Ouça Os Lobos Uivando

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Era sempre o mesmo sonho.

Desde quando?

Desde sempre.

Uma loba no alto da colina, a contemplar a planície descampada, a observar com seus olhos e seu faro a imensidão abaixo de si. Tudo lhe pertence, porque ela não pede, ela toma aquilo que ela quer.

Mas há sempre um preço a ser pago. Sempre há. E a loba sabe que, para ela, o preço de tanta liberdade é a solidão.

E ela uiva para o imenso disco amarelo no céu, a única a admirar sua desvairada liberdade, sua louca solidão.

E outros lobos se juntam a ela em seus uivos, e a noite se torna plena deles.

A lua, em seu silêncio, parece dizer:

"Ouça os lobos uivando... é o som da solidão de alguém"

- PUTA QUE O PARIU, DENISE! QUE MERDA É ESSA?!

O grito a desperta, no susto.

- Ai, que foi Eduardo? Tá gritando por...

Ela nem termina de perguntar.

Eduardo, seu "ficante" mais habitual, está de pé, a sua frente. E ostenta nas costas uma clara marca de que ela se deixou levar longe demais por seu sonho.

- Caralho, Dê, por que você me arranhou desse jeito? Tá maluca?

- Ai, Du, desculpa, eu tava sonhando. Acho que me empolguei...

As marcas de unha atravessavam as costas de Eduardo, em quatro rastros paralelos não muito profundos, a pele irritada muito vermelha e, aqui e ali, gotículas de sangue brotavam.

- Ai, Du... Vem, vamos passar um mertiolate nisso...

****

Denise era assim, sempre fora assim: selvagem, impulsiva, uma força bruta da natureza.

Órfã, crescera em orfanatos porque, sempre que era adotada, acabava voltando, pois seu gênio rebelde levava as pessoas às raias da loucura.

Sozinha por opção, solitária por natureza. Queria ter alguém, mas havia uma fúria dentro dela que afastava as pessoas.

Tudo ficara ainda pior depois da sua primeira menstruação: o lado selvagem ficara ainda mais aflorado, mais agudo.

Vieram a delinqüência, as detenções, as drogas e, com elas a descoberta de que, não importava o que usasse, o barato que curtisse, Denise não se viciava em nada. Nem a química do seu corpo parecia ser feita para se ligar a alguma coisa.

Eduardo era o mais próximo que ela já havia chegado de um relacionamento. Talvez porque ele também fosse um cara muito na dele, também não ligando para compromissos e, em geral, um sujeito de poucas palavras.

Na cama, Eduardo completava Denise numa dança de prazer e dor. A maioria dos amantes que Denise teve na vida se arrependeram amargamente, pois ela gostava de morder, bater, sufocar, machucar. Sexo com ela era meio vale tudo, no sentido da luta de ringue, tinha que ter sangue para ser bom. E nem todo mundo gosta disso. Eduardo gostava.

****

Denise costumava dizer que não menstruava; na verdade, ela "monstruava". Eram cólicas violentas e um sangramento tão volumoso que não raro a deixava anêmica.

Sua TPM era uma época pior ainda, o anjo soando as trombetas, anunciando o Apocalipse.

Eduardo desaparecia estrategicamente, nesses dias.  Não era seguro ficar perto de Denise nessa situação.

Quando a menstruação passava, vinha o tesão. Estrategicamente, Eduardo reaparecia exatamente nessas horas.

Mas a menstruação daquele mês foi ainda pior. Não houve  Buscopan nem Atroveran que dessem conta.

E o tesão que veio depois beirava a insanidade. Denise só não pulou em cima de Eduardo quando ele entrou em sua casa aquela noite, porque ele trazia algo nas mãos: uma câmera, pra filmar a transa e "dar uma apimentada".

Como se fosse preciso...

****

Denise acordou sem saber bem o que acontecera. Não entendia o que estava fazendo no chão do quarto. Não caíra da cama durante o sono, estava muito longe dela para ser isso.

O quarto estava uma bagunça infernal, estava tudo jogado pelo chão e...

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOO!

O grito explodiu de sua garganta.

A cabeça decepada de Eduardo. Os olhos do morto vidrados nela, acusando, pedindo justiça.

O que havia acontecido aquela noite?

A câmera!

Ela correu pelo quarto, procurando a filmadora de Eduardo. Encontrou-a caída atrás do guarda-roupa. O visor de LCD estava quebrado.

Pegou o cabo para ligar a filmadora na TV e correu para a sala de estar. O que quer que houvesse acontecido, se limitara ao quarto.

Quando as imagens surgiram na tela, ela começou a se lembrar...

****

Agarrada à janela, Denise sentia Eduardo penetrá-la com vontade, e ela se embriagava do prazer que ele lhe proporcionava.

Lá fora, a lua fazia da noite quase um dia, tamanha a luz que derramava por todos os cantos.

Sentiu-se como a loba de seus sonhos: um poder, uma fúria que desconhecia limites, uma imensa vontade de uivar.

Enquanto Eduardo se mexia com cada vez mais vigor, ela sentiu algo diferente.

Ela cravou as unhas na madeira do batente da janela. A madeira maciça cedeu ao cravar das unhas, agora não mais unhas, mas garras longas, fortes e afiadas.

Num movimento brusco e inesperado, virou-se com violência  e, com uma força que sequer imaginava possuir, ela atirou Eduardo longe.    Ele voou por cima da cama, chocou-se contra o espelho da penteadeira, surpreso demais para esboçar qualquer reação.

****

Denise olhava para a televisão e chorava.

Então era aquilo que havia dentro dela, era por isso que a loba uivava em seus sonhos, fazendo a vida mais intensa, mas afastando-a mais e mais do resto da humanidade.

A lua em seus sonhos dizia:

"Ouça os lobos uivando: é o som da solidão de alguém."

Era o som da solidão de Denise.

---FIM---



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