Que Os Mortos Enterrem Seus Mortos - Parte I

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Armando era um necrófilo. Que mais se poderia dizer? Apenas que ele era uma das poucas pessoas que se sentiam felizes desde que o Apocalipse Zumbi havia começado.

Desde que a civilização entrara em colapso, sua vida havia mudado para melhor, muito melhor. Livre das amarras da moral vigente, ele se sentia leve, em paz consigo mesmo. Apesar das imensas dificuldades de se viver num mundo selvagem, às vezes Armando se pegava sorrindo.

Para Armando, haviam acabado as vergonhosas situações de perambular por necrotérios, hospitais e funerárias, gastando vultuosas somas para ter acesso aos corpos frescos de mulheres e somas ainda maiores para que esses funcionários se mantivessem em silêncio. Temia demais que um deles o entregasse. Não sabia muito bem que tipo de problemas poderia ter com a Justiça, mas sempre soube que as pessoas, as mesmas que o ignoravam como se ele fosse invisível, colocariam os holofotes sobre ele, julgá-lo, condená-lo e, obviamente, executá-lo.

Mas tudo mudara desde que uma série de atentados haviam acontecido em várias capitais da Europa. Esporos de um vírus letal haviam sido espalhados em túneis de ventilação do metrô e, mas quarenta e oito horas seguintes, o horror se espalhava sem controle, como num filme de George Romero. Os mortos pelo vírus voltavam à vida, aqueles que eram mordidos por eles também se tornavam zumbis e a praga se espalhava em progressão geométrica.

Como tudo no mundo civilizado, a praga também demorou a chegar na cidadezinha interiorana onde Armando morava. Demorou, mas chegou.

Armando era um sujeito esperto e viu que aquela era a sua chance de mudar de vida. Aproveitando-se do caos reinante, roubou armas na pequena delegacia da cidade e depois em uma base do exército que ficava em uma cidade vizinha.

Bem armado, tomou conta do hospital da cidade, onde teve bastante trabalho, pois o local havia concentrado todos os doentes da região, tornando-se um enorme depósito de zumbis. Mas, uma vez que estava saneado, ele converteu o pequeno prédio de três andares, formato de L, em sua fortaleza, seu lar e – por que não dizer – em seu ninho de amor.

A diversão de Armando se constituía em sair pela região caçando sobreviventes. Ele agora podia escolher, não precisava aceitar o que a sorte lhe oferecesse. Nas multidões que agora vagavam pelas estradas do interior, fugindo da epidemia nas grandes cidades, ele escolhia sua nova companheira, a atraía com promessas de abrigo e comida e as conduzia ao hospital.

Lá, as que viessem sozinhas seriam drogadas, teriam uma pequena dose de sangue infectado injetada em suas veias e seriam colocadas para conservação nas geladeiras do necrotério do hospital. Já as que trouxessem alguma companhia masculina consigo, também teriam o mesmo destino das outras, mas seus companheiros seriam jogados num fosso, onde Armando mantinha ao menos dois zumbis de prontidão. Num mundo sem TV, rádio ou internet, poder ver uma luta de humanos contra zumbis era a única diversão que lhe restara, fora sua “suíte nupcial”, que era como se referia ao necrotério do hospital.

No necrotério, Armando escolhia uma de suas “belas adormecidas” e a descongelava, tomando o cuidado de prendê-las com grossas correntes que adaptara em uma cadeira de ginecologista. Colocava sempre umas duas camisinhas – obrigado, Estado, por manter tantas em estoque nos hospitais – e, com lubrificante em abundância, lá ia Armando curtir sua noite de amor.

Quando saíam do frio das geladeiras para a temperatura ambiente, suas amantes retomavam a mobilidade e se tornavam frenéticas. Claro que esse agito todo era pela vontade de devorarem Armando, mas ele podia se dar ao luxo de acreditar que era consequência de seu “charme irresistível”.

Assim que se sentia satisfeito, Armando utilizava o termostato do necrotério para baixar a temperatura novamente, até que sua zumbi voltasse à hibernação. E lá voltava ela para o seu gavetão, no harém de Armando.

Quando os sucessivos aquecimentos e resfriamentos levavam a zumbi a decomposição, Armando a jogava no fosso. Uma certa superlotação fazia o entretenimento ficar mais interessante: os zumbis passavam a lutar entre si quando um ser humano vivo era jogado no fosso e não era suficiente para alimentar a todos.

Mas Armando estava começando a ter problemas. Precisava ir cada vez mais longe para conseguir o combustível que mantinha os geradores de emergência do hospital funcionando. E ir mais longe implicava sempre em maiores riscos: mas sobreviventes e zumbis para enfrentar e, principalmente, o risco de encontrar alguém tomando conta do hospital na volta, humanos ou zumbis. E era um problema que teria de enfrentar em breve. Os estoques estavam ficando baixos.

Mas a Mãe Natureza não se preocupa com as vontades do homem, seja ele necrófilo ou não. Os dias daquele verão estavam cada vez mais quentes, seguidos de tempestades fortes no fim do dia. Sem manutenção já de muito antes do tempo dos zumbis, as estradas de acesso à pequena cidade se transformaram em lama pura. Todas as tentativas de Armando de sair da cidade resultaram em fracasso. Ele precisaria revirar a cidade em busca de um veículo com tração nas quatro rodas.

No final daquela tarde, Armando estava jantando quando viu no monitor que dois jipes pararam em frente ao hospital. No grupo que desceu deles, Armando contou dois homens e duas mulheres.

– Ora, ora, ora. Parece que a sorte não me abandonou completamente.

E desceu para recepcionar seus visitantes.

 

 

Continua…

 

 

photo credit: Rocky X via photopin cc



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Comentários   

0 # J. Athayde Paula 22-05-2014 18:26
Quando digo tema, refiro-me aos zumbis. O viés de necrofilia foi uma grande sacada.
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0 # J. Athayde Paula 22-05-2014 17:40
Muito legal, Edson. Sua linguagem é clara e concisa e a imaginação flui leve e solta num tema que exige malabarismos criativos por causa da exaustiva exploração. Aguardo novos capítulos. Um abraço.
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