu e, na estrada, encontrou Gaston DuLac, repórter e editor do La Gazette, um jornal local que mal servia para embrulhar peixe.

A partir daí, as versões do empresário e do jornalista só concordavam em uma coisa: ambos haviam retornado ao armazém de Deschamps.

Só que Deschamps alegava que ambos haviam encontrado novamente o lobisomem, e que DuLac havia cortado dois elos da corrente de prata, para levar consigo como prova.

Mas o que DuLac publicou em suas reportagens seguintes do La Gazzete foram uma série de duros ataques a Deschamps, alegando que este estava enriquecendo por estar roubando mercadorias que seus clientes deixavam guardadas em seus armazéns e que montara uma farsa absurda sobre lobisomens e tentara cooptá-lo como testemunha.

Os tais elos sumiram, junto com a caixa, as correntes, o lobisomem e com a boa reputação de Deschamps, que se vira de repente reduzido a miséria, enquanto as vendas do La Gazzete, impulsionadas pelo escândalo, fizeram de Gaston DuLac um homem rico.

Jerome sorriu para o velho:

- Talvez eu tenha algo que seja de seu interesse. Aqui entre nós, soube que seu "bom amigo" DuLac foi roubado recentemente?

O velho inclinou-se para a frente e o sorriso de Jerome aumentou ainda mais: ele fisgara seu peixe.

- Notícias ruins para DuLac são boas notícias para mim! Mas você ainda não respondeu a minha pergunta.

- Acredito em você porque tenho a prova de sua inocência! - Abrindo discretamente o casaco, Jerome puxou algo envolvido em um pano, que passou por debaixo da mesa para Deschamps. Discretamente, este abriu o pano e viu o conteúdo: um elo de corrente feito em prata.

Jerome viu que o velho ficou estupefato.

- Monsieur Deschamps, eu recomendo firmemente que contenha seu entusiasmo e me devolva o elo agora mesmo. Se brigarmos por ele aqui, acabaremos os dois mortos e ele terminará nas mãos de algum dos facínoras que nos rodeiam.

Deschamps sabia que Jerome estava certo. A contragosto, refez o embrulho e o devolveu.

- Mas em que você acha que eu posso ajudá-lo?  Já faz tantos anos....

- Quero que puxe pela sua memória. Tenho certeza de que vai conseguir lembrar de algum detalhe que possa me ajudar.

****

Deschamps não se lembrou de nada em particular, mas aquilo era algo que Jerome já havia considerado em seus planos. Deixar o velho lembrar e falar tinha mais a ver com ganhar sua confiança do que com obter alguma informação concreta.

O importante é que Deschamps ainda tinha consigo cópias dos livros onde se registravam a entrada e saída das mercadorias que ele estocava em seus depósitos. E lá havia um nome: Jean Baptiste Bertrand, o dono de uma caixa onde deveriam estar guardados "objetos pessoais sem valor comercial", segundo o livro.

Jerome tinha certeza de que era um nome falso. E, com um pouco de pesquisa, conseguiu rastrear um velho falsificador, agora aposentado, que lhe confirmou ter feito documentos para dar vida a tal identidade.

O velho descrevera com um rapaz muito jovem e de boa aparência havia lhe procurado, muitos anos antes, e solicitado os documentos. Não tinha como esquecer do rapaz, porque este lhe fizera o pagamento em peças de prata, não em dinheiro.

Jerome ficou ainda mais fascinado com aquela história.

Procurando mais, ele localizou mais dois armazéns onde dois outros Jeans haviam depositado caixas com "objetos pessoais". E ambos tinham aquela mesma descrição que o falsificador lhe dera: um jovem louro, de feições suaves e aparência frágil.

****

Dadas as suas limitações físicas, Jerome trabalhava em grupo, mesmo não gostando muito da idéia. Para aquele trabalho, recrutou três parceiros: Leclair, para quem  não havia fechadura que o segurasse; Armand, o provedor, o cara que sabia onde achar absolutamente qualquer coisa que fosse necessária para uma empreitada criminosa; e Remy, com seus dois metros de altura feitos de puro músculo e uma capacidade invejável de causar dor com eles.

Pois foram esses quatro que invadiram o armazém onde a caixa estava guardada.

Jerome dissera aos outros apenas que iriam encontrar prata em grande quantidade, não falou nada sobre ter um imbecil enrolado em correntes dentro dela.

- Quem diabos é esse infeliz? - perguntou Remy, enquanto todos olhavam espantados para Jerome.

- Um louco podre de rico! - Jerome respondeu, nervoso - Peguem logo a prata e vamos embora.

- E o que fazemos com o louco?

- Garantam que ele não virá atrás de nós!

Remy arrancou as correntes de dentro da caixa, enquanto o rapaz envolvido por elas acordava completamente confuso.

Mal foi retirado da caixa, o rapaz foi crivado de balas. Sem a menor cerimônia, largaram o corpo para trás e partiram.

****

O grupo de lobos não esperava que o vento leste trouxesse aquela surpresa.

A tarde se tornara noite e mal o sol se escondera, o grande disco prateado, a face da lua tomou conta do céu e espalhou seu brilho pálido pela terra.

Foi estranho porque o primeiro cheiro era de um homem; mas  enquanto o bando tomava posição para iniciar a caça, o cheiro mudou.

Havia mais um lobo na floresta aquela noite.

Ao revelar sua presença, o recém-chegado não foi questionado, assumiu a liderança da alcatéia naturalmente.

Então, farejando o ar, ele começou a correr, e  a alcatéia o seguiu. Apesar de que o recém-chegado corresse sobre duas, não sobre quatro patas, eles se entenderam perfeitamente.

Aquela noite, Jean Pierre de Grenouille não iria caçar sozinho.

****

A cabana era suja, como a alma de seus quatro ocupantes. Mas eles estavam felizes e festejavam.

Sobre a mesa, as duas grossas  correntes de prata.

Jerome levantou um brinde:

- Senhores, se cada vez que eu acreditasse numa lenda estúpida eu fosse tão bem recompensado, acho que teria começado a acreditar em duendes há mais tempo!

O resto do bando riu alto.

- Aos senhores duendes! - e derramou um pouco do seu vinho no chão.

O bando riu ainda mais alto.

Mas, apesar de também estar rindo com seus colegas, Jerome estava preocupado. Não acreditava em lobisomens, mas seu instinto estava alerta. Por mais que tentasse, não conseguia relaxar.

- Jerome, você às vezes consegue ser tão irritante quanto uma mulher! O que tanto está preocupando você?

Remy podia ser enorme e parecer burro. Mas ele era extremamente perspicaz.

- Bobagens, mon ami, bobagens! Vamos beber, pois estamos ricos!

Remy não ficou satisfeito com a resposta, mas sabia que discutir com Jerome era perda de tempo.

Jerome deu-se conta, de repente, de um detalhe que não levara em consideração até aquele momento: ficara tão obcecado com a história da prata que não percebera que todos até ali haviam descrito um rapaz exatamente como aquele que eles haviam encontrado no depósito. Um jovem de vinte e poucos anos.

Mas a história de Deschamps, DuLac e do falsificador aposentado acontecera há vinte anos atrás!

Ele não podia continuar tão jovem a menos que...

Foi Armand quem chamou a atenção do bando:

- Vocês ouviram isso?

Todos ficaram em silêncio.

Silêncio que foi quebrado quando a janela foi atravessada por uma enorme pedra, que atingiu Armand em cheio na testa. Seu crânio explodiu em pedaços.

- Mon Dieu!

Pelo enorme buraco aberto na janela, entraram dois grandes lobos, que avançaram contra Leclair. O primeiro foi atingido em cheio por um tiro do revólver do bandido. O segundo aproveitou-se da morte do primeiro para cair sobre ele.

Logo outros lobos estavam entrando pela janela destruída.

O som dos tiros continuou ecoando dentro da cabana. Foi possível também ouvir os ganidos dos lobos atingidos.

Mas logo os tiros cessaram e foram substituídos por gritos de dor, que também logo se calaram.

No fim, tudo que restou foi o silêncio da noite.

****

No interior da cabana, a cena era desoladora. Quatro homens mortos, estraçalhados, e seis lobos jaziam no chão.

Jean Pierre de Grenouille lamentou pelos lobos mas, ainda assim, era um caso de urgência maior.

Jean Pierre ficava impressionado como o lobisomem se mostrava inteligentíssimo, muito além da besta-fera irracional que todos acreditavam. Como estavam de posse da prata, era perigoso demais para o lobisomem atacar o grupo de ladrões. Por isso a estratégia de usar os lobos.

Colocou as correntes de prata dentro de uma grande saca de lona.

Numa pasta que pertencera a um tal Jerome, líder dos bandidos, Jean Pierre encontrou o diário do sujeito, contando todos os detalhes do plano, com vários recortes do La Gazzete e um elo perdido das correntes de prata, embrulhado num pedaço de pano. Ia precisar sair da França por uns tempos. Os bandidos só o haviam encontrado pois permanecera muito tempo no mesmo lugar.

Havia uma coisa que o intrigava mais do que tudo: por que a criatura o ajudara? Por que caçara aqueles que roubaram as correntes que o prendiam? Por que simplesmente não saiu pela noite, matando todos que cruzassem seu caminho, como certamente desejava? Não fazia sentido. Será que ele interferia nos humores da fera da mesma forma que ela interferia nos seus? Mistérios, mistérios...

Mas havia algo que precisava ser feito, antes de deixar a França mais uma vez.

****

O velho sentado na praça olhava as folhas sendo levadas pelo vento.

Quando o jovem louro atravessou a praça em sua direção, ele se perguntou o que diabos o rapaz poderia querer com ele.

Foi só quando o jovem parou a sua frente que ele pode reconhecê-lo. E congelou de medo:

- Você!

- Não tenha medo. Estou aqui em paz. Posso sentar? - perguntou, apontando para o lugar vazio ao lado do velho, que estava apavorado demais para falar alguma coisa.

- Monsieur Deschamps, eu vim aqui apenas para dizer que sinto muito pelo que aconteceu com o senhor. Sem querer, o senhor acabou sendo uma das vítimas da maldição que carrego comigo. Talvez a que mais sofreu com ela.

O velho continuava olhando para Jean Pierre, aparvalhado.

- Por isso, peço que aceite isto como um pedido de desculpas.

E colocou um pequeno saco de pano nas mãos do homem.

O velho não precisou abrir o pacote. Pelo tato, sentiu que haviam dois ou três elos da corrente de prata lá dentro.

- Seja feliz pelos dias que lhe restam, Monsieur Deschamps. Adieu!

E o rapaz se levantou e partiu.

****

O bar continuava sujo, como a alma de seus freqüentadores.

Na mesa, um jovem ambicioso escrevia avidamente tudo que o velho lhe contava: uma história fantástica sobre maldições, lobisomens, ladrões e uma imensa fortuna em prata.

- Está pensando em procurar essa fortuna, filho? O lobisomem caça impiedosamente aqueles que roubam sua prata.

O jovem riu.

- É claro que não, meu velho! Afinal, isso é só um lenda, não é mesmo?

- Melhor para você que pense assim, meu filho. Melhor para você...

Nascia a lenda da prata do lobisomem.

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Comentários   

0 # Williemae 07-07-2017 05:07
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