Bruxaria

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bruxaria

Alexandre era conhecido na empresa por dois motivos: o primeiro, por ser um sujeito muito criativo. Apesar de sua pouca instrução, gostava tanto de fuçar nas prensas que as conhecia melhor do que muito engenheiro de manutenção por aí e bolava mil maneiras de fazê-las funcionar melhor, produzir mais.  Talvez não lhe dessem muita atenção numa empresa grande, mas numa empresa média como aquela, ele acabou conquistando seu espaço.

 

A outra coisa que fazia o Alexandre famoso entre a turma era o medo que ele tinha da esposa. Quando solteiro, adorava descer pro grêmio, tomar umas cervejinhas, jogar sinuca e baralho com os colegas. Depois que conheceu Esmeralda, o homem mudou de um jeito que ninguém conseguia entender. Ele continuava um camarada de sorriso fácil, falante e engraçado. Mas não tocasse no assunto “esposa” perto dele: o homem travava.

 

Quando tocava o sinal para saída às cinco da tarde, o sujeito voava para o estacionamento; não estava mais nem tomando banho no vestiário da empresa, ia direto pro carro e tinha vez que chegava a cantar pneu na saída.

 

A galera dava risada. Se com menos de um ano de casado ele estava assim, imagina quando fizesse bodas de ouro! Alguns apostavam que esse medo todo tinha a ver com o fato de que Esmeralda era uma mulher muito bonita. Como diziam as más línguas, bonita demais para um sujeito como o Alexandre, que de bonito não tinha nada. O que aquele mulherão tinha visto nele? Se fosse rico, diziam alguns, ainda se explicava. Mas o sujeito era pobre-pobre-pobre de marré-marré-marré. Não tinha explicação. Por isso, achavam que ele fazia tudo que ela queria com medo de perder um mulherão lindo daqueles.

 

O fato é que, depois de Esmeralda, a sorte de Alexandre tinha começado a melhorar. Se antes o chefe só se pendurava na habilidade que nosso amigo tinha para “ressuscitar” as velhas prensas quando elas pifavam, ele finalmente tinha recebido a promoção merecida, ia oficialmente ser responsável pela manutenção. A peãozada comentava até que tinha rolado um aumento polpudo, mas Alexandre desconversava nessa hora. Medo de olho gordo, com certeza.

 

Pois foi no meio de toda essa bonança que a notícia caiu sobre a peãozada feito uma bomba: Alexandre anunciou que ia se separar de Esmeralda. Não deu satisfação, não comentou motivo, só avisou. Saíra de casa, alugara um quarto numa pensão perto da fábrica e ia seguir com a sua vida. Tirou até a aliança.

 

Os amigos até ficaram felizes por ele. Homem ficar se arriando com medo de mulher daquele jeito, ficava até feio.

 

Mas antes de chegar a um mês de separação, aconteceu uma coisa estranha...

 

Seu Firmino, um velhinho aposentado que fazia às vezes de faxineiro e zelador na empresa, foi quem viu o acontecido. Tinha saído para tomar uma pinga com uns amigos e na volta  viu uma mulher parada em frente ao muro, nos fundos da fábrica.

 

O que lhe chamou atenção sobre a tal mulher foi que ela era bonita e bem arrumada, e que estava com um monte de coisas nas mãos. Antes que ela o percebesse, Firmino se escondeu atrás de uma árvore e ficou espionando.

 

Sem notar que era vigiada, a mulher colocou  os vários objetos que trazia na calçada e começou a organizá-los. Firmino disse que ela tinha muitas velas grossas, dessas de sete dias, que espalhou sobre um pano branco. Ele disse que tinha algumas coisas desenhadas no pano, mas não sabia dizer o que era.

 

Além das velas, a mulher ajeitou um boneco de plástico sobre o pano,  tomando muito cuidado para deixá-lo bem centralizado.

 

Em seguida, a mulher abriu uma sacola e tirou de lá de dentro um enorme sapo. Firmino achou o sapo nojento só de olhar, ficou admirado que a mulher tivesse coragem de pegá-lo assim, de mãos nuas. Mas ficou mais impressionado ainda quando, sem demonstrar absolutamente nenhuma emoção, ela empunhou uma faca e rasgou a barriga do sapo, fazendo seu sangue escorrer sobre o boneco.

 

Firmino até ali estava apenas achando que a mulher devia ser uma dessas malucas e ingênuas que acreditam em qualquer picareta de plantão que se finge de guia espiritual.  Escutam um monte de bobagem e saem fazendo tudo que é presepada que os safados inventam para tomar a grana delas. Tem muita grã-fina que faz isso e ainda indica para as amigas irem lá depois.

 

Só que naquela hora em que a mulher rasgou a barriga do sapo, Firmino sentiu foi medo. Não medo como quando a gente tem que atravessar uma rua mal iluminada; não medo como medo de altura, medo de avião, ou medo de cena de filme de terror. Nada disso.

 

Firmino sentiu foi MEDO. Assim, com todas as letras maiúsculas. Firmino sentiu pavor. Ele sentiu naquela hora que um mal tão forte fora acionado ali, naquela hora, que poderia não apenas atingir seu corpo, mas rasgar sua alma em pedaços. Para sua sorte, o medo que sentiu o paralisou completamente. Por isso a mulher jamais percebeu sua presença ali.

 

Quando o sangue do sapo parou de escorrer sobre o boneco de plástico, a mulher o atirou longe sem a menor cerimônia. Fez um movimento preciso com a faca e cortou  um pedaço do boneco. Firmino, de onde estava, não soube dizer que parte do boneco ela atingira, só viu o fragmento pulando longe.

 

A mulher levantou-se, enrolou a faca que usara numa sacola plástica e guardou-a na bolsa. Saiu andando apressada e virou a esquina. Alguns minutos depois, Firmino ouviu um carro sendo ligado e indo embora. Só quando deixou de ouvir o barulho do carro foi que o velhinho teve coragem de se mexer outra vez. Saiu no passo mais apressado que pôde. Queria sair dali o quanto antes.

 

Firmino não era besta nem nada. Não falou o que viu para ninguém. Com certeza, além de não acreditarem nele, iam dizer que estava ficando gagá.

 

No dia seguinte, na hora de bater o cartão, Firmino passou por Alexandre no corredor que ia do vestiário masculino ao refeitório. Trocaram um bom-dia rápido, e Firmino sentiu uma tristeza inexplicável nessa hora.

 

Sem saber dos pensamentos e sentimentos que atormentavam o velho colega de fábrica, Alexandre passou direto pelo refeitório, não fez questão de café da manhã. Tinha uma prensa grande parada que precisava ser posta para funcionar antes da hora do almoço, sob pena de atrasar um pedido de um cliente muito importante.

 

Sacando uma chave da caixa de ferramentas, desatarraxou os parafusos da grade de proteção. Em seguida, num gesto por demais absurdo, tomou um rolo de fita adesiva e travou os botões de segurança da prensa. Ligou a chave geral e a prensa começou a bater.

 

Acostumados a ver Alexandre ajustando e consertando prensas todos os dias, ninguém deu atenção até que foi tarde demais: como se fosse a coisa mais natural do mundo, Alexandre enfiou o braço esquerdo para dentro da prensa. Imediatamente, sua mão foi esmagada pela pancada da ferramenta. Sem se deter, continuou enfiando o braço para dentro da ferramenta. Apesar da dor lancinante, não gritava, sua face não se alterava, não demonstrava absolutamente nenhuma dor. Continuou enfiando o braço para dentro da prensa o quanto pôde, até que um colega correu e desligou a chave geral.

 

A ferramenta se abriu e Alexandre caiu para trás. O sangue jorrava do cotoco que sobrara de seu braço esmigalhado. Os colegas ainda tentaram socorrê-lo, mas foi inútil. Não deu nem tempo de chegar à enfermaria da empresa. Morreu no caminho, por causa da perda de sangue.

 

Muita gente correu para o setor de Estamparia para ver o que tinha acontecido. Quando a notícia do acidente chegou até Seu Firmino, ele correu para o lado contrário. Saiu pela portaria numa desabalada carreira e contornou o terreno até chegar ao muro nos fundos da fábrica.

 

Na calçada, sobre o pano branco manchado de sangue, lá estava o boneco, com o braço esquerdo cortado.

 

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Um mês depois do acidente, Firmino estava limpando o posto bancário quando viu a gerente conversando com alguém que lhe pareceu familiar. Ao olhar discretamente por sobre a divisória, viu a mesma mulher que fizera o estranho ritual na noite anterior ao acidente. Era Esmeralda, a agora viúva de Alexandre. Estava ali para receber a apólice do seguro.

 

Indignado, mas sem poder fazer nada, Firmino viu a mulher ir embora. Ela não esboçava nenhuma tristeza pelo acontecido. Apenas pegou o dinheiro e partiu.

 

Firmino lamentou pela má sorte do amigo. Se pudesse, levantaria a voz e testemunharia, apesar do medo, sobre o que realmente causara a sua morte. Mas hoje em dia, nenhum tribunal iria condenar alguém por bruxaria.

 

 

----FIM----



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Comentários   

0 # yasmim 20-09-2014 20:34
Muito bom otimo conto ;-)
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