Trama Diabólica

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O texto começava assim:

"Os investigadores Evandro e Ronaldo leram o primeiro parágrafo e acharam aquilo muito esquisito. Olharam um para o outro, impressionados com a bizarra coincidência de que os personagens do texto ali escrito tivessem os mesmos nomes e a mesma profissão que eles.

Foi nessa hora que um caminhão desgovernado, carregado de combustível, colidiu contra o muro da casa e explodiu, matando a todos que ali estavam."

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Tudo começou quando Luiz ganhou o prêmio na loteria. Não iria virar o mais novo milionário da mega-sena, mas pelo menos não precisava mais trabalhar na vida. O valor do prêmio, devidamente aplicado no banco, iria lhe permitir manter exatamente o mesmo padrão de vida pelo resto de seus dias. Dava para reclamar da sorte?

Com uma parte do prêmio, começou a investir na bolsa através da internet, o tal do home broker. E podia agora dedicar mais tempo ao seu hobbie favorito: escrever.

Luiz mantinha uma conta em um site de publicação gratuita para escritores amadores, o Canto dos Contos. Não tinha publicado muita coisa até ali por causa da falta de tempo, mas agora tempo era algo que ele tinha de sobra.

Revisou algumas velhas histórias, criou umas tantas novas e começou a publicá-las no site. Os visitantes do site e outros escritores que lá também escreviam começaram a postar comentários sobre seus textos. Para a felicidade de Luiz, todos os comentários até ali sempre foram muito positivos.

Começou então a se corresponder com vários destes escritores, trocando críticas e opiniões sobre os textos que postavam no site. Ficou até envaidecido porque alguns lhe pediam conselhos e lhe mandavam os rascunhos de seus textos, para que ele comentasse.

O que Luiz mais gostava de escrever eram contos de terror. Ele costumava publicar seus contos assinando normalmente com seu próprio nome, mas havia aqueles no site que usavam pseudônimos variados, que iam desde nomes ingleses ou franceses até apelidos como Inferno, Hell e Vlad Drácula.

Assim, quando recebeu uma crítica a um texto seu vinda de um tal de Lúcifer, não achou nada demais naquilo.

O comentário de Lúcifer foi muito interessante. Redigido com a classe de um professor de literatura, o sujeito mostrava-se admirado pelo talento de Luiz, mas também um tanto decepcionado. "Suas histórias – dizia o tal Lúcifer – possuem estilo, força e uma boa construção sobre o argumento proposto. Mas não consigo terminar de lê-las sem uma ponta de decepção. Acabo sempre achando que você chegou perto, mas que ainda faltou alguma coisa..."

A partir deste comentário, Luiz e "Lúcifer" trocaram uma farta correspondência via e-mail e MSN. Nos últimos contatos, o diálogo entre ambos assumiu um tom sinistro, mas que ninguém estranharia, já que se tratava de pessoas que gostavam de histórias de terror.

Mostrando certo cansaço com a constante crítica de "Lúcifer" de que seus contos nunca chegavam ao máximo do terror, Luiz escreveu durante um chat via MSN:

- Está bem! Já que sozinho não sou esperto o suficiente para escrever uma história que o deixe realmente apavorado, apresente então uma solução para esse impasse.

- Perfeito! Mas não será de graça!...rs

- Deixe-me adivinhar? Vai custar a minha alma! ;-)

- Exatamente! Como soube?

- O que mais Lúcifer iria querer de mim?

- Tem razão...rs... Aceita pagar meu preço?

Aquela insistência do sujeito em falar como se fosse realmente Lúcifer às vezes aborrecia Luiz. Dava pra entender que o sujeito queria fazer graça, mas insistir tanto ficava cansativo. Aliás, uma hora iria voltar a insistir em saber o nome verdadeiro do cara, porque ficar conversando tanto tempo com alguém só sabendo seu pseudônimo, sei lá, parecia muito legal para dois adolescentes; para dois adultos, era passar atestado de infantilidade.

- Aceito! Fala logo!

- Muito bem! Já ouviu falar em metalinguagem?

- Sim. Como naquele filme do Woody Allen, "A Rosa Púrpura do Cairo": o narrador entra na história e interage com os personagens... Não fica meio bobo para um conto de terror?

- Se fizer como vou te orientar, não...

E Lúcifer explicou sua idéia para Luiz, que achou que o cara podia ser meio bestinha, mas tinha mesmo uma ótima idéia. Pediu licença e fechou o MSN. Não via a hora de começar a escrever...

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Como já fazia uma semana que não tinha notícias do irmão, Rosângela resolveu usar a chave que ele lhe havia dado para entrar na casa.

Ao abrir a porta, o mau cheiro era tão forte que ela recuou rapidamente. Não conseguiria entrar lá com aquele cheiro horrível. Chamou a polícia.

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Os policiais que atenderam ao chamado tinham certeza de que aquilo não ia dar em nada. Por mais aterradora que fosse a cena, o sujeito tinha morrido de morte natural, não fora um crime.

Imagina só: entrar num surto psicótico e escrever até morrer!

A cena encontrada no quarto do falecido mostrava que este simplesmente se sentara frente ao computador e começara a escrever como um louco.

A falta de louça na pia ou de qualquer embalagem de comida delivery, a cama perfeitamente arrumada e a grande quantidade de fezes e urina que emporcalhavam o cadáver demonstravam que ele não havia se afastado da cadeira e do computador para absolutamente nada.Com certeza, não dormira também nos últimos dias, mesmo que fosse cochilando sobre a mesa do computador: no rodapé da tela, o processador de texto mostrava a incrível marca de mil duzentas e dezesseis páginas! Nas propriedades do arquivo, a data de criação não deixava dúvidas: aquele calhamaço de páginas fora todo produzido na última semana.

A pele das costas apresentava escaras, as feridas que o corpo apresenta quando fica parado tempo demais em uma única posição. Com certeza, as nádegas e a parte de trás das coxas deviam estar do mesmo jeito. Os dedos, em carne viva, manchavam o teclado de sangue. Ele não parara de escrever até a hora em que caíra morto.

O perito forense que analisava a cena deu uma olhada no que Luiz estivera escrevendo. O texto começava normalmente, mas com o passar do tempo ia perdendo todo o sentido. Até uma certa parte, as palavras ainda estavam escritas corretamente, mas fora de qualquer ordem lógica. Depois as letras começaram a se embaralhar e páginas e páginas se encheram de um conteúdo absolutamente sem nexo.

Voltando à primeira página, o perito reparou em algo engraçado. Sabendo que aquilo não ia afetar em nada a investigação – aquilo nem cena de crime não era – imprimiu a primeira página e levou até os dois investigadores, que estavam na frente da casa, fumando.

- Ei, gente! Olha só que interessante... Parece que o cara estava escrevendo sobre vocês!

O título era esquisito e não fez sentido para eles: " Um Exercício de Metalinguagem".

Os investigadores Evandro e Ronaldo leram o primeiro parágrafo e acharam aquilo muito esquisito. Olharam um para o outro, impressionados com a bizarra coincidência de que os personagens do texto ali escrito tivessem os mesmos nomes e a mesma profissão que eles.

Foi nessa hora que um caminhão desgovernado, carregado de combustível, colidiu contra o muro da casa e explodiu, matando a todos que ali estavam.

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Comentários   

+1 # haila 10-09-2015 02:39
Muito bom! Li poucos contos nesse site (recém descobri o site) e esse foi o mais assustador até agora. :-)
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0 # Edson Tomaz da Silva 10-09-2015 12:11
Oi, Haila! Seja bem-vinda ao Letras de Sangue (LdS) e brigado pelo seu comentário! O LdS tem um acervo bem grande, acredito que você vai encontrar muitos outros textos assustadores por aqui. Um BIG abraço e bons pesadelos!
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