A Fúria

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Antes de embarcar numa jornada de vingança, cave duas covas: uma para ti e outra para a pessoa de quem queres te vingar.

Confúcio

 

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1 - A Primeira Cova

 

Bruno ergueu a taça e brindou à memória do falecido. Que descansasse em paz!

Não guardava mágoas do ex-sócio. Otávio não era mau sujeito, de forma alguma.

O problema é que Bruno ERA um mau sujeito. E precisava desesperadamente da venda da empresa para arrematar uma bela bolada e ir morar na Polinésia Francesa. Sentia a brisa do mar em seu rosto quando pensava nisso. Não lhe importava nem um pouco que o comprador fosse pagar uma fortuna por uma empresa à beira da falência. Importante para ele é que os números estavam devidamente maquiados - não, maquiar era um termo obsoleto - estavam devidamente photoshopados - riu mentalmente da própria piada - e ele em breve seria podre de rico.

Lamentou que Otávio tivesse descoberto seu plano. Ele gostava de verdade do cara, ia fazer falta.

Especialmente porque ia fazer falta um culpado vivo. Culpados mortos eram muito sem graça. Mas tinham a vantagem de ninguém ficar questionando muito a culpa de um defunto. Pensando bem, melhor assim.

Deixou a taça sobre a mesa do escritório, a copeira recolheria depois. Jogou alguns documentos em sua pasta, desligou o computador e dirigiu-se para o elevador privativo.

No estacionamento, olhou com certo desprezo para seu Honda Civic Si; em breve, seria substituído por uma Mazeratti.

Odiava o trânsito de São Paulo, mas não contratava um motorista porque era na solidão do trânsito que tinha suas melhores ideias e adorava pensar em voz alta.

Um motorista seria bom quando fosse morar na Polinésia. Ah, mas não se compra uma Maseratti pra alguém dirigir pra você.

Absorto em seus pensamentos, assustou-se quando as luzes do prédio piscaram. Piscaram de novo. E então se apagaram. Estranhamente, as luzes de emergência não se acenderam. Todo o estacionamento ficou às escuras. Bruno aguardou, sem conseguir se mexer. Ouvia o som de seu coração batendo. O tempo pareceu se apagar junto com as luzes.

Se alguém perguntasse, ele seria incapaz de dizer quanto tempo permaneceu naquela escuridão até que, do mesmo jeito que se apagaram, as luzes acenderam outra vez.

- Mas que merda foi essa? - olhou para as luzes, nervoso. As luzes continuaram acesas, ignorando sua raiva. - Ah, mas amanhã eu vou comer o fígado do síndico. Como deixam as luzes de emergência pifarem desse jeito?

Ainda receoso, deu partida no carro e se dirigiu a rampa do estacionamento.

- Ainda bem que nada de ruim me aconteceu.

Não tinha idéia do quanto estava enganado. Nada havia acontecido...ainda.

 

2 - A Segunda Cova

 

O cheiro do incenso era enjoativo e Camila estava fazendo um esforço enorme para não vomitar. O olhar de reprovação de Celso, seu irmão, já estava severo o suficiente.

Ela observava enquanto ele preparava o salão para a execução de um feitiço: ao centro, a fogueira onde o incenso líquido de cheiro enjoativo era aquecido; ao lado dela, dois pentagramas haviam sido desenhados em sal grosso.

Haviam discutido o caminho todo, mas ela não fora capaz de demovê-lo; ele estava decidido e, quando Celso estava decidido, era quase impossível fazê-lo desistir.

Camila estava com medo. Celso estava diferente desde que os advogados da família haviam declarado ser impossível provar tanto a ligação de Bruno com a morte do pai, quanto impedi-lo de vender a empresa. Celso tinha certeza de que o sócio do pai estava tramando algo com aquela venda. Se a empresa ia tão bem, por que ele ia vendê-la?

O sempre amoroso irmão, aquele que sempre a protegera e que lhe revelara os segredos da magia, arte na qual ele se iniciara nos tempos de faculdade, parecia ter desaparecido.

Ele a ensinara os caminhos da magia branca, feita de curas, de forças para que o bem fosse feito, de coisas boas.

O que iam conjurar ali, porém, não era nada de bom.

Celso, por seu lado, estava tranquilo. Era um feitiço perigoso, como todos os feitiços de magia negra são. Mas era também um feitiço muito simples, nada podia dar errado.

Não tinha idéia do quanto estava enganado.

 

3 - Todas As Covas Seguintes

 

Os irmãos iniciaram o ritual. Havia cantos em línguas mortas, ervas estranhas, o incenso de cheiro enjoativo.

Camila e Celso tomavam o máximo de cuidado na execução do ritual. Cada um sentado no centro de um dos pentagramas desenhados com sal grosso. Haviam selado as janelas e portas com uma fita adesiva bem larga e resistente, para evitar que qualquer lufada de vento desfizesse os desenhos. Eram a única proteção para aqueles que se atreviam a evocar aquele tipo de mal. Se um pentagrama fosse rompido, a pessoa em seu interior ficaria à mercê do ser maligno que estavam invocando.

E até que tudo estava indo bem, quando chegou a hora em que Celso deveria jogar um punhado de enxofre sobre o fogo.

O enxofre reagiu com a chama num forte estrondo, liberando uma luz muito intensa e um cheiro extremamente desagradável.

O cheiro de ovo podre do enxofre foi demais para o combalido e embrulhado estômago de Camila: na forma de um jato ácido e doloroso, o vômito subiu por seu esôfago e garganta e explodiu num jorro forte, que se espalhou sobre os componentes do feitiço.

- Camila! O que houve? Você tá bem? - Celso, por um instante, voltara a ser o irmão cuidadoso e carinhoso de sempre.

Mas o estômago de Camila ainda não havia terminado sua inesperada participação naquele ritual. Camila abriu a boca para tentar responder ao irmão: o que saiu não foram palavras, mas outro doloroso jato de vômito, ainda mais violento que o anterior.

Camila estava prostrada para frente, lutando contra a câimbra em seu abdômen, que a impedia de respirar.

Quando finalmente conseguiu levantar a cabeça, viu que Celso estava olhando fixamente para alguma coisa no chão.

Os jatos de vômito haviam rompido os pentagramas de sal.

 

4 - Nada É Tão Ruim Que Não Possa Ficar Pior

 

Camila estava sentada num sofá, com uma cara que variava entre expressões de tristeza (quando pensava na encrenca em que ela e o irmão haviam se metido) e enjoo (quando seu estômago lhe lembrava a encrenca em que ela e seu irmão haviam se metido).

Percebeu Celso selecionando um número no celular.

- Vai ligar pro seu professor?

- Ainda não. Vou ligar pro canalha do Bruno. Temos que aproveitar que ele ainda não sabe que nós sabemos que ele está aprontando pra nós. Se ele estiver bem, é porque o feitiço falhou e não temos com que nos preocupar.

- E se não estiver?

- Então será hora de ligar para o Professor Lúcio. Espera um minuto... Bruno?

- Oi, Celso, tudo bem? Em que posso te ajudar?

- Desculpa, mas preciso te fazer uma pergunta meio besta...

Bruno franziu o cenho, pressentiu algo errado, mas ia ter de fazer o jogo de Celso, por enquanto.

- Manda...

- Tá tudo legal com você?

- Estou ótimo? Mas por que exatamente você está perguntando isso?

- É que a Camila teve um mau pressentimento, ela sentiu que alguma coisa ruim podia estar acontecendo com você. E você sabe como é mulher nessas horas. Não me deixou em paz até que eu ligasse pra saber se estava tudo bem.

- Essa mulherada é fogo... Olha, pode falar pra Camila que eu tô ótimo e cada dia melhor.

- Eu disse pra ela que era bobagem! - enquanto falava com Bruno, fez um sinal de positivo para Camila, que demonstrou seu alívio com um longo suspiro. - Então tá legal, vou desligar.

- Olha, só pra ela se acalmar de vez... Agora há pouco eu tomei um baita susto e meu coração continua inteiro.

Celso ficou apreensivo.

- Susto? O que houve?

- Estava no carro, no estacionamento da empresa, quando todas as luzes se apagaram de repente. Ficou tudo num breu medonho.

Celso engoliu em seco.

- Bom, tio Bruno... que bom que não aconteceu nada, né? Olha, preciso desligar, tá?

- Abraço, filhão!

- Outro. Tchau.

Celso estava lívido. Camila olhava sem entender nada.

- O que houve? Você estava todo feliz até um minuto atrás e agora está com essa cara...

Celso desabou no sofá. Passando as mãos pelo rosto, respirou fundo e contou as más notícias :

- O emissário das trevas já se anunciou para ele. Ele só não sabe disso ainda.

- Ai, meu Deus, Celso. Eu tô com medo...

Celso abraçou a irmã e tentou confortá-la:

- Calma, maninha! Eu te coloquei nessa, eu vou te tirar dessa...

Camila começou a chorar.

- Eu não tô com medo só por mim, Celso!

Respirou fundo e finalizou:

- Eu tô grávida, Celso. Contei pro Murilo esta semana e ia contar pra vocês antes, mas o papai morreu e tudo virou essa zona...

Fosse outra a ocasião e Celso estaria chorando de alegria; naquele momento, porém, estava de joelhos no chão, chorando em desespero.

- Meu Deus! Que merda que eu fiz!

 

5 - Algum Conhecimento Tardio

 

O Professor Lúcio olhou para Celso por sobre os óculos; já havia vivido o bastante para saber quando um aluno seu não estava contando toda a verdade.

- Celso, exatamente o que nesta história ainda está faltando para que eu a saiba por inteiro?

Celso desviou o olhar. Estava envergonhado demais para cuspir toda a história assim, do jeito que seu professor queria. E Lúcio percebeu isso.

- Permita-me ajudar. Você arrastou sua irmã, que mal tem alguma experiência em magia branca, para um ritual de magia negra... pequeno, foi isso que você disse?

- É, era um feitiço bem simples, de fato. Eu...

- Você disse que algo rompeu os pentagramas seu e da sua irmã - Lúcio estava preocupado demais para deixar Celso se esvair em desculpas inúteis - Quantos participantes o feitiço pedia?

- Quatro.

- Quatro? Incomum para um feitiço pequeno. - Lúcio não foi capaz de evitar uma certa ironia; já antevia o pior - Bom, então basta que os outros dois participantes ordenem que esta coisa ruim que vocês jogaram contra o sócio de seu pai não se volte contra vocês.

Silêncio foi a única resposta.

- Ah, não haviam mais dois participantes, não é mesmo?

Um agito de cabeça foi a única resposta.

- Imaginei... E o quê exatamente fez com que os pentagramas fossem rompidos?

- Ela... vomitou!

- Sobre os pentagramas? - Lúcio pulou do sofá.

- Sobre tudo: pentagramas, ervas, fogo...

Lúcio esperava tudo, menos aquilo.

- Sua irmã profanou um altar de magia negra? Celso, me diga que isto foi o máximo da imbecilidade que vocês dois cometeram...

Celso de joelhos. Pela segunda vez naquele dia, estava chorando em desespero.

- Ela não me falou que tava grávida!

- Grávida? Vocês são loucos? Levaram um inocente não nascido para um ritual de magia negra! Praticamente ofereceram a criança como prêmio ao que invocaram, depois destas idiotices todas...

Lúcio calou-se por um momento. Depois perguntou, agora já temendo o pior:

- Celso, o que foi que vocês invocaram contra o Bruno? Um espírito menor, um fantasma, uma coisa que só serve para assustar, certo?

- Nós invocamos uma Fúria!

Lúcio ficou um tempo paralisado, absorvendo a notícia.

- Celso, você tem noção do que é uma Fúria?

- Demônios vingadores, não é isso? Os gregos antigos falavam muito delas.

- Demônios encarregados de punir os culpados sem ter a menor piedade, Celso. Demônios vingadores e vingativos. Demônios que não se importam com o tamanho e a motivação de seus atos. Apenas querem punir e atormentam as almas pecadoras pelo resto da eternidade.

- Então é exatamente isso que o Bruno merece!

Lúcio respirou fundo.

- E na opinião de uma Fúria, é o que você, eu, a Camila, o bebê dela que ainda nem nasceu merecemos. Todos nós, os pecadores.

- Mas nós não fizemos nada!

- Somos todos falhos e pecadores, Celso. E geralmente nos recusamos a encerrar o ciclo da dor, com a única coisa que tem poder para fazer isso.

- E o que seria?

- O bom e velho perdão.

- O quê? Perdoar o Bruno? Perdoar o cara que matou meu pai, que está roubando tudo que ele construiu na vida, que vai deixar a mim e a minha irmã na miséria? Você está louco, Lúcio?

- Eu sei que é um grande chavão, mas sabe aquele ditado, "errar é humano, perdoar é divino"? Pode ser mesmo piegas, mas não é menos verdadeiro por causa disso.

- Você está me zoando!

- Bruno, ao querer sua vingança você pôs em risco tudo que possui, todos a quem ama e até aqueles a quem virá a amar. Ainda não causou, mas pode vir a causar estragos terríveis, muito maiores que estes que o Bruno está causando agora.

- E o que eu devia ter feito? Deixado tudo por isso mesmo?

- Não, Celso. Perdoar não quer dizer isentar a pessoa de sofrer as consequências de seus atos. Mas castigar a pessoa sem medir custos não resolve nada, só causa ainda mais mal.

- Eu queria justiça!

- Não, Celso. O que você queria era vingança. E vai tê-la, pelo visto. Só temo o preço que possa ter de pagar por isso.

 

5 - O Emissário Das Trevas

 

São Paulo sem trânsito são outros quinhentos. Como saiu tarde do trabalho, Bruno não pegou o trânsito habitual e levou menos de vinte minutos para chegar em casa.

Jogou a pasta no sofá da sala e serviu-se de uma generosa dose de uísque. Enquanto procurava o controle remoto da TV ouviu um barulho, que não soube precisar bem de onde vinha. Balançou a cabeça como se quisesse expulsar um mal pensamento. Estranho, mas o barulho lhe provocara uma sensação desagradável, que ele não sabia definir o que era. Só sabia que era ruim.

Como o barulho não se repetiu, ele decidiu que não havia nada a fazer a não ser ir tomar seu banho. Entrou no banheiro, ligou a água e começou a tirar a roupa. Foi então que ouviu de novo. Desta vez, um sussurro um pouco mais nítido, mas ainda assim impossível de entender.

Só que a sensação que o ruído lhe provocou foi muito, muito intensa. Sentiu-se mal, sentiu-se sujo. Sentiu como se uma mão apertasse seu coração, como se um grande peso fosse depositado sobre suas costas. E sua mente, sempre tão clara, ficasse embotada por um pensamento constante.

- ... ujo...

O ruído. Agora mais alto, mas nada de claro.

- ...odre...

As palavras não eram inteligíveis. Mas a sensação foi se formando mais e mais nítida. Sujeira. Ele estava coberto de sujeira.

- ... fecto...

Ele correu para debaixo do chuveiro. Abriu a tampa do sabonete líquido e o derramou todo sobre si e começou a se esfregar com força. Muita força. Logo sua pele começou a ficar avermelhada, irritada com a força que fazia para tentar se livrar da sujeira que estava incrustada em sua pele.

- ...ujo...

Não estava resolvendo. Arrancou a tampa do shampoo, a do condicionador e virou o conteúdo dos frascos sobre si, esfregando, esfregando, esfregando...

- ...odre... fecto...

Ele saiu cambaleando do box. A bucha em sua mão estava em frangalhos. Olhou-se no espelho, mas não viu a pele vermelha e irritada. Viu-se coberto da cabeça aos pés por um visgo nojento, que não desgrudava da pele de jeito nenhum. E, em meio ao embaçamento do espelho, pode ver aquele par de olhos, de íris douradas, profundos, acusando... condenando... punindo...

-...ujo...

Esmurrou o espelho com violência e caiu de joelhos. Chorava desesperado. Precisava tirar da pele aquela crosta imunda. Olhando para os lados, percebeu os cacos do espelho quebrado espalhados pelo chão. Apanhou um deles e começou a raspar a crosta podre que lhe cobria.

- ...odre...

Continuava não resolvendo. Bruno chorava.

- ...fecto...

- Tem de haver um jeito... tem de haver um jeito!

Bruno correu para o quarto. Jogava-se contra as paredes, esfregava-se contra elas, contra os móveis.

A campainha.

Correu para a porta da sala. Ao abrir, viu o porteiro do prédio.

- Desculpe, seu Bru... Seu Bruno, meu Deus, o que é isso? - gritou o porteiro, apavorado ao ver Bruno nu e coberto de sangue à sua frente.

- ...ujo...odre...fecto... - a voz não parava.

Bruno agarrou o porteiro pelos ombros, gritando:

- Você não ouve? Você não vê?

- O quê, seu Bruno? O quê?

Bruno levou as mãos à cabeça, em desespero. E saiu correndo em direção às escadas, deixando o porteiro desesperado:

- Seu Bruno! Seu Bruno! Volta aqui, por favor!

Mas Bruno não voltou. Subiu dois lances de escada até o topo do prédio e, de lá, pulou sem hesitação nenhuma.

 

6 - Um Novo Conhecido, Um Novo Conhecimento

 

Por alguns minutos Bruno observou o pequeno grupo de pessoas que se reunia ao redor de alguma coisa na calçada. Viu que várias luzes do prédio em que morava estavam se acendendo, o mesmo acontecia em alguns prédios vizinhos. Reconheceu alguns dos vizinhos que abriram suas janelas. Mas não entendia nada. O que estava acontecendo? Não sabia o que era. E sentia que não queria descobrir o que era.

- Vá! E olhe!

A voz atrás dele era conhecida, ele não sabia de onde. Mas a sensação que ela provocava, era vívida. Ele soube que, mesmo não querendo, teria de olhar.

Juntando-se ao grupo que olhava, pode ver uma massa disforme de carne e sangue afundada na calçada. Entendeu porque havia hesitado tanto em olhar.

- Sou eu? - perguntou, mas apenas porque não sabia o que fazer.

- Sim, é você! Você como sempre foi de verdade.

Ele tremeu. Não queria que aquela voz completasse o que ia dizer.

- Sujo!

Ele caiu de joelhos.

-Não!

- Podre!

- Não!

- Infecto!

A gosma nojenta voltou a envolvê-lo.

- O que é isso? O QUE É ISSO?

Ele olhou para trás e viu de novo aqueles olhos cor de âmbar, acusando, condenando. Mas agora podia ver também o ser que era dono daqueles olhos. Uma mulher, de maneira geral. Mas com grandes asas de morcego em suas costas. E seu cabelo escorria comprido por suas costas, não em fios, mas em serpentes que se moviam incessantemente e deixavam escorrer veneno de suas presas. Mas era difícil olhar para ela como um todo, pois quase não se podia desviar o olhar daqueles olhos cor de âmbar.

E ela falou novamente.

- Isto se chama culpa, Bruno. Algo que você nunca sentiu em vida, mas sentirá pelo resto da eternidade.

Bruno não suportava a sensação de nojo que a gosma lhe causava e, enlouquecido por ela, começou a correr, gritando em agonia. Ao virar uma esquina no fim da rua, saiu da visão da Fúria.

- Fuja. Eu sempre vou saber onde achá-lo. Pode fugir de mim, mas não pode fugir da culpa, agora que a conhece. A única coisa que poderia salvá-lo seria que aqueles que você prejudicou perdoassem você. Mas não parece haver nenhum deles disposto a fazer isso.

Afastando-se sem prestar atenção no grupo que se acotovelava para olhar para a visão dantesca que o corpo de Bruno proporcionava, a Fúria seguiu para cuidar de outros assuntos.

 

7 - Todo Final Traz Em Si A Semente De Um Novo Começo

 

O tempo passou para Camila e Celso. E, sem nenhuma manifestação da Fúria após a morte de Bruno, as coisas foram se acalmando naturalmente.

E o filho de Camila e Murilo nasceu. Por todos os ângulos, absolutamente normal e saudável.

Logo na primeira noite, o pequeno Murilo Júnior estava quietinho, dormindo no berçário da maternidade. Foi quando a enfermeira Neide passou para dar uma olhada no pequeno, assim como quem não quer nada.

Neide era especializada em enfermagem neonatal. Mas o que a diretoria da maternidade não sabia era que as especializações, que tanto laureavam seu currículo, serviam apenas para que ela tivesse mais conhecimento sobre como matar recém-nascidos sem deixar pistas.

Ela se aproximou do pequeno Murilo Júnior e esperava ficar olhando para ele enquanto dormia, imaginando quando começaria a envenená-lo e de que forma.

Mas não foi bem esse o rumo que as coisas tomaram.

Mal Neide pôs os olhos sobre o bebê, este abriu os olhos. E lhe devolveu um olhar penetrante, que julgava e condenava, vindo de olhos cor de âmbar, inumanos.

- Suja... podre... infecta... - As palavras tomaram conta da mente de Neide como um mantra sem fim.

Ela correu dali. Mas a súbita consciência da podridão de sua alma não iria abandoná-la jamais.

Pela primeira vez em séculos, uma Fúria caminha entre os homens. Reze para não cruzar com seus olhos cor de âmbar: ela sabe dos seus pecados e não se importa se foram pequenos ou não.

Ela só sabe que na hora em que os cometeu você foi sujo... podre... infecto...

 

 

FIM

 

Ilustração: O Remorso de Orestes - William-Adolphe Bouguereau - 1862



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Comentários   

+1 # Suiá Castro 30-11--0001 00:00
Nooosssaaa muito bom esse conto, nota 10! Além de muito bem escrito a historia ée ótima! parabéns...
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0 # Edson Tomaz da Silva 30-11--0001 00:00
Ah, Suiá, para com isso, tá me deixando encabulado... :oops:
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