A Estranha - Edição Especial De Aniversário

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As horas que Nílson passou encolhido sob a escada naquele beco escuro não haviam sido entediantes como ele imaginara, ou como qualquer um poderia supor de uma longa espera de mais de oito horas. Apesar das condições extremamente desconfortáveis, de ficar agachado, escondido no vão formado por duas fedorentas lixeiras, ele saboreara cada minuto, imaginando a cena, quadro a quadro, do que iria acontecer quando estivesse frente a frente com ela.

 

Tudo que ele sabia sobre ela era o primeiro nome: Sabrina. Sobrenome: nem fazia idéia. Aliás, tudo sobre Sabrina parecia terminar em perguntas para as quais ninguém tinha resposta. O que era mais estranho ainda era que, desde que ele a conhecera três semanas atrás, eles haviam se visto praticamente todas as noites e conversado por longas e longas horas. Conversado talvez não fosse exatamente o termo. Ela quase não falava, ele é quem acabava falando sem parar. Estranho, pois normalmente ele era muito reservado e bem, uma mulher que fala pouco é sempre algo estranho, não é?

 

Eles haviam se conhecido num barzinho da zona leste, videokê até a meia-noite, samba ao vivo até o último cliente. Ela chamara a atenção dele por três motivos: primeiro, porque ela era um absurdo de linda; o segundo, porque a palidez da pele dela sozinha já era bastante chamativa e quando comparada aos habituais tons morenos e negros da pele dos outros frequentadores, ela praticamente brilhava no escuro do bar. Terceiro, e este era o motivo mais estranho, era que ela não tirava os olhos dele, como se estivesse hipnotizada.

 

Como Nílson bem sabia, ele era tudo, menos boa pinta. Não que fosse feio, ele era algo mais complicado do que isso. Nílson era extremamente... comum. Era tão comum que normalmente acabava entrando e saindo sem que ninguém percebesse. E também não era um cara cuja atitude e postura pudessem justificar o olhar fixo que aquela mulher maravilhosa lhe dirigia, parecendo sonhar em devorá-lo vivo e impaciente por ver chegar logo este momento. Nílson era essencialmente um perdedor e isso se traduzia na sua postura, em seus ombros caídos e andar meio cabisbaixo.

 

Nílson era aquele tipo de cara que até que todo mundo simpatiza com ele, que todo mundo define como um carinha legal, mas ninguém chama pra festa, só chama quando precisa que ele faça alguma coisa. As irmãs - e ele tinha um monte delas - ligavam para pedir ajuda em tudo: para levá-las para fazer compras no mercado, para trocar botijão de gás, para consertar torneira pingando, para trocar cartucho de impressora, todas as tarefas que normalmente um marido faria, com exceção de sexo. Ele detestava esses chamados, mas a absoluta ausência de qualquer coisa que parecesse com uma vida social faziam com que ele não tivesse uma desculpa pra não ir. Só tinha parado naquele barzinho porque era aniversário de uma colega de serviço e, como ela errara na hora de enviar o convite por e-mail, este acabara indo para todos os funcionários do administrativo. Até para o Nílson. Ele sabia que não havia sido convidado de verdade, mas que diabo: se ficasse em casa, sabia que alguma das irmãs ia arrumar alguma coisa para ele fazer. E isso era tudo que ele não queria.

 

Porém ali, naquele momento, para aquela mulher, Nílson parecia o mais delicioso macho já nascido na face da Terra, e ela não parecia disposta a perder a oportunidade. Ainda que o olhar fixo dela tenha parecido durar uma eternidade, segundos depois de ele ter percebido que ela olhava para ele, ela se aproximou da mesa onde ele estava sentado. Taí outra coisa sobre ela da qual ele não se lembrava: de vê-la atravessando o salão para chegar na mesa. Quando tentava se lembrar, parecia que ela simplesmente havia se materializado ao lado dele.

 

- Olá! Meu nome é Sabrina! Está sozinho? - a voz ligeiramente rouca traduzia um leve sotaque, que ele não conseguia identificar de onde era. A partir desta pergunta, começavam um sonho e um pesadelo.

 

O sonho: eles saíram do barzinho, foram para o apartamento dele e transaram como dois coelhos desesperados por toda aquela noite e por todos as noites das três semanas seguintes. Ele achava incrível como ela parecia não se cansar, não precisar dormir, não precisar de nada a não ser transar e ouvir o que ele tinha a dizer. E ele passara as últimas três semanas contando a ela tudo, absolutamente tudo sobre ele. Para um solitário como Nílson, não poderia haver mulher mais perfeita: linda, silenciosa e interessada em tudo que ele tivesse a dizer.

 

Mas eu havia falado também de um pesadelo...

 

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Uma manhã, Nílson acordou sentindo frio, muito frio... E logo a confusão mental de quem está acordando foi substituída por uma confusão ainda pior: a de quem acordou e descobriu estar tudo errado. Era óbvio que estava frio... ele estivera dormindo na rua! Acordara e se descobrira caído num beco, cercado pelos homens do resgate. Sua camisa estava em frangalhos, a calça estava suja - ele havia se mijado todo, seus sapatos haviam desaparecido. Sua pele apresentava profundos arranhões, como se ele tivesse brigado com uma onça. Havia um pequeno corte em seu pescoço, mas que apesar de pequeno, era bem profundo e, para desespero do bombeiro que o atendia, não fechava de forma alguma.

 

Foi levado ao hospital, onde precisou ser submetido a uma pequena cirurgia para fechar o corte em seu pescoço. De acordo com o cirurgião, o corte fora banhado com algum tipo poderoso de anticoagulante, o que impedia o seu fechamento. Se não tivesse tido a sorte de ter sido encontrado por um grupo de adolescentes que voltava de uma festa, teria ficado ali, caído naquela calçada, sangrando até a morte.

 

Desorientado, voltou ao beco onde fora encontrado. O beco ficava entre um pequeno prédio antigo, caindo aos pedaços, e uma casa muito velha e muito mal cuidada, onde funcionava um puteiro. Embora sua mente não trouxesse nenhuma lembrança de ter passado por ali nas últimas semanas, foi tomado por uma certeza inabalável de que ali naquele prédio baixo e decadente, uma verdadeira pocilga, estava a resposta do mistério infernal que tinha se transformado sua vida.

 

Foi ao puteiro algumas vezes, tomando todo o cuidado para não transparecer que fora ali para investigar, não para transar. E logo foi recompensado com as informações que queria por uma das meninas, uma moreninha até que bonitinha, mas que tinha o defeito de não parar de falar nem por um minuto. Ficou sabendo por ela que no prédio do lado funcionava uma tecelagem clandestina, onde imigrantes ilegais da Bolívia trabalhavam em regime semi-escravo e que, no porão, morava uma mulher meio maluca, que devia ser garota de programa, porque saia todas as noites usando roupas bastante sensuais e só voltava de manhã. Ninguém jamais a vira na região durante o dia. Como ela não fazia concorrência direta com as garotas do puteiro, ninguém se interessara por ela. Devia ser alguma drogada, que fazia programa para sustentar o vício. Ela devia ser gringa, também, porque tinha a pele branca demais pra ser brasileira. Nessa hora, Nílson teve certeza: era Sabrina.

 

Com a ajuda do dono do bar onde tomava café todos os dias, Nílson chegou a um traficantezinho de drogas que lhe vendeu uma arma fria e munição. E agora estava lá, aquela hora, esperando como um louco o momento em que ela chegasse, o momento em que teria sua vingança.

 

Lá pelas quatro horas da manhã um táxi parou em frente ao prédio e dele desceu Sabrina, acompanhada de um homem que se movia de um modo meio estranho, como se fosse uma pessoa drogada. Assim que ela pagou o táxi - o sujeito parecia incapaz de fazer qualquer coisa sozinho - o motorista saiu de lá cantando pneu, afinal não era uma vizinhança para se ficar parado à toa, pedindo para ser assaltado. Só aceitara levar aquela piranha e aquele drogado pra lá porque a prestação do táxi estava atrasada, e a noite tinha sido muito fraca. Senão, não ia para aquele cu de mundo de jeito nenhum.

 

Acompanhada do homem, ela entrou pelo beco, desceu uma pequena escada que levava a uma porta, a qual ela abriu sem auxílio de chave. Parecia confiar tanto que ninguém entraria ali que não se preocupava com a segurança. Ela e seu acompanhante entraram, mas nenhum dos dois acendeu a luz.

 

Auxiliado unicamente pelas luzes que vinham do puteiro ao lado, Nílson esgueirou-se até uma janela onde, apesar da pouca luz, ainda era possível enxergar o interior do aposento. Nílson pretendia esperar que ela fosse dormir para entrar. Quanto ao desconhecido, tinha certeza que ele devia ser uma vítima do mesmo esquema que ela armara para ele, e que estava drogado demais para interferir. Assim que ela dormisse, acertaria suas contas com aquela vagabunda. Ela ia pagar por tudo. Com juros.

 

Mas o que Nílson viu, dentro do porão do prédio, ele jamais poderia ter imaginado, mesmo em seus pesadelos mais insanos.

 

Sabrina aproximou-se do homem que a acompanhava, que ficou absolutamente parado, sem esboçar nenhuma reação. Com um movimento rápido, ela rasgou a camisa do rapaz, expondo seu peito. E começou a arranhá-lo, lentamente. O cara devia estar muito chapado, pois não gemia ou sequer fazia alguma expressão de dor perante os fortes arranhões provocados pelas longas unhas de Sabrina. Aliás, aquela mulher devia ter unhas de aço, senão como ela produziria cortes tão profundos, sem quebrar unhas tão compridas como aquelas?

 

Nílson ficou horrorizado com aquela cena, mas sentiu também um certo alívio, proporcionado pela explicação de um entre tantos mistérios: a origem dos arranhões profundos em seu próprio corpo.

 

Tornando tudo ainda mais estranho - Deus, onde toda aquela loucura iria chegar? - Sabrina começou lentamente a lamber o sangue que escorria das feridas no peito de sua silenciosa vítima. E, com o sangue que absorvia, seus olhos começaram a assumir um tom de vermelho, a princípio muito pálido mas que foram se intensificando cada vez mais, até que lágrimas de sangue começaram a escorrer deles.

 

Mas o que estava por vir faria Nílson duvidar ainda mais de sua sanidade.

 

Com uma das mãos, Sabrina levantou a cabeça do rapaz, expondo seu pescoço. E de sua boca, uma gosma incolor começou a escorrer, em abundância,blood_splater_small e ela derramou esta gosma por sobre o pescoço do sujeito. Com a longa unha do indicador da outra mão, em um gesto rápido e preciso, rasgou a pele e cortou a jugular de sua vítima. O sangue, que em condições normais espirraria longe, foi segurado pela gosma extremamente viscosa, passando apenas a escorrer sobre o peito do desconhecido. Ela então se debruçou sobre ele e começou a sorver aquele sangue em goles generosos, como quem saboreia com calma uma deliciosa taça de vinho.

 

Com o corpo paralisado pelo medo, assim como a vítima dentro do porão, Nílson assistia a tudo com o cérebro funcionando em desesperada batalha pela sanidade.

 

De repente, Sabrina se levantou, caminhou até um ponto onde a escuridão não permitia mais a Nílson ver o que ela estava fazendo. O desconhecido levantou-se, caminhou em direção a porta em seu passo agora ainda mais cambaleante e ganhou a rua. Foi nessa hora que ficou claro o que acontecera: assim como para aquele estranho, ela também sugara o sangue de Nílson e o deixara partir, para cair morto em algum canto qualquer da cidade, longe do esconderijo. No caso dele, alguma coisa deve ter dado errado, e ele caíra por ali mesmo e fora resgatado. Agora, por mais absurda que fosse a verdade, tudo passava a fazer sentido.

 

Sua vingança, antes motivada apenas pelo desejo pessoal de desforra da mulher que o humilhara e destruíra sua vida, agora ganhava um significado maior: uma criatura monstruosa estava a solta, se beneficiando da descrença do mundo moderno para destruir vidas e se alimentar de seres humanos. Ficava claro para ele que o dinheiro devia ser o que menos importava ao monstro que ele descobrira escondido naquele porão. Ela só deveria roubar o dinheiro de suas vítimas para cuidar dos detalhes mundanos de seu disfarce. O que lhe interessava de verdade era muito claro: sangue.

 

Nílson não estava se importando naquele momento se a criatura era um ser alienígena perdido no planeta Terra ou um demônio das profundezas do inferno. Era preciso destruí-lo, imediatamente, antes que fizesse novas vítimas.

 

Seria o revólver em seu bolso capaz de destruir uma criatura como aquela? Será que ele precisava de balas de prata? E onde arrumar tal coisa numa hora daquelas? Tinha apenas uma coisa a seu favor: aquele prédio era uma tecelagem, e tecelagens tendem a pegar fogo muito fácil. Especialmente as clandestinas, que não cuidam de manutenção.

 

Se fosse um filme de terror, ele iria entrar e enfrentar a criatura, mas este não era o caso. Ele não iria fazer uma imbecilidade daquelas. Pelas explorações que fizera no bairro ao planejar sua vingança, sabia que algumas quadras abaixo, na avenida principal, havia um hipermercado 24 horas, no qual também havia um posto de gasolina.

 

Jogou seu revólver e as balas dentro de uma das lixeiras, não queria correr o risco de ser parado pela polícia e ser detido por porte ilegal de armas. Procurou atravessar a distância entre o covil da criatura e o posto de gasolina da maneira mais discreta possível, rezando muito para não ser assaltado, rezando ainda mais para que aquela coisa não o seguisse.

 

Comprou um pacote de estopa e dois galões plásticos no supermercado, que pediu para encherem de gasolina no posto, alegando que seu carro o deixara na mão, sem combustível. O frentista, antes de ele partir, ainda aconselhou - "Tome cuidado, moço, que a vizinhança é perigosa!". Nílson só pode pensar que o frentista não tinha idéia do tamanho e muito menos do tipo de perigo que existia naquele lugar.

 

De volta ao beco, derramou a gasolina de um dos galões sobre os degraus e a porta de entrada do porão. Tinha medo, pois a criatura poderia sentir o forte cheiro da gasolina e fugir ou, pior ainda, sair e dar cabo dele. Não teria a mesma sorte duas vezes, com certeza. Corria ainda o risco de alguém no puteiro visse o que estava fazendo e chamasse a polícia.

 

Sabrina, ou o que diabo fosse aquilo, não se manifestou. No puteiro, a música continuava alta e animada e, no porão, o silêncio continuava absoluto. Utilizando a estopa que comprara no supermercado, Nílson fez do segundo galão um imenso coquetel molotov. Acendeu o pavio e atirou o galão contra a janela por onde vira aquelas cenas tão hediondas.

 

O galão estilhaçou os vidros da janela e seu efeito se fez sentir rapidamente. As chamas tomaram conta do pequeno porão e, em instantes, houve uma grande explosão lá dentro. As chamas subiram rápido para o andar de cima e começaram a tomar conta do prédio.

 

A rua logo ficou cheia de curiosos e Nílson tratou de se misturar a eles o mais rápido possível. Gritos desesperados vinham de dentro da tecelagem: eram os trabalhadores semi-escravos. O prédio estava trancado por fora. Quando os bombeiros chegaram, tiveram de usar de machados para abrir as portas.

 

blood_splater_smallNílson observava todos os que saíam da tecelagem, por seus próprios pés ou resgatados pelos bombeiros. Nenhuma das vítimas sequer se parecia com Sabrina. Ele permaneceu lá até o fogo se extinguir, no meio da tarde. Não viu nada que indicasse que o monstro pudesse ter sobrevivido ao incêndio. O acontecimento teve ainda um efeito colateral muito útil: com a exposição da situação dos bolivianos na imprensa, o empresário que os escravizava foi preso. O incêndio ajudara a destruir outro tipo de monstro.

 

Nos dias seguintes, Nílson pesquisou tudo que pode sobre o fato. Fingindo-se de parente de uma desaparecida, foi aos hospitais da região e não localizou nenhuma vítima do incêndio cuja descrição batesse com a de Sabrina. Entre médicos, policiais e bombeiros, não achou ninguém que tivesse sequer noção de que havia uma moça como aquela morando naquele porão. Entre os corpos das vítimas fatais, todos foram identificados e nenhum era dela.

 

Deu um jeito de visitar o empresário dono do prédio na cadeia onde estava detido. Alugara o porão para a tal mulher, onde ela armazenava um monte de caixas, mas não sabia e não acreditava que ela estivesse morando lá. Achou ridículo, até. Por que uma mulher tão bonita iria morar num porão nojento daqueles? Ela sempre pagara o aluguel em dia e, se desconfiava das atividades ilegais da tecelagem, não se manifestara. Aliás, todo o arranjo do aluguel fora feito por telefone, ele só a vira no dia de assinar o contrato. Depois disso, só se lembrava dela quando conferia o extrato e via o depósito feito em sua conta.

 

Nílson retomou então sua vida. Ter sido capaz de vencer uma força sobrenatural daquelas desenvolveu muito sua auto estima. Arranjou um novo emprego, mandou as irmãs se virarem para resolverem seus problemas sozinhas e começou a freqüentar a vida noturna. Todas as mulheres que conheceu, daí para frente, eram absolutamente normais. Ele nunca mais teve notícias de Sabrina ou de qualquer outra criatura sobrenatural como ela.

 

----xxxx----


O problema de Giuliano não era apenas a má aparência: ele era um fracassado, um solitário e alguém totalmente sem perspectivas na vida. Entrara naquele bar de beira de estrada com o único propósito de se embebedar, para ganhar coragem para se jogar no lago da represa da hidrelétrica. Ninguém iria sentir mesmo falta dele: não tinha parentes, seu casamento fracassara e, depois de pagar todas as dívidas de sua última tentativa de se tornar empresário, ele estava falido.

 

Por isso achou tão estranho aquela linda mulher de cabelos negros e pele tão pálida estar olhando para ele com tanto interesse...

 

 

----FIM----

 

 

Créditos da Ilustração: Codi Grifiti via photo pin cc

Com uma das mãos, Sabrina levantou a cabeça do rapaz, expondo seu pescoço. E de sua boca, uma gosma incolor começou a escorrer, em abundância, e ela derramou esta gosma por sobre o pescoço do sujeito. Com a longa unha do indicador da outra mão, em um gesto rápido e preciso, rasgou a pele e cortou a jugular de sua vítima. O sangue, que em condições normais espirraria longe, foi segurado pela gosma extremamente viscosa, passando apenas a escorrer sobre o peito do desconhecido. Ela então se debruçou sobre ele e começou a sorver aquele sangue em goles generosos, como quem saboreia com calma uma deliciosa taça de vinho.

 

Com o corpo paralisado pelo medo, assim como a vítima dentro do porão, Nílson assistia a tudo com o cérebro funcionando em desesperada batalha pela sanidade.

 

De repente, Sabrina se levantou, caminhou até um ponto onde a escuridão não permitia mais a Nílson ver o que ela estava fazendo. O desconhecido levantou-se, caminhou em direção a porta em seu passo agora ainda mais cambaleante e ganhou a rua. Foi nessa hora que ficou claro o que acontecera: assim como para aquele estranho, ela também sugara o sangue de Nílson e o deixara partir, para cair morto em algum canto qualquer da cidade, longe do esconderijo. No caso dele, alguma coisa deve ter dado errado, e ele caíra por ali mesmo e fora resgatado. Agora, por mais absurda que fosse a verdade, tudo passava a fazer sentido.

 

Sua vingança, antes motivada apenas pelo desejo pessoal de desforra da mulher que o humilhara e destruíra sua vida, agora ganhava um significado maior: uma criatura monstruosa estava a solta, se beneficiando da descrença do mundo moderno para destruir vidas e se alimentar de seres humanos. Ficava claro para ele que o dinheiro devia ser o que menos importava ao monstro que ele descobrira escondido naquele porão. Ela só deveria roubar o dinheiro de suas vítimas para cuidar dos detalhes mundanos de seu disfarce. O que lhe interessava de verdade era muito claro: sangue.

 

Nílson não estava se importando naquele momento se a criatura era um ser alienígena perdido no planeta Terra ou um demônio das profundezas do inferno. Era preciso destruí-lo, imediatamente, antes que fizesse novas vítimas.

 

Seria o revólver em seu bolso capaz de destruir uma criatura como aquela? Será que ele precisava de balas de prata? E onde arrumar tal coisa numa hora daquelas? Tinha apenas uma coisa a seu favor: aquele prédio era uma tecelagem, e tecelagens tendem a pegar fogo muito fácil. Especialmente as clandestinas, que não cuidam de manutenção.

 

Se fosse um filme de terror, ele iria entrar e enfrentar a criatura, mas este não era o caso. Ele não iria fazer uma imbecilidade daquelas. Pelas explorações que fizera no bairro ao planejar sua vingança, sabia que algumas quadras abaixo, na avenida principal, havia um hipermercado 24 horas, no qual também havia um posto de gasolina.

 

Jogou seu revólver e as balas dentro de uma das lixeiras, não queria correr o risco de ser parado pela polícia e ser detido por porte ilegal de armas. Procurou atravessar a distância entre o covil da criatura e o posto de gasolina da maneira mais discreta possível, rezando muito para não ser assaltado, rezando ainda mais para que aquela coisa não o seguisse.

 

Comprou um pacote de estopa e dois galões plásticos no supermercado, que pediu para encherem de gasolina no posto, alegando que seu carro o deixara na mão, sem combustível. O frentista, antes de ele partir, ainda aconselhou - "Tome cuidado, moço, que a vizinhança é perigosa!". Nílson só pode pensar que o frentista não tinha idéia do tamanho e muito menos do tipo de perigo que existia naquele lugar.

 

De volta ao beco, derramou a gasolina de um dos galões sobre os degraus e a porta de entrada do porão. Tinha medo, pois a criatura poderia sentir o forte cheiro da gasolina e fugir ou, pior ainda, sair e dar cabo dele. Não teria a mesma sorte duas vezes, com certeza. Corria ainda o risco de alguém no puteiro visse o que estava fazendo e chamasse a polícia.

 

Sabrina, ou o que diabo fosse aquilo, não se manifestou. No puteiro, a música continuava alta e animada e, no porão, o silêncio continuava absoluto. Utilizando a estopa que comprara no supermercado, Nílson fez do segundo galão um imenso coquetel molotov. Acendeu o pavio e atirou o galão contra a janela por onde vira aquelas cenas tão hediondas.

 

O galão estilhaçou os vidros da janela e seu efeito se fez sentir rapidamente. As chamas tomaram conta do pequeno porão e, em instantes, houve uma grande explosão lá dentro. As chamas subiram rápido para o andar de cima e começaram a tomar conta do prédio.

 

A rua logo ficou cheia de curiosos e Nílson tratou de se misturar a eles o mais rápido possível. Gritos desesperados vinham de dentro da tecelagem: eram os trabalhadores semi-escravos. O prédio estava trancado por fora. Quando os bombeiros chegaram, tiveram de usar de machados para abrir as portas.

 

Nílson observava todos os que saíam da tecelagem, por seus próprios pés ou resgatados pelos bombeiros. Nenhuma das vítimas sequer se parecia com Sabrina. Ele permaneceu lá até o fogo se extinguir, no meio da tarde. Não viu nada que indicasse que o monstro pudesse ter sobrevivido ao incêndio. O acontecimento teve ainda um efeito colateral muito útil: com a exposição da situação dos bolivianos na imprensa, o empresário que os escravizava foi preso. O incêndio ajudara a destruir outro tipo de monstro.

 

Nos dias seguintes, Nílson pesquisou tudo que pode sobre o fato. Fingindo-se de parente de uma desaparecida, foi aos hospitais da região e não localizou nenhuma vítima do incêndio cuja descrição batesse com a de Sabrina. Entre médicos, policiais e bombeiros, não achou ninguém que tivesse sequer noção de que havia uma moça como aquela morando naquele porão. Entre os corpos das vítimas fatais, todos foram identificados e nenhum era dela.

 

Deu um jeito de visitar o empresário dono do prédio na cadeia onde estava detido. Alugara o porão para a tal mulher, onde ela armazenava um monte de caixas, mas não sabia e não acreditava que ela estivesse morando lá. Achou ridículo, até. Por que uma mulher tão bonita iria morar num porão nojento daqueles? Ela sempre pagara o aluguel em dia e, se desconfiava das atividades ilegais da tecelagem, não se manifestara. Aliás, todo o arranjo do aluguel fora feito por telefone, ele só a vira no dia de assinar o contrato. Depois disso, só se lembrava dela quando conferia o extrato e via o depósito feito em sua conta.

 

Nílson retomou então sua vida. Ter sido capaz de vencer uma força sobrenatural daquelas desenvolveu muito sua auto estima. Arranjou um novo emprego, mandou as irmãs se virarem para resolverem seus problemas sozinhas e começou a frequentar a vida noturna. Todas as mulheres que conheceu, daí para frente, eram absolutamente normais. Ele nunca mais teve notícias de Sabrina ou de qualquer outra criatura sobrenatural como ela.

 

 

 



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