Trens de Brinquedo

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Tenho brinquedos de um tipo que você nunca viu

Feitos pelo homem e um pouquinho obscenos

Venha, meu anjinho, sente aqui no meu colo...

(Ozzy Osbourne – Mr. Tinker Train)

 

 

trens-de-brinquedo-lqEu não tenho a menor idéia se isto vai funcionar. Falei mais de mil vezes para o meu terapeuta: eu não gosto nem um pouco da idéia de pôr essa merda toda no papel, mas ele me diz que, ou eu dou um jeito de colocar tudo isso para fora ou vou acabar explodindo.

Bom, como já são duas e meia da manhã de mais uma noite não dormida, meus olhos já ardendo pela falta de sono vão ter de arder mais por conta da tela do computador. Seja o que Deus quiser, ainda que minha fé – que já não era grande coisa – tenha ficado ainda mais abalada depois de toda essa loucura dos últimos dias.

Eu sempre fui um crianção. Como todo bom nerd, uma parte de mim nunca cresceu: eu sempre curti desenhos animados, adoro videogames, seriados de terror e ficção científica. Minhas imitações do Leão da Montanha e do Vira-Lata são hilariantes. E, se alguém realmente chegar a ler este texto, que vá se foder com qualquer julgamento idiota sobre o que gosto ou deixo de gostar: eu AMO DE PAIXÃO esse meu lado criança e foi ele que me protegeu esses anos todos contra a insanidade deste mundo. Acho que também foi por isso que tudo me afetou tanto.

Quando descobri a tal loja de modelismo, eu fiquei eufórico. Enquanto não chegou o sábado de manhã, eu fiquei parecendo um disco de vinil riscado. Coitada da minha mulher, ela é uma santa: passei a semana toda falando disso, voltava no assunto de cinco em cinco minutos.

Acordamos cedo naquela manhã. Deixei minha mulher e nossa filha na casa de minha sogra, e lá fui eu, lutando para não deixar minha ansiedade ultrapassar o limite de velocidade: tudo que eu não precisava era de mais uma multa.

Apesar de ter visto que a loja só abriria às nove horas, mais um ponto para a minha ansiedade: eram oito e meia e eu já estava lá. Fui procurar um lugar mais discreto para estacionar o carro, não queria ficar parecendo algum abestado que não consegue se controlar feito uma criança – embora reconheça que este era exatamente o caso.

Ao contornar o quarteirão, percebi uma pequena viela que ia ser perfeita para estacionar. O carro ia ficar suficientemente bem escondido para que eu não precisasse dar gorjeta pra nenhum maldito flanelinha e não iria atrapalhar nada se algum morador quisesse sair com seu carro. O único cuidado que eu precisaria ter era estacionar depois de uma caçamba onde os moradores da viela descarregavam suas latas de lixo. Não queria que nenhum caminhão de lixo batesse no meu carro. Já tinha gastado uma fortuna em funilaria depois da última vez que minha mulher... ah, deixa pra lá. Tô viajando. Deve ser a falta de sono. Acho que já vou pro terceiro mês seguido sem saber o que é dormir bem por uma noite.

Mas foi o lugar que escolhi pra estacionar que me permitiu ver o que, de outra forma, eu não perceberia. Tive de esperar um ônibus sair do ponto para poder entrar na tal viela, e nisso eu vi o sujeito saindo do portão que fechava o acesso à viela, carregando um monte de sacolas de supermercado, cheias de lixo, que ele começou a jogar para dentro da caçamba. Uma delas, acidentalmente, bateu na lateral da caçamba, caindo na calçada e rasgou-se, revelando um monte de roupas de criança. Me chamou a atenção pelo fato de que, entre aquelas roupas, havia uma camiseta com um desenho do Snoopy igualzinha a que eu havia dado para minha filha no último Natal.

Ele correu e juntou tudo na maior pressa, colocando tudo rápido na sacola, amarrando-a como se fosse uma trouxa e, desta vez, foi mais cuidadoso em colocá-la na caçamba. Fiquei admirado com o gesto: normalmente as pessoas nem ligam para o lixo se ele cai no chão.

Parei o carro e segui para a loja. Não era muito grande, mas tinha um vitrine bastante caprichada, onde se viam vários trens de brinquedo montados, com um arranjo impecável, cheios de maquetes em isopor de montanhas, espelhinhos simulando lagos. Árvores, gramados, tudo que foi possível fazer para dar uma bela aparência e destacar os trenzinhos havia sido feito. Não pude deixar de admirar a o cuidado, a paciência e, principalmente, o belo resultado que havia sido obtido na montagem daquela vitrine. Eu poderia passar horas olhando para ela, ainda mais se me deixassem ficar lá, brincando com os trens.

Fui tomar um café numa padaria do outro lado da rua, enquanto aguardava a loja abrir. Eu meio que esperava que Papai Noel aparecesse pra abrir a loja, mas o sujeito que abriu as portas – o mesmo que eu vira jogando o lixo na caçamba um pouco antes – era a criatura mais normal do mundo: ele deveria ter uns cinquenta e poucos anos, tinha uma aparência muito bem cuidada. Tinha os cabelos pretos, com um pouco mais de cabelos brancos que eu. Vestia uma camisa pólo cinza, calça jeans, uma jaqueta tipo aviador e botas de trekking da Catterpillar. Um estilo muito parecido com o meu mesmo. Simpatizei com o cara logo de início.

Terminei meu café e fui para a loja. Ao entrar, fui recebido por um cheiro enjoativo de incenso. Acho isso um porre, me embrulha o estômago, mas eu estava tão ansioso pra ver se encontrava um SR-71 Blackbird (na minha opinião, o avião mais bonito que a humanidade foi capaz de criar), que até esqueci do assunto.

Não demorei a encontrar o que procurava numa prateleira: por cento e quinze reais, eu teria umas boas horas de diversão e de reclamação da minha amada esposa e minha não menos amada filha por ligar mais para os meus brinquedos de criança do que para elas.

Quando me dirigi ao balcão com a caixa para fechar a compra, fui muito bem recebido pelo proprietário. Ficamos quase um hora conversando sobre modelos, seriados, desenhos animados e, claro, eu me desmanchei em elogios pela loja. Acho que teria ficado um dia inteiro conversando com ele, mas começaram a chegar mais clientes, ele tinha de trabalhar e eu também estava ansioso por voltar pra casa e pôr mãos à obra na montagem do Blackbird. Como éramos os dois entusiastas de muitos assuntos em comum, eu propus trocamos e-mails, no que ele concordou prontamente.

Íamos anotar nossos e-mails no verso de cartões da própria loja, mas nem ele, nem eu tínhamos uma caneta ou lápis disponível. Ele pediu licença e entrou por uma porta que percebi que dava acesso da loja para a residência. Não pude deixar de perceber uma parede cheia de retratos de crianças. Reparei que, em todas as fotos, as crianças estavam brincando, mas com um olhar triste. Aquilo me incomodou um pouco, mas não pensei muito no assunto. Ele logo voltou trazendo uma caneta e, uns cinco minutos depois, eu já estava no meu carro, voltando para a casa.

Passei o dia debruçado sobre o SR-71 Blackbird e nem lembrei de comer alguma coisa. Quando minha mulher e minha filha chegaram, a primeira coisa que fizeram foi me expulsar da mesa e me obrigar a tomar um banho para jantarmos juntos.

Demorei no banho e dei azar: quando voltei, minha esposa já havia tomado conta do controle remoto da televisão e sintonizado um daqueles telejornais estilo mundo cão que ela e minha sogra tanto gostam. Na telinha, um apresentador gordo e histérico berrava que as autoridades estavam deixando nossas crianças à mercê de maníacos, que mais uma criança havia desaparecido de maneira misteriosa e sem deixar pistas. A imagem do apresentador foi substituída pela foto de uma garotinha negra, com um sorriso alegre, olhos enormes e felizes... e uma camiseta com um desenho do Snoopy, igualzinha à que eu dera para a minha filha no Natal.

Falando assim, hoje, tudo pode parecer o óbvio mais ululante do mundo, mas na época eu não somei dois mais dois.

Nesse meio tempo, fui trocando e-mails com o cara. Adicionei-o no MSN e no Facebook. Trocávamos altas figurinhas sobre filmes, modelismo, seriados, nossos papos de nerd. Apresentei-o pra alguns amigos, ele veio jantar em casa umas tantas vezes. Virou aquele hiper-ultra-mega-master brother de todas as horas.

Minha esposa adorou o cara. Minha filha idem. Ela até lhe deu o apelido de Tio Trenzinho, depois de eu tê-la levado para conhecer a loja dele.

Tio Trenzinho... meu Deus...

Aconteceu tudo por acidente. Um amigo meu pegou um vírus, que invadiu sua lista de e-mails, que acabou invadindo a minha máquina e um monte de outras. Na briga para desinfectar minha máquina, aconteceu uma coisa muito peculiar.

Não tenho a menor ideia de como, mas o vírus criou um compartilhamento entre os computadores infectados. E, na minha máquina, eu conseguia ver o conteúdo das memórias das outras máquinas infectadas. E "Tio Trenzinho" tinha sido infectado também.

Eu não ia mexer nos arquivos dos outros, mas vi que tinha uma pasta na máquina dele chamada Modelos. Achei que se tratassem dos modelos Revell que ele revendia, ele devia ter um material muito legal ali. A curiosidade foi mais forte.

Quando abri a pasta, quase caí duro. Eu não podia acreditar: havia uns tantos megabytes de fotos, fotos onde garotinhas, crianças como a minha filha, algumas até mais novas do que ela, posavam vestindo lingeries que eu teria ficado envergonhado de comprar para minha esposa.

Aquilo foi revoltando meu estômago e foi ficando cada vez pior, até que encontrei uma foto onde a mesma garotinha que aparecera no noticiário estava ali, posando como se fosse uma modelo de revista pornô.

Mas foi a última foto da série que me deixou realmente revoltado, sem enxergar nada a minha frente. A foto de um varal, com roupas penduradas. A foto do varal no quintal de minha casa, com as calcinhas de minha filha secando ao sol.

Acho que foi essa foto que desligou o meu bom senso. Eu deveria ter chamado a polícia. Eu tinha provas ali pra condenar o desgraçado à dez penas perpétuas. Mas a única coisa que fiz foi sair de casa, pegar meu carro e sair cantando pneus em direção a loja do Tio Trenzinho.

Eu não tinha um plano, eu não estava conseguindo pensar, minha mão tremia tanto que não consigo hoje imaginar como consegui dirigir.

Ao chegar a loja de Tio Trenzinho, vi alguns canos de ferro jogados na caçamba de lixo e peguei um para me servir de arma. Estupidez? Claro, mas queria ver se fosse SUA filha, ou SEU filho, como você iria ficar.

Toquei a campainha dele, escondendo o cano de ferro atrás de mim.

Estava esperando que ele atendesse com um sorriso, como sempre. Que me perguntasse o que fazia ali aquela hora da noite. E eu ia bater nele com aquele cano até que ele cuspisse o cu pela boca. Mas ele mal abriu a porta e eu só senti uma pontada no peito e um violento choque elétrico.

O desgraçado tinha uma arma de choque. E eu me ferrei.

Acordei com uma baita dor no peito, acompanhada de uma violenta dor de cabeça. Estava amarrado em um porão, sentado em uma velha cadeira. Nas paredes, cópias impressas das fotos que eu vira no computador.

Havia uma cama também ali, onde correntes e algemas estavam presas aos pés e a cabeceira, e a tinta toda arranhada mostrava o claro desespero de quem ficara preso ali.

Olhei a minha volta, em pânico. Precisava fugir dali. Ele podia estar indo atrás de minha família naquele momento. Eu tinha que sair dali. Deus – pensei em desespero – eu preciso sair daqui!

Mas ele não havia saído. A porta abriu, e ele entrou. Seu olhar, habitualmente tão simpático, havia se convertido num olhar frio e distante. Não, isso não o descreve suficientemente bem: o olhar dele não era mais humano.

Ele me dirigia olhares longos, certamente pensando em como iria fazer para se livrar de mim.

Ele saiu mais uma vez, e demorou para voltar. Temi de novo por minha filha. Mas ele voltou, acompanhado de uma menina. Também maquiada como uma prostituta, vestindo uma versão mini daquelas lingeries que não tampam nem os bicos dos seios, nem a região entre as pernas da mulher.

Ela parecia dopada, zonza. Ele devia tê-la drogado. E, pelo que eu estava entendendo, ele iria estuprá-la na minha frente! Eu não podia permitir aquilo.

Ele começou a prendê-la na cama. Meu cérebro desesperado só conseguia pensar sem parar: não, não, não...

Ele começou a fotografar a garota, colocando-a em diversas poses. Meu desespero parecia não conhecer limites.

Ele finalmente disse algo:

_ Agora, diga pra mim que não está apreciando a paisagem... E riu, como se tivesse contado uma piada hilariante.

Não sou um cara forte. Passei a vida toda estudando, nunca fui de atividades físicas. Sou um projetista, não um lutador. Mas talvez isso tenha me salvado.

Eu estava amarrado a uma cadeira plástica, dessas que se usa à beira de piscinas. Por uma grande coincidência do destino, uma cadeira que eu havia projetado, alguns anos antes. Um projeto que não durara muito, por ter uma falha. Com força no ponto certo, a cadeira chegava a rachar no meio. Algumas pessoas haviam se machucado, então tivemos de tirar o produto das lojas.

Comecei a forçar os braços da cadeira para fora. Tio Trenzinho estava tão entretido nas fotos que nem me percebeu. As cordas machucavam meus braços. Quando viu que eu me debatia, que me esforçava para me soltar, ele apenas riu. E uivou. E riu de novo.

Partes de minha pele estavam esfolando, algumas partes já estavam sangrando. A menina chorava baixinho, o desgraçado ria mais ainda.

Fiz mais e mais força. Até que achei o ponto onde havia a falha de injeção do plástico. Uma trinca se abriu. Fiz ainda mais força. A cadeira rachou.

Nesta hora, ele estava de pé sobre a cama, abrindo a braguilha de sua calça. Quando percebeu a quebra da cadeira, desequilibrou-se e caiu ao chão, batendo com a cabeça.

A cadeira rachada no meio tornou-se algo perigoso, pois a borda partida do plástico se tornara cortante. Não tive dúvidas. Me coloquei de pé, e me joguei sobre Tio Trenzinho: a borda cortante do plástico atingiu sua garganta em cheio. O sangue começou a jorrar, enquanto ele se contorcia em espasmos. Estava se afogando no próprio sangue.

Foi um sufoco me soltar dos restos da cadeira. Estava coberto do sangue daquele desgraçado. Subi as escadas, achei um telefone, liguei 190 e não lembro de mais nada. Desmaiei.

Acordei no hospital com minha mulher e minha filha olhando apavoradas para mim.

Abracei minha filha e chorei. Pedi perdão a ela e a minha esposa por ter trazido o diabo para dentro de nossa casa. Não conseguia fazer mais nada a não ser chorar. Precisei de um sedativo para conseguir dormir.

E desde então não tenho conseguido dormir mais. Perdi as contas de quantas vezes passei a noite acordado, do lado de fora do quarto de minha filha, temendo que um outro monstro se aproxime dela, um novo Tio Trenzinho.

Pelas fotos, a polícia estima que ele tenha feito pelo menos sessenta vítimas. Na casa, estavam escondidos os corpos de dezessete delas. Por isso o cheiro constante do incenso na loja. Para disfarçar o odor que eventualmente escapasse dos corpos em decomposição.

A família da vítima que eu salvei me idolatra como se eu fosse um herói. Não consigo me ver como um.

Não consigo mais dormir, não consigo mais confiar em ninguém. Não consigo nem mais confiar em mim mesmo. Me identifiquei tanto com esse desgraçado, com todas as coisas que temos em comum, a forma como nos tornamos tão amigos, nossa admiração por modelismo. Meu terapeuta me falou tantas vezes que ele procurava crianças porque, para ele, elas eram um modelo de mulher, que ele jamais conseguiria ter. Olho para o modelo do meu SR-71 Blackbird, que eu nunca vou poder ter e sinto medo de mim mesmo.

Não consigo mais me divertir com meus modelos e com meus trens de brinquedo.

 

 

FIM

 

Crédito da foto: montagem sobre foto de guzzphoto via photopin cc



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Comentários   

0 # cintia 30-11--0001 00:00
De onde menos se espera..é que surgem as surpresas..os psicopatas..são os mais normais possíveis..agem com naturalidade..e ducados..atenci osos..mas no final..são frios..calculis tas..
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0 # Edson Tomaz da Silva 30-11--0001 00:00
Pois é, Cíntia. A gente nunca sabe o que se passa na mente das pessoas a nossa volta.

O que mais me apavora é a quantidade enorme de histórias reais, parecidas com esta, que a mídia nos apresenta. Como pai, isso me apavora.

No mais, obrigado pelo comentário.

Um BIG abraço e bons pesadelos.
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